Quem vem da cidade defende que os do interior não sabem nada da vida. Quem vem da cidade para passar o fim-de-semana, para visitar os pais que nunca deixaram aquele bocado de terra que fica escondido atrás da serra.
Faltam escolas e conhecimento para lá dos limites citadinos, é o que dizem. Sabem pouco e não se interessam por nada, é o que defendem.
Pontos de vista de quem conhece pouco mais do que azáfama do trânsito e o corre-corre de uma cidade que teima em não descansar e que cruza a serra uma vez por mês, no máximo. Pontos de vista de quem tem filhos que ficam espantados porque as maçãs crescem em árvores.
O interior é limitado e ainda vive no tempo da outra senhora que muitos deles nem sabem quem foi. O interior é bom para descansar. O interior não interessa a ninguém.
É o que dizem.
No fundo, quando se ouve o que por aí se diz, é como se do outro lado da cidade o mundo parasse no século XIX. Como se não saber inglês e perceber mais da terra do que da tecnologia fosse um handicap (gira a palavra) que deixa as pessoas menos dotadas intelectualmente só porque não sabem o que os outros tanto apregoam.
Porque o que os eles sabem é que é importante. Porque o que o que eles visitaram é que é bonito. Afinal, quem tem interesse em saber de cultivo? Quem tem interesse em conhecer as mudanças da terra e do tempo só de olhar para o céu?
Quem quer saber das histórias que as rugas das pessoas que nunca deixaram o seu lar, têm para contar?
Nada interessa, há uma ligação de banda larga que explica tudo.
Só que não viveu nada.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
O Luto
Segue o seu caminho já com o corpo debilitado pela idade. As costas não se endireitam, as mãos estão calejadas e os passos são apoiados pela bengala de madeira. Leva um saco de pano na mão com três pães e até isso parece demasiado para as suas forças.
Veste preto da cabeça aos pés. Cabelo escondido debaixo do lenço escuro, saia e camisa preta, meias e chinelos da mesma cor. Xaile pelos ombros.
Poucos são os que se lembram de a ver com luto aliviado e já ninguém se lembra dela com as cores vivas que usava quando ainda era jovem e corria pelas ruas. O vestido vermelho com bolas brancas que a mãe lhe tinha costurado, a camisa às flores que estreou no ano em que subiu ao altar.
Outros tempos.
Casou-se e teve filhos. Três. O segundo morreu no ano em que fez dez anos. Ela tirou a camisa às flores e vestiu-se de preto. O período de luto cumprido à risca.
Três anos de preto e só depois é que começou a aliviar.
Substituiu o preto pelo azul-escuro e pelo cinzento. Com o passar do tempo até sentiu coragem para voltar a usar a camisa às flores assim que o aliviar do luto terminasse.
Mas depois foi a mãe que caiu na cama. O pai entregou a alma ao criador. Os sogros também já não eram novos.
Passaram três anos e mais três e outros três e ela sempre de preto. Sem tempo para aliviar o luto que já se impunha nos seus dias.
Depois, quando os anos já tinham passado e a vida já lhe fazia doer as articulações, foi-se o marido e ela voltou ao luto pesado.
Não voltou a aliviar, diz que não faz sentido, que já passou tanto tempo de preto que não consegue ver-se com outra cor e que a sua alma já está assim.
Três anos de preto rigoroso antes de começar a aliviar. Dois anos a deixar respirar o luto. Uma vida inteira a viver com ele.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Sinal de Chuva
Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto.
- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer.
São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra.
Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.
Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada.
Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje.
A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude.
Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer.
Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada.
O tempo vai mudar.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Os Outros
- Sabes qual é a única coisa boa que vocês têm?
- O quê?
- O caminho de volta.
Tal e qual. Não há bairro, aldeia ou lugar que não tenha problemas com o outro que vive ao lado. É um teste de forças fronteiriças. Um provar que um é melhor que o outro sem chegar bem a ser e com argumentações tão evoluídas como as que encontramos nas discussões entre os alunos do jardim-de-infância.
Um melhor do que o outro porque sim. Porque quem defende vive num lado e não no outro. Uma aldeia contra a outra numa defesa da honra que nunca chegou a estar em causa.
Estas quezílias e arrelias aparecem do nada e arrastam-se durante décadas e décadas com uma lenda a passar de boca em boca e a sustentar as mais terríveis ofensas.
- Eu nunca me casava com alguém dessa terra.
Normalmente casam. As aldeias são pequenas, as outras estão mesmo ali ao lado e na altura em que o coração bate mais forte não há argumentos de ódios que não se explicam que acalmem os ânimos.
- Não ia para aí viver nem que me pagassem.
Às vezes vão e não lhes pagam. Vão porque a casa era mais jeitosa ou mais barata, porque os ares eram mais puros ou só porque sim.
Estas guerras começam sem grande razão que as justifique. Normalmente, numa altura que ninguém sabe precisar qual foi, alguém roubou algo a alguém ou desonrou a filha de alguém ou fez alguma coisa a alguém. A partir desse momento, todo uma povoação se voltou contra a outra para proteger os seus. Parece simples, certo? Nem por isso.
Afinal, esta história é igual dos dois lados, a diferença é que quem a conta é sempre a vítima. Torna –se difícil perceber quem tem razão, se é que alguém a chega a ter.
Mas estas disputas não deixam de aquecer os corações bairristas por muito que sejam ficção. Passam de boca em boca e tornam-se motivo de gargalhadas, mas não se enganem, no fundo ainda borbulha o sentido de protecção da aldeia que os viu nascer.
- És de onde? Vi logo que não podias ser boa pessoa.
- O quê?
- O caminho de volta.
Tal e qual. Não há bairro, aldeia ou lugar que não tenha problemas com o outro que vive ao lado. É um teste de forças fronteiriças. Um provar que um é melhor que o outro sem chegar bem a ser e com argumentações tão evoluídas como as que encontramos nas discussões entre os alunos do jardim-de-infância.
Um melhor do que o outro porque sim. Porque quem defende vive num lado e não no outro. Uma aldeia contra a outra numa defesa da honra que nunca chegou a estar em causa.
Estas quezílias e arrelias aparecem do nada e arrastam-se durante décadas e décadas com uma lenda a passar de boca em boca e a sustentar as mais terríveis ofensas.
- Eu nunca me casava com alguém dessa terra.
Normalmente casam. As aldeias são pequenas, as outras estão mesmo ali ao lado e na altura em que o coração bate mais forte não há argumentos de ódios que não se explicam que acalmem os ânimos.
- Não ia para aí viver nem que me pagassem.
Às vezes vão e não lhes pagam. Vão porque a casa era mais jeitosa ou mais barata, porque os ares eram mais puros ou só porque sim.
Estas guerras começam sem grande razão que as justifique. Normalmente, numa altura que ninguém sabe precisar qual foi, alguém roubou algo a alguém ou desonrou a filha de alguém ou fez alguma coisa a alguém. A partir desse momento, todo uma povoação se voltou contra a outra para proteger os seus. Parece simples, certo? Nem por isso.
Afinal, esta história é igual dos dois lados, a diferença é que quem a conta é sempre a vítima. Torna –se difícil perceber quem tem razão, se é que alguém a chega a ter.
Mas estas disputas não deixam de aquecer os corações bairristas por muito que sejam ficção. Passam de boca em boca e tornam-se motivo de gargalhadas, mas não se enganem, no fundo ainda borbulha o sentido de protecção da aldeia que os viu nascer.
- És de onde? Vi logo que não podias ser boa pessoa.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
A Paixão
Faz-se a vida como é suposto. Foi assim que um dia, alguém disse que tinha de ser. Sem discussão.
Ouvem-se os sinais de missa. Veste-se o melhor fato, aperta-se o botão junto ao pescoço e veste-se um casaquinho. Elas cobrem a cabeça com um lenço de renda, eles tiram o boné assim que entram em terreno sagrado.
São os baptizados e as comunhões, os crismas e as profissões de fé. O Manel que dá a alegria à família e segue para o seminário. A Laurinda que só muda de casa vestida de branco e abençoada pelo santo Padre.
São os mais novos que servem na igreja. A reza que é feita de olhos no chão. As velas que se vão gastando. A Quarta-feira de cinzas e o Domingo de ramos. A missa do Galo para abençoar o Natal, o jejum da quaresma. Não se come carne à sexta, não se cai em tentação.
A confissão feita de joelhos num desfiar de pecados que não são mais do que a vida tal como ela é. Vinte avé-marias para limpar as culpas e o terço rezado antes de deitar.
A extrema-unção para os acompanhar na vida eterna e abençoar a partida para o outro mundo onde nos espera quem já não está connosco. A luz que nos recebe, que nos perdoa dos pecados e nos torna merecedores da protecção divina.
Que o Senhor vos acompanhe.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
As férias dos Senhores
A praia era destino de férias para quem não tinha vida difícil todo o ano. Para quem se levantava de manhã e encontrava a mesa do pequeno-almoço pronta, os vestidos engomados e a casa a cheirar a pão quente. Como se tudo acontecesse com o estalar de dedos.
Para os senhores, as senhoras, as meninas e alguns doutores, as férias de Verão faziam-se à beira-mar. Para cuidar das dores nos ossos, para melhorar a circulação, para que as meninas respirassem melhor. As maleitas de um ano inteiro atenuavam-se naquelas semanas com vista para o mar sem fim.
Com eles iam as criadas, as que nem nas férias tinham direito a descanso. Mudavam de casa, de ares, mas nunca de obrigações e deveres. Só o cheiro a maresia as fazia acreditar que os dias não eram exactamente iguais aos outros todos.
Tinham os mesmos deveres. A cozinha era o seu espaço, a lide da casa a sua obrigação. Tal como todos os outros dias.
Quando o relógio marcava a hora, lá iam elas. Vestidas como todos os dias, de farda e avental engomado, lenço apertado e o cesto com o almoço equilibrado em cima da sogra que lhes protegia a cabeça. Iam descalças pela areia até chegar aos senhores que esperavam o repasto.
- Oh menino, venha para aqui.
Gritavam para os mais pequenos que corriam à beira-mar e teimavam em não voltar.
Preparavam a mesa para os senhores e para os meninos.
Almoçavam ali, com o mar a bater lá ao fundo, a areia a fazer cócegas nos pés e o sol a queimar a pele. A família protegida debaixo de pano, as criadas à espera que terminassem o almoço para fazerem o caminho de volta para casa.
O mar estava ali tão perto que, muito de vez em quando, elas até acreditavam que estavam em descanso dos dias sempre iguais.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Onde vais?
É ponto assente de ano para ano. A festa sai à rua com direito a procissão, música e vinho para matar a sede. O mesmo fim-de-semana, marcado não se sabe bem quando.
Há roupa nova para estrear quando os santos saírem à rua. Há quem os acompanhe descalça, a pagar as promessas que vão sendo feitas pelo filho que ainda não voltou da guerra, pela filha que precisa de uma cura.
Matam-se coelhos e galinhas, põe-se a mesa com o melhor que se consegue arranjar. Junta-se a família inteira numa casa que não tem espaço nem para metade. É festa, valha-nos a boa vontade.
As flores transbordam dos andores. Ouve-se o terço rezado pelas ruas. A banda acompanha os passos dos fiéis. Há quem chore quando se ouvem os sinos e começa a procissão. Há quem não consiga conter as lágrimas. Por si, pelos seus, seja lá pelo que for.
Imaculada, Rainha dos céus.
Cantam em devoção. De lenços na cabeça e terço nas mãos, em passo lento e sofrido.
Recolhem os andores com uma chuva de foguetes e o toque ininterrupto de sinos. Parece que o mundo acaba ali, mas está só a começar.
Chega a noite depois de a procissão recolher. Os lenços deixam as cabeças e há quem comece a trocar as palavras. O conjunto toca no palco improvisado e um rapaz ou outro tenta a sua sorte e convida uma menina para dançar. As mães estão atentas a qualquer tentativa de desonra, mas até o soldado mais competente se distrai.
Bebe-se demais. Rouba-se uns beijos atrás da igreja. Promete-se porrada da grossa ao outro que acha que é mais do que o que os rodeiam. O vinho fala sempre mais alto e não passa um ano que seja sem que alguém volte para casa com um olho deitado abaixo.
A festa segue, ano após ano. Ruas enfeitadas, santos a arejar, roupas novas, sapatos de solas imaculadas e vinho do bom.
Donde é que vens?
Venho da festa. Se Deus quiser, para o ano há mais.
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