quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Aos que já não estão

Depois do trato em vida vem o acompanhamento na morte. 

O descanso eterno de uns leva ao cumprimento terreno das tradições que não interessam a quem já não está e que lava a alma de quem fica. 

No dia de finados, a romaria é ao cemitério. Novos e velhos, com mais ou menos dores nos ossos, lá vão eles até à última morada, que um dia também será sua, visitar os seus que já se foram. Cumpre-se todos os anos, a missa, a ida ao cemitério, o pesar por aqueles que ainda nos fazem tanta falta. 

Levam as flores nos braços e um saco com a tesoura, a faca, a vassoura pequena e uns quantos trapos. É o lavar da casa, é a visita a quem já não responde às perguntas. 


Quando chegam à campa dão um beijo na fotografia dos seus, cravada no mármore frio, e conversam com eles. Contam-lhes que os netos estão bem, que a filha anda com umas dores estranhas, que o trabalho tem dias para esquecer. 

Tiram as flores velhas da jarra, já estão amarelas e secas, e arranjam as que trouxeram. Cortam os pés, põem verdura e fazem o melhor que sabem. 

Vão buscar o caneco de plástico azul e enchem-no de água que deitam sobre o mármore frio. Varrem a sujidade, arrancam as ervas que insistiam em ir aparecendo, passam com o pano para que fique a brilhar. 

Ajeitam o ramo de flores e voltam a colocar no sítio devido e ficam ali, a olhar para a pedra e para a fotografia de quem já tiveram ao seu lado. Doí-lhes a alma com uma saudade que o tempo não cura nem atenua, só ensina a suportar. 

Despedem-se como nos despedimos de um amigo que encontramos no café. 

- Até para a semana, se Deus quiser. 

O coração vai apertado e a alma lavada com o dever cumprido.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

À cabeça da mesa

Ouvem-se as oito badaladas dadas pelo relógio da igreja. 

O miúdo, apanhado de surpresa com a hora avançada, corre na direcção de casa. São oito horas. O sino continua a tocar. Corre o mais rápido que pode, sem abrandar por nada. 

Entra em casa e senta-se à mesa quando se ouve o último sinal da hora. São oito horas e ele sentou-se na mesa a tempo, mas sem conseguir fugir ao olhar reprovador do pai. 

- O jantar está na mesa às oito. 

Sem falta. Às oito horas a mesa está posta, o jantar terminado e a família tem de estar sentada à mesa. Quem não está a horas, não janta nem tem direito a comer seja o que for até ao dia seguinte. 

O miúdo não responde e baixa os olhos. Regras são regras e ele sabe disso, mas a brincadeira deixou-o distraído. ~

O homem da casa, de pele queimada pelo sol e mãos marcadas pelo trabalho, senta-se no topo da mesa. Homem de poucas palavras e mão pesada, todos o são. O sentimento, por muito que exista, não deve ser mostrado. 

A mulher levanta-se e serve-o. Primeiro ele: o pai, o marido, o homem da casa. É para ele que se guarda o melhor pedaço de carne, quando a há. É a ele que se enche o prato com a sopa antes de todos os outros. É assim que tem de ser. É ele que anda trabalhar desde que o sol nasce até que ele se põe. Ela também trabalha, mas deve-lhe obediência. 

Os outros esperam. Em silêncio. Divide-se o que sobra pelos filhos. Uma sardinha alimenta mais bocas do que aquelas que se julgavam possíveis. 

Primeiro está o homem.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A sina de ser mulher

Andava de cesta equilibrada na cabeça e braços caídos ao longo do corpo. Os seus dias eram sempre iguais. Levantava-se de manhã, trabalhava na casa, trabalhava no campo, ia às compras de cesta à cabeça e trocos contados e tratava dos três filhos que andavam lá por casa. 

A do meio nascera mulher. Pouca sorte. 

Ela sabia o que era ser mulher e não era isso que queria para o seu sangue. As mulheres têm mais deveres do que direitos, aprendem desde cedo o significado da submissão sem chegarem a conhecer a palavra. Nascer assim é uma falta de sorte, naquele mundo não lhes davam reconhecimento. 

- É pena seres mulher. 

Fora o que uma tia-avó lhe dissera e que só agora ela compreendia que não vinha de rancor, mas de um amor que queria mais para ela do que aquela vida de regras e obrigações. 

As mulheres de bem estão em casa, são casadas, respeitam os maridos (mesmo que eles não as respeitem) e baixam a cabeça, fixam os olhos no pó da estrada. Não andam a rir no meio da rua que isso é coisa de loucas e não andam perdidas em namoricos. Namoram e casam com o mesmo, sem discussão. 

As que chegam a estudar aprendem a ler e a contar, não mais do que isso, mas a maior parte nem conhece os bancos da escola. Não aprendem música nem andam misturadas com os rapazes. Usam saias abaixo do joelho e os camiseiros fechados até ao último botão. Por baixo do vestido, vestem a combinação e as pernas estão sempre protegidas pelas meias. 

É preciso saber estar. A única coisa que uma mulher tem é a sua reputação. 

A sina de ser mulher é viver marcada sem que nunca se tenha cometido pecado. É ser desgraçada sem se saber bem porquê. É esperar que algum homem lhes queira dar uma vida digna. Porque só assim são aceites. Deus as livre de serem enganadas por um qualquer que se aproveita da sua inocência e lhe vira as costas quando as consequências lhe batem à porta. Aí todas as portas se fecham. 

É por isso que ela olha para a filha, tão pequena e inocente, e a único pensamento que lhe passa pela cabeça é o mesmo que já lhe disseram a ela. 

- É pena seres mulher.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O cheiro das ruas

Eram outros tempos. Aqueles dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos. 

A rua tinha o alcatrão em mau estado, o que não se possa dizer que seja muito diferente dos tempos de agora, e só duas ou três casas é que tinham um primeiro andar. Todas tinham um quintal com direito a um barracão com a cozinha onde comia a família. A cozinha de casa era para as visitas. 

Ao meio-dia, a rua começava a ganhar vida mesmo que não se visse uma pessoa que fosse. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho ou outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, os filhos que almoçavam ali ou os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado com azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo quente. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com uma perícia que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne de uma qualidade que já não se encontra. Um cheiro rico e gordo, guloso. 

Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua vazia e que anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira antes de voltar a ser areada. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e perdem-se nomes, mas o cheiro a refogado a invadir uma rua vazia vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua de alcatrão esburacado onde se espera que a família chegue para almoçar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Para lá da Serra

Quem vem da cidade defende que os do interior não sabem nada da vida. Quem vem da cidade para passar o fim-de-semana, para visitar os pais que nunca deixaram aquele bocado de terra que fica escondido atrás da serra.

Faltam escolas e conhecimento para lá dos limites citadinos, é o que dizem. Sabem pouco e não se interessam por nada, é o que defendem.

Pontos de vista de quem conhece pouco mais do que azáfama do trânsito e o corre-corre de uma cidade que teima em não descansar e que cruza a serra uma vez por mês, no máximo. Pontos de vista de quem tem filhos que ficam espantados porque as maçãs crescem em árvores.

O interior é limitado e ainda vive no tempo da outra senhora que muitos deles nem sabem quem foi. O interior é bom para descansar. O interior não interessa a ninguém.

É o que dizem.

 No fundo, quando se ouve o que por aí se diz, é como se do outro lado da cidade o mundo parasse no século XIX. Como se não saber inglês e perceber mais da terra do que da tecnologia fosse um handicap (gira a palavra) que deixa as pessoas menos dotadas intelectualmente só porque não sabem o que os outros tanto apregoam.

Porque o que os eles sabem é que é importante. Porque o que o que eles visitaram é que é bonito. Afinal, quem tem interesse em saber de cultivo? Quem tem interesse em conhecer as mudanças da terra e do tempo só de olhar para o céu?

Quem quer saber das histórias que as rugas das pessoas que nunca deixaram o seu lar, têm para contar?

Nada interessa, há uma ligação de banda larga que explica tudo.

Só que não viveu nada.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Luto

Segue o seu caminho já com o corpo debilitado pela idade. As costas não se endireitam, as mãos estão calejadas e os passos são apoiados pela bengala de madeira. Leva um saco de pano na mão com três pães e até isso parece demasiado para as suas forças. 

Veste preto da cabeça aos pés. Cabelo escondido debaixo do lenço escuro, saia e camisa preta, meias e chinelos da mesma cor. Xaile pelos ombros.

Poucos são os que se lembram de a ver com luto aliviado e já ninguém se lembra dela com as cores vivas que usava quando ainda era jovem e corria pelas ruas. O vestido vermelho com bolas brancas que a mãe lhe tinha costurado, a camisa às flores que estreou no ano em que subiu ao altar. 

Outros tempos. Casou-se e teve filhos. Três. O segundo morreu no ano em que fez dez anos. Ela tirou a camisa às flores e vestiu-se de preto. O período de luto cumprido à risca. 

Três anos de preto e só depois é que começou a aliviar. 

Substituiu o preto pelo azul-escuro e pelo cinzento. Com o passar do tempo até sentiu coragem para voltar a usar a camisa às flores assim que o aliviar do luto terminasse. 

Mas depois foi a mãe que caiu na cama. O pai entregou a alma ao criador. Os sogros também já não eram novos. 

Passaram três anos e mais três e outros três e ela sempre de preto. Sem tempo para aliviar o luto que já se impunha nos seus dias. 

Depois, quando os anos já tinham passado e a vida já lhe fazia doer as articulações, foi-se o marido e ela voltou ao luto pesado. 

Não voltou a aliviar, diz que não faz sentido, que já passou tanto tempo de preto que não consegue ver-se com outra cor e que a sua alma já está assim. 

Três anos de preto rigoroso antes de começar a aliviar. Dois anos a deixar respirar o luto. Uma vida inteira a viver com ele.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sinal de Chuva

Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto. 

- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer. 

São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra. 

Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.

Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada. 

Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje. 

 A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude. 

Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer. 

Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada. 

O tempo vai mudar.