quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tardes de Matiné

Ela escolhe o melhor vestido dos poucos a que chama seus. O fato domingueiro, o mais bem arranjado e estimado, é o que vai usar esta tarde. Vai bonita e recatada como mandam os bons costumes que qualquer menina digna de respeito cumpre sem hesitar. Não sai sozinha. Onde é que já se viu tal coisa? Uma menina, numa idade destas só sai acompanhada pelos pais para se garantir que o seu comportamento é irrepreensível e que as mãos dos miúdos que por aí andam não se esticam mais do que devem.

Os rapazes não têm quem olhe por eles. Não precisam, a sua honra está sempre a salvo sem nada que a manche e não é uma dança com uma menina que os vai colocar em perigo. Vão sozinhos ou acompanhados dos amigos. Todos da mesma idade, com o sangue a borbulhar nas veias. Homens são homens.

O salão da colectividade, se é que o seu tamanho permite que tenha esse nome, já está arranjado. As cadeiras estão colocadas em filas de cada lado do salão e, ao fundo, o pequeno palco está preparado para receber a música. Não falta nada. Hoje, todos os caminhos vão dar ali. É dia de matiné.

Começam a chegar aos poucos. As meninas acompanhadas dos pais, os rapazes sozinhos. Ouvem-se conversas perdidas, vozes excitadas, risos abafados.  O salão começa a ficar cheio, as cadeiras ocupadas. Rapazes de um lado,  meninas do outro com a mãe sentada ao seu lado.

As meninas aproveitam a conversa da mãe com a vizinha para deitar o olho ao outro lado da sala. Alguém retribui o olhar e elas baixam os olhos e fazem um sorriso discreto. 

Começa a ouvir-se  a concertina. As modinhas enchem a sala e os pés começam a marcar compasso. Os olhares vagueiam de um lado para o outro da sala, as cabeças e as mãos fazem sinais quase imperceptíveis.

Um "queres dançar" por gestos para a menina do lado de lá, aquela com quem ele engraçou. Se a resposta for não, por mais discreto que seja, é um não à vista de todos e isso tem o seu peso no orgulho de um rapaz. Mas respondem-lhe com um incentivo para que se aproxime e ele, mesmo com os olhos da mãe da sua escolhida pregados em si, avança pelo salão. 

E dançam. Controlando as distâncias, deixando a mão bem alta e quase sem trocar uma palavra. A modinha toca e eles aproveitam aquele tempo que é seu. Um olhar desviado, um sorriso tímido e a separação no final da música que dançar muito tempo com o mesmo pode fazer com que o pai da menina comece uma discussão de meia noite.

Assim começa o rapaz a cortejar a menina. Controlando os movimentos, poupando nas palavras e trocando olhares de um lado para o outro da sal. Sem direito a privacidade que isso é um luxo que nem o casamento dá. 

Se tudo correr bem, aquela dança leva a outra e a umas visitas em companhia dos pais. Se tudo correr bem ele ainda a vai levar ao altar e um dia serão eles a controlar os movimentos na salão da matiné.

As coisas às vezes começam por muito menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ai meu rico santo

Os dias longos anunciavam o Verão que estava mesmo a chegar. Tempo quente e noites cada vez mais curtas a chamar os vizinhos para a rua. 

Metiam-se as comemorações dos dias santos nos quais não se trabalha que tal coisa é pecado. Dia santo é descanso e devoção, dias de santos é tradição.

A fogueira preparava-se todos os anos no mesmo sítio onde sempre tinha sido. Lá no largo já todos a esperavam. Troncos grossos prontos a arder noite dentro com o fogo a iluminar as conversas e a noite de folia. Estão todos convidados mesmo sem convite formal. Já se sabe que é assim, todos os anos igual.

Quando o sol começa a fugir e a noite quente começa avança, já a fogueira arde em labaredas que metem respeito. O ar fica impregnado com o aroma a rosmaninho que se lança ao fogo e que desperta as memórias das noites de santos que por ali se vivem desde que se nasceu.

Há sempre música e qualquer coisa que acalme o estômago. Juntam-se homens e mulheres, novos e velhos. 

- Ai malandro.

Os miúdos saltam a fogueira sem medo num ritual de passagem em que parecem mostrar que já cresceram mais do que aparentam. Lá vão eles, atrás uns dos outros a saltar troncos que se desfazem em cinzas e com as labaredas a morder as pernas.

É uma noite para esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, é noite de festa.

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite. Um dia que finda e outro que principia e as meninas que agarram na alcachofra fechada que colheram nessa tarde. Ao som das doze badaladas avançam para a fogueira e queimam a planta na fogueira. 

- Ai meu rico santinho - pensam para si enquanto guardam as alcachofras chamuscadas das labaredas.

Levam-nas consigo para casa, escolhem uma jarra e deixam-nas em água durante a noite. Ficam em cima da cómoda, mesmo aos pés da cama, e esperam pela manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer faça florescer a alcachofra chamuscada. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é seu para a vida, mas se não florescer é porque não está destinado a acontecer. 

É a alcachofra que abençoa o casamento que se ambiciona.

Mais um ano de festejos, de pedidos a Santo António e saltos corajosos à fogueira. Mais um ano de corações apaixonados a confiar no que alcachofra tem para contar. 

Viva Santo António. Viva São João.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A cruz que se carrega

É a cruz que cada qual tem de carregar. Aquela era a sua e sabia que não devia contestar. Nem podia. A vida é o que é e Deus só dá aquilo que ada um consegue aguentar. 

E é assim que se leva os dias que passam sempre iguais. Uns atrás dos outros, um arrastar de pés sujos do pó que cobre as horas. As cruzes que se leva às costas são as marcas no corpo que aparecem sem que  as anteriores  tenham sarado. O sangue pisado por baixo da pele, as dores no corpo que aguenta mais do que se pensa possível.

A voz masculina é mais forte, mais grave, a que manda mais. Como as mãos. Os punhos cerrados, o corpo que se torna disforme. O monstro que salta da sombra. A mulher que se encolhe, as mãos à procura de protecção, o corpo caído, o choro contido.

É assim em todo o lado. Atrás das portas fechadas, seja casa rica ou casa pobre, é assim que as coisas são. Cada qual com a sua cruz que lhes redime os pecados. Já era assim com os pais, há uma esperança que as filhas escapem a esta sina. Mesmo que não seja falado e que a vergonha tente esconder, sabe-se que é assim.

São outros tempos. Ainda nem a televisão entrava nas casas e a luz eléctrica tardava em iluminar as vergonhas. Os olhos a encarar o chão, o corpo a defender os mais pequenos, a razão perdida no meio dos insultos.

Era sempre assim. Em dia santo ou comum. Sem olhar a horas. Era o que o seu Deus, infinitamente bom, lhes reservava e elas acreditavam que assim era, defendiam a aliança que tinham no dedo e desciam bainhas para esconder as marcas que não desapareciam.

Não tinham para onde se voltar nem mão que se estendesse em seu auxilio. Eram outros tempos. Tempos em que a mulher vergava à frente de quem se dizia seu superior. Tempos em que as noites eram demasiado longas e que, de manhã, doíam no corpo. Não havia razão. Era assim porque assim era.

E quem estava mesmo ao lado virava a cara ao que estava mesmo à sua frente, esquecia os gritos que se ouviam durante a noite. 

É o que condena os que sofrem. As feridas tratadas no silêncio. A ajuda que não chega. E os dias que passam sem que nada mude. Uma cruz que cresce nas costas de quem a carrega.

Vive-se um dia de cada vez. Aguenta-se como se pode. Espera-se que o fim chegue.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Lugar à mesa de trabalho

Vão a caminho do campo para começar mais um dia de trabalho. O sol ainda está baixo e o calor nem se faz sentir. Vão descalços e com roupas pesadas, chapéus de palha e bonés, lenços a tapar o cabelo. Dentro do saco levam o farnel para mais tarde. Um almoço magro, mas suficiente para o que o corpo está habituado. Vai ainda em cru, à espera da fogueira que se vai acender quando a hora se aproximar.

O pão seco e fora de tempo e o bacalhau já passado pelas mudas de água que lhe eram devidas, esperam pela hora de se fazerem ao fogo. 

Os dias não são de abundância, são de trabalho duro. Aperta-se mais o cinto, remenda-se mais uma camisa e enche-se a boca com aquilo que se pode comprar ou com aquilo que nos deixaram pôr na conta da loja que já vai longa. O que interessa é ter algo para dar alento ao corpo e enganar a fome e o estômago.

Quando chega a hora já está o sol a pique e o dia de trabalho já vai a meio. O corpo está cansado, as mãos estão calejado e o suor acumula-se por baixo do lenço. Procura-se uma sombra e os trabalhadores juntam-se à volta da fogueira. 

Tiram o almoço e preparam-se para o manjar. Com a navalha que serve de companhia cortam o pão que esfregam com o alho que entretanto descascaram O aroma forte do picante já se faz sentir. A fatia de pão é regada com um fio de azeite daquele feito com as azeitonas que apanharam. 

O bacalhau e o pão vão ao lume. A lenha estala e vão atiçando o fogo para que não se apague. Quando enfraquece já o pão e a posta de peixe têm as marcas da grelha.

O azeite aromatizado com o alho rega o bacalhau que a acompanhar com o pão com o mesmo tempero.

Come-se com a mão, sem pudor ou etiqueta que valha naquele momento. Mata-se a fome com o petisco pobre dos que pouco têm e que hoje em dia se tornou pitéu de quem parece ter uma vida melhor.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Hora do recreio

Mal se ouve a campainha, abafada pelos gritos e pelas correrias dos que deixam os livros e saem à procura dos minutos brincadeira que lhes são devidos.
Vão ficando por aqui e por ali, espalhados pelo recreio limitado pelos muros da escola. São grupos que se formam em cada espaço livre e começa a ouvir-se as suas cantigas que entram até no ouvido mais distraído.

"Aqui vai o lenço / Aqui fica o lenço"
Em frente à porta forma-se uma roda. Um anda à volta da roda de lenço n amão à procura da vitimo onde o vai largar. No meio, há outro que não tira o olho daquele bocado de tecido à espera da sua oportunidade. Andam assim a roubar lugar uns aos outros com uns quantos encontrões pelo meio e uma cantiga repetida vezes sem conta.

"Que linda falua que lá vem, lá vem / É uma falua que vem de Belém"
Uma fila de meninos percorre a escola até chegar aos dois barqueiros que os esperam. A fila lá passa por baixo dos braços que se transformam em ponte. Vão cantarolando que a falua vem de longe e que há filhos pequeninos para sustentar. Uma tristeza sem fim transformada em alegria na voz daquelas crianças. No fim, há um que fica para trás. Banana ou morango?

"Chega à noite acende uma fogueira / Logo a seguir toca o violão" 
Mesmo na porta da escola juntam-se dois grupos de costas uns para os outros. Estão aos saltinhos enquanto cantam que já conhecem bem as manhas de alguém que não se sabe bem quem é. Antes de voltar tudo ao mesmos, há dois, um dois que dançam enquanto se ouve um iupi iupi ai ai. Coisas de miúdos.

Lá ao fundo, ouve-se o barulho da corda a bater no chão de terra. Duas meninas dão a volta à corda com toda a força que têm enquanto uma ganha balanço para entrar. Salta com os dois pés e com um de cada vez. Faz mais uns malabarismos pelo meio e consegue ganhar à corda. Sem tropeçar. Entra outra e ali ficam, quase sincronizadas, até que a corda se enrola nos pés de uma delas e é altura de dar a vez a mais alguém. "Próximo!"

"É golo! Gooooooooolo!"
Vem lá de longe, por detrás da escola. Miúdos transpirados e cheios de pó, correm de um lado para o outro atrás da bola enquanto gritam por falta para um árbitro que não existe. A bola já viu melhores dias e os sapatos estão marcados de tantos chutos, mas a verdade é que a baliza está mesmo ali e o guarda-redes nem vai perceber por onde é que ela passou antes de ouvir os gritos de #Golo!"

Volta-se a ouvir a campainha. É hora de voltar aos cadernos e aos livro. Lá vão eles, vermelhos de tanta correria, a falar pelos cotovelos que a excitação do recreio não acalma com essa facilidade. Fica a corda esquecida no chão e a bola parada ao fundo da baliza.

Cai o silêncio no recreio que fica à espera que o próximo toque lhe devolva a vida.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Benzer a menina

A menina quebrou. Sentou-se e deixou-se ficar. Não disse uma palavra que fosse e nem se mexeu como era seu costume.

Ali estava. Quieta e calada como nunca a tinham visto. Logo ela que parecia ter energia desde que acordava até fechar os olhos. Agora abria a boca num desespero sonolento que não dava em sono por muito que estivesse metida na cama. Parecia fora do mundo e de si.

Encostaram a mão à testa e espreitaram pela boca aberta. Não havia justificação para a apatia que lhe dominava o corpo. Nem febre nem garganta inflamada.. Perguntavam-lhe o que lhe doía e a resposta era sempre a mesma: "Nada" e nada justificava aquele quebranto que a invadia e preocupava quem a  via assim.

Foi aí que a mãe, deixando a avó de olho na criança, saiu porta fora com destino definido, mas sem dizer ao que ia. Bateu à porta que já conhecia e do lado de lá respondeu-lhe uma voz que já conhecia a ansiedade de quem lhe batia à porta.

- É a menina - disse assim que abriram a porta.

E do lado de lá a porta abriu-se sem que se ouvisse mais perguntas. Não era preciso mais nada além do que já se sabia, o porquê de ali estar estava mais do que explicado.

Começou sem mais demora. O prato com a água e o azeite pronto e a reza que era impossível de entender. Uma ladainha quase cantada .

- Está muito atacada. Está atravessada -  dizia no meio das rezas enquanto o azeite dançava com a água.

E a mãe voltava à filha. A ser o colo daquela pasmaceira em que tinha ficado presa e a esperar que aquele quebranto passe.

Passa mais tarde, sem aviso prévio, tal como apareceu. Num momento está desfalecida na cama e no outro corre pela casa. E a mãe benze-se enquanto respira de alívio, nada daquilo lhe parece normal.

- Ontem só melhorou ao final do dia.

- Foi a última vez que a benzi - respondem.

E a mãe, de coração mais descansado, pensa que foi na mesma altura que o quebranto deixou a sua casa. Abençoada água a dançar com o azeite ao som da ladainha da reza.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ouvi dizer que

As conversas perdem-se. No café e na rua, na esquina da casa ou no quintal quando a vizinha passa para dizer olá. Fala-se do que se sabe e do que se imagina. Diz-se que há quem sonhe de noite e que conte de dia. Seja ou  não verdade, seja assim mesmo ou só aproximado.

- Ouvi dizer que...

Mas será que ouviu mesmo ou acha que ouviu e fala só porque não quer estar calada? Afinal, o silêncio é sempre dificil de lidar e há sempre mais qualquer coisa a dizer. Se não houver, é arranjar.

- Já viste aquele que...

Viu sim senhor e até tem opinião formada sobre aquilo que não chegou a ver. É assim que se fazem as coisas.  Conta-se o que se ouviu da boca de alguém que sabia tanto como nós e acrescenta-se uma opinião feita de preconceitos.

Espreita-se pela janela da casa e aproveita-se que o cortinado ficou mal fechado para espreitar para a privacidade que não nos pertence. 

-Sabias que tem o quarto com...

Não se imagina, mas fica para ouvir que enquanto falam dos outros pode ser que se esqueçam de nós. Fala-se com sussurros e a espreitar por cima do ombro, não vá estar alguém a  ouvir. Braços cruzados no peito, cabeça descaída e lábios junto ao ouvido. 

- Aquilo é uma vergonha...

É sempre. É o vizinho que não tem o carro no sítio do costume quando já passou a hora de estar em casa, são os outros que gritavam uns com os outros, é aquela que abriu a porta aquele.

- Aquilo não anda nada bem...

Naquelas bocas nunca andou. Para aquelas bocas tudo o que se passou atrás daquelas portas foi sempre uma desgraça.

- Ainda no outro dia a encontrei...

E é quase certo que fazia tudo errado: falava com homens que não eram seus, aliviava luto antes de tempo ou corria sem pudores quando toda gente sabe que há coisas que não ficam bem.

- Está tão magra...

O certo é ter alguma doença que nem imagina que existe. Deus nos livre que esteja magra só por estar ou que engorde sem estar desmazelada. Há coisas que são para cumprir e na língua de quem fala à socapa é tudo como se acha que é. A verdade perdeu-se sem que a sua existência chegasse a ser importante.

- Quem é?

Filha de X, casada com Y, viveu para lá do sol posto e sem filhos. Um sem fim de referências até que algo sirva de identificação.

São as conversas que nascem nas cabeças, que crescem nas ruas, que saltam de boca em boca e que pelo caminho perdem a verdade que nem chegaram a ter.

Espreita-se a vida alheia, fala-se de boca cheia e esconde-se a vida própria que ninguém quer que as suas amarguras andem por aí espalhadas nas conversas de uns e de outros.