Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto.
- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer.
São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra.
Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.
Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada.
Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje.
A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude.
Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer.
Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada.
O tempo vai mudar.




