terça-feira, 25 de abril de 2017

Abril

A mudança começou de noite e quando o dia amanheceu já as novidades estavam nas ruas e na boca de todos. Demasiado longe do sítio onde tudo acontecia, mas com a cabeça na mudança, uma menina passou o dia agarrada ao rádio a ouvir o que aquelas vozes que lhe acompanhavam os dias lhe tinham para contar sobre o que saíra à rua nessa noite.

Havia em si uma necessidade de mudança e uma crença que aquele era o momento. Dali para a frente não se sabe o que vem, mas há a esperança que seja para melhor. Só pode ser.

Os dias têm de ser melhores do que os que se viveram até aquele momento.  Do que a pobreza de uma sardinha a dividir por três ou  trocados contados e em falta para as compras que eram essenciais. Tinham de ser mais do que conversas sussurradas na rua e quebradas com olhares por cima do ombro só para confirmar que mais ninguém ouve para ir contar mais do que do que foi dito.

É essa a esperança que cresce no coração daquela menina que ouve o rádio. Que  segue os avanços e as esperas dos soldados. Que sabe que as pessoas não cumpriram o pedido e saíram às ruas. Espera que a mudança esteja a bater-lhe à porta.

Que seja o fim dos deveres mais do que os direitos, a culpa mais do que o viver, as prisões cheias de quem só ousou pensar. O fim dos dias cinzentos e das proibições sem sentido.

O fim de um tempo onde os meninos e as meninas aprendiam separados, onde o álcool era o normal dos dias e onde uns enriqueciam a denunciar o que outros às vezes nem tinham feito. O tempo em que uma criança deixava os bancos da escola para tirar pedra dos campos e levar umas moedas para casa.

Era isso que aquele rádio dava: a esperança de dias melhores, de uma vida diferente. Com mais direitos para os que suavam debaixo do calor do campo e com menos medo. Era o medo que reinava nos dias que aquela menina conhecera na sua vida. O medo do que se diz, do que se faz, do que os outros pensam.  

Para quem nasceu depois dos cravos saírem à rua torna-se complicado imaginar o mundo quando a liberdade era um luxo a que ninguém tinha direito. É difícil imaginar que, para aquela menina, mesmo que o dia seguinte seja igual a todos os outros, mesmo que a mudança demore a chegar aquele interior onde nasceu, ela sabe que já aconteceu e isso conforta a alma.


quarta-feira, 22 de março de 2017

A anunciar a Primavera

Já se sente a mudança. Os dias estão maiores e as manhãs frias seguem para tardes que pedem que o casaco fique para trás. Sente-se o cheiro a calor e anda no ar o pólen que ameaça os narizes mais sensíveis. 

O verde cobre os terrenos até se perderem de vista e é salpicado pelos pequenos pontos amarelos e frágeis que se dobram ao mínimo sopro do vento. Os miúdos correm por esses terrenos que não seus como se estes lhes pertencessem e, numa tradição nunca falada, arrancam molhos dessas tais flores amarelas. 

São flores simples e selvagens a crescer sem ordem estabelecida. Chamam-se azedas, mas há quem as conheça por chupemelos. Os nomes perdem-se e transformam-se nas bocas que os dizem sem nunca os escreverem. É a sabedoria popular. 

Os miúdos trincam-lhes o caule e bebem a seiva amarga saciando a sede com o manjar que a natureza lhes oferece. Caras lambuzadas e respiração ofegante de tanto correr. Face vermelha do calor que se faz sentir. 

É o anunciar da primavera. Dias quentes e chupemelos a crescer sem autorização e a serem trincados por miúdos que não ligam se o que vem da terra deve ser lavado com todos os cuidados. 

É assim que se faz há tantos anos que se perde a conta, é só começar a sentir o chegar dos dias mais quentes. O anúncio da primavera chama a vida à rua. As mulheres sentadas à porta com panos pela cabeça para se protegerem do sol quente enquanto deitam o olho aos mais novos. 

A conversa faz ali, na calçada, e a vida passa pelas ruas e as conversas são marcadas por observações que dizem que o tempo anda louco. 

Anda tudo louco, na verdade, já nada é bem como costumava ser, mas a chegada da primavera convida a que a vida se faça na rua, à ombreira da porta, enquanto se deita o olho aos miúdos que trincam azedas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Soprar as velas

São mais de vinte a correr por todo o lado numa casa onde não abunda espaço. Vieram todos: os colegas da sala de aula e os outros meninos da escola. São todos amigos, daqueles que jogam à bola no recreio e que saltam à corda ou brincam à linda falua que vem lá de Belém.

Agora estão ali, a falar excessivamente alto e a correr de um lado para o outro enquanto desarrumam tudo o que encontram pelo caminho. Afinal um deles faz anos e isso é só mais uma desculpa para se juntarem todos em corridas sem fim e jogos das escondidas. 

A mesa cheia de comida não lhes desperta interesse. São os rissóis e os pães com fiambre e queijo, as tortas dancake de chocolate e as que têm recheio de morango, os bolos de aniversário com bonecos e campos de futebol. Eles passam e petiscam, roubam uns sugos ou uns caramelos de fruta que estão espalhados pela mesa e seguem caminho. Há muita brincadeira à espera.

Depois o tempo passa, os meninos pequenos crescem e as correrias da festa dão lugar à música que toca na rádio e onde se aproveita a balada da moda para trocar uns passos de dança com aquela menina a quem já se piscou o olho e com algum incentivo por parte dos pais que acham sempre piada aos miúdos de meio metro a fingir que são adultos.

Vai chegar uma altura em que as festas já nem se fazem em casa com os pais e as avós a deitarem um olho aos miúdos, mas por enquanto ainda estão ali a gritar, vermelhos e transpirados de tanto correr. A casa fica vazia quando a noite já apareceu. Os pais passam para ir buscar os filhos e ficam copos e guardanapos espalhados pelos cantos e um aniversariante muito cansado de tanto brincar.

Foi um dia em grande, cheio de tudo o que é bom e que deixou recordações que daí a uns anos vão servir para entrar em conversas que começam com um "No meu tempo". Nesse tempo onde tudo era sempre melhor mesmo que não fosse bem assim.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mãos ao ar

- Podemos usar a Adega do Manel.

E estava marcado. Sem mais conversa ou discussão, já havia sítio para o encontro. Falaram com mais uns quantos e a palavra passou a correr de boca em boca. O encontro estava marcado para daí a umas noites na  adega do Manel. As ideias já começavam a nascer na cabeça de uns e outros. Era assim que udo começava.

Cada qual levava o que podia e vestia-se como conseguia. Não havia regras.

Um trazia um pão de ló outro uns pasteis de bacalhau e assim, por uns e outros, tratava-se do estômago dos que por ali se juntavam. A bebida também estava garantida que não podiam ficar a seco.

Já era noite escura quando começavam a chegar. Havia de tudo: criadas de servir, gente do campo e matrajonas. Era o que dava para desenrascar com o que havia lá por casa. O importante era haver animação. 

Depois apareciam os caras tapadas. Uma visão assustadora para quem os encontrava no meio da rua. Cara escondidas atrás das meias enfiadas na cabeça e com três buracos cortados para deixar ver e respirar. Não se conseguia adivinhar quem se escondia do outro lado. Vestiam tudo o que apanhavam à mão: calças, saias, luvas, camisolas, casaco e oleados. Na mão traziam um cajado pesado que impunha um certo respeito. Um pau que marcava o passo com que avançavam. Ninguém sabia quem eram, mas sabiam que eram presença garantida sempre que este dia chegava.

Era noite de festa, rapazes e raparigas juntavam-se e festejavam à sua maneira aquele dia em que tudo era permitido e todos queriam ser outros que não os próprios. 

Todos os  anos era assim. Estava feito o Assalto de Carnaval.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na saúde e na doença

Não havia vestido comprido. Havia um fato em tons claros que depois do casamento serviria de fato de Domingo. Era verde água, saia abaixo do joelho e casaco com botões até ao pescoço. Discreto como se quer para quem sobe ao altar e decente como se exige a todas as mulheres. 

A festa já estava pronta. A tia tinha dispensado a adega para fazer receber os convidados, as mesas estavam postas, os coelhos arranjados e as galinhas já tinham sido depenadas e transformadas em canja. 

O pão estava no forno, os coscorões já estavam fritos e o arroz-doce estava a arrefecer nas grandes travessas. O aroma das carnes misturava-se com a canela e o limão, cheirava a festa. 

Os garrafões de vinho estavam cheios que não há paródia sem vinho para aquecer os corpos e para regar o coelho que ainda tem de ir a guisar para estar pronto na altura do almoço. 

É dia de festa. O casamento é sinal de liberdade, se é que assim se pode chamar. Ninguém sai de casa dos pais a não ser de aliança no dedo e com a bênção do santo padre. São as regras que se sabem de boca. Onde é que já se viu uma menina viver sozinha? Só se for porque o marido está a trabalhar fora ou porque foi chamado para a guerra. Se não tiver marido, trata dos pais que é essa a sua função. 

Mas hoje é dia de festa e mais logo temos bailarico que o homem vem aí tocar concertina para animar os convidados. 

Já se ouvem os sinos a avisar da cerimónia. A noiva sai de casa pelo braço do padrinho e vai a pé até à igreja. Os convidados vão atrás dela em romaria. Quando chega à igreja é o pai que a leva até ao altar. Começa a nova vida com as mesmas responsabilidades. 

Na saúde e na doença, todos os dias da vossa vida. Que assim seja como manda o santo padre e como Deus quer. Na saúde e na doença. Até que a morte os separe.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Contra os boches

A guerra não era sua, mas também não sabiam de quem era. Era de quem os tinha mandado para ali. Alguns mal sabiam pegar numa arma quanto mais dispará-la. Outros choravam para que os mandassem para casa. Havia quem tentasse desertar, quem ficasse inválido para ser dispensado, quem preferisse morrer a continuar naquele inferno, quem achasse que aquela provação só era justificada se voltassem aos seus. 

Não tinham nada. Nem comida nem munições e as fardas mal se aguentavam. As botas estavam desfeitas, as luvas já se tinham perdido e a farda já não os protegia do frio. Já não conseguiam ter ânimo. 

Estavam longe de casa e dos seus. Escreviam as cartas que podiam sem saber se chegavam ao destino, guardavam uma no bolso para o caso da morte se cruzar com eles. Era a despedida para os que em casa esperavam que voltasse. 

Às vezes não voltavam, a maior parte deles ficou lá, perdidos naquela terra que não era sua e onde não compreendiam a língua. Outros voltaram depois de serem dados como mortos e das famílias chorarem por eles. Voltaram doentes e feridos, com histórias de horror que evitavam contar. Não valia a pena, para reviver o sacrifício bastavam as feridas que não cicatrizavam. Tormentos dos dias metidos em água putrefacta e com os pés enterrados na lama. 

Esquecidos por todos, menos pelos seus. Enfiados numa guerra que não era sua. Crianças tornadas homens numa guerra feita em trincheiras. Os que ficaram lá deixaram filhos órfãos cá, mulheres desamparadas e famílias sem notícias. Os que voltaram trouxeram as explosões e o barulho da costureira cravados na memória. 

A guerra terminou, mas só para quem ficou no campo de batalha sepultado em campas sem direito a nome. Quem voltou, trouxe-a consigo.