quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sala de espera

Encontram-se ali como noutro tempo se encontravam a caminho do campo. As cantigas que nessa altura acompanhavam os pés descalços e a cesta à cabeça, dão lugar às conversas de dores e mazelas. 

Chega uma altura em que é assim. O corpo começa a acusar os anos e a vida de trabalho. As pernas já não respondem. Quem diria que houve um tempo em que corriam rua acima e rua abaixo vezes sem conta. Que, quando o pai dava autorização, dançavam nos bailaricos até ser horas de voltar a casa. Agora são as dores que lhes marcam os dias. Que descobrem ossos que não se sabia que existiam. Articulações que ameaçam desfazer-se ao mínimo esforço.

O ritual do amassar o pão ou o corpo curvado para trabalhar a terra dá lugar a um sem fim de medicamentos. Uns que acalmam a dor, outros que acertam o coração, mais uns que regulam a tensão e sobram uns quantos que nem se sabe para que servem. A memória já viu melhores dias. 

É a idade, dizem. Os mais novos acabam por reforçar a ideia dizendo que é um posto. Quase como se fosse uma graçola. Soubessem eles como o corpo se vai com o passar dos anos e nem queriam pensar que aquilo era um posto. Para a vida, ainda por cima. Sem retorno. 

E elas ali estavam. À espera que a sua vez chegasse. Que o seu nome se ouvisse. Enquanto faziam contas aos anos que a vida levava e às dores que trazia. Umas já usavam luto que o tempo não perdoa. Outras ainda tinham o alento de ter os seus ao seu lado. 

- Nem eu sei como é que ainda estou aqui. 

Chega uma altura que não se sabe. Faltam os amigos e a vida que se conhecia. Revive-se as memórias quando a cabeça o permite. Chegam as dores do corpo e as da alma. A vida que passa sem que se consiga acompanhar. 

Mas aguentam-se os dias. Tal como se aguentou a cruz que lhes saiu em sorte. E naquele bocadinho em que as cadeiras onde se espera agravam as dores, os dois dedos de conversa com quem é da sua geração têm efeito analgésico. Há coisas que só se pode recordar com quem as viveu. E o tempo já levou tantos dos que lá estavam. 

O altifalante acaba por chamar. Uma a uma. Levantam-se a custo, mordendo as súplicas do esforço e deixando escapar um último desabafo. 

- Ao que a gente chega. No que a gente se faz.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Remendos para o enxoval

Estava o avio terminado com o que a casa precisava quando davam a volta ao balcão e continuavam para os remendos. A que andava do lado de dentro não deixava de dar à língua que esse ja era costume conhecido de quem vendia. 

- Umas calças para o seu homem? 

A outra, mais metida consigo e a contar trocos, respondia que não. Se era verdade que as que o marido tinha já estavam quase desfeitas não era menos verdade que ainda podiam ser passajadas mais uma vez. Pelo menos. Agora, era para a filha. Para ela e para o enxoval que a idade pedia. 

- A sua filha já faz quantos? Uns 18? Olhe que se não arranja namoro agora já não vai longe. 

A freguesa fazia como se não a ouvisse. Às vezes, uma mulher tem de passar por mouca para não responder fora da graça do Senhor. E com algumas pessoas só podia ser assim. A bem. Com as respostas a remoer lá dentro. Caladas. 

Disfarçava a conversa e pedia-lhe os tecidos para os lençóis. Entre as alturas que a outra lhe dizia que tinha, decidia os metros que precisava. O tecido igual ao de todas as casas. A sua irmã, com mais jeito de mãos, trataria de lhe dar uma graça com um bordado dos seus e ela alindava-o com uma renda das de bom gosto. 

- Quanto custa o serviço? 

- Sete contos. 

A outra falava-lhe das maravilhas da porcelana dos pratos e a cabeça dela já andava perdida em contas que davam sempre em bolsos vazios. Fosse qual fosse a volta. Sete contos eram mais sacos de caracóis do que aqueles que ela apanhava. Era trabalhar no campo tanto tempo que o sol só recolhia a cada dois dias. 

- Porcelana de qualidade. Isto aqui dura uma vida - dizia-lhe a outra. Lábia de quem nasceu atrás de um balcão. 

E ela fazia sinal para que arrumasse o serviço. A sua filha podia ter pouco, mas o que tinha era bom. É assim que pensa. A outra puxava do caderno onde todos assentavam contas. Juntava-lhe os sete contos e os metros de tecido de lençol. 

- E é só? 

Por aquele mês ficavam os remendos aviados. No próximo, logo se via o que sobrava depois de dar dinheiro à conta. Logo se via se as calças aguentam mais um mês. ‎

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando o mundo chegava

O dia anunciava-se como se fosse de festa, mesmo que não houvesse sinal de foguetes no ar nem a banda estivesse preparada para sair. À beira da estrada que levava ao resto do mundo, mesmo no centro da pequena aldeia, juntavam-se miúdos e graúdos. Uns sentados nos degraus, outros de pé e mais uns quantos a sofrer com a ansiedade pelo que tardava em chegar. O coração apertado com o pensamento “E se não vierem hoje?”. 

O dia estava marcado no cartão que lhes tinha sido entregue no mês anterior e correspondia ao dia que o calendário marcava, mas e se não viessem? 

- Já aí vem - gritava um seguido pelo burburinho de mais uns quantos. 

Já se ouvia o motor ainda antes de se avistar a camioneta que trazia os livros. Lá vinha ele com os seus dois ocupantes nos bancos da frente e o mundo inteiro bem guardado na parte de trás. 

- Ora bons dias - cumprimentavam os senhores enquanto abriam as portas do fundo.

Na fila da frente, uma rapariguita de pouca altura e nariz demasiado espevitado para a idade, esperava a sua vez de entrar.

- Vê lá o que escolhes - diziam-lhe os senhores à laia de piada quando recebiam os livros do mês anterior e os confirmavam. Já lhe conheciam o gosto pelos livros que não eram para ela. Há idades para tudo, é o que dizem. Ela acha que há gostos para tudo e a idade não passa de um número que diz muito pouco. 

Percorre as prateleiras cheias de livros. Estão ali tantos e são tão poucos os que pode levar. Procura os que já tinha escolhido da última vez e arruma-os debaixo do braço antes que mais alguém os escolha. É por isso que faz sempre por ser a primeira. Basta chegar mais tarde e já outro leva os melhores.

Entrega-os ao senhor que encontra todos os meses e assiste, impaciente, à calma com que ele preenche o seu cartão. Cinco livros escolhidos que não chegam para ocupar um mês demasiado comprido. Com sorte consegue que rendam até meio. Com sorte. 

- Daqui a um mês tens de os devolver - dizem-lhe. 

Como se ela não soubesse, mas durante um mês eram seus. Tratados com todos os cuidados e mais alguns que não há dinheiro para pagar estragos e aquelas páginas são o seu maior tesouro. O dela e o de todos aqueles que de mês a mês esperam que a carrinha chegue. Sempre no mesmo sítio. Esperam pelo mundo. Um mundo que não acreditam que lhes pertença, mas que todos os meses chega nas costas de um carrinha.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem és tu?

Aproximavam-se de cara tapada e roupas que escondiam as formas. Mudos e calados. Nem se sabia se era homem ou mulher que ali se escondia.  

- Quem és tu? - perguntava quem os via de cara tapada. 

- ‎Ah, esse é fulano - respondia logo quem sabia tanto como todos os outros. 

- ‎, este é beltrano. Conheço-o ao longe - garantia outro com tanta certeza quanto o anterior. 

Não se fazia o baile sem uns quantos assim, escondidos, a atentar o juízo dos outros que por ali estavam, mascarados com o que tinham encontrado. Tinham dado a volta aos baús das avós e aos armários das mães à procura do que lhes servisse o propósito. Dali apareciam as velhas e as matrafonas só para a galhofa e mais uns quantos piratas e princesas daqueles que levavam aquilo a sério. 

A sala a que se resumia a associação transformava-se em salão de baile com direito a palco para o conjunto e bar para os comes e bebes. A folia não se faz a seco nem de estômago vazio e a aldeia inteira queria espairecer as ideias.

Os pares enchiam a pista de dança enquanto o conjunto marcava o ritmo. O agarra aqui acompanhado do chega para lá. 

- É carnaval, ninguém leva a mal - isso é o que dizem, mas o respeito é muito bonito. 

Os cachopos, pouco dados a danças e bailaricos, tentavam entrar pela janela da sala que servia de armazém. Uns heróis, pensavam eles enquanto ignoravam que toda gente sabia o que eles andavam a fazer. A mocidade é sempre a mesma coisa e já todos tentaram roubar uma garrafinha de gasosa. Dava aquela sensação de ser quase adulto.

A noite não terminava sem que fosse anunciado o prémio da melhor máscara. Lá era entregue a cerveja como troféu quando o álcool já começava a aquecer o corpo. Festa sem uma pinga a mais nem soava ao mesmo. Que haja alegria durante a noite que de manhã voltam todos a ser aquilo que são. Sem máscaras que os escondam.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que a vida ensina

"Não sei o que isso quer dizer. Se letrado é ter lido muitos livros isso não é cultura. Cultura é o que nós fazemos. Olhe, sabe, uma vez o Agostinho da Silva a seguir ao 25 de Abril convidaram-no para presidir à comissão contra o analfabetismo. Ele dizia "Meu filho, eu estou tão preocupado porque a maior parte das pessoas cultas que eu conheço são analfabetas". Por exemplo, saber fazer pasteis de bacalhau é uma forma de cultura tão importante como escrever um livro. "
António Lobo Antunes, in Jornal das 9
Entrevista completa aqui

Ela não tinha nada a oferecer. "Oh avó, tu não sabes nada", diziam-lhe os netos quando ela ficava espantada com a vida que eles levavam. Tentavam ser simpáticos. Uma festa no braço a acompanhar a observação, o compôr da manta que lhe aquecia as pernas. As palavras que lhe ficavam. “Não sabes nada”. 

Era verdade. A vida não lhe tinha dado nada que valesse a pena. Não se escreviam histórias sobre os seus dias, as suas lutas não tinham memória. Só lhe tinha calhado em sorte o trabalho, a casa, o marido, os filhos. Paridos e criados naquelas paredes que mal davam para dois, mas que tinham recebido seis. Dois deles perdidos quando ainda nem tinham aprendido a andar. Voltou a viver deixando parte de si enterrada naquele terreno de campas e flores murchas. Aprendera a suportar uma dor que não tinha sentido, que não era normal. Mas fizera os seus dias. Uns a seguir aos outros com uma cruz que lhe pesava a cada passo. Mas disso não falava. 

Os netos deixavam-lhe as frases caladas na garganta. As histórias que queria contar para quem não a ouvia. “Talvez tenham razão”, pensava ela, “ O que é que uma velha como eu, que mal sabe ler e que nunca viu nada para além do mar, tem para oferecer?” 

Esfregava as mãos. A pele marcada com rugas e calos, o resultado de uma vida de trabalho. As mesmas que amassavam o pão até ficar no ponto. Sem receitas nem medidas. A olho, a sentir. A textura, a humidade. O ar do forno a dar sinal de estar pronto para o pão. A intuição de quem faz aquilo desde que nasceu. 

Sabia qual o tempero dos fritos de Natal só de os cheirar. Se era preciso mais laranja ou se estavam a cortar no abafado. Os seus braços tinham uma força que não cabia no seu meio metro de altura. As estações anunciavam-se sem alarido. A mudança da cor do céu ao entardecer, o vento que soprava mais seco. A época de plantar para depois colher. Nunca lera um livro. A escola tinha terminado na terceira classe com uma enxada na mão. Para que é que ia perder tempo a ler quando o dinheiro faltava em casa. Sabia escrever o seu nome numa letra que já nem se usava. Nada mais. 

Não conhecia o mesmo que os netos. Nem que os filhos. Esses que tinham estudado fora com o trabalho daquelas mãos. Olhava-os com orgulho e com um quê de incredulidade ao ver neles tão pouco dela. Da sua história. Aqueles que eram parte de si, nunca saberiam contar qual tinha sido a sua vida. Não iriam entender o porquê de mal ler, de falar para si quando estava sozinha e se lembrava das angústias que a vida lhe tinha dado. 

Mas talvez eles tivessem razão e ela não soubesse nada. Talvez aquilo que a vida lhe tinha ensinado com os dias iguais, com o que lhe tinha roubado e com o que lhe tinha dado, não fosse nada além de banal. 

Mas, agora que olhava pela janela, sabia que amanhã ia chover e que os netos nunca iriam perceber como é que ela acertava sempre nestas coisas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Não há desgoverno

No poupar é que está o ganho. Já os antigos diziam que as mulheres não podiam ser desgovernadas e eles respeitavam. Em sabedoria desta não se mexe. Aproveita daqui, poupa dali, corta nem se sabe bem onde e quando se dá por ela já se tem um avio por meio daquilo que não se fez. Gastar é só no que se deve que ninguém sabe o dia de amanhã e o corpo aguenta muita fome, mas há um dia que quebra. Sem saber ler nem escrever eram exímias na arte de somar em vez de sumir. 

- Comida não se deita fora. 

Lá resmungavam enquanto arrebanhavam o bacalhau que tinha ficado no prato. Uma posta em que ninguém tinha tocado, mais um bocadinho do lombo que alguém, com a mania que era rico, tinha deixado de lado juntavam-se ao que havia.

- Até é pecado estragar - ainda para mais quando o dinheiro faltava e a conta da loja do costume não tinha fim à vista. 

E lá juntavam tudo, fosse cozido só com sal ou feito no refogado da sopa. Depois de desfiado nem se sabia de onde vinha e com o tempero do refogado ganhava sabor. A fome falava mais alto que outras esquisitices. 

Elas metiam as mãos ao trabalho. O bacalhau sem espinhas e desfiado juntava-se à batata cozida. Mais a cebola e o ovo. Tudo misturado com o tempero para dar sabor. E no final o molho de salsa apanhada na horta de casa. Já andava o cheiro no ar e ainda nem o lume estava aceso. 

Era preciso arte para aquilo. Meter comida ao lume qualquer um faz, agora para cozinhar é preciso saber. Era preciso ter mão para fazer um manjar daquilo que alguém não quis. Depois eram duas colheres na luta uma com a outra até a massa desaparecer. O óleo já quente a ganhar vida quando a recebia. A atenção para os virar antes que ficassem queimados pela metade. Os pastéis de bacalhau a sair douradinhos e a crepitar. O cheiro a óleo quente e a massa quente chamavam pelo estômago. O melhor petisco feito com o que tinha sido deixado de lado. 

- Isto aqui não se estraga nada que não somos ricos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A excursão

O autocarro parava sempre no mesmo sítio que assim não havia quem se perdesse. Era palavra passada de boca em boca e escrita numa folha de couve. 

Antes da hora marcada começava a agitação. Ainda o sol não tinha nascido por completo, já eles esperavam. Chegavam as crianças pela mão e as mulheres acompanhadas dos maridos. Apareciam todos bem arranjados dentro daquilo que os seus bolsos deixavam, e de cesta pronta debaixo do baço. Vinha cheia com o farnel que tinham preparado em casa que o que se quer é ser poupado. 

- Oh Maria, também vais? 

- ‎Ia lá ficar em casa. 

Meia dúzia de "olá. Estás bom?" e lá ficavam a dar à língua enquanto esperavam. Era para entreter. Assim que o autocarro parava, arrumavam o farnel e subiam à procura dos lugares. Os mais novos só paravam no banco do fundo enquanto os outros se iam arrumando onde calhava. O importante era ir que a vida não lhes dava muitas oportunidades de fugir aos caminhos de todos os dias. 

Aquilo era trabalho casa e vice-versa e não há alma que aguente. E assim lá iam eles. Animados. Faziam o caminho até à capital ou até onde os quisessem levar. O que era importante era ir e que não fosse para ver desgraças. Para isso já bastava a vida de todos os dias. A viagem passava entre cantorias e conversas que nunca chegavam a acabar. Falava-se de tudo e de todos. 

Quando a fome dava sinal, servia-se o farnel num qualquer canto que desse para estender a manta. O pão-de-ló e o frango corado mais umas pataniscas e uns pastéis. Uma pessoa é remediada, mas ainda enche o estômago. Mais um bocadinho de pão e um gole de vinho. Voltam quando o sol já se foi. Com um dos bonés a passar de banco em banco a recolher uns trocados que o motorista bem merece.

Amanhã voltam ao mesmo. Às preocupações e ao trabalho que a folia é boa, mas é só de vez em quando. 

- Oh Manela, na próxima também vamos? 

Então não? Nem a excursão se fazia se ficassem em terra.