quarta-feira, 26 de julho de 2017

A fotografia

Era sempre assim quando chegava o Verão. O tempo quente trazia de volta quem pertencia ali. Vinham da cidade. Para onde se tinham mudado e onde a vida lhes sorria um bocadinho mais do que aos que tinham ficado para trás.

Voltavam para abraçar os seus. Rever aquelas caras que se esbatiam com o tempo. Às vezes era difícil recordar a expressão daquela vizinha que os vira nascer. Começava a faltar o nome à outra que costumava vender o azeite que a mãe lhes pedia para ir buscar. A distância era culpada. 

Vinham visitar os irmãos. Conhecer os sobrinhos. Dar um beijo à mãe que já estava a perder as forças.

- É a idade, filho - dizia enquanto lhe dava uma palmadinha da face - Os teus miúdos, como estão?

Estavam bem. Crescidos e reguilas como se quer para as crianças daquela idade. 

Os irmão trabalhavam no campo e o sol ainda ia alto. A hora da despega estava longe, era preciso saber esperar que voltassem depois do dia de trabalho. Os visitantes, filhos daquela terra, percorriam aquelas ruas que tinham sido suas enquanto cumprimentavam as vizinhas de sempre. As mesmas pessoas  com os anos a marcar-lhes o corpo. A levar-lhes a vista e a toldar a memória.

A vida ali ainda era sua. Aqueles caminhos ainda lhes pertenciam. Mesmo que a vivessem longe. 

Ao final da tarde, quando o dia de trabalho tinha sido dado por terminado, os irmão apareciam. Viam-nos ao cimo da estrada com o grupo de trabalho que os acompanhava. Descalços. Elas de cesta à cabeça. Eles de enxada ao ombro. cansados do dia e a limpar o suor que lhes escorria pela testa.

- Oh irmã - gritavam aos seus que se aproximavam.

E ali, no meio da rua, se faziam os cumprimentos. Sem cerimónia que não era todos os dias que os seus voltavam a casa. E os olhos demoravam no outro, para reconhecer as feições. Para perceber o que tinha mudado num ano. Um só ano e tanta coisa diferente.

- Bons olhos te vejam.

E os miúdos corriam de um lado para o outro. Os primos da cidade com os do campo. Enquanto os mais velho pegavam numa manta das antigas e a estendiam à sombra das árvores grandes. Ali no meio do campo. A família reunida debaixo das oliveiras, os miúdos de um lado para o outro e os mais velhos a matar as saudades.

- Agora fiquem todos aí - dizia o irmão que tinha vindo lá de longe.

E eles ali ficavam. Sentados no chão. Com a mãe lá ao fundo, já com o peso dos anos a fazer-se sentir. Os irmãos sentados no chão com os filhos mais novos ao colo. Os filhos mais velho sentados a uma ponta da manta. Uns descalços que o dinheiro não dá para tudo.

E fica aquele quadro imortalizado na fotografia que o filho estrangeiro tira. A família reunida numa tarde Verão. Com aquele calor que traz de volta a casa aqueles que um dia se aventuraram no mundo.



sábado, 22 de julho de 2017

Lá pela terra por outras paragens

Quando digo que vivo numa aldeia a 60km de Lisboa, perguntam-me muitas vezes se há cinema por lá. Não percebo o porquê, mas é das primeiras perguntas.

Foi assim que começou este blogue, porque escrevi um texto sobre esta coisa de viver fora da capital e alguém me disse "Porque é que não começas um blogue?". E eu comecei.

Depois continuei a escrever sobre as histórias que vou ouvindo. Aquelas histórias que a avó conta de tempos que não conheço ou que os senhores partilham à mesa do café. Gosto de cidades pequenas, de aldeias perdidas por aí onde ainda se vive de maneira diferente. Onde ainda se saboreia as pequenas coisas e onde se percebe que todos nós temos algo para ensinar. Gosto destas histórias de tempos antigos e de vidas longe das avenidas movimentadas e dos prédios altos.


Agora os textos deste blogue vão aparecer na Revista Dada. Na versão online e na versão em papel. Textos diferentes, mas sempre sobre esta coisa de viver lá pela terra.

Estou muito contente por ver os meus textos, que têm tanto deste concelho onde nasci, publicados numa revista de cá.

A rubrica online está aqui. A revista sai no início do próximo mês. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os meninos da colónia

Tão pequenos e lá vão eles de mala na mão. Lá dentro não levam mais do que um sabonete e as poucas mudas de roupa que o dinheiro permite. Mesmo assim, já levam mais umas só caso seja preciso. Entram na camioneta que os leva lá para longe, para umas semanas de férias. Lá vão eles, miúdos pequenos a deixar os pais e os irmãos na terra e a partir a caminho da praia. 

Quando lá chegam, são levados para o banho. Entregam-lhes o bibe que é a farda oficial. Azul aos quadrados branco para os meninos, vermelho aos quadrados brancos para as meninas. Têm direito a um fato de banho que será seu nos próximos dias. 

- Temos de arranjar maneira de sair daqui - pensam alguns deles quando a saudade da família fala mais forte. Nem o azul do mar é capaz de sossegar aqueles corações pequeninos que nunca ficaram longe dos seus.

Não arranjam como sair, mas não deixam de pensar nisso todos os dias.

Fazem o caminho até ao mar em fila indiana, muito bem alinhados uns atrás dos outros. Muitos deles pisam areia daquela pela primeira vez. Não é como a terra lá da aldeia que suja os pés quando jogam à bola. É mais áspera. Quando chegam à beira mar encontram umas pedras muito polidas que escondem conchas que eles nunca tinham visto.

E ficam ali na areia todos juntos. Cercados por paus de madeira e cordas que marcam o espaço onde devem ficar. Não podem sair dali. Só podem ir à água quando assim lhes for dito e nem todos podem ir. Muitos já ouviram falar no mar, outros já não são novatos nestas andanças, mas a sensação da brisa do mar, húmida e salgada, a refrescar-lhes a cara é sempre única.

Ali estão os meninos tão pequeninos e já com tanto para contar.

Têm direito a lanche na praia. As senhoras chegam com as cestas à cabeça cheias de pão para o lanche. Um para cada um, para matar a fome que o ar da praia dá.

Quando chega a hora de voltar, lá vão eles todos juntos, em fila indiana, a subir a rua. quando chega a hora da refeição o refeitório fica cheio com as vozes miudinhas. Lá pelo meio, há um que vai cantarolando para entreter os restantes. É o espetáculo a que têm direito. No prato levam comida que lhes parece estranha, que às vezes não lhes sabe tão bem como as sopas que a mãe fazia, mas que comem para confortar o estômago que já reclama por alimento.

Quando a noite chega, recolhem às camas à hora certa. O relógio dá o sinal para recolher e cada um deita-se na cama que lhes foi atribuída. Estão marcadas com um número que passa a ser o seu. 

Assim se passam os dias com vontade de voltar para casa. Se tiverem sorte, pode ser que uma excursão traga caras conhecidas para os visitar. 

- Olha quem está aqui - dizem as visitas inesperadas quando os encontram sentados na areia no espaço marcado pelas cordas.

E assim se mata um bocadinho da saudade que aperta aqueles corações.

Dias de praia. Com mar e sol. Com os colegas da sua idade, uns mais sabidos do que outros, que é assim a vida.

Depois voltam a casa. Quando os seus dias de férias terminarem. Fica o bibe e o fato de banho para trás, a cama desfeita com o número que era seu. Voltam à sua terra e aos seus e o coração fica cheio. Na mala levam o que restou do sabonete, as roupas desarrumadas e uma casinha de barro para oferecer aos pais. 

Os meninos estão de volta na mesma camioneta que os levou.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Tardes de Verão

No Verão parecia que  as horas duravam muito mais do que os sessenta minutos que lhes eram destinados. Três meses de férias em que o calor conseguia entrar pelas janelas fechadas e que convidava o corpo a molengar pelos sofás.

O dia começava quando a hora de almoço já estava a chegar. O dia anterior tinha terminado tarde porque em tempo de férias não há quem queira deitar cedo. Férias são férias e os miúdos são todos iguais. 

A meio da tarde, quando o calor ainda se sente, mas já se começam a sentir as tréguas, alguém bate à porta.

- Vamos? - perguntam assim que a porta se abre.

- 'Bora - respondem do outro lado. 

Não há molenguice que entre naquele corpo nem calor que assuste. Fazem-se à estrada de bicicleta na mão e com uma garrafa de água na mochila. Seguem caminho a bater às portas do costume. 

Não têm telemóveis e ninguém sabe para onde vão. Sabem só que saíram tal como é costume nestes dias de férias numa tentativa de combater a monotonia dos dias de Verão. Foram sem destino.

- Seguiram lá para cima - diria alguém se perguntassem pelas bicicletas que saíram todas juntas.

Fazem-se à estrada sem saber para onde vão e sem parar de falar. Há sempre qualquer coisa para contar.

Percorrem as estradas que já conhecem e aventuram-se por outras que não sabem bem onde vão dar. Partem rumo à aldeia vizinha e seguem para a outra que vem logo a seguir. Sem parar de pedalar.

- Mas esta estrada não tem fim?

Não há bussolas nem GPS. Nada que lhes indique o caminho além das tabuletas com os nomes das terras que lhes são familiares. Vão para onde querem. Decidem virar só porque acham que o caminho por ali é mais bonito ou mais aventureiro.

Passam nas aldeias mais pequenas que a sua e cumprimentam os mais velhos que se sentam à beira da estrada a ver quem passa. Não os conhecem.

- Não consigo subir aquilo.

Levam a bicicleta pela mão quando faltam as forças nas pernas. Param uns minutos e partilham a água, contam os trocos para ver se podem comprar mais uma no café da próxima terra. Pode ser que esteja fresca.

Fazem o caminho de volta quando o sol começa a descer e o tempo refresca. Caras vermelhas e respiração ofegante, corpo queimado do sol.

Param à porta de casa. Bicicletas deixadas caídas no passeio enquanto se sentam a recuperar do cansaço. Os seus risos ouvem-se à distância, os seus gritos chegam onde não as conseguem ver.

Despedem-se quando a mãe aparece a dar sinal que é hora de jantar. Pegam nas bicicletas e separam-se de volta às suas casas. Cabelo em desalinho e corpo a colar.

- Até amanhã!

- Eu passo pela tua casa!

Não é preciso mais nada. O dia seguinte está combinado.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O ritual da barba

Havia alguma coisa de ritual em tudo aquilo. Um técnica rústica, agressiva, mas simples. Um cortar sem medo, decidido e certo.

Eram outros tempos em que a espuma não vinha numa lata e em que as lâminas não se adaptavam ao rosto. Não importava se no final a pele estava suave ou áspera. Ao toque das mãos de trabalho a pele do homem seria sempre agressiva.

Faziam a barba onde calhava. Tanto dava ser ao lado de uma janela cheia de sol ou só com uma nesga de luz a entrar pela porta da rua. 

O espelho, sem direito a moldura e já comido pelo passar do tempo, ficava pendurado num prego que tinha sido arranjado à pressa. Uma solução frágil, mas que mesmo assim conseguia aguentar-se na parede.

Por baixo, uma bacia cheia de água quente estava apoiada numa daquelas armações de ferro que nos dias de hoje servem de decoração nas casas de campo. Ali penduravam a toalha pronta a entrar ao serviço.

Numa taça preparavam o creme branco. O sabão bem mexido com o pincel de pêlos brancos que também servia para o espalhar na cara. A barba escura e forte, começava a ficar coberta pelo sabão transformado em espuma. O queixo levantado e os lábios puxados para cima para cobrir o pescoço de espuma.  A cara ensaboada estava pronta para o corte.

Os homens ficavam em mangas de camisa em frente ao espelho mal iluminado, curvados para à frente numa tentativa de ver melhor a cara coberta de espuma. A lâmina passava a ocupar o lugar do pincel.

As lâminas afiadas estavam guardadas num papel, bem protegidas de mãos alheias. Eram retiradas com cuidado e colocadas no barbeador em posição de corte. Mergulhavam a lâmina na água quente antes de levar à face.

Quando passava na pele ouvia-se a luta entre a barba e a lâmina afiada, um arranhar arrastado e profundo.

Era um trabalho que levava tempo. A precisão do corte para levar só a barba e a espuma. O risco vermelho que aparecia quando a lâmina ia mais funco do que o que devia. A lâmina a bater na bacia para largar os pêlos e a passar na água para limpar a lâmina. A água a ficar com um tom escuro. A espuma do sabão a boiar à superfície. O repetir dos gestos.

Quando o trabalho se dá por terminado, as mãos em concha levam a água até à cara para limpar oque restava da espuma. A cara ficava de barba desfeita e com pequenos pontos vermelhos que escorriam até ao queixo. 

A toalha limpava o que a água não conseguia levar, arrumava-se o material no sitio devido à espera da próxima vez e a água da bacia era lançada à rua sem se ver onde ia parar.

A barba estava desfeita.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tardes de Matiné

Ela escolhe o melhor vestido dos poucos a que chama seus. O fato domingueiro, o mais bem arranjado e estimado, é o que vai usar esta tarde. Vai bonita e recatada como mandam os bons costumes que qualquer menina digna de respeito cumpre sem hesitar. Não sai sozinha. Onde é que já se viu tal coisa? Uma menina, numa idade destas só sai acompanhada pelos pais para se garantir que o seu comportamento é irrepreensível e que as mãos dos miúdos que por aí andam não se esticam mais do que devem.

Os rapazes não têm quem olhe por eles. Não precisam, a sua honra está sempre a salvo sem nada que a manche e não é uma dança com uma menina que os vai colocar em perigo. Vão sozinhos ou acompanhados dos amigos. Todos da mesma idade, com o sangue a borbulhar nas veias. Homens são homens.

O salão da colectividade, se é que o seu tamanho permite que tenha esse nome, já está arranjado. As cadeiras estão colocadas em filas de cada lado do salão e, ao fundo, o pequeno palco está preparado para receber a música. Não falta nada. Hoje, todos os caminhos vão dar ali. É dia de matiné.

Começam a chegar aos poucos. As meninas acompanhadas dos pais, os rapazes sozinhos. Ouvem-se conversas perdidas, vozes excitadas, risos abafados.  O salão começa a ficar cheio, as cadeiras ocupadas. Rapazes de um lado,  meninas do outro com a mãe sentada ao seu lado.

As meninas aproveitam a conversa da mãe com a vizinha para deitar o olho ao outro lado da sala. Alguém retribui o olhar e elas baixam os olhos e fazem um sorriso discreto. 

Começa a ouvir-se  a concertina. As modinhas enchem a sala e os pés começam a marcar compasso. Os olhares vagueiam de um lado para o outro da sala, as cabeças e as mãos fazem sinais quase imperceptíveis.

Um "queres dançar" por gestos para a menina do lado de lá, aquela com quem ele engraçou. Se a resposta for não, por mais discreto que seja, é um não à vista de todos e isso tem o seu peso no orgulho de um rapaz. Mas respondem-lhe com um incentivo para que se aproxime e ele, mesmo com os olhos da mãe da sua escolhida pregados em si, avança pelo salão. 

E dançam. Controlando as distâncias, deixando a mão bem alta e quase sem trocar uma palavra. A modinha toca e eles aproveitam aquele tempo que é seu. Um olhar desviado, um sorriso tímido e a separação no final da música que dançar muito tempo com o mesmo pode fazer com que o pai da menina comece uma discussão de meia noite.

Assim começa o rapaz a cortejar a menina. Controlando os movimentos, poupando nas palavras e trocando olhares de um lado para o outro da sal. Sem direito a privacidade que isso é um luxo que nem o casamento dá. 

Se tudo correr bem, aquela dança leva a outra e a umas visitas em companhia dos pais. Se tudo correr bem ele ainda a vai levar ao altar e um dia serão eles a controlar os movimentos na salão da matiné.

As coisas às vezes começam por muito menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ai meu rico santo

Os dias longos anunciavam o Verão que estava mesmo a chegar. Tempo quente e noites cada vez mais curtas a chamar os vizinhos para a rua. 

Metiam-se as comemorações dos dias santos nos quais não se trabalha que tal coisa é pecado. Dia santo é descanso e devoção, dias de santos é tradição.

A fogueira preparava-se todos os anos no mesmo sítio onde sempre tinha sido. Lá no largo já todos a esperavam. Troncos grossos prontos a arder noite dentro com o fogo a iluminar as conversas e a noite de folia. Estão todos convidados mesmo sem convite formal. Já se sabe que é assim, todos os anos igual.

Quando o sol começa a fugir e a noite quente começa avança, já a fogueira arde em labaredas que metem respeito. O ar fica impregnado com o aroma a rosmaninho que se lança ao fogo e que desperta as memórias das noites de santos que por ali se vivem desde que se nasceu.

Há sempre música e qualquer coisa que acalme o estômago. Juntam-se homens e mulheres, novos e velhos. 

- Ai malandro.

Os miúdos saltam a fogueira sem medo num ritual de passagem em que parecem mostrar que já cresceram mais do que aparentam. Lá vão eles, atrás uns dos outros a saltar troncos que se desfazem em cinzas e com as labaredas a morder as pernas.

É uma noite para esquecer os dias sempre iguais e as tristezas que a vida dá. Para se rezar a Santo António e beijar a medalha de São João enquanto se roga um pedido. É dia de santos, é noite de festa.

O sino da igreja dá o sinal de meia-noite. Um dia que finda e outro que principia e as meninas que agarram na alcachofra fechada que colheram nessa tarde. Ao som das doze badaladas avançam para a fogueira e queimam a planta na fogueira. 

- Ai meu rico santinho - pensam para si enquanto guardam as alcachofras chamuscadas das labaredas.

Levam-nas consigo para casa, escolhem uma jarra e deixam-nas em água durante a noite. Ficam em cima da cómoda, mesmo aos pés da cama, e esperam pela manhã. Deitam-se de coração esperançoso que o amanhecer faça florescer a alcachofra chamuscada. Se assim for, o amor que aquece o seu coração é seu para a vida, mas se não florescer é porque não está destinado a acontecer. 

É a alcachofra que abençoa o casamento que se ambiciona.

Mais um ano de festejos, de pedidos a Santo António e saltos corajosos à fogueira. Mais um ano de corações apaixonados a confiar no que alcachofra tem para contar. 

Viva Santo António. Viva São João.