quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lugar à mesa

O pão já está duro e seco, já se perdeu a conta aos dias que esteve esquecido no saco do pão, mas ainda está bom e nos dias que correm não se pode desperdiçar um naco de pão, mesmo que esteja seco.

Partem-se fatias do que restou e começa ali o próximo manjar que conforta as barrigas que chegam cheias de fome e que dá alento ao corpo cansado.

A receita passa de geração em geração, sem papel onde esteja escrita. É uma arte que as mãos conhecem de cor, sem necessidade de guias ou cábulas. 

As batatas já cozem às rodelas, os alhos já foram descascados e arranjados. 

Solta-se o aroma do azeite a aquecer no velho tacho. Há pouca coisa que desperta tantas memórias como o cheiro dos tachos a queimar no bico do fogão. O refogado e a sopa a borbulhar, o óleo a aquecer ou o pão a cozer, tudo desperta recordações sem pedir licença. O pão duro que já ninguém quer transforma-se em refeição que nos leva para outros tempos.

A batata cozida e o pão desfeito, o cheiro a azeite quente a alho. O tacho ao lume com aquela pasta esbranquiçada a borbulhar.

Ao lado, o óleo quente pronto a receber o peixe envolto em farinha. As azeitonas à espera na mesa.

Serve-se a manja, rica em tudo o que dizem que nos faz mal, com uma concha bem cheia. O prato a ficar cheio com aquela pasta, o calor a embaciar a vista de quem espera para começar a comer. Uma mão cheia de azeitonas que se largam no prato. As postas de peixe, ainda  a ferver, desfeitas com as mãos, sem cerimónia. 

A comida envolve-se no prato, troca-se o garfo pela colher e saboreia-se o pão e a batata misturada com o peixe e a frescura da azeitona. Um prato de manja e peixe frito, aquece a alma e conforta o estômago.

As tradições mais antigas chegam à mesa de hoje e trazem-nos o calor e a sabedoria de outros tempos. O pão duro, esquecido no saco de pano transforma-se no manjar que nos mata a fome.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O regresso às origens

Ofereceram-lhe uma sachola que lhe chegava à cintura. Uma miniatura comparada com a enxada que os adultos levavam para o terreno e que ainda tinha restos de lama seca.

Ela, miudita com excesso de energia, seguia-os sem saber se as folhas verdes que cresciam no meio da lama eram  ervas ou legumes. 

Era  daquela terra  que  vinha  o  alimento para a família. Aquelas couves que se transformavam em cozido e aquele feijão-verde que acabava numa terrina de sopa de pão. Era a alimentação saudável antes de ser moda, o biológico antes da palavra andar na boca de uns e de outros.

São as mãos calejadas da família que tratam a terra, que arrancam as ervas e limpam as pedras, para que dê o fruto que mata a fome. É um acto de amor na rudeza daquela vida.

As cebolas penduram-se no tecto depois de colhidas, as batatas acumulam-se num barracão sem luz, as favas são arranjadas em alguidares no degrau da porta. 

Comida sem corantes nem conservantes, sem açúcar adicionado e com o mínimo de gordura. Tal como defendem os livros e as teorias hoje em dia. Natural. Um prato de couves cozidas em água e sal e que confortam o estômago quando ainda estamos na hora do lanche.

A vida dura da qual muitos fugiram torna-se a regra na boca dos que defendem o regresso às origens, à simplicidade. O campo invade a cidade sem que os prédios se desfaçam.

E para a menina que ofereceram a sachola, aquela é a vida que conhece.

Os sabores são mais intensos, o cheiro da hortelã solta-se só com o vento e o piri-piri é uma ameaça quando a boca fala o que não deve.

A horta existe, as mãos calejadas é trabalho, os botins são para estar carregados de lama. Uma vida calma e cheia de trabalho. Os frutos arrancados da árvore e esfregados na roupa, os legumes  que sabem a terra,  a menina  que  corre na  horta que se tornou no seu recreio pessoal.  

A  vida saúdavel  e  pura sem  rótulos  da moda  ou das redes sociais.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abril

A mudança começou de noite e quando o dia amanheceu já as novidades estavam nas ruas e na boca de todos. Demasiado longe do sítio onde tudo acontecia, mas com a cabeça na mudança, uma menina passou o dia agarrada ao rádio a ouvir o que aquelas vozes que lhe acompanhavam os dias lhe tinham para contar sobre o que saíra à rua nessa noite.

Havia em si uma necessidade de mudança e uma crença que aquele era o momento. Dali para a frente não se sabe o que vem, mas há a esperança que seja para melhor. Só pode ser.

Os dias têm de ser melhores do que os que se viveram até aquele momento.  Do que a pobreza de uma sardinha a dividir por três ou  trocados contados e em falta para as compras que eram essenciais. Tinham de ser mais do que conversas sussurradas na rua e quebradas com olhares por cima do ombro só para confirmar que mais ninguém ouve para ir contar mais do que do que foi dito.

É essa a esperança que cresce no coração daquela menina que ouve o rádio. Que  segue os avanços e as esperas dos soldados. Que sabe que as pessoas não cumpriram o pedido e saíram às ruas. Espera que a mudança esteja a bater-lhe à porta.

Que seja o fim dos deveres mais do que os direitos, a culpa mais do que o viver, as prisões cheias de quem só ousou pensar. O fim dos dias cinzentos e das proibições sem sentido.

O fim de um tempo onde os meninos e as meninas aprendiam separados, onde o álcool era o normal dos dias e onde uns enriqueciam a denunciar o que outros às vezes nem tinham feito. O tempo em que uma criança deixava os bancos da escola para tirar pedra dos campos e levar umas moedas para casa.

Era isso que aquele rádio dava: a esperança de dias melhores, de uma vida diferente. Com mais direitos para os que suavam debaixo do calor do campo e com menos medo. Era o medo que reinava nos dias que aquela menina conhecera na sua vida. O medo do que se diz, do que se faz, do que os outros pensam.  

Para quem nasceu depois dos cravos saírem à rua torna-se complicado imaginar o mundo quando a liberdade era um luxo a que ninguém tinha direito. É difícil imaginar que, para aquela menina, mesmo que o dia seguinte seja igual a todos os outros, mesmo que a mudança demore a chegar aquele interior onde nasceu, ela sabe que já aconteceu e isso conforta a alma.


quarta-feira, 22 de março de 2017

A anunciar a Primavera

Já se sente a mudança. Os dias estão maiores e as manhãs frias seguem para tardes que pedem que o casaco fique para trás. Sente-se o cheiro a calor e anda no ar o pólen que ameaça os narizes mais sensíveis. 

O verde cobre os terrenos até se perderem de vista e é salpicado pelos pequenos pontos amarelos e frágeis que se dobram ao mínimo sopro do vento. Os miúdos correm por esses terrenos que não seus como se estes lhes pertencessem e, numa tradição nunca falada, arrancam molhos dessas tais flores amarelas. 

São flores simples e selvagens a crescer sem ordem estabelecida. Chamam-se azedas, mas há quem as conheça por chupemelos. Os nomes perdem-se e transformam-se nas bocas que os dizem sem nunca os escreverem. É a sabedoria popular. 

Os miúdos trincam-lhes o caule e bebem a seiva amarga saciando a sede com o manjar que a natureza lhes oferece. Caras lambuzadas e respiração ofegante de tanto correr. Face vermelha do calor que se faz sentir. 

É o anunciar da primavera. Dias quentes e chupemelos a crescer sem autorização e a serem trincados por miúdos que não ligam se o que vem da terra deve ser lavado com todos os cuidados. 

É assim que se faz há tantos anos que se perde a conta, é só começar a sentir o chegar dos dias mais quentes. O anúncio da primavera chama a vida à rua. As mulheres sentadas à porta com panos pela cabeça para se protegerem do sol quente enquanto deitam o olho aos mais novos. 

A conversa faz ali, na calçada, e a vida passa pelas ruas e as conversas são marcadas por observações que dizem que o tempo anda louco. 

Anda tudo louco, na verdade, já nada é bem como costumava ser, mas a chegada da primavera convida a que a vida se faça na rua, à ombreira da porta, enquanto se deita o olho aos miúdos que trincam azedas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Soprar as velas

São mais de vinte a correr por todo o lado numa casa onde não abunda espaço. Vieram todos: os colegas da sala de aula e os outros meninos da escola. São todos amigos, daqueles que jogam à bola no recreio e que saltam à corda ou brincam à linda falua que vem lá de Belém.

Agora estão ali, a falar excessivamente alto e a correr de um lado para o outro enquanto desarrumam tudo o que encontram pelo caminho. Afinal um deles faz anos e isso é só mais uma desculpa para se juntarem todos em corridas sem fim e jogos das escondidas. 

A mesa cheia de comida não lhes desperta interesse. São os rissóis e os pães com fiambre e queijo, as tortas dancake de chocolate e as que têm recheio de morango, os bolos de aniversário com bonecos e campos de futebol. Eles passam e petiscam, roubam uns sugos ou uns caramelos de fruta que estão espalhados pela mesa e seguem caminho. Há muita brincadeira à espera.

Depois o tempo passa, os meninos pequenos crescem e as correrias da festa dão lugar à música que toca na rádio e onde se aproveita a balada da moda para trocar uns passos de dança com aquela menina a quem já se piscou o olho e com algum incentivo por parte dos pais que acham sempre piada aos miúdos de meio metro a fingir que são adultos.

Vai chegar uma altura em que as festas já nem se fazem em casa com os pais e as avós a deitarem um olho aos miúdos, mas por enquanto ainda estão ali a gritar, vermelhos e transpirados de tanto correr. A casa fica vazia quando a noite já apareceu. Os pais passam para ir buscar os filhos e ficam copos e guardanapos espalhados pelos cantos e um aniversariante muito cansado de tanto brincar.

Foi um dia em grande, cheio de tudo o que é bom e que deixou recordações que daí a uns anos vão servir para entrar em conversas que começam com um "No meu tempo". Nesse tempo onde tudo era sempre melhor mesmo que não fosse bem assim.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mãos ao ar

- Podemos usar a Adega do Manel.

E estava marcado. Sem mais conversa ou discussão, já havia sítio para o encontro. Falaram com mais uns quantos e a palavra passou a correr de boca em boca. O encontro estava marcado para daí a umas noites na  adega do Manel. As ideias já começavam a nascer na cabeça de uns e outros. Era assim que udo começava.

Cada qual levava o que podia e vestia-se como conseguia. Não havia regras.

Um trazia um pão de ló outro uns pasteis de bacalhau e assim, por uns e outros, tratava-se do estômago dos que por ali se juntavam. A bebida também estava garantida que não podiam ficar a seco.

Já era noite escura quando começavam a chegar. Havia de tudo: criadas de servir, gente do campo e matrajonas. Era o que dava para desenrascar com o que havia lá por casa. O importante era haver animação. 

Depois apareciam os caras tapadas. Uma visão assustadora para quem os encontrava no meio da rua. Cara escondidas atrás das meias enfiadas na cabeça e com três buracos cortados para deixar ver e respirar. Não se conseguia adivinhar quem se escondia do outro lado. Vestiam tudo o que apanhavam à mão: calças, saias, luvas, camisolas, casaco e oleados. Na mão traziam um cajado pesado que impunha um certo respeito. Um pau que marcava o passo com que avançavam. Ninguém sabia quem eram, mas sabiam que eram presença garantida sempre que este dia chegava.

Era noite de festa, rapazes e raparigas juntavam-se e festejavam à sua maneira aquele dia em que tudo era permitido e todos queriam ser outros que não os próprios. 

Todos os  anos era assim. Estava feito o Assalto de Carnaval.