quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Não há desgoverno

No poupar é que está o ganho. Já os antigos diziam que as mulheres não podiam ser desgovernadas e eles respeitavam. Em sabedoria desta não se mexe. Aproveita daqui, poupa dali, corta nem se sabe bem onde e quando se dá por ela já se tem um avio por meio daquilo que não se fez. Gastar é só no que se deve que ninguém sabe o dia de amanhã e o corpo aguenta muita fome, mas há um dia que quebra. Sem saber ler nem escrever eram exímias na arte de somar em vez de sumir. 

- Comida não se deita fora. 

Lá resmungavam enquanto arrebanhavam o bacalhau que tinha ficado no prato. Uma posta em que ninguém tinha tocado, mais um bocadinho do lombo que alguém, com a mania que era rico, tinha deixado de lado juntavam-se ao que havia.

- Até é pecado estragar - ainda para mais quando o dinheiro faltava e a conta da loja do costume não tinha fim à vista. 

E lá juntavam tudo, fosse cozido só com sal ou feito no refogado da sopa. Depois de desfiado nem se sabia de onde vinha e com o tempero do refogado ganhava sabor. A fome falava mais alto que outras esquisitices. 

Elas metiam as mãos ao trabalho. O bacalhau sem espinhas e desfiado juntava-se à batata cozida. Mais a cebola e o ovo. Tudo misturado com o tempero para dar sabor. E no final o molho de salsa apanhada na horta de casa. Já andava o cheiro no ar e ainda nem o lume estava aceso. 

Era preciso arte para aquilo. Meter comida ao lume qualquer um faz, agora para cozinhar é preciso saber. Era preciso ter mão para fazer um manjar daquilo que alguém não quis. Depois eram duas colheres na luta uma com a outra até a massa desaparecer. O óleo já quente a ganhar vida quando a recebia. A atenção para os virar antes que ficassem queimados pela metade. Os pastéis de bacalhau a sair douradinhos e a crepitar. O cheiro a óleo quente e a massa quente chamavam pelo estômago. O melhor petisco feito com o que tinha sido deixado de lado. 

- Isto aqui não se estraga nada que não somos ricos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A excursão

O autocarro parava sempre no mesmo sítio que assim não havia quem se perdesse. Era palavra passada de boca em boca e escrita numa folha de couve. 

Antes da hora marcada começava a agitação. Ainda o sol não tinha nascido por completo, já eles esperavam. Chegavam as crianças pela mão e as mulheres acompanhadas dos maridos. Apareciam todos bem arranjados dentro daquilo que os seus bolsos deixavam, e de cesta pronta debaixo do baço. Vinha cheia com o farnel que tinham preparado em casa que o que se quer é ser poupado. 

- Oh Maria, também vais? 

- ‎Ia lá ficar em casa. 

Meia dúzia de "olá. Estás bom?" e lá ficavam a dar à língua enquanto esperavam. Era para entreter. Assim que o autocarro parava, arrumavam o farnel e subiam à procura dos lugares. Os mais novos só paravam no banco do fundo enquanto os outros se iam arrumando onde calhava. O importante era ir que a vida não lhes dava muitas oportunidades de fugir aos caminhos de todos os dias. 

Aquilo era trabalho casa e vice-versa e não há alma que aguente. E assim lá iam eles. Animados. Faziam o caminho até à capital ou até onde os quisessem levar. O que era importante era ir e que não fosse para ver desgraças. Para isso já bastava a vida de todos os dias. A viagem passava entre cantorias e conversas que nunca chegavam a acabar. Falava-se de tudo e de todos. 

Quando a fome dava sinal, servia-se o farnel num qualquer canto que desse para estender a manta. O pão-de-ló e o frango corado mais umas pataniscas e uns pastéis. Uma pessoa é remediada, mas ainda enche o estômago. Mais um bocadinho de pão e um gole de vinho. Voltam quando o sol já se foi. Com um dos bonés a passar de banco em banco a recolher uns trocados que o motorista bem merece.

Amanhã voltam ao mesmo. Às preocupações e ao trabalho que a folia é boa, mas é só de vez em quando. 

- Oh Manela, na próxima também vamos? 

Então não? Nem a excursão se fazia se ficassem em terra.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ser o que se é

Era diferente. Sempre tinha sido. Não se lhe conhecia outra maneira de ser que não fosse fora do habitual. Fora do lhe era esperado. Era esperado de todos, mas havia quem não cumprisse. Quem fugisse do caminho que lhe estava destinado. Era assim que se tornava alvo do olhar de todos os que lhe cruzavam o caminho. Mesmo dos que já lhe conheciam a exuberância. 

- São as vaidades. 

Era o que diziam. As vaidades, a mania, o querer mostrar-se. A explicação nunca era simpática nem compreensiva. Não era o que procuravam. A verdade é que ou são como todos ou assim são. Não há outra opção. São regras daquelas que nunca chegaram a estar escritas. 

Mas continuava a ser diferente, mesmo com dedos apontados e olhares reprovadores. Mesmo que as conversas se continuassem a fazer ouvir nas suas costas. 

Comentava-se a vergonha que era tudo aquilo. A roupa que só se via na cidade. O chapéu em vez do boné. O vermelho da má fama nas unhas. Um sem fim de coisas que não eram permitidas. A voz dela que se ouvia à distância como se tivesse algo de importante a dizer e ele que parecia tão frágil que ninguém acreditava que nascera homem. 

- Mas é assim que uma pessoa se comporta? - os outros sempre com a preocupação na vida que não era sua. 

A culpa era dos diferentes, daquela mania de se ser o que é e não os que os outros querem. A falta de respeito pela mentalidade que oprime quem não vive refém dela. 

- Olha que as pessoas vão falar - diziam quando aconselhavam precaução, quando tentavam mostrar o caminho que tinham por certo. 

- Já não o fazem? 

- É melhor não dar mais razões. 

A culpa colada a quem nada fez. O esconder daquilo que se é. O ser tudo, desde que o tudo seja o que os outros querem. Até ao dia. Quando o julgamento se torna demasiado duro, quando se procura viver em vez de não fazer mais do que sobreviver. O dizer adeus sem o acompanhar de até um dia. 

Um dia fazem a estrada sem volta e deixam para trás as vozes que nunca se calam. 

- Nunca mais se viu por aqui - é o que dizem dos que foram enquanto apontam o dedo a mais um.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O nascer do novo ano

A banda dava sinal de alvorada assim que o dia amanhecia. Ano novo recebido com o bombo a marcar tempo e os músicos, mal protegidos do frio, a marchar rua abaixo e rua acima. Não era tempo de grandes alegrias e muito menos de festejos. Era só mais um mês que começava com o nascer de um novo dia. Mas este tinha direito a música e quando a banda toca há outro alento para o corpo. 

As pessoas apareciam às portas. Roupa de trazer todos os dias que a boa está guardada para os dias do senhor. Palmas a acompanhar as marchas e umas cantigas improvisadas. Os vizinhos que se encontravam à porta e falavam do mesmo de sempre.

- Então e o seu home

- Tá lá praquele lado - diziam elas indicando a direcção com um gesto largo e com o ar de que a pergunta nem se punha.

Juntavam-se una quantos ali no sítio do costume. Só os homens e os miúdos. Todos à roda do tronco que ainda ardia a bom ver. Fazia mais de uma semana que aquele fogo aquecia os corpos e puxava à conversa e à pinga. Alimentado a lenha que se apanhava por aqui e por ali e que aquecia as noites que gelavam os campos. Deixavam o chouriço a assar, o pão cortado com o velho canivete para acompanhar, o toucinho a pingar a gordura para o lume. Os bonés já a inclinar. O corpo a aquecer que o ano amanhece frio e o vinho só dá calor até certo ponto. Falam da vida de língua afiada, mas se lhes perguntarem dizem que só as mulheres é que falam assim. Pudera, os homens são sempre homens.

As mulheres estão recolhidas em casa com os miúdos de mama agarrados às saias e as miúdas agarradas ao trabalho que é de novas que aprendem. Há lá tempo para brincadeiras. Nem se sabe bem o que isso. Nem bonecas se encontram, quanto mais. É saber onde está o sabão e andar de olho vivo nos irmãos. 

O novo dia é só mais um dia. Em casa que o tempo não deixa ir para o campo. Que se ouça uma modinha que pelo menos isso anima e o corpo balança a tentar acompanhar o ritmo. Discreto que não se quer falatório.

Lá veio mais um ano. Se não for melhor, que pelo menos seja igual ao que passou que a esse, e às suas manhas, já há quem conheça. 

Venha o novo ano. Dias iguais a todos os outros, trabalho a moer o corpo e as preocupações a moer a cabeça. Que se bata umas palmas quando passa a banda, sempre alivia as cruzes que se carregam.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal a Servir

Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava. 

Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal. A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido. 

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. 

Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Volta ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora toca à sineta. Sete e meia da manhã em ponto. Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são. 

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia ela. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe moeram os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais. 

Quando a menina voltar a Lisboa, a senhora vai guardar as que sobrarem. Fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabe. No próximo ano volta tudo a repetir-se e aí, só aí, a criada tem autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou. 

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.


Texto publicado originalmente na Revista DADA de Dezembro de 2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depois da época

E termina assim. A casa vazia depois de dois dias de barulho e correrias. As cadeiras que sobram para o dia-a-dia que ali se vive. A terra que diz adeus aos que já não se consideram seus. 

Foram para longe. Um longe que não se mede por quilómetros ou o que lhe valha, mas que vive no desinteresse que só esquecem quando se acendem as luzes da árvore e o bacalhau e as couves vão ao lume. 

Ouvem-se as brincadeiras dos mais novos que não conhecem aquelas ruas e que dali só sabem que é a terra. Assim, simples. Sem outro nome. Sem mais história ou amor. A terra, lá onde vivem os avós e aquelas pessoas que se dizem família, mas que eles não sabem quem são. 

Vai-se o Natal nos carros que partem sem olhar para trás porque para a frente é que fica o caminho. Na cidade, na vida que se mostra aos outros como se só aqueles que deixam a terra fossem gente digna de memória. Cheios de conhecimento na ponta dos dedos e de cabeça vazia de saber. 

Seguem com o corpo cheio de açúcar e óleo. O polvo e o bacalhau a brigar com o peru. Os movimentos presos com o excesso de comida dos últimos dias. 

- Mas para que é tanta comida? - dizem eles enquanto se servem uma e outra vez sem que tivessem dado um minuto que fosse para ajudar. É precioso o seu tempo, o dos outros é outra história. 

Dizem um adeus sem energia e um até já despachado. Esperam a visita nas avenidas movimentadas. Onde interessa. A aldeia fica para dali a um ano, quando o senhor de vermelho voltar a fazer uma visita. 

Ficam para trás as memórias e as histórias que são só suas e dos seus, mas que preferem que assim não seja. 

- Nem me lembres disso - dizem quando se fala da infância em tempos menos abundantes e de mais inocência. De pernas esfoladas e comportamentos que tinham o seu quê de palermas. 

Lá vão cheios das suas grandezas deixando para trás a certeza, que não chegam a conhecer, que diz que o melhor é aquilo que se esforçam por não recordar. 

É o Natal que devia ser todos os dias, mas que se escapa sem chegar a existir. Para os que assistem à partida ficam as casas mais vazias, os corações apertados de saudades, a distância a pesar nos dias que já são tão sós. 

Lá pela terra só sobram os que de lá não querem sair e que sabem tanto sem que os deixem mostrar. Foi-se o Natal, foi o que foi.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Lugar à mesa...de Natal

Mais um ano. O dia começa como todos os outros. Cedo. É assim para quem tem de alimentar a família. Não há dia santo que lhe valha, o trabalho está sempre à sua espera. E elas apresentam-se de bata vestida e lenço à cabeça. Sempre. 

O dia amanhece frio e a noite ainda não se foi por completo. Para espantar os arrepios acendem a lareira que dá outro alento à casa. O crepitar da lareira já garante meio sustento. Pegam no alguidar de barro, já marcado do uso, e deixam-no em cima do velho banco de madeira. Por baixo, uns panos feitos de restos para amparar as pancadas que o trabalho não é de brincadeiras. 

Juntam-se várias mãos. Diferentes gerações, o mesmo espírito, os mesmos braço feitos de força. Dois dedos de conversa e outros tantos de trabalho que assim, com companhia, até vai embalado.

Preparam as coisas a olho que as medidas só as usa quem não tem mãos treinadas. Deixa-se a margarina em banho-maria. Segue o resto para o alguidar. Um de farinha com fermento e outro tanto daquela que se encomendou ao padeiro. Sal. Açúcar nem vê-lo que a massa é assim mesmo. A raspa dos limões que se trouxe da vizinha, e da laranja que se foi buscar ao quintal. Mais o sumo que sempre adoça. 

Mete-se a cafeteira ao lume que o corpo pede o café, e as mãos vão ao trabalho. A manteiga derretida e é começar a juntar tudo. Com paciência e o seu quê de sabedoria. Um amassar com precisão que isto não se faz de qualquer maneira. É o saber que está pronto só de olhar. Passa a cafeteira para a borda da lareira enquanto se espera que a borra assente e verifica-se o tempero da massa. Quando está no ponto, passa para o balcão e é batida até o trabalho ser dado por feito. No meio de conversas e risos perdidos que a vida pode ser triste, mas ainda não levou a capacidade de sorrir. 

Massa estendida e o cheiro a cru a misturar-se com o café da borra. Óleo a aquecer na panela grande. O garfo próprio à espera. 

Cortam a massa sem hesitar e levam-na ao óleo quente. O borbulhar a crescer e o coscurão a ganhar forma. As bolhas da massa a rebentar. O cheiro a óleo quente e massa frita. Os braços a queimar. O açúcar e a canela prontos para o final. 

Ainda mal nasceu o dia e aqueles corpos já contam com horas de trabalho. O calor do lume a aquecer-lhes a cara. E uma travessa de coscorões pronta para a família e para quem quiser que comida é coisa que nunca se nega. 

Que venha a noite de Natal.