quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Açúcar e canela

O dia começa cedo, igual a todos os outros. Ainda está escuro lá fora e no fogão já está a cafeteira ao lume com água. Quando ferve junta-se três colheres de café, mexe-se e espera-se que a borra assente. Só depois da caneca de café e do bocado de pão com manteiga é que o dia pode começar a sério. 

É véspera de Natal. Sente-se o frio da época no corpo, mas nem isso demove quem tem o que fazer. Bata vestida, rodilha metida no bolso e pano a tapar o cabelo. Está tudo pronto para começar o trabalho. 

Vai-se buscar o alguidar de barro já meio partido pelos anos de uso e prepara-se tudo o que se precisa. A abóbora cozida, a bola de pão em massa, a farinha, o limão e a laranja e a aguardente e o abafado. Nada fica esquecido. 

Arregaça-se as mangas que o frio de agora vai desaparecer assim que o trabalho a sério começar. Juntam-se os ingredientes pela ordem que está gravada na memória e que é auxiliada pela folha de papel gasta que guarda a receita que vem de outras mãos. 

Amassa-se tudo com vigor e força. Levanta-se a massa em peso para logo a seguir a largar no alguidar. Ouve-se o baque seco do alguidar contra o banco de madeira onde está empoleirado. 

- O alguidar tem de ficar limpo, a massa tem de levantar toda. 

Só assim é que se sabe que ficou pronto. A massa cheia de bolhas a rebentar e as paredes do alguidar limpas de farinha. 

Depois é tempo de descansar, de tapar a massa com os cobertores que se encontrar e deixá-la perto do lume para levedar. Dar-lhe tempo para crescer. 

Quando a massa dobrar o tamanho, é esperar que o óleo aqueça para começar a fritar. Ficar a ver aquela massa esbranquiçada a ganhar volume, a virar sobre si mesma e a flutuar no óleo enquanto começa a ficar castanha. 

 Saem cheios e gordos, a brilhar com o óleo que ainda pinga e a fervilhar. Os mais pequenos esperam para completar as suas funções de passar os doces pelo açúcar e pela canela e, sem ninguém ver, provar um ou outro mais pequeno.

- Vai oferecer este pratinho à vizinha. 

É Natal, cheira a fritos e a canela, a lareira dá calor aos que já estão quentes do trabalho e o café espera que os belhozes lhe façam companhia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A espera

A vida não está fácil. São as bocas para alimentar que aumentam e o trabalho que falta. Os trocos vão sendo contados até não sobrar nenhum. 

Espera-se que chegue o trabalho, que alguém precise das nossas mãos calejadas e de um corpo que aguente carregar o peso que o nosso consegue. É muito peso, sabe? Às vezes até parece que aguentamos com o mundo às costas e que as mãos já não sentem dor. São muitos anos de trabalho duro, de sol a sol e o corpo molda-se às dificuldades que vai aguentando. 

É preciso trabalhar, ter dinheiro no bolso para o copo de vinho e, com sorte, para o conduto para as refeições e é por isso que esperamos. Por uma oportunidade, por uma necessidade de outro que pode ser a nossa sorte. Ficamos ali na praça a ver o dia nascer e a aguardar que passe o capataz com oferta de trabalho. Depois, quando finalmente chega, esperamos que haja trabalho para nós porque somos tantos homens à espera que nunca se sabe se chega a nossa vez. Se tivermos sorte vamos com ele, de cabeça baixa e ar pesado porque não sabemos andar de outra maneira. 

Faça chuva ou sol, não interessa. Não há dias de férias e o descanso guarda-se para os dias santos que é pecado trabalhar a dias alumiados. É preciso ter respeito por quem está acima de nós e Ele, lá no alto, olha por nós. Deus não nos dá mais do que aquilo que conseguimos aguentar, essa é que é a verdade. 

Às vezes passam os senhores e os capatazes na taberna à procura de quem saiba lavrar o terreno ou tratar das plantações. Nessas alturas, toda gente sabe o ofício mesmo que não consiga perceber a diferença entre uma enxada e uma foice. Se é para trabalhar, a gente trabalha e logo se vê. Alguma coisa se arranja.

A nossa vida vive-se assim. É preciso trabalhar e nós, os pobres coitados que contam os tostões que ficam perdidos nas costuras dos bolsos, esperamos que nos venham buscar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Da desgraça que a acompanha

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos juntos, sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntos do que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos.

Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem passava por ali. Ele desinquietava a moça e ela ia na conversa dele. 

Não se sabe o que lhe prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se falava sobre o que ali se passava. 

Quando ela lhe bateu à porta, ele abriu por simpatia e fechou-a minutos mais tarde com a ordem para que não o voltasse a procurar. Não tinham contrato nenhum um com o outro, ele não lhe devia nada. 

Ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem da tempestade. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas, era o que comentavam. 

Quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada. Era nisso que acreditavam. Os filhos só chegam depois do casamento, nunca antes. 

Ela ficou sozinha, com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias.

A mãe, miúda abandonada pelo primeiro amor, fez-se pai também. Abandonada e olhada de lado, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua. 

 Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. O homem é que tem sempre razão, a mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A loja do tio e do Senhor

A loja era sempre de alguém. Sem letreiro que a identificasse nem nome definido. Era do Ti Manel ou do Senhor João, da Dona Maria ou da Gertrudes. Na maior parte das vezes, a tia que lhe dava nome nem tinha ligação de sangue com quem entrava pela porta. 

- Vou à loja do ti Horácio – gritavam quando já estavam a sair porta fora de cesta na cabeça e mão na cintura. 

Dentro daquelas paredes estava a vida da aldeia: as novidade se as necessidades. Fosse o que fosse que precisavam, era certo que encontravam tudo ali.

A loja estava cheia que nem um ovo. Sacos e frascos, sacas de adubos e bacalhau seco. O cheiro a fertilizante misturado com o doce das bolachas. O azeite guardado na talha e o vinho em garrafões.

Os que precisavam entravam de cesta pronta e garrafa na mão. Estendiam o recipiente vazio à espera do seu retorno. Enquanto se esperava ou se atrasava a hora de voltar para casa, trocava-se dois dedos de conversa sobre o que se sabia ou sonhava saber. 

- Dê-me bacalhau. Sabia que a… 

Mesmo que soubesse dizia que não que a informação era sempre pouca e dava jeito saber mais qualquer coisa. Ouvido atento enquanto a faca cortava a espinha do bacalhau e espalhava o sal por todo o lado sem que houvesse preocupação em limpar. As postas, cortadas e escolhidas, eram enroladas na folha de papel pardo que por ali andava. 

Os pedidos dos clientes iam à balança, aumentava-se no peso e mantinha-se o preço sempre que se podia. As medidas eram mais para freguês ver do que para cumprir, ficava sempre o mesmo a ganhar. 

- Assente aí. 

O dinheiro era pouco e o capataz ainda não tinha pago aquela semana, as compras não podiam esperar que as barrigas lá de casa queixavam-se com fome. Comprava-se com a esperança de pagar quando o dinheiro entrasse em casa. Nos entretantos, o rol ia aumentando até já não se saber se a conta estava certa ou se andavam a pedir mais do que era devido. 

- Até amanhã, ti Maria. 

- Que Deus vá contigo - e que o faça voltar no dia seguinte para mais um copo de vinho que fica assente como dois.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Nem por um tostão

Qualquer canto e pedaço de chão lhes serviam como terreno de brincadeira. 

Meninas para um lado e meninos para o outro que elas não jogam à bola e eles não querem saltar à corda. De qualquer maneira, fica sempre melhor se cada qual estiver no lado que lhe compete. 

- Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço. 

Os rapazes dão chutos numa bola de trapos, tão fraca que a cada pontapé parece desfazer-se. 

- É golo! Não estejas a roubar. 

Roubando ou não, a contagem dos pontos vai-se perdendo como os trapos vão caindo e deixando a bola mais magra. Eles estão suados, cabelo em desalinho, camisa por fora das calças e pés descalços e sujos de pó. Mesmo assim não perdem o fôlego e há sempre tempo para mais um remate. 

- Que linda falua que lá vem, lá vem. 

Elas, as meninas que se querem bem comportadas, juntam-se em roda, nas brincadeiras com lengalengas que lhes animam os dias. Não têm bonecas nem brinquedos, só a imaginação e um bocado de corda para saltar. Uma em cada ponta a rodar e outra a saltar até não conseguir mais. 

- Olha que não há travões. 

E aí vão eles rua abaixo sem ligar aos buracos. Os carrinhos de rolamentos, feitos em casa com a ajuda de um e de outro, são postos à prova naquele terreno acidentado. Ouvem-se os gritos de euforia e os de vitória, de vez em quando também se ouve um grito de alguém que ficou com os joelhos esfolados ou aterrou de cabeça. 

São tão novos e têm tão pouco. São tão felizes com esse pouco que têm. Conseguem rir como de o mundo fosse deles. Como se todas as possibilidades estivessem ali naquele pião que conseguiram pôr a rodar na palma da mão. 

- Eu peço ao senhor barqueiro que me deixe passar. Tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. 

O sol começa a pôr-se. Amanhã há mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O pão do burro

Os miúdos juntam-se em grupo e lá vão eles ao caminho. Os mais novos têm uns dez anos, os mais velhos não têm muito mais. A partir de uma certa idade, o trabalho é mais certo do que o estudo e só vão à escola quando tem mesmo de ser. 

- Só era preciso saber escrever o nome e fazer contas – explicam. 

Vão a caminho da aldeia do lado porque a deles já não tem escola que os acolha e naqueles tempos não há pais que os levem ou que se certifiquem que eles chegaram bem e o conceito de autocarro escolar é algo desconhecido. Vão a pé, mas lá vão eles. Rapazes e raparigas que estão separados na escola, mas fazem o caminho lado a lado. Vão sozinhos, sem adulto que olhe por eles. 

- Os tempos eram outros – é o que se vai ouvir daí a uns anos. 

Se eram.

- E toda gente andava a pé, nunca estávamos sozinhos – continuam. 

Os rapazes feitos homens assumem o papel de guarda-costas das raparigas. As malas levam os livros de quem tem a sorte de os ter e um pão guardado para o lanche ou para quando a fome der sinal. 

Mais tarde, quando a escola fechar portas, fazem o caminho de volta sem que ninguém lhes controle a hora de chegada. Os rapazes, mais impacientes, aceleram o passo e não esperam pelas raparigas. 

- Elas paravam em todo o lado – é o que vão defender quando contarem esta história. 

E as raparigas fazem o caminho sozinhas que naquele tempo não existiam perigos como os de hoje. Os rapazes já vão tão longe que nem se ouvem. 

 O burro espera por elas no sítio do costume. As raparigas tiram o pão da mala, muito bem guardado dentro do saco de pano que a avó costurou, e servem o jantar ao burro antes de seguir viagem. 

Deus as livre de chegar a casa com um pão esquecido na mala. A comida é sagrada e é pecado não a aproveitar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O escaldar da apanha

É a época dela. O tempo a arrefecer e as oliveiras carregadinhas de azeitona a pedir para que se comece com a apanha. 

Lona estendida no chão, a toda a volta da árvore, e família inteira de mangas arregaçadas que o trabalho não deixa ninguém de fora. Há que chegue para todos. Bucha pronta para a hora do descanso, café a assentar e garrafão de vinho para dar fôlego ao corpo. 

Os ramos mais baixos são ripados, nos mais altos bate-se com um pau de todo o tamanho. Esforço e paciência. Cansaço que se paga quando se vê o resultado espalhado na lona. Acumulam-se os ramos partidos, as folhas da árvore e as azeitonas que vão caindo. Passam horas neste trabalho que faz o corpo suar e cansa os músculos.

Quando a árvore já não tem mais para dar, escolhem a azeitona que caiu. De joelhos e costas curvadas lá vão separando. A mais grada e sem defeito é guardada à parte que tem destino próprio, o resto é entregue no lagar para que dê o azeite com que a família se vai remediar. 

A azeitona boa é levada para casa. Retalhada pelas mãos habituadas a ficarem negras com tal trabalho e que passam o conhecimento aos mais novos. Três cortes em cada uma e são atiradas para o alguidar. Depois de retalhadas, são escaldadas em água a ferver e um sem fim de sal. São duas semanas até que fiquem doces. 

Depois, para quem consegue esperar as duas semanas que se impõem, é guardar para os tempos que se avizinham. Para quando o trabalho escassear e não houver outro conduto para além daquele que caiu da árvore. Nessa altura, é tirar uma mão cheia delas e juntar às misturadas que aquecem a tigela do jantar. É acompanhar a manja com as azeitonas, que não há dinheiro para peixe nem para carne. 

Os tempos não estão fáceis.