sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vai e Vem

O dia começava cedo e o calor  já se fazia sentir. Era Verão, não se podia esperar outra coisa, mas falar da temperatura é uma coisa comum. Se está calor, mesmo nos meses em que é suposto assim ser, há sempre uma referência ao ar que sufoca e ao sol que queima.

Mas naqueles dias não havia calor que assustasse. Era o tempo dele e o destino era a praia.

 Juntavam-se todos no ponto de encontro à espera. Novos e mais velhos, crianças e avós. Cestas cheias de toalhas e protectores solares. A geleira com o almoço, o lanche e mais qualquer coisa para confortar o estômago. Os sacos com os brinquedos essenciais que muitas vezes voltavam para casa com menos um pá que tinha ficado enterrada na areia. Pequenos problemas na vida dos mais novos que pouco se preocupavam com eles, nada conseguia perturbar aqueles dias de mar e areia. Tanta areia que quando chegavam a casa parecia que a praia tinha vindo com eles.

O autocarro chegava, o ponto de encontro ficava vazio. Começava a viagem que parecia sempre mais longa do que a realidade. A vontade era chegar o mais depressa possível.

Havia dias em que o tempo trocava as volta aos visitantes. O calor da partida transformava-se em nuvens à escada e, de vez em quando, uma chuva ameaçava o dia. Os mais velhos vestiam uns casacos aos mais novos que, mesmo com a chuva a cair, ficavam pela areia a construir castelos e tartarugas de areia.

Mas ao meio-dia, o sol voltava. Os toldos protegiam do calor, a água gelada pedia banhos demorados e mergulhos dignos dos jogos olímpicos e o lanche ficava mais para mais tarde. Todos eram amigos, todos partilhavam brinquedos e histórias. Os que tinham feito a viagem juntos e os amigos que se faziam com a barraca ao lado.

Os dias eram aproveitados ao segundo. Com gritaria, risos, jogos de futebol improvisados e sestas dentro da barraca. O tempo passava sempre rápido de mais e quando ainda parecia que estava a começar, já o sol começava a desaparecer.

- Já está na hora?

Já estava. O autocarro esperava para fazer o caminho de volta, os mais novos adormeciam nos bancos porque a viagem era longa e os mais velhos pensavam no que tinham de preparar para o dia seguinte. Mais sacos para arranjar, mais uma viagem para fazer. 

Com alguma sorte, o sol começava a espreitar logo de manhã.
                 


terça-feira, 19 de julho de 2016

A anunciar a Primavera

Anunciam a Primavera. Ainda antes do tempo aquecer já se ouve o piar fininho a anunciar a sua chegada.

Lembro-me, em tempos que já não sei bem quando foram, dos beirados das casas enfeitados com folhas arrancadas às páginas amarelas. Um ar carnavalesco que, com o passar dos dias, se transformava em abandono.

As andorinhas fugiam para outros telhados menos protegidos.

As paredes continuavam imaculadamente brancas. Sem manchas castanhas, sem ninhos escondidos.

Continuava a ouvir-e o piar a anunciar dias quentes. As sombras pretas iam aparecendo por aqui e por ali e, todos os anos, voltavam. Sem excepção.

Os primeiros dias quentes. O primeiro piar. 

As páginas amarelas rasgadas.

Voltava o Carnaval aos telhados da aldeia e, mesmo assim, as andorinhas insistiam em encontrar o seu espaço.

Todos os anos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Para todo o serviço

Às vezes ainda nem tinham metro e meio de altura. Pequeninas e miudinhas, lá entravam elas na casa dos senhores de trouxa na mão.

Eram novas. Dez, onze anos, se tanto. Deixavam a casa dos pais, onde os filhos faziam mais falta a trabalhar do que a estudar, e entravam em casa dos patrões. Uma casa maior do que a que estavam habituadas e onde tinham tantos deveres que lhes perdiam a conta. 

Miúdas franzinas transformadas em criadas de servir. Muitas delas nem conheciam os bancos da escola, trabalhavam desde sempre. 

Aprendiam a regatear na praça, quando a senhora confiava o suficiente nelas para as mandar às compras. Lá iam, de cesta à cabeça e pés descalços, não importava se chovia ou fazia sol. Enceravam o chão. De joelhos. Cozinhavam os melhores manjares que sabiam. Comiam o que encontravam. 

Vestiam o traje de gala sempre que o jantar assim obrigava. A farda preta impunha o peso da idade que elas ainda não tinham. No avental branco não havia um único vinco e acentuava a cintura fina. Serviam os senhores e os convidados, carregavam com jarros de prata de peso insuportável e nunca perdiam a compostura. Eram para todo o serviço, fosse ele qual fosse. 

Dormiam depois de todos já estarem deitados. Quando já tinham deixado o fogão a brilhar, quando a casa cheirava a limpeza e não havia nada fora do sítio devido. 

Já os patrões dormiam o terceiro sono quando elas subiam as escadas até ao sótão para descansar. Acordavam quando a casa ainda estava em silêncio para preparar mais um dia. Os mesmos deveres à sua espera. 

Passavam os dias iguais sem que dessem por isso. Esperavam que chegasse o domingo e que não houvesse surpresas. Se corresse tudo como era suposto, tinham a tarde toda só para si.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

De pequenino

A pobreza é uma coisa que já se dá por garantida. Poucos são aqueles que têm mais do que o mínimo para sobreviver e a maior parte trabalha de sol a sol para comprar farinha para cozer pão. 

Os filhos aparecem quando Deus assim entende e o pouco que há estica mais um bocadinho. Depois aparece a má sorte que leva um ou outro. Não há família que não tenha conhecido a dor de enterrar aqueles que não tiveram tempo de crescer. 

O dinheiro não se multiplica da mesma maneira que os filhos vão aparecendo, é preciso ginástica e imaginação. Uma sardinha alimenta quatro bocas, uma sopa serve de refeição completa. A vida não é fácil, mas é o que se tem. 

São os caçulas que têm a sorte de conhecer os bancos da escola. Enquanto os mais velhos trabalham no que aparece, os mais novos aprendem a somar quando o que mais fazem é subtrair e escrevem o nome que poucas vezes assinam. Se a coisa correr bem, fazem a quarta classe, depois disso a escola está reservada aos mais afortunados. 

Um dia chegam a casa e, sem que nada o fizesse prever, são avisados do fim. 

- Amanhã já não vais à escola. 

A sentença foi lida sem direito a recurso. Não há discussão possível nem tentativa de ganhar mais um dia. Arrumam-se os sonhos e acorda-se para a vida adulta. Seja lá o que for que ela lhes reserva. 

Não se pergunta pelo trabalho. Há sempre um capataz à procura de alguém. Não importa a idade, ali há lugar para todos. Os que ainda não têm corpos de adulto também têm o que fazer. Está a chegar a época das plantações e é preciso apanhar a pedra que anda pelos campos. Há uma família abastada que precisa de uma criada de servir. 

- Tem de ser. 

De manhã, é ver os mais pequenos a caminharem descalços em direcção oposta à escola. São mais uns trocados que entram em casa e que pagam a conta que se ficou a dever na loja. 

A vida não é fácil, mas é de pequenino que se começa a perceber como ela é.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Peregrinação da Espiga

Hoje não se trabalha: é dia da espiga. Não há convite nem confirmação prévia, mas todos sabem que é dia de piquenique. Faça sol ou prometa chuva. 

Saem todos à rua, miúdos e graúdos. De cesta aviada com o farnel bem tapado com panos grossos e a manta aconchegada debaixo do braço. Há um ou outro garrafão para aquecer as almas. Fazem o caminho a pé, com cantorias e conversas, até ao campo que todos os anos os acolhe. 

Lá estão as sombras que lhes dão abrigo e o tanque onde se tomam uns banhos, se o tempo o permitir. 

Esticam as mantas assim que chegam. As mulheres, de olho nos miúdos que improvisam um jogo de futebol, deixam-se ficar na conversa. Por aqui e por ali, há quem se perda numa jogatana de cartas cheias de vincos. 

- Goooooolo! 

Conversas trocadas, gargalhadas, correrias e gritos de vitória. 

- Ó Gertrudes, mas tu sabias disto? 

- Opah, não podes jogar isso. 

O mundo parou naquele momento de descanso. 

Chega a hora de almoço e o farnel espalha-se pelas mantas dos convivas. Pastéis de bacalhau e frango assado no forno. Pão amassado à mão e bolacha maria. O que há é dividido por todos, sem restrições. O pouco que se tem, chega sempre para mais um. 

O dia não acaba sem um último passeio à procura da espiga. Oliveira e nespereira. Papoilas e malmequeres. Rosmaninho e espiga. Tudo contado como manda a tradição e transformado num ramo bem apertado com uma guita. Tem de durar até ao próximo ano. 

A vida é simples. É feita de certezas que não se marcam, de uma união que não é programada. 

- Até para o ano, se Deus quiser!

terça-feira, 26 de abril de 2016

O que nos move

Pai-nosso que estais no céu. 

Cheira a cera derretida e ouve-se o crepitar das velas que ainda ardem. Está frio, um desconforto que conforta quem procura aquela casa em busca de um alento que não encontra noutro lado. 

Elas cobrem a cabeça com o lenço de renda, delicado e tratado com o maior dos cuidados. Eles tiram o boné em sinal de respeito. Todos ajoelham em frente ao altar e fazem o sinal da cruz de cabeça baixa e a olhar o chão. 

Ouvem-se os murmúrios de rezas e de conversas trocadas. É a fé que move esta gente. Que reza antes de deitar e sempre que o coração pede. De joelhos, com o terço na mão, a correr o rosário que já se sabe de cor. 

Rogai por nós. 

Uma vida de culpa e remissão, uma confissão perpétua de pecados. A fé, a bíblia e Deus. Os sacramentos do santíssimo, a bênção do santo padre. 

Casam e baptizam os filhos. Vestem de festa no dia da comunhão. Acedem uma vela ou duas com pedidos de auxílio e de protecção. Aceitam o corpo de Deus que sacrificou o próprio filho para os salvar. 

Deus só nos dá aquilo que conseguimos aguentar.

É a certeza que Ele está lá, a ouvir, que os faz levantar no dia seguinte. Todos os dias que enfrentam fazem parte do plano que Deus guardou para eles. Batem com a mão no peito. 

Por minha culpa, minha tão grande culpa. 

Vem o domingo de ramos e a quarta-feira de cinzas. A Páscoa e a missa do Galo. As peregrinações a Fátima que deixam os pés em bolha e o cumprir promessas de joelhos no sítio onde Nossa Senhora se apresentou aos pastorinhos que a esperavam. 

É a fé que nos move na certeza de que Deus tem um plano superior para nós e que nada falha os seus desígnios. A espera pelo descanso divino quando Ele decidir levar-nos.

Perdoai-nos Senhor.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O ar do forno

Há uma bola de massa crua que tanto repousou durante uma semana que se transformou em fermento. A superfície ficou seca e áspera, o interior mole como quando foi guardada. Amanhã vem outra para o seu lugar. Hoje mistura-se esta com parte da farinha. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já partido e marcado de tanto trabalho. Deita-se parte da farinha e a bola de uma semana e mistura-se num piscar de olhos. Sem grande ciência ou tempo a perder. Misturar e deixar repousar. 

O maior segredo é sempre uma junção de persistência com paciência. 

Quando o novo dia nasce, encontra o forno a aquecer. Ramos finos que vão queimando no forno de pedra que alimenta uma família e quem mais precisar. Fecha-se a porta e deixa-se o ar do forno chegar onde queremos que chegue. 


A massa está a descansar. Foi amassada até a respiração ficar pesada e os braços começarem a doer. De lenço na cabeça e bata já gasta, a mulher deu tudo por tudo para transformar a farinha em pão do bom. Até a massa chegar ao ponto. 

Depois, quando já repousou o que tinha a repousar e quando o fogo já chegou onde devia chegar, é cortar a massa à mão e moldar o pão com direito a bênção e oração. As mãos brancas da farinha formam pães e roscas para dar aos mais pequenos. Uma bola de massa crua fica a repousar para a semana seguinte que esta vida é feita de rotinas. Outras levam chouriço daquele que tinha ficado a secar na chaminé lá de casa.

Depois é esperar. A massa vai crescendo no forno. Já se adivinha a manteiga a derreter e o vapor do pão quente a queimar-nos a pele.

Começa a cheirar a pão quente e já se adivinha o pão estaladiço por fora e o interior branco e macio.  Para aproveitar o forno que ainda está quente, prepara-se um tabuleiro de sardinhas regadas a azeite e temperadas com cebola. 

Sai o pão a escaldar e entra o tabuleiro com o almoço. As rotinas cumpridas com o rigor que passa de geração para geração.

Parte-se o pão sem cerimónia nem faca. À mão. Meter faca em pão quente é tirar a força a quem o amassou e isso é coisa que não se quer. Daqui a uma semana começa tudo outra vez e não são corpos fracos que conseguem fazer pão. 

Não há nada que se compare à memória do cheiro a pão quente a encher a casa. A manteiga a escorrer pelas mãos e o sabor do pão amassado com a força de quem alimenta os que são seus. 

Parte-se quente, à mão e ficamos à espera que passe a semana.