quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depois da época

E termina assim. A casa vazia depois de dois dias de barulho e correrias. As cadeiras que sobram para o dia-a-dia que ali se vive. A terra que diz adeus aos que já não se consideram seus. 

Foram para longe. Um longe que não se mede por quilómetros ou o que lhe valha, mas que vive no desinteresse que só esquecem quando se acendem as luzes da árvore e o bacalhau e as couves vão ao lume. 

Ouvem-se as brincadeiras dos mais novos que não conhecem aquelas ruas e que dali só sabem que é a terra. Assim, simples. Sem outro nome. Sem mais história ou amor. A terra, lá onde vivem os avós e aquelas pessoas que se dizem família, mas que eles não sabem quem são. 

Vai-se o Natal nos carros que partem sem olhar para trás porque para a frente é que fica o caminho. Na cidade, na vida que se mostra aos outros como se só aqueles que deixam a terra fossem gente digna de memória. Cheios de conhecimento na ponta dos dedos e de cabeça vazia de saber. 

Seguem com o corpo cheio de açúcar e óleo. O polvo e o bacalhau a brigar com o peru. Os movimentos presos com o excesso de comida dos últimos dias. 

- Mas para que é tanta comida? - dizem eles enquanto se servem uma e outra vez sem que tivessem dado um minuto que fosse para ajudar. É precioso o seu tempo, o dos outros é outra história. 

Dizem um adeus sem energia e um até já despachado. Esperam a visita nas avenidas movimentadas. Onde interessa. A aldeia fica para dali a um ano, quando o senhor de vermelho voltar a fazer uma visita. 

Ficam para trás as memórias e as histórias que são só suas e dos seus, mas que preferem que assim não seja. 

- Nem me lembres disso - dizem quando se fala da infância em tempos menos abundantes e de mais inocência. De pernas esfoladas e comportamentos que tinham o seu quê de palermas. 

Lá vão cheios das suas grandezas deixando para trás a certeza, que não chegam a conhecer, que diz que o melhor é aquilo que se esforçam por não recordar. 

É o Natal que devia ser todos os dias, mas que se escapa sem chegar a existir. Para os que assistem à partida ficam as casas mais vazias, os corações apertados de saudades, a distância a pesar nos dias que já são tão sós. 

Lá pela terra só sobram os que de lá não querem sair e que sabem tanto sem que os deixem mostrar. Foi-se o Natal, foi o que foi.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Não escapa uma

Ouvem-se as conversas cheias de certeza que a vida alheia é sempre certa na boca de quem a não vive. 

- É o que te digo. Vais rua acima e é tudo mulheres de má vida. Não escapa uma. Para baixo também há que se lhe diga.

Lá está. Sentença dada como se ali estivesse o pilar da retidão moral. Sem dúvidas. É assim e ponto final. Para os outros que quem tantas certezas não fala de si e muito menos dos seus. Se falasse diria que a sua porta era não na sua lenga-lenga. Não se esperava outra coisa. 

É o dedo espetado à vida alheia por uma língua afiada em relação a assuntos que não são seus. A pessoas que conhece a cara, a voz e as rotinas. Nada mais. Nenhum seu que nos seus não há maus exemplos nem pecadores. São pessoas com o amém na boca e a mão a bater no peito. Correctos. Como se quer. 

- Só digo a verdade - a sua pelo menos que a verdade dos outros conta pouco em situações destas. 

A sua está sempre contra os outros. Boca cheia para cuspir no caminho que os outros fazem.

Conversas de esquina e de bancos de igreja. De casa. Falam de boca cheia e visão bloqueada por palas que não deixam ver além das suas verdades. Se é que se podem chamar de verdades. 

- É só má vida, uma vergonha. 

Não tão grande como falar da vida alheia, mas isso são outros quinhentos e para esses não há razão que se aplique. Porque não se quer que assim seja. Porque olhar para dentro das paredes a que se chama casa implica olhar para os seus. Tal e qual como eles são. E quando se olha com atenção ainda se pode encontrar alguma coisa que não se queira ver. Com eles, os seus, não há mal dizer que entre. 

Os sorrisos para os que se cruzam consigo escondem as facas afiadas que espetam nas suas costas.É o ser menor do que aquilo que se pensa. A pequenez das palavras que se escolhe para atirar aos outros.

Afastam-se das mentes que dizem ser pequenas, da terra que acreditam não ser suficientes para eles. Falam dos que ficam para trás com uma altivez que só quem se acha melhor do que os outros pode ter. Deixam a terra, mas as ruas da má língua ficam-lhes coladas ao corpo. Uma doença crónica de mal dizer e nariz empinado como sintomas.

Qualquer dia foge-lhes a boca para a verdade e dão os seus como iguais aos outros. Dignos de juízos de valor e pecadores. Tal e qual como os da porta ao lado. Nem mais nem menos. Feitos a papel químico. Qualquer dia não há mão a bater no peito que lhes valha e nada que os salve de quem desenrolou a língua para falar de boca cheia daquilo que não conhece. Vai-se a ver e, qualquer dia, são eles que andam de facas espetadas nas costas.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A água leva o que é seu

Já vinham marcados no calendário. Eram os dias difíceis. O céu carregava e cá em baixo o rio entrava pelo que era seu. Ou o que assim considerava. Certo como a mudança das estações. Vinham os dias frios, as fogueiras davam calor e logo a seguir aparecia a chuva. E ai se Deus a dava. Um peso de água que ninguém parava. Era ver chover e rezar. Nada mais. Pedir auxílio divino naquilo que o homem não tinha como controlar. Que alguém olhasse pelos que ali estavam.

Chovia dias a fio. Sem tréguas. O caudal galgava as margens que eram suas. A ponte desaparecia e ali ficavam eles. Do lado de lá. Isolados. À espera do que estava para vir e que já sabiam como era. Uma vida inteira daquilo. Conheciam a subida da água antes de começarem a andar.

O auxílio chegava mais tarde. Vinham os que lhes serviam de ponte. Ao longe, apareciam os barcos. Tão grandes que traziam dois homens. Um nos remos e outro na vara. Lá iam eles. Homens de corpo feito, braços de trabalho.

- Ai que me fico aqui - gritava uma com o medo de arriscar viagem.

O barco que parecia demasiado frágil. O medo a formar-se nos gritos. A morte a espreitar no rio.

- Se tem medo, fica - diziam os barqueiros que não levavam quem tremia. 


Eram as regras. Quem ficava pálido com a travessia ou quem clamava por auxílio superior, ficava. Os que tinham coragem faziam-se ao caminho. Homens de pés na água. Mulheres carregadas às costas. Meia-dúzia de cada vez, nunca mais e às vezes menos. Sem protecção que lhes valesse que não há lembrança de problemas de maior.

Seguem pelos terrenos alagados, pelo rio que dobrou em altura. O barco a fugir aos perigos, às correntes traiçoeiras. Os homens com os braços doridos do esforço. Barco cheio de corpos pesados. Remos de madeira a levá-los ao lado de lá.  Os músculos a ameaçar romper, o corpo a não denunciar fraqueza. Até o desembarque na outra margem. Sem abrandar.

Os passageiros faziam-se à terra firme. Deixavam uma moeda a quem os tinha levado na viagem sem bilhete que se pagava por gratidão. Pouco, que os tempos não davam para mais. Para o gasto e já era uma sorte. Para a bucha e o copo de três. 

Os barqueiros despediam-se e voltam a fazer-se ao rio. De lá para cá e de novo para lá.  O corpo sem descanso. Cansado como nunca tinha deixado de estar. Os bolsos sem dinheiro. O rio a subir a margem. As pessoas a precisarem de passar. Os pescadores a dar a mão.

Eram uns para os outros. O dia de amanhã só a Deus pertencia.  


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Regatear na praça

Dentro da praça era uma mistura de cheiros e sons. O peixe fresco. O sangue da carne. O doce das frutas. Os gritos de quem tenta vender o que tem na banca. Demasiada gente na pressa das compras. O tilintar dos trocos que andam na bolsa, contados até ao último tostão. É preciso poupar e estar de olho nas balanças de quem vende.

E ela lá ia para o meio daquela confusão que já conhecia de cor. Palmo e meio de altura e pouco mais do que meia dúzia de anos de vida. Descalça, de cabelo arrumado num rolo debaixo do lenço e camisa abotoada até ao pescoço.

Na praça já a conheciam. O corpo miúdo escondia a sabedoria de quem tinha crescido antes do tempo. Regateava como ninguém. Era isso e apontar os defeitos do que via. Sem hesitação.

Entrava na praça de cesta vazia, um rol de pedidos e a ordem para despachar que havia muito para fazer em casa. E se era verdade que ela era precisa para tratar do trabalho, também era verdade que a senhora não confiava em mais ninguém para tratar do avio. Ninguém tinha o olho dela para a qualidade nem a língua para dar a volta ao preço. A senhora já tinha tentado arranjar outras, mas bastava uma viagem à praça para irem de volta para casa delas. Traziam o peixe com olhos de carneiro mal morto, era o que era. 


Era por isso que a senhora a mandava a ela. Conhecia o peixe só de lhe ver a cor e não admitia outro corte de carne que não fosse o mais tenro. E ai de quem a tentasse enganar que a gaiata era miúda, mas espevitada. 

- Ó menina, olhe que isto é do mais fresco que há.

- Então coma você e que lhe faça bom proveito.

Era a vida na praça. Um pregão atrás do outro e o olhar atento das criadas de cesta à cabeça. A confusão das pessoas que se perdiam por ali e o cansaço dos que ali andavam de pé ainda antes do sol nascer.

E ela, pequenina e miúda, enchia a cesta com o que lhe tinham encomendado. Moldava a rodilha com as mãos até a deixar como queria e metia-a por baixo da cesta que levava à cabeça.Um corpo de criança a acartar com o avio do dia e os tostões poupados a tilintar na bolsa que levava à cintura. Lá ia ela, rua acima. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os registos de outros tempos

Foi sempre assim. Eram elas que desapareciam sem que se percebesse que era isso que estava a acontecer. O sobrenome que se esconde depois do casamento. Antigamente, perdia-se sem deixar certezas sobre se alguma vez tinha chegado a existir. 

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte. 

O seu nome associado ao nome da mãe. Lá ia a Maria, filha da Adelaide, que com o tempo se tornava a Maria Adelaide. Primeiro e último nome escrito na letra trabalhada do padre que registava o seu casamento. 

Só mulher. Sem história nem legado que se colasse ao nome que vinha do pai. Sem sobrenome que identificasse a família da mãe. Uma mulher sozinha naquele mundo de primas e primos que só se identificavam de cara, nunca por registo. Mas elas não sabiam ler. Sabiam lá o que estava ali escrito. E mesmo se soubessem que estava escrito assim, sem sobrenomes de herança, não era nada que lhes preocupasse. Eram todas Marias da Adelaide que, por sua vez, já tinham sido Adelaides da Glória. Era o que era. A identidade perdida para o futuro. Por muito que tivessem sido reconhecidas por todos os que viviam na sua altura. No tempo em que tinham vivida. Nada para além disso. 

Vidas que quase se tornaram anónimas para a eternidade. Do convívio da vida podre do dia-a-dia ficou a lembrança na memória de quem já morreu. Para os que vieram mais tarde, não se deixou mais do que um registo sem sobrenome, perdido no meio dos assentos de batizados onde só aparece o primeiro nome do rebento e o nome completo dos que o trouxeram ao mundo. 

As mulheres, essas, tinham direito ao nome pelo qual a terra as conhecia. Nada mais ficava escrito.