quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Deve ter andado a enxofrar

Estava ali sentada desde cedo a embalar-se a si própria num sem fim de mágoas e tristezas que a cortavam por dentro. Foi assim que ele a encontrou. Encolhida, muda e ele, sem o dom da palavra, atirou-lhe com um 

- Estiveste a enxofrar ou quê, mulher? 

Dizia aquilo por dizer, porque era o que vinha à boca de todos quando a visão, fosse do próprio ou daqueles com quem se cruzava, ficava turva e as palavras fugiam da boca de quem achava que tinha de dizer alguma coisa. Vício de anos passado de geração em geração. A mesma conversa quando não se falava do resto. Foi por isso que ela não respondeu nem tão pouco o encarou. 

"Antes assim fosse", pensou com os seus botões, mas nem estava na altura do míldio ou de mal que lhe valha, aparecer nos campos. Antes fosse que a sabedoria de todas as bocas fosse certa e ela estivesse no meio das videiras, de enxofradeira na mão a correr a vinha de ponta a ponta enquanto tingia as folhas de um amarelo vigoroso para combater a brancura do bicho. Antes fosse um desses dias em que voltava a casa de olhos vermelhos e inchados sem distinguir se punha o pé no caminho certo ou se baldeava ribanceira abaixo. Todos aqueles que andavam metidos naquela vida voltavam assim para casa. Olhos inchados e a carne a cheirar a enxofre sem que eles o percebessem. Vendo. Bem as coisas, também devia ter subido ao altar num desses dias em que nem sabia se quem estava à sua frente era um padre ou um taberneiro.

Antes fosse que aquela água que lhe empapava os olhos e deixava a vista nublada tivesse causas que ela soubesse explicar. Que viesse de andar a enxofrar, de passar os dias mergulhada num nevoeiro sulfúrico. Pelo menos aí vinha com dinheiro no bolso, por muito pouco que fosse.

Pensou tudo para si e deixou-o sem resposta que não havia outra coisa a fazer. Ele, pouco habituado a preocupações e sem grande vontade de se entregar a elas, deixou-a consigo mesma naquele embalo marinado em lágrimas. 

- Devia ter andado a enxofrar - era o que qualquer um diria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O cheiro que enche a rua

O alcatrão estava em mau estado, defeito que deu em feitio com o passar dos tempos, e só duas ou três casas é que tinham primeiro andar. Em compensação, todas tinham quintal com direito a um barracão com a cozinha onde a família se servia. A cozinha de casa era para quando apareciam as visitas. 

Aqueles eram outros tempos. Eram dos dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos e a protegê-los com uma mão na testa e outra na cintura para equilibrar. A hora a que a rua, mesmo vazia, começava a ganhar vida. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira já gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho e mais outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, para os filhos que almoçavam ali ou para os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado regado a azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. O crepitar da fritura. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com um saber que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. Das antigas. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne. Um cheiro rico e gordo, guloso. Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua e anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira quando já todos se serviram. 

- Nem é preciso lavar - a piada de sempre. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e esquecem-se nomes, mas o cheiro a refogado vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua com mais buracos do que alcatrão onde se espera que a família chegue para almoçar.

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Texto publicado na edição de Outubro da Revista DADA 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Minha terra é Vale da Pinta

É um viver que só conhece quem de lá vem. Um saber que passa de boca em boca, de mão em mão, sem cartilha que o explique ou lhe dê regras. É o que é, sem mais. Corre no sangue de quem deu os primeiros passos por aqui. De quem baldeou no lago da igreja e transformou a roupa de Domingo numa rodilha a precisar de ser espremida. De quem fugiu da maquia que lhe prometiam. 

Sabemos todos o mesmo. Sentimos o mesmo. Falamos um português que soa ao que o país fala, mas que só nós o percebemos. É a pronúncia que aparece quando os nervos tomam conta de nós, são as palavras que só têm significado para quem cresceu com elas. 

Cantamos esta terra que nos corre nas veias e gritamos que é nossa enquanto esperamos que as pétalas comecem a cair em cima do público. A nossa linda freguesia. Mais que todas as outras mesmo que seja só aos nossos olhos. 

Lembramos os saudosos tempos em que os caracóis eram servidos à mesa da taberna do Valentim e que os mais novos vinham do Zé d'Azoia com um cartucho de beijinhos escolhidos à mão. Aquele açúcar colorido que tinha sabor a inocência. A mesma inocência com que batiam à porta de um e de outro e desapareciam antes que se ouvissem passos do lado de lá. A porta abria para encher a rua vazia com o cheiro a refogado de alho e louro e só se ouviam os passos que fugiam ao longe. 

É assim que vai passando o tempo, quando damos por ele já perdemos a conta aos anos. Envelhecem os que dançaram na casa das canas sem ligar a quem sonhava de noite para dizer de dia. Aguentam-se os que ainda se fazem ao trabalho quando se ouve a pergunta que o tempo tornou ordem: "Toca a muca ou não toca a muca?". Ouvem-se os insultos quando o árbitro não está pelos nossos, os que sabemos que vão ganhar. Ficam as histórias vividas por uns que se tornam de todos com o passar de boca em boca. 

Pode chegar o dia em que seja só eu, tu e o Zé d'Azoia, ou que as estradas fiquem vazias, mas esta história será sempre nossa. Do orgulho que nos enche o peito e que se faz ouvir quando nos perguntam de onde somos. Do cumprimento que se dirige aos que nos viram crescer. 

- Ó gente de Vale da Pinta.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O trabalho dos dois

Fazia pouco tempo que o dia tinha amanhecido. Vinha com uma cor baça e escura que tardava em clarear e dar calor ao dia que se adivinhava cinzento e húmido. O ranger das dobradiças do portão feito de restos de madeira ecoou na rua vazia de pessoas e de casas. De um lado a vista só alcança o verde rasteiro dos campos. Do outro acompanha a rua de pó que acaba nas casas baixas e brancas da vila. 

Sem que a idade tolde a destreza que a experiência lhe deu, começa o mesmo trabalho de sempre. As mãos gretadas perdidas em gestos mais harmoniosos do que mecânicos enquanto o leite enche o balde preto que ele segura entre os pés e lhe aquece as pernas. 

Encostada à ombreira da porta, de casaco de malha grossa pelos ombros e apertado junto ao pescoço, ela espera-o. Recebe o balde e vira-lhe as costas sem mais falas pronta a fazer-se ao trabalho. Leite despejado no pano branco que tapa a panela e a paciência de o ver coar. Gota por gota. A cadência a preencher o silêncio. O aumentar do gotejar quando ela torce o pano para aproveitar a última gota. Deixa-o ferver até o cheiro da gordura da nata invadir a casa e a entranhar-se no chão de cimento e nos móveis que já tinham tido outros donos quando ali chegaram. De corpo já curvado, pela idade e pelo hábito do trabalho, dá a volta ao leite e prova-o com o gosto que só tem quem sabe. 

Quando chega a altura, deita a água cor de terra que vem do cardo e fica a ver o leite a ganhar corpo. Enquanto espera, puxa as mangas pesadas e prende-as nos cotovelos com os elásticos que traz sempre no pulso. Fala consigo mesma enquanto repete os passos de outros dias até que o lume termine o seu trabalho. Nessa altura, sem ajuda, o corpo pequeno vira a panela que parece que o vai engolir e deita aquela papa no velho tabuleiro de madeira revestido a linho. E ali fica ela, sentada, a envolvê-lo no pano, a apertá-lo, tendo por companhia o som da água que escorre do tabuleiro para os alguidares que ali estão. O som que já lhe soa a silêncio. 

Ajeita-se no pequeno banco e prepara as mãos para dar forma aos queijos que esperam a cura. Ela metida no trabalho que sempre fez naquela casa onde também dorme e come. Toda a sua vida ali. A dela e dele. Ele que naquela idade ainda sai de manhã para lhe ir buscar o leite. Ela que de corpo curvado faz do trabalho os seus dias. Ele que ao final do dia volta a sair de balde vazio. Ela que o espera. Os queijos que levam o sabor que só o tempo lhes dá.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Quando Agosto traz a banda à rua

E eis que Agosto anuncia o seu fim com direito a cheiro a pólvora e incenso, bailaricos que nunca terminam e ruas cheias de carros que só aparecem naquela altura. Principalmente ao Domingo, quando o cheiro dos guisados feitos pelas mãos que os embalaram, trazem meio mundo de volta a juntar-se aos que andam por ali durante todo o ano. 

O dia começa com os foguetes a rebentar em seco, sem dó nem piedade pelos que ainda tentam acertar as horas de sono, a anunciar que o sol já vai alto e que é tempo do corpo se fazer ao caminho. As noites de festa são longas para os que a aproveitam e ainda mais para os que a fazem, mas a alvorada não se importa com as horas a que os corpos caíram na cama. 

Em casa, naquelas casas em que o último domingo de Agosto cumpre a rotina de todos anos, dá-se um jeito à farda e escova-se o chapéu. Pega-se na pasta e no instrumento que espera à porta e segue-se o caminho até ao sítio do costume. Aquele que já se conhece só por ouvir os próprios passos e onde se encontram os de sempre. Olhos ensonados, corpos conservados no álcool da última noite e os mesmos atrasos, os mesmos esquecimentos. 

- Não tenho essa música. 

- Há por aí um chapéu a mais? 

Arranja-se sempre qualquer coisa. O desenrasque de última hora que vem com esta coisa de se nascer português. Quando se ouve o bombo a anunciar a chegada da bandeira da padroeira para abençoar os que lhe abrem a pota, já vai longe a lembrança da alvorada. O sol começa a aquecer o dia, a queimar a pele e a obrigar a humedecer os lábios numa água que muitos garantem que devia ser de cevada. A piada batida de todos os anos. A paragem na casa de uns e de outros para descansar as pernas e confortar os estômagos sempre animados pelas lembranças de outros anos. De outros peditórios. Daqueles que já não estão ali. A sensação de casa quando se percorrem os mesmos caminhos e se abrem as mesmas portas de mesas prontas a recebê-los a todos, sem distinção entre eles. 

No caminho, confunde-se o cheiro do refogado que espera as famílias com as marchas tocadas rua abaixo e rua acima. As bolsas a irem de porta em porta. As pessoas que param para os ver passar e que se deixam ficar de mãos acima dos olhos que o sol tolda a visão e eles gostam de os ver passar. 

- Por este andar o peditório termina e já a procissão está a sair. 

Todo os anos as mesmas queixas. Tão iguais que já nem se sabe se são verdadeiras ou se é só a força do hábito a falar mais alto. As horas que passam demasiado rápido, os passos que não se apressam. 

A festa de Agosto, de fé para uns e de folia para outros, a cumprir a tradição de todos os anos. A banda a dar música à aldeia que sai à rua.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Como Ele fez por nós

"Sou da aldeia da Luz 
A que vai ser alagada 
Calhou-nos esta cruz 
Mas uma cruz tão pesada."
João Chilrito Farias, poeta popular 

Pára antes de passar o portão. Pousa o balde e, em silêncio, faz o sinal da cruz enquanto murmura as palavras que o acompanham. A bata escura cobre-lhe a perna até meio do joelho e a camisa de manga comprida só lhe deixa a cara à vista. Tem a pele marcada pelo tempo, a força escapa às pernas. 

Em silêncio e de olhos fixos no chão, entra no cemitério e faz-se ao trabalho. Prepara a cal no balde, varre a campa e leva o seu tempo a pintá-la de branco enquanto fala com os fantasmas que a acompanham e que ali pensavam ter o descanso eterno. É trabalho deitado ao vento porque não falta muito para levarem os seus dali. Para a nova morada que não conheceram. 

São eles e ela que dali vão. Que deixam aquela terra. As pedras da calçada conhecem-lhe os passos, os tijolos improvisam degraus onde se sentam as vizinhas, os muros não lhe tiram a vista para os campos sem fim. Tudo seu sem o ser. Fazem parte de si como aquele sangue que lhe corre nas veias. 

Tem amizade à casa que antes de ser sua era dos seus pais. Das paredes que lhe ouviram os gritos quando nasceram os filhos e quando a vida lhe levou os que a puseram naquele mundo. Tudo aquilo pode ser menos do que o que têm para lhe dar, mas é o pouco que lhe pertence. A lareira grande que não a espera na nova casa nem o balcão para arranjar o porco. Só os quartos todos com direito a janela. Ali, só um é que a tem. Mas é aquela que ela penou para ter. Assim como lhe saiu do corpo a casa que ergueu para o filho a dois passos daquela. 

Enquanto varre a casa já vazia de móveis, mas cheia de memórias que se colam a cada canto, lembra-se das palavras do padre. As que ele lhe disse quando em confissão lhe falou do medo de ir embora e que voltou a repetir quando a procissão levou os santos para a nova igreja. 

- É o sacrifício em nome dos portugueses tal como Deus sacrificou o seu filho pelos homens. 

Benzeu-se antes de trancar a porta que não se voltará a abrir. Com a ponta da bata escura limpou as lágrimas que teimavam em cair. Partiu para o que lhe diziam ser melhor, mas sabia que parte de si ficava ali. Debaixo de água. Prometeu a si mesma que não voltaria a olhar naquela direcção nem a encarar o rio. Aquele seria sempre o maldito que lhe levara a vida e a deixara viva.


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Em 2002, a antiga aldeia da Luz ficou submersa e a sua população passou para a nova aldeia da Luz erguida a três quilómetros da antiga. Nessa altura tinha 423 habitantes. Em 2012, eram 297.