quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nas carteiras da escola

Eles já iam a caminho da escola. Cabelos empapados em suor de andar aos pontapés numa bola de trapos. Cansados. Elas ainda esperavam enquanto eles iam indo. 

Esperavam à porta. Todos os dias. Fosse dia de sol ou estivessem num Inverno intenso. Pequeninas e de nariz arrebitado. Bata branca para todas e sapatos só para algumas. Tal como os meninos. Mas elas, bem comportadas e sorridentes, esperavam a professora para a acompanhar à escola. 

Os livros e os cadernos iam dentro das malas que levavam pela mão. Nem sempre de grande qualidade, mas serviam o propósito a que se propunham. Pelo menos para quem tinha cadernos para guardar e livros para ler. Havia uns quantos que entravam de mãos a abanar e olhar malandro que baixavam assim que passavam a porta. Era preciso cumprir as regras.

Respeito era o que se pretendia. Os professores eram a autoridade e os meninos obedeciam. Os meninos e as meninas. Podiam estar separados e elas podiam ganhar em comportamento, mas as regras eram iguais. Dos dois lados do muro. Sem excepção. Quem ousava pisar o risco tinha a régua à sua espera. Ou a cana. Usadas sem dó nem piedade ou arrependimento que lhes valesse. O que se quer é rigidez sem discussão ou reclamação. Era assim e mais nada. Ponto final.

E lá se sentavam dois a dois nas cadeiras de madeira, altas de mais para as suas pernas que ficavam a baloiçar. Atenção ao quadro, à professora. Aprender a ler e a escrever. Saber o nome dos rios e cognome dos reis. Isso e a tabuada. Tudo na ponta da língua sem hesitação na hora da responder. Não havia tempo para hesitações ou respostas ao lado.

- Dona Josefina.

Chamavam a professora com toda a delicadeza, mas pelas costas inventavam-lhe nomes menos próprios. A professora era exemplar nos castigos, eles eram exemplares nas alcunhas. Olho por olho. De tal maneira que anos mais tarde vão lembrar-se da alcunha, mas o nome perdeu-se para sempre.

No recreio as meninas saltam ao eixo e os rapazes espreitam do outro lado do muro. As pernas das meninas dão sempre azo a curiosidade. Depois entram na sala e rezam como mandam os bons costumes. Cantam o hino de mão ao peito e voz colocada como manda a devoção à pátria.

Amanhã há um deles que vai faltar, mas ninguém vai dar por isso. É normal. A escola é obrigatória, mas o dinheiro do trabalho é essencial. Faltam outro e outro logo a seguir. Um dia nem a professora que os controla na missa de Domingo se vai lembrar do aluno em falta.

A escola continua lá. Com  a cana à espera de quem pisa o risco. Com as meninas a acompanhar a professora. Com os meninos a espreitar para o outro lado do muro. Continua tudo lá até ser hora de levar o pão para casa.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A apanha

Com o final dos dias quentes vinham as carrinhas. Já eram esperadas. As carrinhas e as mulheres que levavam e traziam. O trabalho de campo esperava-as. O pó, o calor, os músculos doridos. Todos os anos esperavam pela carrinha que as levava de manhã cedo e as devolvia ao final do dia-

Eram mulheres de trabalho. Bata traçada, relógio pendurado na alça, lenço atado à volta da cabeça. As pernas escondidas pelas calças grossas e os pés metidos nos sapatos de trabalho. Sujos de pó, às vezes já a romper do esforço.

Levavam uma cesta com o almoço. Um bocadinho de conduto para enganar a fome enquanto aproveitavam para descansar à beira de uma sombra qualquer. Devia ser assim.

De manhã cedo juntavam-se no sítio combinado e esperavam pela carrinha que as vinha buscar. Mulheres e miúdas. Umas com vida daquilo, habituadas à dureza do campo. Outras à espera de juntar uns trocados. Talvez para gastar nuns devaneios, a maior parte das vezes para compensar o orçamento lá de casa. Esperava-as o trabalho da época. Duro. Seco. Áspero.

Estavam o dia inteiro fora. Nos dias mais quentes e mesmo naqueles em que o São Pedro lhes pregava uma partida. Era trabalho e o trabalho era para ser cumprido. Não se queixavam. Pelo menos as mais velhas. Era essa a sua vida, só conheciam o trabalho de todos os dias. Não se queixavam. Não sabiam que podiam.


Ao final do dia, a carrinha voltava e lá as trazia. Sentadas na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Os bancos corridos davam a falsa ilusão de conforto e elas lá estavam. Aos solavancos. Agarradas onde conseguiam. Conversas perdidas no cansaço de um dia de trabalho. Era Verão, o calor entrava-lhes na pele, cansava-lhes o corpo. As conversas ali, a caminho de casa, eram deitadas para o ar sem se preocuparem com o que era falado. Enganavam o tempo. Procuravam chegar mais rápido ao seu destino.

Cheiravam a trabalho. Uma mistura de suor, pesticidas e terra seca. O pó entranhava-se nas suas roupas, nos seus cabelos, nas unhas que se tornavam escuras. Tinham um ar cansado, o andar torcido denunciava os músculos doridos. 

Desciam da carrinha com destreza. Cumprimentavam quem as esperava. Descansavam o corpo enquanto se encostavam a uma parede tapada pela sombra.  A cesta esquecida aos pés que apoiavam o peso do corpo alternadamente. Uma espécie de descanso. As mãos apoiadas nas ancas.

Amanhã voltavam ao trabalho. O campo ainda tinha muito tomate para dar e o corpo ainda tinha muito para aguentar. O trabalho de todos os dias. A carrinha à espera. O corpo que se queixava. A boca que se calava.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Pés descalços

O chão era duro, mas os pés estavam habituados. Já não se arrepiavam com o frio nem sentiam o calor queimar. As solas dos pés não estranhavam os buracos e o chão irregular nem as pedras que iam aparecendo.

Era assim que as coisas eram. Andava-se descalço porque não havia dinheiro para comprar sapatos e mesmo se houvesse algum que sobrasse das contas que se faziam era mais importante guardar para a comida ou para ir ao médico. Os sapatos podiam esperar. E esperavam.

Faziam quilómetros com os pés nus metidos no pó da estrada. As silvas a furar a sola do pé. Dura e sem sensibilidade. Nunca tinham experimentados uns sapatos. Viam as senhoras ou alguma prima mais folgada a usá-los, mas na sua casa não havia espaço para esse luxo. Outras prioridades.

E cresciam de pés descalços. Os pés que os levavam a todo o lado e que percorriam estrada e mais estrada sem denunciar o cansaço.

- Vamos à cidade? - dizia uma em tom de convite. Era a feira, aquela que faziam todos os anos e que juntava os arredores e mais uns quantos.

- Sei lá, nem tenho sapatos.

E então uma prima emprestava uns que tinha lá por casa. Já gastos e usados, mas que serviam a sua função. Eram um número acima do seu. Chinelavam. Magoavam os pés habituados a andar à solta. Mas lá iam elas, orgulhosas dos seus pés tapados num desconforto que não conheciam.

Quando compravam o primeiro par era uma festa. Eram caros. Ganhavam cem escudos a servir na casa das senhoras. Eram as primeiras a acordar e as últimas a deitar para ganhar aquilo. Se comprassem uns sapatos ficavam logo sem dinheiro. Era preciso saber esperar. Poupar os trocados que sobravam dos gastos do mês. Esperar que dessem para um par de sapatos como as senhoras usavam.

Já eram quase mulheres quando os compravam. Crescidas e de corpo feito. Mulheres de trabalho de sol e sol e mãos calejadas. Compravam os sapatos que eram o seu número. Gastavam os cem escudos que tanto lhes tinha custado juntar.

Caminhavam sem que se ouvisse o chinelar, mas o desconforto continuava a fazer-lhes companhia. Lá iam elas, com o som do salto no chão a marcar o passo. A bolha a começar a aparecer no calcanhar.

Chegavam a casa e tiravam os sapatos. Ainda mal tinham passado a porta e já iam de pés no chão e sapatos na mão. Guardavam-nos a um canto, com cuidado. Quem pouco tem sabe o quanto vale. E lá iam elas descalças pela casa e pelo terreno, tratar da vida. Sempre de pés descalços. Os sapatos ficavam para a rua e para as cerimónias. Para o Domingo e dias santos. 

Para o resto dos dias, para a vida de sempre, os pés podiam andar como sempre andaram. Descalços.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quem faz a festa para o ano?

O Domingo é o dia sagrado. O dia abençoado da festa. Sai a procissão e a terra veste-se a rigor que nos dias santos e alumiados temos de estar no nosso melhor. O vestido bonito, os sapatos que magoam ligeiramente os pés, o fato bonito para os senhores estarem apresentáveis.

Chegam os visitantes, os que vêm ver a família e os outros que chegam em devoção pela Senhora que abençoa a festas. As ruas estão cheias. Os sinos dão os sinais de que a procissão está a sair.

- Já se sabe se há comissão? - perguntam enquanto esperam para ver os andores.

A procissão segue caminho. Ouvem-se as rezas e os cânticos. A banda toca as músicas que já sabe de cor. O passo arrastado preenche os momentos de silêncio. O terço pende das mãos dos devotos. As varandas estão decoradas, as famílias juntam-se à porta de casa. Segue-se o cortejo até voltar ao largo. Os foguetes a rebentar sem parar e a santa a recolher à igreja.

A população acompanha-a. Olhos curiosos. Ocupam os bancos vagos, ficam em pé quando não há outra solução. Apertam-se mais um bocadinho para caber mais alguém. A igreja fica cheia, o padre dá a benção final.

Do altar chegam as notícias que esperavam. É tempo de anunciar os festeiros do próximo ano. A aldeia assiste em expectativa. Dizem os nomes escolhidos pela comissão deste ano. A tradição é simples: oito nomes, quatro casais casados pela igreja que nunca fizeram a festa.

Quem está dentro da igreja passa a novidade de boca em boca até chegar ao largo onde as pessoas se juntam à espera.

- Já sabes? Quem faz a festa para o ano é...

E passa a novidade de boca em boca até chegar à próxima comissão. Está cumprida a tradição. Que se oiçam os vivas pela festa do próximo ano. E que amanhã a aldeia marche atrás da banda até que seja feita a entrega da bandeira ao juíz do ano que vem. Festa é festa e o povo quer é a rua iluminada e a música a tocar o dia inteiro.

Até para o ano, quando a procissão recolher e a igreja encher com os ouvidos atentos à espera de saber quem é que faz a festa no ano seguinte.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #2

Agosto 2017 | Pouca Terra

Os dia começam cedo. O despertador toca quando o sono ainda está pesado e o corpo ainda pede cama. Mas tem de ser. Viver fora da grande cidade tem os seus quês e porquês. Alguns dos porquês será a procura de uma explicação para se fazer isto quando implica acordar demasiado cedo, apanhar demasiados transportes e ter de lidar com demasiados atrasos. Muitos porquês. Demasiados.

O comboio faz parte do meu dia-a-dia. O banco onde me sento sempre no caminho de ida. A hipótese de ficar de pé quando volto. O livro que vai guardado para enganar o tempo que demora a passar. Os nervos quando se percebe que a hora de partida não vai ser cumprida. É uma rotina. Já sabemos a linha, a hora e o sítio onde a porta fica quando o comboio pára. Já conhecemos as caras que nos acompanham diariamente, mesmo que o seu nome seja um mistério. Vamos conhecendo a história. Os telefonemas que se fazem, os livros que se vão lendo, os pequenos pormenores que deixam cada um irritado. Cada qual com o seu.

Os olhos fixos nos telemóveis, na janela, nos livros ou fechados a recuperar da noite mal dormida. O comboio, a rotina de todos os dias. Três horas por dia.

Pouca Terra

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Não havia bolos

Não havia bolos. Nem se sabia o que era isso. O que havia era para a carne e mesmo assim mal chegava. Comprava-se um bocadinho de chouriço e de toucinho para dar para uma sopa, uma posta de bacalhau que na altura era em conta. Nada mais do que isso. Nem se pensava em tal coisa.

Fazer bolos como agora se faz agora? Porque apetece qualquer coisinha doce ou algo que dê conforto? Ora sabíamos lá o que era isso. E quando não se sabe, não se sente falta. E o conforto era dormir com o estômago a dar horas, mas a dormir o corpo aguenta muita fome.

Era por isso que não havia nada destas coisas. Nem pão-de-ló. Verdade seja dita, nem se sabia o que era isso. Apareceu uma vez, uma senhora que fazia essas coisa, mas nem eu que era criada de servir na casa dos senhores aprendi essas culinárias. Não, os senhores eram ricos, mas não eram desgovernados. Onde é que já se viu essa coisa de fazer um bolo sem razão?

Naquela altura isso não existia. Agora sabe bem, lá isso sabe, mas naquela altura? Nem bem nem mal. Não se pensava nessas coisas. Como é que posso explicar? Não era uma necessidade. E se o que tínhamos mal chegava para as necessidades (Deus sabe as vezes que só se bebia um café da borra ao jantar) não ia chegar para gastar em açúcar e farinha.

Acho que a receita só apareceu por aí uma vez quando vieram uns amigos de um senhor cá visitá-lo. Eles vinham lá de Lisboa e a senhora fez um pão-de-ló para lhes oferecer. Foi assim que ele apareceu por cá, mas mesmo assim não despertou muito interesse.

Achavam que era algo supérfluo, sabes? E naquele tempo ligava-se muito ao que os vizinhos diziam (ainda hoje isso acontece) e ninguém queria ter má fama. Gastar dinheiro em bolos, mesmo que fosse um simples pão-de-ló, era ser desgovernada e isso não ficava bem a ninguém. Nem às meninas ricas.

Por isso dá cá mais um fatia. Vá lá que mal não me faz e se fizer logo se vê. Já viste a idade que eu tenho? A suficiente para comer uma fatia de bolo sem sentir um peso na consciência. Dá lá isso, vá. É que no meu tempo não havia bolos. 




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lá pelo Instagram #1

Agosto de 2017 | Venda à beira da estrada

Dizem as más línguas (e acredito que as boas também) que o melhor melão do país vem do Ribatejo. A caminho de Almeirim uma placa dizia algo nesse sentido. "Vende-se aqui o melhor melão de Almeirim". Se não era assim era muito parecido. Era uma placa de madeira escrita à mão. Com o encanto que têm todas aquelas coisas que são feitas com dedicação. 

Eu, um bocadinho teimosa como sempre, não parei nessa banca. Nem na seguinte. Só a terceira é que me convenceu a fazer inversão de marcha e parar o carro. Porquê a terceira? Porque me apeteceu. Porque tinha um casal já com uma certa idade e que, sem placas que indicassem que o seu melão era o melhor, tinham ares de gente dedicada.

Parei o carro e pedi uma melancia e um melão. O senhor ainda me pediu para escolher o melão, mas eu nem tentei. Além de não ter habilidade para escolhas dessas nem gosto da dita fruta. O mais certo era a escolha dar para o torto. E para dar para o torto mais valia ser o senhor escolher que tinha mais anos daquilo que eu.

Pesou os dois. Numa daquelas balanças que nunca percebi bem como funcionam. Antiga. Com dois pesos e mais um sem fim de acertos que tinham de ser feitos até chegar ao peso certo. 

Disse-me o total e eu paguei. Desejei-lhe um bom dia e ele disse-me "Boa viagem". A simpatia deixa-nos sempre bem dispostos. 

E eu voltei para casa com um melão e uma melancia no carro. E eu nem gosto de melão. Agora estão ali em cima da mesa à espera. Vamos lá ver se a escolha foi acertada.

Venda à beira da estrada