quarta-feira, 25 de abril de 2018

O fim do suplício

Rodou a chave na fechadura e entrou em casa. Lá dentro, a filha, quase mulher, olhou-a com espanto. Não eram horas de voltar a casa. Vendo bem o relógio, nem eram horas de abrir as portas ao trabalho. 

Viviam sozinhas. O marido que nunca chegara a ser, tinha a mão pesada e o mau feitio que ela teimava em desculpar com o álcool. Perdera-se com os olhos verdes e a altura que lhe dava sombra e, sem consentimento do santo padre, ficara ao seu lado, num quarto com serventia de tudo o resto. Ela sabia que, mesmo sem aliança, era melhor ter um homem em casa do que ser uma mulher a viver sozinha com uma filha ao seu cuidado. Era por isso que tinha aguentado tanto tempo. Até que a mão pesada caiu na filha e não nela. Não foi preciso mais. Nesse mesmo dia, arrumou as malas com o nada que era seu e saiu porta fora com a miúda a tropeçar nos próprios pés. Nunca pensou em voltar e ele nunca a procurou. Tal como todos os outros, achava que se nunca se tinham casado ela não merecia qualquer tipo de respeito. Era certo e sabido que esse direito só estava reservado a quem subia ao altar. Se assim não fosse que se mantivessem debaixo do tecto dos pais. 

Desde miúda que conhecia qual era o seu lugar. Sabia que as mulheres tinham todas direito ao mesmo destino e ela, com uma filha nos braços, fugira ao seu quando fechara a porta de casa nas suas costas e deixara o seu homem do lado de dentro. Uma mulher não fazia isso. Uma mulher a sério, precisava do homem. Pouco importava o inferno a que a sua vida estava confinada. Se ali a viam assim, nem queria imaginar o que lhe teria acontecido se tivesse ficado a viver na aldeia que a vira nascer. Onde todos se conheciam e ninguém tinha pudor em apontar o dedo ao vizinho. 

- Há uma revolução - disse quando viu a pergunta a formar-se nos lábios na filha. 

Não lhe deu tempo para responder nem se preocupou em saber se a miúda percebia o que a palavra queria dizer. Agarrou-a por um braço e levou-a para a rua, ignorando as ordens para ficar em casa. A partir daquele dia, ninguém lhe diria o que fazer ou como o fazer. 

- Vamos para o meio dos militares. Hoje, acaba o nosso suplício.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Quando o mundo chegava a casa

Chegou a casa resvés com a hora de jantar. Antes que a mãe percebesse que já ali estava, esgueirou-se para o cubículo que lhe servia de quarto e guardou os livros debaixo do colchão. Trazia-os escondidos na camisola. Uma solução tão prática quanto discreta. 

Apressou-se a arrumar o tesouro que era só seu durante aquele mês e sentou-se à mesa como todos os dias, mas com a inquietação a massacrar-lhe as pernas. O pouco jantar engolido à pressa para se recolher no quarto o mais cedo possível. Todos os meses a mesma história no dia em que a carrinha parava na praça da aldeia. A excitação das portas que se abriam, o coração apertado por não poder dedicar todo o seu tempo ao mundo que se escondia naquelas páginas. 

Depois de dar o jantar por terminado e quando os pais já dormiam o sono dos justos, lia às escondidas. Lá por casa os livros não eram tidos em boa conta, era por isso que aproveitava a calma da noite para gastar as velas que surripiava da gaveta da cozinha. A mãe, quando encontrava tais preparos, ainda olhava para o lado algumas vezes, achando que aquilo era mania que lhe passava, mas de vez em quando perdia o temperamento. Levantava a voz e dava-lhe uns safanões para que levantasse a cabeça do meio daquelas páginas e encarasse a vida que se queria. Mandriagem naquela casa é que ela não permitia. O corpo era para trabalhar e nunca se tinha visto trabalho que viesse de cabeças que sonhavam com o que não era seu. 

Nessas horas de fúria só podia rezar para que os livros escapassem às mãos que levavam tudo à frente. Nos piores dias, quando a raiva lhe deixava as faces em brasa, as folhas ficavam espalhadas pelo chão do quarto. Sem se saber onde começava e onde acabava a história e sem capa que lhe desse alguma cor. 

“Não percebem”, era o dizia para si enquanto apanhava as folhas e fazia o livro. De novo. A esconder os remendos que o deixavam inteiro e a esperar que o revisor deixasse passar. Até podia ser que nem reparasse que o livro não voltava da mesma maneira que tinha ido. Só não podia voltar de mãos vazias para casa. Nem queria que assim fosse.


Na continuação do texto "Quando o mundo chegava" publicado em Fevereiro de 2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Caminho de Lisboa

O longe faz-se perto, era o que diziam aqueles que nunca tinham saído dali. Só assim se explicava tal observação. Quando metiam os pés ao caminho era ver o longe afastar-se cada vez mais e o cansaço ser companhia de viagem. 

Lisboa tinha horas de lonjura e dores do caminho feito aos solavancos num autocarro que já era velho quando fez a primeira viagem. O corpo, habituado ao trabalho duro, não se habituava às modernices de andar em carros daqueles. 

A mãe aconchegava a criança nos braços para que não acordasse do sono dos justos, enquanto perdia a conta ao tempo que faltava e pensava no que deixara por fazer. Um sem fim de tarefas que a esperavam e ela ali, arrumada entre a janela e o marido, com o cu dorido dos assentos que eram mais duros do que os caminhos que calcorreava todos os dias e o saco do comer arrumado aos pés. 

Iam na última camioneta, a primeira do dia seguinte chegava já depois da consulta e era preciso fazer o sacrifício. Não fosse a doença e era ver se eles se faziam a um caminho daqueles em que os carros andavam mais devagar que os passos dos homens. Às vezes, a confusão era tanta que tinham de parar até que os condutores percebessem quem avançava em primeiro lugar. Um confusão que se não fosse vista ninguém acreditava. 

Quando chegavam, já era noite. Valia-lhes a guarida de um dos que tinha deixado a aldeia e fazia vida ali. Dormiam sentados, que nem na cidade o espaço abunda e em casa alheia é preciso fazer cerimónia. Eles são remediados, mas sabem estar. 

No dia seguinte, já os espera a camioneta da hora de almoço. Caminho de volta para a santa terra com o corpo a tremelicar dos solavancos e o papel do médico a roubar trocados. 

Que lhes digam que o longe se faz perto e eles respondem, sem papas na língua, que Lisboa pode ficar lá onde está que eles não a querem.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O apito dos boches

Nas trincheiras portuguesas o silêncio tinha-se tornado pesado. O cheiro a pólvora continuava impregnado na roupa dos soldados. O barulho ensurdecedor das últimas horas tinha-se calado e o pó denso das explosões começava a baixar. O dia começava a amanhecer e o nevoeiro a levantar, mas o silêncio oprimia de tal forma que podiam jurar que a noite nunca tinha chegado a clarear. 

Os soldados portugueses esperavam o que lhes estava reservado. Muitos aproveitavam aquele silêncio para rezar a Deus e pedir que olhasse por eles. Precisavam dessa última benção para conseguir sair daquelas covas com vida. 

Vindo do outro lado da terra de ninguém, o apito ouviu-se claramente. Um som fino e discreto que cortou o silêncio. Os soldados ficaram com os pêlos dos braços eriçados e um arrepio percorreu-lhes a espinha. Agarraram nas espingardas e abrigaram-se onde achavam que conseguiam ter alguma vantagem. Esperaram sem saber o que estava para vir, mas tinham certeza que não era nada de bom. 

Os músculos estavam tensos e os homens mantinham o ar preso nos pulmões o máximo de tempo que conseguiam. Não queriam que nada perturbasse os seus sentidos, precisavam de estar alerta. Os apitos voltaram a ouvir-se. As mãos aconchegaram as espingardas e com a língua lamberam as gotas de suor que se formavam nos lábios. 

Quando os alemães avançaram, os soldados portugueses juravam que ouviam os passos do inimigo a subir as trincheiras e a caminhar pela terra de ninguém. As botas pesadas na lama e nas poças de água, os passos apressados a avançar em grupo e de armas prontas. 

- Eles vêm aí - sussurrou alguém. 

Não se ouviu resposta.

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A 9 de Abril de 1918, na Batalha de La Lys, morreram 400 portugueses e quase 7000 foram feitos prisioneiros dos alemães. O meu bisavô foi um dos prisioneiros.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Nada se perde

- Dê-me um chouriço, uma chouriça e mais um bocadinho de toucinho entremeado.

Estava arranjado o conduto para a noite e para os dias que se seguiam. Ele tratava do avio pedido e deixava-o em cima do papel pardo onde fazia as contas de noves fora antes de embrulhar a carne. Ela pagava quando podia, arrumava o embrulho na cesta e metia-a à cabeça. Pés a fazerem-se ao caminho e lá ia ela que a vida não espera. 

Em casa, passava a carne por água e metia-a na panela para dar sabor à sopa de todas as refeições. O papel pardo era arrumado lá no canto que ainda estava bom para escorrer os fritos que seriam feitos daqui a uns tempos. 

Nada se perdia naquelas mãos. O bacalhau vinha embrulhado nas folhas de jornal e, por muita água que levasse, nada lhe tirava o sabor a notícias antigas. 

- É tempero - dizia o homem em tom de graçola para quem se queixava do sabor seco que aquelas postas deixavam na boca. 

Eles comiam, calavam e lá guardavam as folhas que tingiam as mãos e que, depois de bem esticadinhas, embrulhavam o tacho onde se guardava o almoço. A comida quer-se quente e são duas camadas de jornal e mais um pano que a deixam assim. 

Já se nasce a saber de economia sem nunca se chegar a reconhecer as letras. Os ricos só o são porque sabem que só tem dinheiro quem o poupa. Se eles, que têm tanto que lhe perdem a conta, o fazem, porque é que nós, que andamos de pés descalços, não o vamos fazer? 

A sardinha dá para três quando assim tem de ser e um saco de plástico, depois de lavado e seco, leva mais umas quantas viagens. Isso e a camisa. Já virou o colarinho e não tem tecido para remendar, mas cortada em bocados dá pano que limpa melhor do que os novos. Se o tecido o merecer, ainda leva uma renda à volta para embelezar. 

É fazer milagres quando nem se sabe se Deus está a olhar por nós.

quarta-feira, 28 de março de 2018

A que dão o nome de amor

Viu-a ao longe. Figura de miúda com uns olhos verdes fundos e o cabelo escuro arranjado numa banana feita com cuidado. 

A simpatia nasceu-lhe assim, à primeira vista. Sem palavras trocadas nem toques de mãos. Só de ver aquela menina de ar envergonhado que caminhava na sombra da mãe. O seu coração ficou ali, com ela. Sem lhe saber o nome. Sem reconhecer o tom da sua voz. 

A partir daquele dia sentiu o coração em alvoroço. Ele, homem feito e de vida difícil, a ser levado por uma força que nem sabia descrever. Era uma pressão no peito que lhe atormentava as noites e afastava o sono. A imagem dos seus olhos tímidos e os passos pequenos, ocupava-lhe o pensamento. Todos os dias. A todas as horas. Desde daquele dia em que os seus olhos a tinham encontrado. 

Faltava o ar e o peito ficava apertado em saudades desde do primeiro momento. A menina dava-lhe a volta à vida sem saber que o fazia. E ele, esquecendo a timidez que o caracterizava, escreveu-lhe nas melhores palavras que sabia. 

O papel simples e a letra desenhada. Parco em palavras que não queria ofender quem amava e nestes assuntos era um novato. 

Pediu-lhe desculpa nas primeiras linhas. Para que ela soubesse que não a queria incomodar. Aquela carta era só para lhe falar da força que o levava até ela desde do primeiro momento que a vira. Para lhe declarar o amor que surgiu sem justificação para tal.  

Assinou com o seu nome completo e despediu-se esperando que ela lhe respondesse. Rezando para que aquele sentimento não fosse só seu. 

Por portas e travessas arranjou maneira das folhas chegarem às mãos delicadas daquela moça que lhe atormentava os dias e as noites. Depois aguardou com o coração em alvoroço.

Esperou sem a tornar a ver. Só com a sua imagem no pensamento. A resposta tardou mais do que ele queria, mas chegou-lhe. Ele leu a medo que é o que se faz quando um papel tão pequeno guarda tanta vida. 

Na carta que cheirava a jasmim e a Primavera, ela dizia-lhe que se chamava Mariana. O resto é a história que ficou só para eles.

quarta-feira, 21 de março de 2018

A roupa de baixo

Diziam que o dia ia ser de calor,  que os ventos já denunciavam a mudança de estação e a chegada do calor da primavera. Era o que diziam, mas, na hora a que a festa saiu à rua, o dia transformou-se em noite e a água caiu com mais força do que nos dias de inverno. 

Andores na rua, fatos feitos para a ocasião, sapatos que roíam os calcanhares e um peso de água daqueles que não havia memória. 

- Que sorte esta - diziam uns para os outros. 

- Haja vergonha - respondiam os outros quando viam os olhos dos homens a arregalar. 

Nem disfarçavam, deixavam-se ficar ali. Olhos nelas e um sussurro para o colega do lado. 

Ali estavam as mulheres. Bem arranjadas que a ocasião assim o pede e o dinheiro estica quando tem de ser. Elegantes no fato novo, costurado com as poses que tinham, mas feito com o esquecimento de levar a chita à água. E todas vestiam assim. Agora, que a chuva caía a bom cair, era ver a saia passar do meio da perna para o joelho com a promessa de continuar a encolher. 

Elas bem que puxavam, mas o saiote branco já estava à mostra. O que valia é que aquele era o dos dias bons e até tinha direito a uma rendinha para compor, mas a continuar assim não havia saiote que as protegesse do olhar alheio. Algum mais afoito ainda via mais do que devia que os cullotes eram só para quem os podia pagar. Por baixo do saiote estava o corpo como Deus o fez e nada mais. 

- Que Deus nos valha - lamentavam elas enquanto se tapavam como podiam. 

As mangas da camisa a dar pelo cotovelo e o tecido a estreitar. O corpete que levavam por baixo a mostrar-se no tecido encharcado. Nem era preciso puxar pela imaginação. 

Uma pouca vergonha nos tempos em que se dar ao respeito valia mais do que um bolso cheio de moedas. Ainda por cima para as mulheres.

Recolheu a festa sem chegar a sair. Se é verdade que a chuva abençoa também se sabe que só quem cumpre é merece tal benção. 

Voltaram as mulheres a casa, de passo apressado e corpo encolhido. É preciso salvar a decência que ficou. Mesmo que, aos olhos de quem condena, pouco valha o que há a salvar.