quarta-feira, 14 de junho de 2017

A cruz que se carrega

É a cruz que cada qual tem de carregar. Aquela era a sua e sabia que não devia contestar. Nem podia. A vida é o que é e Deus só dá aquilo que ada um consegue aguentar. 

E é assim que se leva os dias que passam sempre iguais. Uns atrás dos outros, um arrastar de pés sujos do pó que cobre as horas. As cruzes que se leva às costas são as marcas no corpo que aparecem sem que  as anteriores  tenham sarado. O sangue pisado por baixo da pele, as dores no corpo que aguenta mais do que se pensa possível.

A voz masculina é mais forte, mais grave, a que manda mais. Como as mãos. Os punhos cerrados, o corpo que se torna disforme. O monstro que salta da sombra. A mulher que se encolhe, as mãos à procura de protecção, o corpo caído, o choro contido.

É assim em todo o lado. Atrás das portas fechadas, seja casa rica ou casa pobre, é assim que as coisas são. Cada qual com a sua cruz que lhes redime os pecados. Já era assim com os pais, há uma esperança que as filhas escapem a esta sina. Mesmo que não seja falado e que a vergonha tente esconder, sabe-se que é assim.

São outros tempos. Ainda nem a televisão entrava nas casas e a luz eléctrica tardava em iluminar as vergonhas. Os olhos a encarar o chão, o corpo a defender os mais pequenos, a razão perdida no meio dos insultos.

Era sempre assim. Em dia santo ou comum. Sem olhar a horas. Era o que o seu Deus, infinitamente bom, lhes reservava e elas acreditavam que assim era, defendiam a aliança que tinham no dedo e desciam bainhas para esconder as marcas que não desapareciam.

Não tinham para onde se voltar nem mão que se estendesse em seu auxilio. Eram outros tempos. Tempos em que a mulher vergava à frente de quem se dizia seu superior. Tempos em que as noites eram demasiado longas e que, de manhã, doíam no corpo. Não havia razão. Era assim porque assim era.

E quem estava mesmo ao lado virava a cara ao que estava mesmo à sua frente, esquecia os gritos que se ouviam durante a noite. 

É o que condena os que sofrem. As feridas tratadas no silêncio. A ajuda que não chega. E os dias que passam sem que nada mude. Uma cruz que cresce nas costas de quem a carrega.

Vive-se um dia de cada vez. Aguenta-se como se pode. Espera-se que o fim chegue.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Lugar à mesa de trabalho

Vão a caminho do campo para começar mais um dia de trabalho. O sol ainda está baixo e o calor nem se faz sentir. Vão descalços e com roupas pesadas, chapéus de palha e bonés, lenços a tapar o cabelo. Dentro do saco levam o farnel para mais tarde. Um almoço magro, mas suficiente para o que o corpo está habituado. Vai ainda em cru, à espera da fogueira que se vai acender quando a hora se aproximar.

O pão seco e fora de tempo e o bacalhau já passado pelas mudas de água que lhe eram devidas, esperam pela hora de se fazerem ao fogo. 

Os dias não são de abundância, são de trabalho duro. Aperta-se mais o cinto, remenda-se mais uma camisa e enche-se a boca com aquilo que se pode comprar ou com aquilo que nos deixaram pôr na conta da loja que já vai longa. O que interessa é ter algo para dar alento ao corpo e enganar a fome e o estômago.

Quando chega a hora já está o sol a pique e o dia de trabalho já vai a meio. O corpo está cansado, as mãos estão calejado e o suor acumula-se por baixo do lenço. Procura-se uma sombra e os trabalhadores juntam-se à volta da fogueira. 

Tiram o almoço e preparam-se para o manjar. Com a navalha que serve de companhia cortam o pão que esfregam com o alho que entretanto descascaram O aroma forte do picante já se faz sentir. A fatia de pão é regada com um fio de azeite daquele feito com as azeitonas que apanharam. 

O bacalhau e o pão vão ao lume. A lenha estala e vão atiçando o fogo para que não se apague. Quando enfraquece já o pão e a posta de peixe têm as marcas da grelha.

O azeite aromatizado com o alho rega o bacalhau que a acompanhar com o pão com o mesmo tempero.

Come-se com a mão, sem pudor ou etiqueta que valha naquele momento. Mata-se a fome com o petisco pobre dos que pouco têm e que hoje em dia se tornou pitéu de quem parece ter uma vida melhor.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Hora do recreio

Mal se ouve a campainha, abafada pelos gritos e pelas correrias dos que deixam os livros e saem à procura dos minutos brincadeira que lhes são devidos.
Vão ficando por aqui e por ali, espalhados pelo recreio limitado pelos muros da escola. São grupos que se formam em cada espaço livre e começa a ouvir-se as suas cantigas que entram até no ouvido mais distraído.

"Aqui vai o lenço / Aqui fica o lenço"
Em frente à porta forma-se uma roda. Um anda à volta da roda de lenço n amão à procura da vitimo onde o vai largar. No meio, há outro que não tira o olho daquele bocado de tecido à espera da sua oportunidade. Andam assim a roubar lugar uns aos outros com uns quantos encontrões pelo meio e uma cantiga repetida vezes sem conta.

"Que linda falua que lá vem, lá vem / É uma falua que vem de Belém"
Uma fila de meninos percorre a escola até chegar aos dois barqueiros que os esperam. A fila lá passa por baixo dos braços que se transformam em ponte. Vão cantarolando que a falua vem de longe e que há filhos pequeninos para sustentar. Uma tristeza sem fim transformada em alegria na voz daquelas crianças. No fim, há um que fica para trás. Banana ou morango?

"Chega à noite acende uma fogueira / Logo a seguir toca o violão" 
Mesmo na porta da escola juntam-se dois grupos de costas uns para os outros. Estão aos saltinhos enquanto cantam que já conhecem bem as manhas de alguém que não se sabe bem quem é. Antes de voltar tudo ao mesmos, há dois, um dois que dançam enquanto se ouve um iupi iupi ai ai. Coisas de miúdos.

Lá ao fundo, ouve-se o barulho da corda a bater no chão de terra. Duas meninas dão a volta à corda com toda a força que têm enquanto uma ganha balanço para entrar. Salta com os dois pés e com um de cada vez. Faz mais uns malabarismos pelo meio e consegue ganhar à corda. Sem tropeçar. Entra outra e ali ficam, quase sincronizadas, até que a corda se enrola nos pés de uma delas e é altura de dar a vez a mais alguém. "Próximo!"

"É golo! Gooooooooolo!"
Vem lá de longe, por detrás da escola. Miúdos transpirados e cheios de pó, correm de um lado para o outro atrás da bola enquanto gritam por falta para um árbitro que não existe. A bola já viu melhores dias e os sapatos estão marcados de tantos chutos, mas a verdade é que a baliza está mesmo ali e o guarda-redes nem vai perceber por onde é que ela passou antes de ouvir os gritos de #Golo!"

Volta-se a ouvir a campainha. É hora de voltar aos cadernos e aos livro. Lá vão eles, vermelhos de tanta correria, a falar pelos cotovelos que a excitação do recreio não acalma com essa facilidade. Fica a corda esquecida no chão e a bola parada ao fundo da baliza.

Cai o silêncio no recreio que fica à espera que o próximo toque lhe devolva a vida.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Benzer a menina

A menina quebrou. Sentou-se e deixou-se ficar. Não disse uma palavra que fosse e nem se mexeu como era seu costume.

Ali estava. Quieta e calada como nunca a tinham visto. Logo ela que parecia ter energia desde que acordava até fechar os olhos. Agora abria a boca num desespero sonolento que não dava em sono por muito que estivesse metida na cama. Parecia fora do mundo e de si.

Encostaram a mão à testa e espreitaram pela boca aberta. Não havia justificação para a apatia que lhe dominava o corpo. Nem febre nem garganta inflamada.. Perguntavam-lhe o que lhe doía e a resposta era sempre a mesma: "Nada" e nada justificava aquele quebranto que a invadia e preocupava quem a  via assim.

Foi aí que a mãe, deixando a avó de olho na criança, saiu porta fora com destino definido, mas sem dizer ao que ia. Bateu à porta que já conhecia e do lado de lá respondeu-lhe uma voz que já conhecia a ansiedade de quem lhe batia à porta.

- É a menina - disse assim que abriram a porta.

E do lado de lá a porta abriu-se sem que se ouvisse mais perguntas. Não era preciso mais nada além do que já se sabia, o porquê de ali estar estava mais do que explicado.

Começou sem mais demora. O prato com a água e o azeite pronto e a reza que era impossível de entender. Uma ladainha quase cantada .

- Está muito atacada. Está atravessada -  dizia no meio das rezas enquanto o azeite dançava com a água.

E a mãe voltava à filha. A ser o colo daquela pasmaceira em que tinha ficado presa e a esperar que aquele quebranto passe.

Passa mais tarde, sem aviso prévio, tal como apareceu. Num momento está desfalecida na cama e no outro corre pela casa. E a mãe benze-se enquanto respira de alívio, nada daquilo lhe parece normal.

- Ontem só melhorou ao final do dia.

- Foi a última vez que a benzi - respondem.

E a mãe, de coração mais descansado, pensa que foi na mesma altura que o quebranto deixou a sua casa. Abençoada água a dançar com o azeite ao som da ladainha da reza.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ouvi dizer que

As conversas perdem-se. No café e na rua, na esquina da casa ou no quintal quando a vizinha passa para dizer olá. Fala-se do que se sabe e do que se imagina. Diz-se que há quem sonhe de noite e que conte de dia. Seja ou  não verdade, seja assim mesmo ou só aproximado.

- Ouvi dizer que...

Mas será que ouviu mesmo ou acha que ouviu e fala só porque não quer estar calada? Afinal, o silêncio é sempre dificil de lidar e há sempre mais qualquer coisa a dizer. Se não houver, é arranjar.

- Já viste aquele que...

Viu sim senhor e até tem opinião formada sobre aquilo que não chegou a ver. É assim que se fazem as coisas.  Conta-se o que se ouviu da boca de alguém que sabia tanto como nós e acrescenta-se uma opinião feita de preconceitos.

Espreita-se pela janela da casa e aproveita-se que o cortinado ficou mal fechado para espreitar para a privacidade que não nos pertence. 

-Sabias que tem o quarto com...

Não se imagina, mas fica para ouvir que enquanto falam dos outros pode ser que se esqueçam de nós. Fala-se com sussurros e a espreitar por cima do ombro, não vá estar alguém a  ouvir. Braços cruzados no peito, cabeça descaída e lábios junto ao ouvido. 

- Aquilo é uma vergonha...

É sempre. É o vizinho que não tem o carro no sítio do costume quando já passou a hora de estar em casa, são os outros que gritavam uns com os outros, é aquela que abriu a porta aquele.

- Aquilo não anda nada bem...

Naquelas bocas nunca andou. Para aquelas bocas tudo o que se passou atrás daquelas portas foi sempre uma desgraça.

- Ainda no outro dia a encontrei...

E é quase certo que fazia tudo errado: falava com homens que não eram seus, aliviava luto antes de tempo ou corria sem pudores quando toda gente sabe que há coisas que não ficam bem.

- Está tão magra...

O certo é ter alguma doença que nem imagina que existe. Deus nos livre que esteja magra só por estar ou que engorde sem estar desmazelada. Há coisas que são para cumprir e na língua de quem fala à socapa é tudo como se acha que é. A verdade perdeu-se sem que a sua existência chegasse a ser importante.

- Quem é?

Filha de X, casada com Y, viveu para lá do sol posto e sem filhos. Um sem fim de referências até que algo sirva de identificação.

São as conversas que nascem nas cabeças, que crescem nas ruas, que saltam de boca em boca e que pelo caminho perdem a verdade que nem chegaram a ter.

Espreita-se a vida alheia, fala-se de boca cheia e esconde-se a vida própria que ninguém quer que as suas amarguras andem por aí espalhadas nas conversas de uns e de outros.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lugar à mesa

O pão já está duro e seco, já se perdeu a conta aos dias que esteve esquecido no saco do pão, mas ainda está bom e nos dias que correm não se pode desperdiçar um naco de pão, mesmo que esteja seco.

Partem-se fatias do que restou e começa ali o próximo manjar que conforta as barrigas que chegam cheias de fome e que dá alento ao corpo cansado.

A receita passa de geração em geração, sem papel onde esteja escrita. É uma arte que as mãos conhecem de cor, sem necessidade de guias ou cábulas. 

As batatas já cozem às rodelas, os alhos já foram descascados e arranjados. 

Solta-se o aroma do azeite a aquecer no velho tacho. Há pouca coisa que desperta tantas memórias como o cheiro dos tachos a queimar no bico do fogão. O refogado e a sopa a borbulhar, o óleo a aquecer ou o pão a cozer, tudo desperta recordações sem pedir licença. O pão duro que já ninguém quer transforma-se em refeição que nos leva para outros tempos.

A batata cozida e o pão desfeito, o cheiro a azeite quente a alho. O tacho ao lume com aquela pasta esbranquiçada a borbulhar.

Ao lado, o óleo quente pronto a receber o peixe envolto em farinha. As azeitonas à espera na mesa.

Serve-se a manja, rica em tudo o que dizem que nos faz mal, com uma concha bem cheia. O prato a ficar cheio com aquela pasta, o calor a embaciar a vista de quem espera para começar a comer. Uma mão cheia de azeitonas que se largam no prato. As postas de peixe, ainda  a ferver, desfeitas com as mãos, sem cerimónia. 

A comida envolve-se no prato, troca-se o garfo pela colher e saboreia-se o pão e a batata misturada com o peixe e a frescura da azeitona. Um prato de manja e peixe frito, aquece a alma e conforta o estômago.

As tradições mais antigas chegam à mesa de hoje e trazem-nos o calor e a sabedoria de outros tempos. O pão duro, esquecido no saco de pano transforma-se no manjar que nos mata a fome.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O regresso às origens

Ofereceram-lhe uma sachola que lhe chegava à cintura. Uma miniatura comparada com a enxada que os adultos levavam para o terreno e que ainda tinha restos de lama seca.

Ela, miudita com excesso de energia, seguia-os sem saber se as folhas verdes que cresciam no meio da lama eram  ervas ou legumes. 

Era  daquela terra  que  vinha  o  alimento para a família. Aquelas couves que se transformavam em cozido e aquele feijão-verde que acabava numa terrina de sopa de pão. Era a alimentação saudável antes de ser moda, o biológico antes da palavra andar na boca de uns e de outros.

São as mãos calejadas da família que tratam a terra, que arrancam as ervas e limpam as pedras, para que dê o fruto que mata a fome. É um acto de amor na rudeza daquela vida.

As cebolas penduram-se no tecto depois de colhidas, as batatas acumulam-se num barracão sem luz, as favas são arranjadas em alguidares no degrau da porta. 

Comida sem corantes nem conservantes, sem açúcar adicionado e com o mínimo de gordura. Tal como defendem os livros e as teorias hoje em dia. Natural. Um prato de couves cozidas em água e sal e que confortam o estômago quando ainda estamos na hora do lanche.

A vida dura da qual muitos fugiram torna-se a regra na boca dos que defendem o regresso às origens, à simplicidade. O campo invade a cidade sem que os prédios se desfaçam.

E para a menina que ofereceram a sachola, aquela é a vida que conhece.

Os sabores são mais intensos, o cheiro da hortelã solta-se só com o vento e o piri-piri é uma ameaça quando a boca fala o que não deve.

A horta existe, as mãos calejadas é trabalho, os botins são para estar carregados de lama. Uma vida calma e cheia de trabalho. Os frutos arrancados da árvore e esfregados na roupa, os legumes  que sabem a terra,  a menina  que  corre na  horta que se tornou no seu recreio pessoal.  

A  vida saúdavel  e  pura sem  rótulos  da moda  ou das redes sociais.