quarta-feira, 21 de março de 2018

A roupa de baixo

Diziam que o dia ia ser de calor,  que os ventos já denunciavam a mudança de estação e a chegada do calor da primavera. Era o que diziam, mas, na hora a que a festa saiu à rua, o dia transformou-se em noite e a água caiu com mais força do que nos dias de inverno. 

Andores na rua, fatos feitos para a ocasião, sapatos que roíam os calcanhares e um peso de água daqueles que não havia memória. 

- Que sorte esta - diziam uns para os outros. 

- Haja vergonha - respondiam os outros quando viam os olhos dos homens a arregalar. 

Nem disfarçavam, deixavam-se ficar ali. Olhos nelas e um sussurro para o colega do lado. 

Ali estavam as mulheres. Bem arranjadas que a ocasião assim o pede e o dinheiro estica quando tem de ser. Elegantes no fato novo, costurado com as poses que tinham, mas feito com o esquecimento de levar a chita à água. E todas vestiam assim. Agora, que a chuva caía a bom cair, era ver a saia passar do meio da perna para o joelho com a promessa de continuar a encolher. 

Elas bem que puxavam, mas o saiote branco já estava à mostra. O que valia é que aquele era o dos dias bons e até tinha direito a uma rendinha para compor, mas a continuar assim não havia saiote que as protegesse do olhar alheio. Algum mais afoito ainda via mais do que devia que os cullotes eram só para quem os podia pagar. Por baixo do saiote estava o corpo como Deus o fez e nada mais. 

- Que Deus nos valha - lamentavam elas enquanto se tapavam como podiam. 

As mangas da camisa a dar pelo cotovelo e o tecido a estreitar. O corpete que levavam por baixo a mostrar-se no tecido encharcado. Nem era preciso puxar pela imaginação. 

Uma pouca vergonha nos tempos em que se dar ao respeito valia mais do que um bolso cheio de moedas. Ainda por cima para as mulheres.

Recolheu a festa sem chegar a sair. Se é verdade que a chuva abençoa também se sabe que só quem cumpre é merece tal benção. 

Voltaram as mulheres a casa, de passo apressado e corpo encolhido. É preciso salvar a decência que ficou. Mesmo que, aos olhos de quem condena, pouco valha o que há a salvar.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uns pelos outros

O trabalho fazia-se aos poucos. Quando chegava o fim-de-semana ou o calendário marcava dia feriado. Como era por boa vontade, até em dias santos estavam prontos a arregaçar as mangas. Só era preciso força de vontade para a coisa acontecer e isso eles tinham para dar e vender. Já lhes estava no sangue. 

Era sempre assim. Quando um precisava, apareciam todos. A troco de nada. Ou melhor, a troco de umas quantas cervejas e mais umas conversas que nunca se sabia como começavam. 

Conheciam-se desde miúdos. Nascidos no mesmo ano, primos ou amigos dos irmãos uns dos outros. Não havia justificação para a amizade. Tinham crescido juntos, só isso. Por isso, quando um deles anunciava intenções de subir ao altar, os outros juntavam-se para construir a casa. Era dar empreitada para as fundações e para erguer as paredes que eles tratavam do resto. Depois disso ainda havia tanto para tratar. 

Cada qual tinha o seu ofício e os que não o tinham também davam uma mão que havia sempre trabalho para mais um. O electricista e o pedreiro, o canalizador e o estucador. Até o que trabalhava mais bem vestido. Todos eles sabiam o que era dar serventia. Todos eles apareciam quando era preciso. 

- Por este andar ainda te casas antes do reboco estar terminado - diziam em tom de graçola. Toda gente sabia que quem casa precisa de casa, mas uma piada vinha sempre a calhar. 

Eles lá continuavam até a chave estar na porta. Sempre que havia dias livres e que o tempo deixava. 

Começavam cedo que o corpo nem sabia ficar deitado até tarde e por ali ficavam até ser noite. Almoçavam juntos que a noiva e a família tratavam de lhes dar sustento. Toda gente sabe que de barriga vazia não se trabalha. Uma carne para dar força, um pão de ló para adoçar a boca, um copo para ajudar a engolir. 

- Ó pá, tu cala-te - diziam quando lhes perguntavam quanto queriam receber. 

Estavam ali para ajudar o outro que já os tinha ajudado a eles ou que também ia aparecer quando fosse a sua vez de fazer casa. 

Eram uns pelos outros e nem se falava mais nisso. Era por isso que ali estavam. Uns pelos outros. Para o que fosse preciso.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os dias das mulheres

A sua figura enganava quem, sem a conhecer, a tomava por frágil. Faziam sempre isso. Afinal era mulher, pequena e magra, não esperavam muito mais do que fragilidade. Era isso que lhe ficava bem. 

Ela, a trabalhar desde que se lembrava, assumia essa imagem que tinham dela. Fez isso tantas vezes que a tomou por real. Era tal como diziam. 

Uma miúda. Antes dos trinta já tinha dois filhos e o terceiro estava a caminho. Nada de extraordinário, algumas da sua idade já tinham mais bocas para alimentar. E ela, com dois, ainda se aguentava bem. Quando chegasse o terceiro ela logo via como se arranjava. 

Trabalhava no campo e no que conseguia arranjar. Era preciso pagar a comida que ia para a mesa. Mais o conduto, que as batatas e as couves vinham da parte de trás da casa. Mas o bocadinho do touchinho e o chouriço é que davam o sabor. O resto vinha do chão que ela e o marido semeavam. Os dois, por igual. Embora ele tivesse o dobro da sua altura e a força de uns quantos homens. 

Os pais, com o corpo desfeito do trabalho que não poupava ninguém e os bolsos vazios da reforma que nunca chegou, ocupavam o outro quarto da casa. Era responsabilidade dividida com os irmãos, mas ela era a mulher. E a mais nova. Tinha-lhe calhado a responsabilidade e ela, que sabia o que era esperado de cada um, nunca tinha criticado. Ela preparava-lhes a comida, a roupa, contava os trocos para que fossem ao médico. As suas contas nunca davam em somas. 

E depois eram os miúdos. Um sem fim de preocupações. Dois rapazes. Podia ser que ao terceiro viesse uma rapariga que a ajudasse ao fogão ou a passar um pano pelo chão daquela casa. Os seus joelhos já estavam calejados de tanto esfregar. Uma a limpar e tantos a sujar dava sempre em contas que nunca batiam certo.

Fazia os seus caminhos de cesta à cabeça. Costas o mais direitas possível que as dores já se tinham tornado rotina. E assim levava os seus avios e a comida que lhe confortava o estômago no campo.

Em casa, era o jantar que ia à mesa a horas certas quando todos já estavam sentados à sua espera. Sem um agradecimento nem sequer um elogio. Ela também não os queria. Obrigação não e para ser elogiada. 

Chegava à cama quando a noite já estava perto de terminar e deixava-se dormir o pouco a que tinha direito. Já nem sonhava. Só ficava ali, num limbo que mal chegava a descanso. A manhã seguinte era outro dia, em tudo igual ao que terminava e a todos os outros.

Quem olhava para ela achava-a frágil. Nunca a conseguiram ver como ela o merecia e ela nunca percebeu o quanto lhe deviam.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sala de espera

Encontram-se ali como noutro tempo se encontravam a caminho do campo. As cantigas que nessa altura acompanhavam os pés descalços e a cesta à cabeça, dão lugar às conversas de dores e mazelas. 

Chega uma altura em que é assim. O corpo começa a acusar os anos e a vida de trabalho. As pernas já não respondem. Quem diria que houve um tempo em que corriam rua acima e rua abaixo vezes sem conta. Que, quando o pai dava autorização, dançavam nos bailaricos até ser horas de voltar a casa. Agora são as dores que lhes marcam os dias. Que descobrem ossos que não se sabia que existiam. Articulações que ameaçam desfazer-se ao mínimo esforço.

O ritual do amassar o pão ou o corpo curvado para trabalhar a terra dá lugar a um sem fim de medicamentos. Uns que acalmam a dor, outros que acertam o coração, mais uns que regulam a tensão e sobram uns quantos que nem se sabe para que servem. A memória já viu melhores dias. 

É a idade, dizem. Os mais novos acabam por reforçar a ideia dizendo que é um posto. Quase como se fosse uma graçola. Soubessem eles como o corpo se vai com o passar dos anos e nem queriam pensar que aquilo era um posto. Para a vida, ainda por cima. Sem retorno. 

E elas ali estavam. À espera que a sua vez chegasse. Que o seu nome se ouvisse. Enquanto faziam contas aos anos que a vida levava e às dores que trazia. Umas já usavam luto que o tempo não perdoa. Outras ainda tinham o alento de ter os seus ao seu lado. 

- Nem eu sei como é que ainda estou aqui. 

Chega uma altura que não se sabe. Faltam os amigos e a vida que se conhecia. Revive-se as memórias quando a cabeça o permite. Chegam as dores do corpo e as da alma. A vida que passa sem que se consiga acompanhar. 

Mas aguentam-se os dias. Tal como se aguentou a cruz que lhes saiu em sorte. E naquele bocadinho em que as cadeiras onde se espera agravam as dores, os dois dedos de conversa com quem é da sua geração têm efeito analgésico. Há coisas que só se pode recordar com quem as viveu. E o tempo já levou tantos dos que lá estavam. 

O altifalante acaba por chamar. Uma a uma. Levantam-se a custo, mordendo as súplicas do esforço e deixando escapar um último desabafo. 

- Ao que a gente chega. No que a gente se faz.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Remendos para o enxoval

Estava o avio terminado com o que a casa precisava quando davam a volta ao balcão e continuavam para os remendos. A que andava do lado de dentro não deixava de dar à língua que esse ja era costume conhecido de quem vendia. 

- Umas calças para o seu homem? 

A outra, mais metida consigo e a contar trocos, respondia que não. Se era verdade que as que o marido tinha já estavam quase desfeitas não era menos verdade que ainda podiam ser passajadas mais uma vez. Pelo menos. Agora, era para a filha. Para ela e para o enxoval que a idade pedia. 

- A sua filha já faz quantos? Uns 18? Olhe que se não arranja namoro agora já não vai longe. 

A freguesa fazia como se não a ouvisse. Às vezes, uma mulher tem de passar por mouca para não responder fora da graça do Senhor. E com algumas pessoas só podia ser assim. A bem. Com as respostas a remoer lá dentro. Caladas. 

Disfarçava a conversa e pedia-lhe os tecidos para os lençóis. Entre as alturas que a outra lhe dizia que tinha, decidia os metros que precisava. O tecido igual ao de todas as casas. A sua irmã, com mais jeito de mãos, trataria de lhe dar uma graça com um bordado dos seus e ela alindava-o com uma renda das de bom gosto. 

- Quanto custa o serviço? 

- Sete contos. 

A outra falava-lhe das maravilhas da porcelana dos pratos e a cabeça dela já andava perdida em contas que davam sempre em bolsos vazios. Fosse qual fosse a volta. Sete contos eram mais sacos de caracóis do que aqueles que ela apanhava. Era trabalhar no campo tanto tempo que o sol só recolhia a cada dois dias. 

- Porcelana de qualidade. Isto aqui dura uma vida - dizia-lhe a outra. Lábia de quem nasceu atrás de um balcão. 

E ela fazia sinal para que arrumasse o serviço. A sua filha podia ter pouco, mas o que tinha era bom. É assim que pensa. A outra puxava do caderno onde todos assentavam contas. Juntava-lhe os sete contos e os metros de tecido de lençol. 

- E é só? 

Por aquele mês ficavam os remendos aviados. No próximo, logo se via o que sobrava depois de dar dinheiro à conta. Logo se via se as calças aguentam mais um mês. ‎

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando o mundo chegava

O dia anunciava-se como se fosse de festa, mesmo que não houvesse sinal de foguetes no ar nem a banda estivesse preparada para sair. À beira da estrada que levava ao resto do mundo, mesmo no centro da pequena aldeia, juntavam-se miúdos e graúdos. Uns sentados nos degraus, outros de pé e mais uns quantos a sofrer com a ansiedade pelo que tardava em chegar. O coração apertado com o pensamento “E se não vierem hoje?”. 

O dia estava marcado no cartão que lhes tinha sido entregue no mês anterior e correspondia ao dia que o calendário marcava, mas e se não viessem? 

- Já aí vem - gritava um seguido pelo burburinho de mais uns quantos. 

Já se ouvia o motor ainda antes de se avistar a camioneta que trazia os livros. Lá vinha ele com os seus dois ocupantes nos bancos da frente e o mundo inteiro bem guardado na parte de trás. 

- Ora bons dias - cumprimentavam os senhores enquanto abriam as portas do fundo.

Na fila da frente, uma rapariguita de pouca altura e nariz demasiado espevitado para a idade, esperava a sua vez de entrar.

- Vê lá o que escolhes - diziam-lhe os senhores à laia de piada quando recebiam os livros do mês anterior e os confirmavam. Já lhe conheciam o gosto pelos livros que não eram para ela. Há idades para tudo, é o que dizem. Ela acha que há gostos para tudo e a idade não passa de um número que diz muito pouco. 

Percorre as prateleiras cheias de livros. Estão ali tantos e são tão poucos os que pode levar. Procura os que já tinha escolhido da última vez e arruma-os debaixo do braço antes que mais alguém os escolha. É por isso que faz sempre por ser a primeira. Basta chegar mais tarde e já outro leva os melhores.

Entrega-os ao senhor que encontra todos os meses e assiste, impaciente, à calma com que ele preenche o seu cartão. Cinco livros escolhidos que não chegam para ocupar um mês demasiado comprido. Com sorte consegue que rendam até meio. Com sorte. 

- Daqui a um mês tens de os devolver - dizem-lhe. 

Como se ela não soubesse, mas durante um mês eram seus. Tratados com todos os cuidados e mais alguns que não há dinheiro para pagar estragos e aquelas páginas são o seu maior tesouro. O dela e o de todos aqueles que de mês a mês esperam que a carrinha chegue. Sempre no mesmo sítio. Esperam pelo mundo. Um mundo que não acreditam que lhes pertença, mas que todos os meses chega nas costas de um carrinha.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem és tu?

Aproximavam-se de cara tapada e roupas que escondiam as formas. Mudos e calados. Nem se sabia se era homem ou mulher que ali se escondia.  

- Quem és tu? - perguntava quem os via de cara tapada. 

- ‎Ah, esse é fulano - respondia logo quem sabia tanto como todos os outros. 

- ‎, este é beltrano. Conheço-o ao longe - garantia outro com tanta certeza quanto o anterior. 

Não se fazia o baile sem uns quantos assim, escondidos, a atentar o juízo dos outros que por ali estavam, mascarados com o que tinham encontrado. Tinham dado a volta aos baús das avós e aos armários das mães à procura do que lhes servisse o propósito. Dali apareciam as velhas e as matrafonas só para a galhofa e mais uns quantos piratas e princesas daqueles que levavam aquilo a sério. 

A sala a que se resumia a associação transformava-se em salão de baile com direito a palco para o conjunto e bar para os comes e bebes. A folia não se faz a seco nem de estômago vazio e a aldeia inteira queria espairecer as ideias.

Os pares enchiam a pista de dança enquanto o conjunto marcava o ritmo. O agarra aqui acompanhado do chega para lá. 

- É carnaval, ninguém leva a mal - isso é o que dizem, mas o respeito é muito bonito. 

Os cachopos, pouco dados a danças e bailaricos, tentavam entrar pela janela da sala que servia de armazém. Uns heróis, pensavam eles enquanto ignoravam que toda gente sabia o que eles andavam a fazer. A mocidade é sempre a mesma coisa e já todos tentaram roubar uma garrafinha de gasosa. Dava aquela sensação de ser quase adulto.

A noite não terminava sem que fosse anunciado o prémio da melhor máscara. Lá era entregue a cerveja como troféu quando o álcool já começava a aquecer o corpo. Festa sem uma pinga a mais nem soava ao mesmo. Que haja alegria durante a noite que de manhã voltam todos a ser aquilo que são. Sem máscaras que os escondam.