quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o rei fazia anos

Da avó recebia um envelope com notas que ele passava à mãe sem lhe ligar grande importância. Os embrulhos que os pais lhe davam eram rasgados sem cerimónia com direito a espanto quando eram brinquedos e a um encolher de ombros quando aparecia mais uma camisola ou umas calças. Um obrigado dito com bom ar que era assim que o tinham ensinado e começava a espera pelo momento mais importante do dia.

O seu coração disparava quando, à hora marcada ou lá perto, que os miúdos não sabem que as horas são para cumprir, a campainha começava a tocar sem parar até ao ponto em que se tornava tão irritante que a porta da frente ficava encostada e acabava escancarada. E eles iam entrando, com energia a mais e paciência a menos, sem conseguir perceber que se podia falar sem ser a gritar ou com demasiada vontade de percorrer todos os cantos à casa. Não que lhes tivessem dado autorização.

O espaço não abundava. Eram casas pequenas, feitas a pensar nos que lá viviam e não naquelas dezenas que apareciam uma vez por ano. A sala de jantar, que costumava estar impecavelmente arrumada à espera das ocasiões que justificavam o uso da loiça que vinha do enxoval, estava virada do avesso. As cadeiras tinham desaparecido, o papel de embrulho estava espalhado sem grande critério, o cheiro a óleo quente começava a invadir a casa e a mãe, que andava metida naquela confusão há mais de uma semana, estava quase a dar em doida.

Eram mais de vinte, bem mais, os miúdos que o filho convidara e ela tinha preenchido à mão os convites que ele levara para a escola com um sorriso de orelha a orelha. Agora, só a imagem desse sorriso é que acalmava a antecipação do trabalho que ia ter noite dentro quando a casa estivesse vazia.

Os risos e os gritos vinham de todo o lado. Sabia que ia encontrar rissóis meio mordidos e restos de salame espalhados pela casa. Era possível que aquelas raspas verdes que faziam  as vezes de relva no bolo acabassem por se esconder em cantos que ela só ia encontrar na altura das limpezas. Isso e os bonecos que, pelas suas contas, já tinham desaparecido dois e ainda nem tinham cantado os parabéns.

- Venham já para dentro.

Dois deles, mais afoitos, brincavam à apanhada no meio da estrada sem olhar aos perigos.

- Todos para a sala que vamos cantar os parabéns.

Chegavam aos poucos. Gritavam quando acendiam os foguetes. E quando começavam a cantar os parabéns. E quando a cantoria desafinada acabava em palmas e o aniversariante, acompanhado de mais uns quantos, soprava para cima do bolo.

Voltavam à brincadeira sem mostrarem grande interesse no bolo que entretanto já tinha perdido mais um jogador e uma baliza. Roubavam um rebuçado de fruta, bebiam um copo de sumol e voltavam às correrias até ser hora de voltar a casa, quando os pais tocavam à porta para os levar e eles pediam, com olhinhos tristes e ameaça de beicinho

- Só mais um bocadinho.

Quando a casa ficava vazia e o pequeno aniversariante dormia o sono dos justos, a noite já ia alta, mas ainda se adivinhava longa. Os pratos de plástico espalhados, o chão pegajoso da comida, o cheiro a cansaço misturado com comida doce.

Enquanto se dobrava para começar a arrumar as coisas e puxava para si a vassoura e a pá, ela repetia com os seus botões a mesma lenga-lenga de todos os anos.

- No próximo ano não faço nada disto.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quinze dias em Agosto

No dia anterior, já a agitação falava mais alto do que qualquer discernimento. Era a casa em alvoroço entre a correria dos mais velhos e a euforia dos mais novos. As roupas acumulavam-se nas camas, as mercearias enchiam a mesa e os armários da casa de banho estavam abertos sem que se encontrasse as toalhas que era para levar.

Agosto tinha cheiro a praia e a férias. Era altura de trocar a casa de todo o ano por outra. Mais pequena, com uma cozinha e sala que dava em quarto, mas que parecia de riquezas que não tinha. Alugada semanas antes, trazia consigo a certeza de duas semanas com o mar e o sol, se se dignasse a aparecer, por vizinhos. 

Ainda nos preparativos e com a hora da partida cada vez mais próxima, fecha-se uma mala com a roupa de vestir e outra com a de servir. Mais um cobertor que o mar traz uma maresia fria durante a noite. A cesta fica cheia com cebolas, batatas e mais qualquer coisa que é melhor levar do que estragar. 

O carro parece pouco para tanta mala. Quando se fecham as portas e se dá a volta à chave, vai meia vida ali metida e a outra meia só fica porque não há onde a levar. 

O caminho feito em curva e contracurva demora a passar, mas quando se avista o destino, mesmo que encoberto, é como chegar ao paraíso prometido. O cheiro a sal a invadir os pulmões e o sol a queimar as faces. As ondas a chamar pelos mais novos que se perdem nas horas de uma digestão que não compreendem e nos avisos que as mães insistem em repetir. 

Duas semanas esticadas até ao último minuto. Os bolsos com moedas para gelados e bolachas americanas. Os dias que queriam que nunca acabassem e quinze dias a render como se fossem trinta. O corpo cansado de tanto nadar e as mãos pegajosas dos gelados que iam buscar às máquinas e escorriam pelo cone. Os mergulhos quando a praia já estava vazia e o voltar a casa embrulhados em toalhas no embalo dos braços dos pais. Um sem fim de rotinas que se viviam todos os anos como o momento mais extraordinário. 

 As melhores férias do mundo.



Texto publicado na edição de Agosto de 2018 da Revista DADA

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O centro do mundo na taberna

Só quem por ali passou sabe como eram aqueles dias e aquilo que nunca chegou a ser só habitou a imaginação daqueles que nunca tiveram autorização para lá entrar. Não que houvesse uma lei escrita à porta ou uma placa que lhes indicasse que a sua entrada estava vedada, verdade seja dita que nem nunca se viu um polícia a rondar a porta, mas era uma questão de honra, de cada um saber o lugar a que pertencia. Era por isso que as mulheres só metiam um pé do lado de dentro quando a tarde era de matiné e os homens passavam a vida por lá sem razão aparente. 

O lá era um canto escuro que não havia janela aberta que conseguisse iluminar. Uma junção de chão de cimento que já tinha perdido a forma com uma sujidade que era parte das paredes e da mobília. Essa não abundava nem sequer era digna de grandes luxos. Mesas quadradas com tampos de madeira já manchados com círculos escuros e pingos que não houve água que lavasse, e uns quantos bancos rijos que se misturavam com as cadeiras que ajudavam a descansar as costas. Era por isso mesmo que não abundavam por ali, quando há descanso o corpo tem tendência a deixar-se ficar e o que por ali se queria era que fosse beber e voltar ao caminho. 

Do lado de lá do balcão estava ele e ela ficava do lado de lá da parede. Juntos na vida e no trabalho, nos dias bons e nos menos bons. Ele a passar um pano imundo pelo balcão e a deitar os copos no alguidar com água cor de vinho e ela agarrada aos tachos e às panelas. Os caracóis que ele comprava e que ela levava a lume alto em latas que podiam ter sido de muita coisa, mas nunca tinham sido pensadas para cozinhar, e que depois ele vendia a quem por ali andava. Um pires de caracóis bem aviado e mais um copo do que houvesse. 

As conversas ouviam-se na rua. A imaginação a tornar-se realidade quando as palavras se formavam na boca deste e chegava aos ouvidos dos outros. As verdades que nunca foram a valer mais do que a vida de todos os dias e a voz de algum a ganhar corpo para impôr algum respeito sem nunca deixar de atiçar o fogo da má língua. 

E mais um copo deitado abaixo, uma voz a prometer força de punhos e ele a sair de trás do balcão para fazer valer a sua posição enquanto ela lhe olhava os passos. Uma vida inteira numa taberna que dava vida a todos os que por ali deixavam passar os dias. O centro do mundo que ficava pela aldeia.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Quem dizia as leis

Ele tinha o coração colado à boca e era isso que o arruinava. Isso e o vinho que se é verdade que dá fala aos mortos, imagine-se o que faz a quem ainda anda por cá. 

Foi assim que a falta de sorte o apanhou naquele dia e o levou a passar a noite longe de casa. Encontrou-o de olhos meio cerrados e corpo bem bebido, mas com ouvido apurado. O que o álcool levava em reflexos, devolvia em audição o que não se pode dizer que seja uma benção. 

A hora do jantar já estava a chegar e ele esvaziava o último copo quando os ouviu. Estavam os dois encostados ao balcão que não primava pela limpeza, com roupa melhor do que a sua e de sapatos sem meias solas. Riam e conversavam de peito cheio. De tudo e mais alguém. Não fosse o álcool falar mais alto que o discernimento e ele tinha percebido que quem falava assim não sabia o que era espreitar por cima do ombro. Ouviu o seu nome na boca dos outros. Ouvi-os rir. Foi quanto bastou. 

Levantou-se, o corpo a cair com o peso da mangação e sem reflexos que o impedissem de tombar o copo com um resto de vinho tinto que manchou a mesa. Chamou-os com a voz enrolada pelo álcool, apontou o dedo da direcção dos dois. Sabia que falavam dele, que faziam pouco e não achava que tivessem esse direito. Era do conhecimento de todos aquilo que ele era, mas ninguém negava que também era honrado e aqueles dois que mal o conheciam não tinham o direito de transformar o seu nome numa piada de miúdos. 

Insultou-os sem medos que o álcool não deixa espaço para essas coisas. Levou-os de tudo o que se lembrava e de mais alguma coisa. Não demorou muito a que o outro chegasse para pôr fim a tudo aquilo. 

De costas direitas e voz forte, o Sr. Regedor, prezado pelos amigos da casa e temido por todos os outros, deu por encerrada a conversa com ordens claras. Aquele homem que mal se aguentava de pé era para levar para a prisão sem mais conversas. Não lhe ouviu as razões e pouco lhe interessou se os outros o tinham insultado antes. O único caso provado era o contrário. Arrumou o assunto com um aperto de mão aos bem vestidos, amigos da família, e deixou o outro seguir para o seu destino. Se tivesse sorte, só ficava uma noite atrás das grades.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O raio dos cachopos

Lá fora cheirava a terra seca do calor e dentro do barracão era o aroma do feijão a começar a cozer que enchia a casa. Já a água borbulhava e as hortaliças estavam a ser arranjadas quando ela se lembrou do que lhe estava em falta. Não era muito que aquela casa não sabia o que era fartura, mas era o essencial para levar o jantar à mesa.

Sem poder deixar as panelas sem quem lhe deitasse o olho, chamou o filho e entregou-lhe por boca a lista do que era preciso comprar. Mandou-o ir à loja de mãos vazias que no final do mês fazia contas, mas com o alerta feito em voz séria:

- É ir e voltar, nada de te perderes.

Ele assentiu com a cabeça e fez-se ao caminho que a loja não ficava longe, mas até lá era sempre a subir. Não chegou a avistar a porta onde o Sr. João pendurava os abanos e encostava os sacos de adubo. Ainda ouvia a mãe de volta das panelas quando os outros apareceram. Cachopos como ele. Meia dúzia de palmos de altura, pés descalços e um certo ar de traquinice. 

Chamaram-no de peito cheio e ele não se negou. Esquecido das ordens que levava de casa, fez-se aos quintais dos vizinhos no encalce dos outros que passavam de horta em horta sem olhar a quem pertencia, enchendo o bolso com a fruta que estava mais à mão e rindo de peito cheio.

Só pararam quando avistaram a vinha. Agachados no meio das silvas e dos arbustos, deitaram o olho ao terreno. Quando se certificaram que não havia vivalma ali por perto, fizeram sinal uns aos outros e correram o mais depressa que conseguiram enquanto desabotoavam a camisa e as calças. Os tímidos ainda deixaram as cuecas, mas os mais afoitos entravam na água sem nada que lhes tapasse as vergonhas.

O tanque que dava água à vinha refrescava-lhes o corpo em tempos como aquele em que sol brilhava alto e o suor corria em bica. Era um descanso que só terminava quando o capataz, que nem sabiam de onde aparecia, os ameaçava de punho fechado e corria na direcção dos miúdos. E eles, mais ligeiros que o outro, saltavam do tanque, agarravam a roupa que tinha ficado pendurada nos ramos e faziam-se à estrada que os levara até ali.

Era assim, de cabelo em desalinho e roupa encharcada, mas sem as compras que lhe tinham pedido que ele voltava a casa. A mãe, que sabia bem os caminhos por onde ele andava, esperava-o de chinelo na mão e mesa vazia.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Do tempo que fica sempre igual

Juntavam-se no mesmo sítio. Todos os dias com excepção das épocas festivas em que a família de um e de outro os chamava para a mesa sem ligar aos compromisso que ambos tinham. 

Eram homens com uma vida em cima, comprovada pelas rugas e pelos movimentos presos às dores, mas com a sentença da reforma a dar-lhes o tempo livre que nunca tinham pedido. Para enganarem as horas que pareciam durar mais do que julgavam possível, encontravam-se todos os dias (tirando as excepções já referidas) quando o sol começava a mingar. 

Sem grandes cumprimentos, sentavam-se no degrau de uma casa que já não era mais do que paredes sem cor e portas enferrujadas e, com um olho no amigo de uma vida e outro na vida que andava rua, deixavam-se ficar a falar de tudo o que lhes vinha à cabeça. Dos tempos idos aos que agora se viviam. Das certezas que tinham e do que o futuro lhes escondia. 

Mastigavam as palavras e falavam tão para dentro que mais ninguém os entendia, mas todos sabiam que por ali estavam. De calça de tecido, camisa, camisola e sapato engraxado. Fizesse frio ou calor, vestiam-se para o domingo que agora eram todos os seus dias. 

Cumprimentavam os que passavam por eles e de quem se lembravam desde que eram do tamanho dos que agora levavam pela mão. Nunca paravam, a vida corria tão depressa que não permitia paragens, por muito curtas que fossem, para trocar dois dedos de conversa. E aqueles dois homens por ali ficavam. A ver quem passava. Com tanto para contar e sem ninguém que os ouvisse, sem ninguém que visse o interesse, mas todos habituados ao cumprimento quando por ali passava. 

Assim foi, durante tantos anos que a maior parte das pessoas se esqueceram como era antes de ser assim. Até ao dia em que a noite chegou e encontrou o degrau frio.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Cantemos todos com alegria

Minha terra é Vale da Pinta
Minha rica freguesia 
Aonde eu fui baptizada 
Naquela sagrada pia 

Conheciam aquela terra onde tinham nascido e pouco mais, mas todos os anos faziam-se ao caminho deixando-a para trás. Era o trabalho que os esperava longe dos parcos pertences a que chamavam seus. E lá iam. 

Desde do dia em que eu vejo 
As campinas do Ribatejo 
Cantemos todos com alegria 
Q’esta paródia só dura um dia 

As lezírias estavam douradas pelo dia que amanhecia quente. Homens e mulheres, alguns com crianças de colo, seguiam pelo caminho de pó e pedras. De pés descalços, cesta à cabeça, mãos na cintura e enxada ao ombro. Conversas que davam em cantorias e transformavam em alegria a desgraça de todos os dias.

Rapazes de Vale da Pinta 
Quando para fora vão 
Toda gente lhes pergunta 
Rapazes de onde são 

Por onde passavam, os homens, com corpo de trabalho e hábitos rudes, apelavam à curiosidade até da moça mais tímida. Era a pose e a roupa que por muito colarinho voltado e tecido passajado, não declarava a pobreza a que os seus bolsos estavam condenados. E elas, fossem puras ou casadas, seguiam-nos com o olhar. 

Olha a nossa mocidade 
Qu’ o tempo nos vai levando 
Recordemos com saudade 
P’ra todos assim cantando 

E aquelas modas, aprendidas no tempo das mãos calejadas, das costas doridas e da pele escurecida pelo sol, ficam-lhes na memória até quando o vigor da juventude desaparecia. A memória do tempo em que o trabalho os levava para longe e que entretinham os serões na lezíria com uns passos de dança para acompanhar as cantigas que inventavam, o longo caminho para o trabalho que se fazia curto quando aclaravam as gargantas. As recordações de uma mocidade que não os deixou ser moços. Do tempo em que as mulheres, de cabelos recolhidos debaixo dos lenços, rodopiavam no braço dos homens. Todos com roupa de trabalho que não havia outra.

Cantemos com alegria 
Q’ esta paródia só dura um dia. 


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Os trechos em itálico são retirados de uma das Marchas do Rancho Folclórico de Vale da Pinta. O retrato de uma vida antiga que se prolonga para os nossos dias pela arte de quem sobe a palco para a dançar e cantar.