quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As lágrimas que alimentam

A cama onde ele tinha morrido já tinha sido feita de lavado com o que havia por casa. O morto ali estava. Deitado, imóvel, de olhos fechados e pronto para se fazer à última morada. Foi-se sob o olhar da mulher e das filhas que, tal como quando se chega ao mundo, ninguém o deve abandonar sozinho. Velaram-lhe as últimas horas e trataram dele quando o frio começava a subir pelo corpo. A notícia não tardou a passar de boca em boca. Preparou-se o talhão que lhe estava destinado e avisou-se o padre para que lhe desse a última benção. Até lá, velavam o corpo que já não era quem tinha sido. 

Ela chegou vestida de preto. Saia pesada e xaile a cobrir-lhe a cabeça. Deixou-se ficar ao lado do morto, no sítio que lhe competia por profissão, com os olhos meio fechados a encarar o chão e a cabeça apoiada na mão que guardava o lenço de luto. Murmurava lamentos finos envolvidos num choro miúdo. Remoía as palavras da sua ladainha numa dor que era tão bem fingida que, quem não a conhecesse, tomava por sua. 

"Iremos os dois no seu caixão. Eu já sofri tantas penas no mundo", um dizer repetido tantas vezes que se tornara uma melodia de defuntos. Mordia o lenço que trazia na mão. Limpava com ele as lágrimas, a boca e assoava a tristeza que murmurava. Passava os dedos marcados pela cor do campo, pela cara e fungava entre cada refrão que entoava. Chorava a morte como quem trabalha o campo ou prega um botão numa camisa. 

Quando a paga o permitia, ouvia-se um grito. A cabeça que ia para trás numa súplica que trespassava o corpo dos que assistiam e as pernas que ameaçavam perder a força. A reza a nosso Senhor que se perdia no meio do lamento. 

Assim ficava até que o corpo encontrava o descanso na humidade da terra. Era aí que ela voltava-lhe costas e fazia-se ao seu caminho com o saco de trigo que lhe era devido e a limpar as lágrimas de carpideira. Que viesse o próximo que este fim é a única coisa que se tem por certo nesta vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A sentença que é a memória

Abriu a porta e deixou-a encostada atrás de si enquanto se sentava no degrau. Com as maos enrugadas e atacadas pelas artroses, puxou a bata até aos joelhos e deixou-se ficar a olhar a rua. A mesma rua onde tinha vivido a maior parte da sua vida. E no que lhe parecia ter sido muito tempo, mas sabia que não o era, viu o quanto tinha mudado. 

Naquele dia em que descansava sozinha no degrau de sempre, soube que algures no caminho a vida tinha-a encontrado e deixado para trás. A vida dos outros. 

Olhou a rua que conhecia de cor, mais buraco menos buraco, e viu-a tal como estava agora. Vazia. Despida. Ladeada de portas fechadas à chave e janelas tapadas por estores corridos. Não que estivessem abandonadas, mas era a vida de agora que as trancava vazias durante o dia e as deixava fechadas à noite quando os vizinhos chegavam. 

Ali sentada, com o frio a chegar-lhe à espinha e a voz a morrer em desespero na garganta, sabia qie lhe faltava as vizinhas. Não as que tinha agora, mas as que ali estavam antes. Que se encostavam às paredes de mãos nos bolsos nas batas e pé a coçar a perna, que se sentavam nos degraus e nos bancos que traziam de casa e ali ficavam. Todas. A costurar, a conversar, a deitar olho aos miúdos, os seus miúdos, que insistiam em correr e saltar de onde não deviam sem saber onde iam cair, mas com a certeza de que o iam fazer. 

E era dessa altura, em que o corpo não lhe doía nem rangia ao mínimo movimento, que lhe vinham as lembranças. Dessa altura em que todas as casas tinham fossas, mas que as ruas estavam cheias. Dos homens que seguiam caminho na bicicleta. Que se apoiavam no pedal direito para ajudar o corpo a içar-se para cima do celim. Das mulheres que vinham descalças e de cesta à cabeça. Que serviam os outros e os seus, todos os dias. Das portas que se fechavam ao trinco ou nem isso. Que tinham um arame a garantir que a porta entre a intimidadr e o mundo se mantinha fechada. 

Nesses tempos que parecem tão longe, mas que nem foram há uma vida, era o som que vinha da rua que lhe marca as lembranças. As vozes, os pés, o arrastar e o puxar, a água que chocalhava nos canecos, os rolamentos dos carrinhos que terminavam nos gritos que denunciavam a falta de travões, os pregões de quem vendia o que conseguia. 

Mas isso era nos tempos de que ela se lembrava. Hoje, só tem o silêncio. Tão presente que parece gritar-lhe por estar fora do seu tempo. Mas só ela é que o ouve. Só ela, que sabe como já foi, que se recorda daquilo que já esqueceu a muitos, é que sabe que aquilo que aquela rua tem é silêncio. Talvez ela esteja enganada e que aquelas casas não estejam abandonadas, mas está a rua. Despida daquilo que foi seu, da vida que se fazia ali. Ficou o silêncio, a vida fez-se a outros rumos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O cheiro do Natal

A água a borbulhar interrompe o descanso daquela manhã de Inverno que ainda não avistou sol. A cafeteira já gasta de tanto ser areada, dança em cima do lume enquanto lhe deitam três colheres de café e mexem com vigor. O aroma a início de dia invade o barracão que faz as vezes de cozinha. Agora é esperar que a borra assente. 

De bata vestida e rodilha metida no bolso, ela enrola o pano à volta da cabeça que o corpo não sabe o que é estar quieto. Agarra no alguidar de barro lascado com a facilidade de quem pega num lençol e ajeita-o em cima do banco. Na mesa está a abóbora cozida de véspera e a bola de pão em massa que se guardou da última fornada. A farinha escolhida pela mão de quem a conhece, o ácido do limão e da laranja para condimentar e o abafado a juntar-se à aguardente para dar corpo à massa.  

Faz-se ao trabalho de mangas arregaçadas e receita guardada no fundo da memória, sem dúvidas ou medidas. As mãos é que sabem se a massa pede mais farinha e a língua decide o que falta ou o que está a mais. 

Amassa com vigor e de corpo dobrado. Levanta a massa em peso para logo a seguir a largar no alguidar que responde com um baque seco contra o banco de madeira que ameaça tomar. O suor a aparecer debaixo do lenço, o braço a limpar a testa e as mãos a voltar ao trabalho. 

- O alguidar tem de ficar limpo, a massa tem de levantar toda. 

E quando isso acontece é altura de tapar a massa com os cobertores e deixá-la à beira do lume. Dar-lhe tempo para dobrar de tamanho enquanto se aquece a alma com o café de borra. Enquanto se faz a vida normal. Esperar que seja tempo de ver aquela massa esbranquiçada a ganhar volume, a virar sobre si mesma e a flutuar no óleo enquanto começa a ganhar cor. 

Esperar porque o trabalho que começou de manhã só termina à noite. A família já sentada à mesa para celebrar aquilo a que chamam de Natal e as mulheres à volta do lume a fritar os velhozes. O cheiro a açúcar e a canela a despertar os estômagos. O prato preparado para a vizinha. O Natal.

Publicado na Revista DADA de Dezembro de 2018

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Fogueira de Natal

O nevoeiro da rua escapava pelas frestas das paredes e entrava pelas casas trazendo consigo o frio de Dezembro. A braseira não aquecia mais do que o que estava a dois passos dela e as mulheres puxavam os xailes de lã para os ombros enquanto amassavam sem descanso. 

Fora elas, a casa estava vazia. Os homens estavam a ver se o balcão da taberna não tombava e os miúdos andavam pela rua, uns com outros. O mesmo todos os anos. O cheiro da massa a levedar de um lado, o vinho vendido com sendo melhor do que era no outro e as carroças carregadas de lenha com os outros. 

Os mais novos, acompanhados por quem já tinha idade para saber o que era o juízo, andavam rua acima e rua abaixo divididos por carroças e com mais uns quantos a pé. Sem destino certo além da certeza se cumprir o mesmo objectivo de todos os anos. 

- Vamos lá acima. Tinham um troço deste tamanho - e abriam os braços duma largura quase impossível de ser verdade, mas que convencia todos. 

Abriam os portões deixados ao trinco e entravam por ali dentro sem se preocuparem com autorização. Ate era melhor assim, à socapa. Com o frio na barriga que só dá a quem sabe que o que faz não e certo, mas com descanso de ser permitido. Afinal, tradição e tradição. E, se fossem ser rigorosos, do lado de lá da janela a cortina tonha sido arredava e havia um ou dois pares de olhos a fixá-los. Se não diziam nada era porque estavam de acordo com aquela invasão. 

Assim, vindos daqui e dali, juntavam-se troncos e raízes. Árvores que estavam caídas e outras que já tinham visto melhores dias atiradas para a carroça sem pedir licença. Miúdos certos transformados em deliquentes por um dia com a autorização muda de todos. 

Lá iam eles, rua acima e rua abaixo com o trote dos cavalos e as conversas gritadas. Quando a noite começava a cair, encontravam-se todos na velha praça. Troncos ao centro, lenha miúda para atear e o fósforo a fazee o serviço. Era ver pegar fogo e ficar até se querer. 

E assim, com tão pouco, estava feita a véspera de Natal. Homens e mulheres iam chegando aos poucos. Um prato de belhozes e outro de coscoroes ainda quentes. Um chouriço roubado à chaminé de casa, mais um toucinho entremeado e umas fatias de pão. O pouco dava em muito quando era dividido por todos. Na rua, com a fogueira a arder e sem prendas além da conpanhia dos vizinhos, fazia-se o Natal ali. Com conversa e o calor do lume que resistia às dificuldades e ao tempo. 

A fogueira de Natal a arder até que entre o novo ano. Que viesse melhor do que este, era o que se esperava. Nem sempre se cumpria. Mas era certo que a tradição voltava e que a fogueira de lenha roubada ia arder durante uma semana. Pelo menos naquele tempo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

São as histórias que contam

As paredes são tijolo e cimento e nada mais. Decoradas com fotografias já gastas pelo tempo e tantas taças que se perde a conta. Sem as pessoas que ali andam, a colectividade não é mais do que isto. Memórias que não contam histórias. Só. E são essas histórias que fazem diferença. Que passam de boca em boca e que falam de quem não se conhece, mas que fez por nós sem saber por quem o fazia. Era para os que ali estavam e para os que ainda estavam para vir. 

São as pessoas que as contam, as mesmas que todos os dias dão de si a algo que não é seu fisicamente, mas que faz parte de si, da sua vida. São os pais que deram do seu tempo para erguer aquelas paredes. Das mães que se fizeram ao trabalho para que as portas não fechassem. Dos bisavós que, com nada, abriram aquelas portas pela primeira vez. Dos que cresceram ali e que não querem ver as suas histórias a ganhar teias de aranha. São aqueles que contra todas as notícias menos boas continuam ali. De pedra e cal. Mesmo que as contas estejam negativas ou quando toda a gente reclama. Porque toda gente o faz, até aqueles que nunca deram uma mão para ajudar. Principalmente esses. Os outros, os que passam mais tempo ali do que com a sua família, sabem que aquele edifício é mais para aquela terra do que um monte de tijolos. 

Sabem que um copo de vinho facilmente passa a três. Que vai um que paga uma rodada e outros que se juntam ali para o ensaio. Que ainda aparecem sempre uns quantos quando é preciso dizer mal do árbitro enquanto se joga a uma cartada que pode ou não ser de batota. Que há sempre miúdos a correr à hora dos treinos e que a música dos ensaios escapa pelos corredores. 

É isso uma colectividade. Mais do que um edifício em boas ou más condições, é um grupo de pessoas que faz por continuar a receber mais gente, por animar as terras que assistem à partida dos seus. E o que ali fazem é único, sem pedir nada em troca, sem procurar os holofotes, só para dar a quem os procura, a quem tem ali parte da sua vida. É por isso que continuam a roubar tempo aos seus para dar aos outros. 

A estas pessoas só podemos agradecer e todos os agradecimentos serão sempre poucos. 

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Adaptado do texto que escrevi para a folha de sala da peça "Metidos num 31!" escrita por mim e pelo Frederico Corado e que está em cena no Centro Cultural do Cartaxo.

Eu tive a sorte de crescer numa colectividade e de ainda andar por lá. Quem tiver oportunidade que acompanhe as actividades das colectividades, que se faça sócio. É mais do que ajudar uma casa, é manter histórias.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Roupa branca

Davam ordem de início de semana quando desciam a rua de alguidar à cabeça. Os passos atrapalhavam-se com os dos mais novos que lhes seguiam a sombra agarrados à bainha das suas saias num equilíbrio precário que ameaçava ruir a cada tropeção dos mais novos e a que elas respondiam com a destreza que quem está habituada a andanças daquelas. 

Era o rio que as esperava. Pouco para tantas que o procuravam e que dava sempre em gritos antes da roupa ver a água. 

- Então? Aí sou eu! 

- Viesses mais cedo. 

Não havia briga que não desse em conversa ao largo da fonte tal não era o espanto com o descaramento de algumas, mas sem que isso as impedisse de trabalhar. Os quarenta escudos ainda não tinham sido ganhos e já tinham destino e manter a freguesa era ter dinheiro no bolso. 

- Antes pouco que nenhum - dizia uma enquanto separada a roupa de cada casa. Lá de cima vinha a roupa de ‘A’ bordado, duas portas abaixo entregavam a que tinha flor por dentro de colarinho. 

De joelhos calejados no chão, as que não tinham tábua contentavam-se com uma das pedras lisas, e todas se davam ao trabalho. Mãos metidas na água gelada do rio e que lhes cortava pele, músculo e tudo o que encontrasse até chegar ao osso. Esfregavam a roupa com o sabão contado ao milímetro que nem no trabalho se esbanja. 

- A mulher quer-se certa.

Batiam as camisas de encontro à pedra com uma força que nunca se diria que estava naqueles corpos. Os salpicos a chegar a quem estava mais perto e as mãos já a torcer a roupa até ao último pingo. As mais velhas a tratar da roupa das freguesas, as gaiatas a braços com a roupa miúda e os miúdos a correr por ali. Uma cantoria ao longe, um diz que disse ali ao lado. 

E enquanto vinha a conversa e se iam os lamúrios, os campos ficavam brancos de roupa a corar e elas preparavam a dormida que o trabalho mal tinha começado e ainda tinham barrela. Mães e filhos a dormir em tendas que de protecção nada tinham e a roupa de molho no cortiço para ver se a gordura despegava. Lá ficavam as camisas e as calças dos senhores no fundo tapadas com lençol branco coroado a cinza e a água a escorrer por ali até à roupa. 

Na manhã seguinte, acordadas daquele sono quase ao relento, a água gelada que corria na direcção do mar que nunca viram, lavava-lhes o corpo para logo a seguir receber a roupa que lá mergulhavam para a última volta. 

No caminho de regresso levavam a roupa a cheirar a limpeza e campo, e traziam os mais novos na sua sombra. Corpo moído num hábito que nem chegava a cansaço e mãos geladas de dar asseio à roupa dos outros.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Não dos meus

A feijoca estava ao lume e no estendal não havia espaço para mais nenhuma peça de roupa. Do fundo do terreno chegava o barulho da enxada a roçar as ervas e o cair das pedras que eram atiradas para longe. 

Naquele bocado de chão cimentado que era pouco mais de um metro por outro tanto, ela aproveitava o sol que lhe aquecia o corpo e facilitava a vista. Sentada no banco de madeira que ninguém sabia há quanto tempo por ali andava, de costas dobradas e pano em cima da cabeça para proteger do sol. 

Fazia as bainhas das calças do mais velho que, mesmo já gastas, iam passar para o mais novo que tinha um palmo a menos de altura. De caminho ainda passajava o tecido dos joelhos que ameaçava romper de tanto uso, mas que ainda aguentava mais uns tempos. Virava o colarinho das camisas já gastas de um lado, mas impecáveis do outro. 

- É preciso poupar - dizia para si mesma numa tentativa de se desculpar por não poder comprar outra. Uma em condições como usavam os senhores que passavam na rua com os colarinhos limpos e sem pingo do suor naquele corpo. 

Poupava ali para comprar mais tarde. Para ter uma camisa nova para os miúdos estrearem quando fossem ao passar da procissão, para substituir os sapatos que já tinham tanta meia sola que nem se sabia se alguma vez a sola tinha sido por inteiro. Mas mesmo que a roupa nova demorasse a chegar, os seus nunca andavam mal arranjados que ela fazia questão que assim fosse. 

- Dos meus não falam. 

Ela bem sabia quais eram as conversas que andavam de boca em boca e viravam qualquer um do avesso. Fosse o mais santo ou o maior pecador. Ia tudo. Mas dos seus não faziam pouco. Não tinham muito, mas eram asseados. E respeitadores. Isso ela sabia que eram. E fazia questão de os apresentar em condições. 

Vestia-os com as melhores roupas que o dinheiro contado podia arranjar. Costuradas em casa, à mão, que as máquinas não tinham lugar por ali, mas com paciência. Naquele bocadinho de terreno. Os botões escolhidos com pormenor, a renda aproveitada, mas que ali tinha ares de nova. Quando o tempo escasseava, forçava os olhos à luz do candeeiro a petróleo e trabalhava noite dentro. Acabava vestidos, acertava calças, levantava punhos. Sempre para eles. Só depois, com o que sobrava é que desenrascava qualquer coisa para si. Mas nunca faziam má figura. 

Uns e outras, até podiam inventar de noite para dizer de dia, mas sobre si nunca podiam apontar o dedo. Pelo menos, na roupa. Desmazelada é que ela não era.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pão, por Deus

Era certo e sabido que o início do mês era anunciado pelas vozes nas ruas acompanhadas dos risos que só pertenciam a quem ainda tinha idade para os dar sem ser repreendido por não se saber comportar. Da rua chegava o cheiro a chuva e a humidade entrava pelo nariz colando-se aos pulmões e obrigando as velhas a aconchegar o xaile de lã e os velhos a deitar abaixo um copo de três. 

Encostadas ao canto da janela, meio escondidas à vista de toda gente, elas espreitavam só com um olho por detrás da cortina branca. E lá viam os mais novos chegar com as bochechas vermelhas e pele a brilhar. Corriam rua acima, a tropeçar nuns e a empurrar outros, todos na ânsia de ser o primeiro a chegar. 

- Bolinho para o santinho - vinham com a lenga lenga debaixo da língua, ensinada pelos que antes deles fizeram o mesmo, e ficavam com o saco de remendos aberto à frente de quem abria a porta. À espera. 

- Esta casa cheira a broa. Aqui mora gente boa - a pobreza que os recebia dava-lhes o que tinha. 

As broas cozidas no dia anterior que se desfaziam em migalhas no fundo do saco. As romãs gordas apanhadas da árvore que era de todos. Dois tostões quando os havia. Uma mão cheia de castanhas. Se tivessem sorte, lá aparecia um rebuçado daqueles que se colavam ao dentes e demoravam descolar. 

Sem mostrar cansaço nem intenção de abrandar, os miúdos continuavam o caminho das casas com pouco mais de metro e meio de altura, com o saco a ganhar peso. Só acalmavam quando batiam à porta da casa grande. Aí, cumpriam o que já sabiam. 

Abriam-lhes a porta e eles entravam na sala onde a devoção era parte presente e esperavam. Sacos fechados, cabeça para baixo e o cheiro a eucalipto a acompanhar a reza que murmuravam. Os senhores no seu porte direito, cruz ao peito e roupa sem remendos, esperavam pelo Amen final para retribuir com o pão que lhes pediam antes de os mandar embora com uma benção mal amanhada. 

Todos os anos. A mesma ronda. De ano para ano os miúdos a transformarem-se nas velhas atrás das janelas, os mais novos a trautear a mesma cantiga. O início de Novembro, quando o frio entrava nos ossos sem que a braseira fosse capaz de os aquecer, a ser recebido com os sacos abertos. Algumas portas que só tinham mãos fechadas. 

- Esta casa cheira unto. Aqui vive algum defunto - e a palavra a passar de boca em boca a marcar os que não davam a quem pedia pão. 

- Pão, por Deus.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Vai lá gaibéu

Deixavam os mais velhos que já se aguentavam por si mesmos antes de precisarem de duas mãos para contar os aniversários, entregues aos cuidados dos avós e eles seguiam caminho com o mais novo. Era como era. 

- Escarrancha - dizia ela enquanto encaixava as pernas do miúdo nos ossos que lhe marcavam as ancas. O cheiro a leite já bebido e a suor acompanhava-os. 

Caminhavam com o som dos pés a raspar da estranha que um casal nunca tem muito a dizer ao outro. Ela de cesta à cabeça. Ele de saco ao ombro. Só quando se faziam acompanhar por outros como eles é que se ouviam as vozes. Iam como sempre, homens a abrir caminho e as mulheres no seu encalço. Todos em direcção ao trabalho que os esperava longe da casa que era sua. Saíam caros ao patrão que lhes devia os tostões da jorna, tecto e lenha, mas eles trabalhavam como se isso fosse a única coisa que tinham na vida. Era assim que pagavam o que recebiam. Não havia domingo nem dia santo que lhes pedisse descanso e nem sabiam de hora para se fazerem ao campo. Era quando capataz assim o dizia, mesmo que ainda não tivessem mais do que a lua para lhes alumiar os passos. 

Faziam-se ao campo descalças. Trabalhavam com água pelo meio da perna e saia enrolada à cintura. As pernas a engelhar, o frio a colar-se ao ossos. Guardadas por eles que passavam o dia com o cu a descansar no cabo da enxada e levavam o dobro em moedas. 

Os mais novos, que também os havia por ali, ficavam a atiçar o fogo que o almoço não tardava. Tinham idade para os bancos da escola, mas estavam destinados ao trabalho e cumpriam. Quando o sol determinava que era hora de descanso e o capataz aceitava tal determinação, lá esperavam os que voltavam. Todos à volta da panela, tão habituados à falta de conduto que nem sabiam que estavam com fome. Grão com couve num dia e couve com grão no outro. O cheiro do almoço a misturar-se com o pó da terra e o sal do suor. Colher mergulhada na panela que fazia as vezes de prato, pão partido à mão. Todos do mesmo. 

E dali voltavam para o trabalho. Nada mais que a vida que levavam, pele calejada a troco dos tostões que guardavam. Apareciam quando vinha o trabalho, levantavam-se quando os de lá se faziam ao descanso que quem não tem a casa sua a que voltar ao fim do dia prefere trabalhar para esquecer. Trabalho de gaibéu.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ao que chamava casa

Fechou os olhos com o primeiro trovão e antes que terminasse o sinal da cruz já o relâmpago iluminava a casa. Rezou para dentro, lábios a moverem-se sem se ouvir um som e o coração apertado com o prenúncio de temporal. 

Por cima da sua cabeça não havia tecto, os barrotes e as telhas estavam ali para quem os quisesse ver. A única protecção entre os seus e a intempérie que se anunciava lá fora eram as filas de telhas, algumas delas soltas, que deixavam entrar o que fosse que andasse lá por fora. 

Aquilo a que chamava de casa não era mais do que um barracão mal arranjado. Um divisão ampla que os acomodava e em que se fazia uma parede a cada ano e só quando o dinheiro assim deixava. Quando não havia nenhum imprevisto que lhe levasse os trocos que eram poupados com devoção. 

Mas o dinheiro ainda não tinha chegado para pôr o tecto. Uma parede para o quarto que era seu e a perspectiva de uma para os filhos, mas nada de tecto. Era isso que lhe apertava o coração agora que ouvia o vento levantar e assobiar entre as frestas das telhas. Ao desconforto dos ossos que arrefecem acrescentava o medo pelo que estava para vir.

Quando o cheiro a terra húmida entrou em casa chamou os filhos para cima da cama de ferro que mal acomodava um corpo e ali ficaram. Junto uns aos outros com o corpo a denunciar o frio e sem saberem o que era um lençol, mas de pés secos. Quando o céu ameaçou desfazer-se em cima deles, começou a ouvir-se correr pelo corredor. A água entrava pela porta da frente e, aproveitando a inclinação da casa feita sem rigor de medidas, seguia caminho até sair pelas traseiras. O vermelho que marcava o chão ganhava profundidade num tom mais escuro, mais interior, empapado na lama que entrava. A enchente lavava a casa por dentro e a humidade atacava o corpo dos que se abrigavam no calor dos outros. 

Lá fora, o vento levantava numa fúria que tentava arrastar o que se metia no caminho. Lá dentro, só havia paredes e essas mantinham-se de pé. Com dificuldade, mas de pé. 

Levantaram-se quando o assobio amainou, mas a humidade ainda se colava à pele. Com a água a bater no artelho deram a volta ao pouco que chamavam seu só para ter certeza que ainda o tinham. 

- Para o ano temos tecto - prometeu-lhes enquanto guardava para si as refeições que isso lhe ia roubar. “Que não me falte água e hortelã”, pediu para os seus botões.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

3 anos a andar Lá pela Terra

Há dias em que se apaga tudo o que se escreveu antes. Há dias em que se escreve e fica tal e qual como está. Ainda há outros em que se escreve e rescreve, no computador, no telemóvel, no papel. Em que se escreve a azul e se emenda a vermelho até ficar. Há dias em que nem se sabe o que escrever. No meio disto tudo, são raros os dias em que não se escreve ou não se pensa nisto do Lá pela Terra. Em que uma expressão ou um comentário a que ninguém dá importância ficam gravados porque fazem parte de uma memória que se perde, de uma vida que os de hoje (eu incluída) não sabem o que foi. 

É assim que o Lá pela Terra se faz. Aos poucos. Com atenção, a aprender a saber ouvir e a ter certeza que esta coisa de pôr em palavras os ensinamentos que se ouvem pode ter dias complicados, mas vale a pena. Porque faz alguém lembrar-se das coisas que a avó dizia, porque faz uma avó contar aos netos como era no seu tempo. Porque, de vez em quando, há quem se sente ao pé de mim e me conte qualquer coisa que vem lá do passado e que são memórias já meio perdidas pelo passar do tempo, mas que lhes sabe bem recordar. Ou então, alivia-lhes a alma. 

E o que começou sem grande certeza daquilo que era, tornou-se num projecto que já me ensinou mais do que alguma vez pensei ser possível. São três anos de Lá pela Terra. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Deve ter andado a enxofrar

Estava ali sentada desde cedo a embalar-se a si própria num sem fim de mágoas e tristezas que a cortavam por dentro. Foi assim que ele a encontrou. Encolhida, muda e ele, sem o dom da palavra, atirou-lhe com um 

- Estiveste a enxofrar ou quê, mulher? 

Dizia aquilo por dizer, porque era o que vinha à boca de todos quando a visão, fosse do próprio ou daqueles com quem se cruzava, ficava turva e as palavras fugiam da boca de quem achava que tinha de dizer alguma coisa. Vício de anos passado de geração em geração. A mesma conversa quando não se falava do resto. Foi por isso que ela não respondeu nem tão pouco o encarou. 

"Antes assim fosse", pensou com os seus botões, mas nem estava na altura do míldio ou de mal que lhe valha, aparecer nos campos. Antes fosse que a sabedoria de todas as bocas fosse certa e ela estivesse no meio das videiras, de enxofradeira na mão a correr a vinha de ponta a ponta enquanto tingia as folhas de um amarelo vigoroso para combater a brancura do bicho. Antes fosse um desses dias em que voltava a casa de olhos vermelhos e inchados sem distinguir se punha o pé no caminho certo ou se baldeava ribanceira abaixo. Todos aqueles que andavam metidos naquela vida voltavam assim para casa. Olhos inchados e a carne a cheirar a enxofre sem que eles o percebessem. Vendo. Bem as coisas, também devia ter subido ao altar num desses dias em que nem sabia se quem estava à sua frente era um padre ou um taberneiro.

Antes fosse que aquela água que lhe empapava os olhos e deixava a vista nublada tivesse causas que ela soubesse explicar. Que viesse de andar a enxofrar, de passar os dias mergulhada num nevoeiro sulfúrico. Pelo menos aí vinha com dinheiro no bolso, por muito pouco que fosse.

Pensou tudo para si e deixou-o sem resposta que não havia outra coisa a fazer. Ele, pouco habituado a preocupações e sem grande vontade de se entregar a elas, deixou-a consigo mesma naquele embalo marinado em lágrimas. 

- Devia ter andado a enxofrar - era o que qualquer um diria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O cheiro que enche a rua

O alcatrão estava em mau estado, defeito que deu em feitio com o passar dos tempos, e só duas ou três casas é que tinham primeiro andar. Em compensação, todas tinham quintal com direito a um barracão com a cozinha onde a família se servia. A cozinha de casa era para quando apareciam as visitas. 

Aqueles eram outros tempos. Eram dos dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos e a protegê-los com uma mão na testa e outra na cintura para equilibrar. A hora a que a rua, mesmo vazia, começava a ganhar vida. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira já gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho e mais outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, para os filhos que almoçavam ali ou para os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado regado a azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. O crepitar da fritura. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com um saber que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. Das antigas. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne. Um cheiro rico e gordo, guloso. Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua e anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira quando já todos se serviram. 

- Nem é preciso lavar - a piada de sempre. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e esquecem-se nomes, mas o cheiro a refogado vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua com mais buracos do que alcatrão onde se espera que a família chegue para almoçar.

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Texto publicado na edição de Outubro da Revista DADA 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Minha terra é Vale da Pinta

É um viver que só conhece quem de lá vem. Um saber que passa de boca em boca, de mão em mão, sem cartilha que o explique ou lhe dê regras. É o que é, sem mais. Corre no sangue de quem deu os primeiros passos por aqui. De quem baldeou no lago da igreja e transformou a roupa de Domingo numa rodilha a precisar de ser espremida. De quem fugiu da maquia que lhe prometiam. 

Sabemos todos o mesmo. Sentimos o mesmo. Falamos um português que soa ao que o país fala, mas que só nós o percebemos. É a pronúncia que aparece quando os nervos tomam conta de nós, são as palavras que só têm significado para quem cresceu com elas. 

Cantamos esta terra que nos corre nas veias e gritamos que é nossa enquanto esperamos que as pétalas comecem a cair em cima do público. A nossa linda freguesia. Mais que todas as outras mesmo que seja só aos nossos olhos. 

Lembramos os saudosos tempos em que os caracóis eram servidos à mesa da taberna do Valentim e que os mais novos vinham do Zé d'Azoia com um cartucho de beijinhos escolhidos à mão. Aquele açúcar colorido que tinha sabor a inocência. A mesma inocência com que batiam à porta de um e de outro e desapareciam antes que se ouvissem passos do lado de lá. A porta abria para encher a rua vazia com o cheiro a refogado de alho e louro e só se ouviam os passos que fugiam ao longe. 

É assim que vai passando o tempo, quando damos por ele já perdemos a conta aos anos. Envelhecem os que dançaram na casa das canas sem ligar a quem sonhava de noite para dizer de dia. Aguentam-se os que ainda se fazem ao trabalho quando se ouve a pergunta que o tempo tornou ordem: "Toca a muca ou não toca a muca?". Ouvem-se os insultos quando o árbitro não está pelos nossos, os que sabemos que vão ganhar. Ficam as histórias vividas por uns que se tornam de todos com o passar de boca em boca. 

Pode chegar o dia em que seja só eu, tu e o Zé d'Azoia, ou que as estradas fiquem vazias, mas esta história será sempre nossa. Do orgulho que nos enche o peito e que se faz ouvir quando nos perguntam de onde somos. Do cumprimento que se dirige aos que nos viram crescer. 

- Ó gente de Vale da Pinta.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O trabalho dos dois

Fazia pouco tempo que o dia tinha amanhecido. Vinha com uma cor baça e escura que tardava em clarear e dar calor ao dia que se adivinhava cinzento e húmido. O ranger das dobradiças do portão feito de restos de madeira ecoou na rua vazia de pessoas e de casas. De um lado a vista só alcança o verde rasteiro dos campos. Do outro acompanha a rua de pó que acaba nas casas baixas e brancas da vila. 

Sem que a idade tolde a destreza que a experiência lhe deu, começa o mesmo trabalho de sempre. As mãos gretadas perdidas em gestos mais harmoniosos do que mecânicos enquanto o leite enche o balde preto que ele segura entre os pés e lhe aquece as pernas. 

Encostada à ombreira da porta, de casaco de malha grossa pelos ombros e apertado junto ao pescoço, ela espera-o. Recebe o balde e vira-lhe as costas sem mais falas pronta a fazer-se ao trabalho. Leite despejado no pano branco que tapa a panela e a paciência de o ver coar. Gota por gota. A cadência a preencher o silêncio. O aumentar do gotejar quando ela torce o pano para aproveitar a última gota. Deixa-o ferver até o cheiro da gordura da nata invadir a casa e a entranhar-se no chão de cimento e nos móveis que já tinham tido outros donos quando ali chegaram. De corpo já curvado, pela idade e pelo hábito do trabalho, dá a volta ao leite e prova-o com o gosto que só tem quem sabe. 

Quando chega a altura, deita a água cor de terra que vem do cardo e fica a ver o leite a ganhar corpo. Enquanto espera, puxa as mangas pesadas e prende-as nos cotovelos com os elásticos que traz sempre no pulso. Fala consigo mesma enquanto repete os passos de outros dias até que o lume termine o seu trabalho. Nessa altura, sem ajuda, o corpo pequeno vira a panela que parece que o vai engolir e deita aquela papa no velho tabuleiro de madeira revestido a linho. E ali fica ela, sentada, a envolvê-lo no pano, a apertá-lo, tendo por companhia o som da água que escorre do tabuleiro para os alguidares que ali estão. O som que já lhe soa a silêncio. 

Ajeita-se no pequeno banco e prepara as mãos para dar forma aos queijos que esperam a cura. Ela metida no trabalho que sempre fez naquela casa onde também dorme e come. Toda a sua vida ali. A dela e dele. Ele que naquela idade ainda sai de manhã para lhe ir buscar o leite. Ela que de corpo curvado faz do trabalho os seus dias. Ele que ao final do dia volta a sair de balde vazio. Ela que o espera. Os queijos que levam o sabor que só o tempo lhes dá.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As rotinas de Setembro

Os dias já estão a mingar. As manhãs pedem casacos de malha que o final do dia não suporta. É este veste e despe que os deixa doentes. Isso e as correrias que lhes empapa a testa em suor. Deviam ter juízo, mas naquelas cabeças não entra nada.

Ainda fico à porta a vê-los desaparecer na curva lá do fundo e, de vez em quando, grito 

- Portem-se como deve ser. 

Eu sei que devia estar calada, mas não me consigo conter. Eles lá seguem sem olhar para trás. Todos os avisos que lhes faço entram por um ouvido para logo a seguir saírem pelo outro. Sei bem o que ali vai. Tal como sei que o mais certo é voltarem com uma constipação ou um nariz cheio de ranho que limpam nas mangas da camisa por muito que eu avise que não se faz. Lá está, não ouvem. Ou não querem ouvir. 

- Se correres ainda os apanhas. 

Há sempre um que se atrasa, mas lá vai a correr rua abaixo, ao encontro dos outros com a mochila a saltitar às costas. Fazem sempre isto. Vão descendo e apanhando mais um e outro, quando chegam ao portão da escola já vão mais de dez a gritar, não sabem falar de outra maneira. Até cansa a cabeça.

Pelo menos vão felizes. Antes assim do que no meu tempo em que íamos com medo da professora, entrávamos em sentido, erguiamos a mão ao peito para cantar o hino e ficávamos de boca calada a seguir. Bastava um suspiro a irritar a senhora professora e éramos chamados a suspirar de pé em frente ao quadro. Depois é que era o elas. Ainda me arrepio só de lembrar. Mão esticada, "como deve ser" frizava a professora, e a régua a bater na palma com toda a força. Estalava. Doía a mão e a alma cá dentro. E era um calor tão grande que só atenuava quando agarravamos o metal frio das pernas das mesas. 

- Que vos sirva de lição. 

Não servia. Quantas réguas se partiram assim e quantas canas da Índia foram substituídas ao canto da sala? Perdi-lhes a conta. 

Pelo menos os de agora vão divertidos. Saem de casa agasalhados e calçados e voltam umas duas horas depois da hora de saída. Não é que o caminho seja longo, é a conversa que é muita e a brincadeira não acaba. Mas digo e repito, antes assim.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Quando Agosto traz a banda à rua

E eis que Agosto anuncia o seu fim com direito a cheiro a pólvora e incenso, bailaricos que nunca terminam e ruas cheias de carros que só aparecem naquela altura. Principalmente ao Domingo, quando o cheiro dos guisados feitos pelas mãos que os embalaram, trazem meio mundo de volta a juntar-se aos que andam por ali durante todo o ano. 

O dia começa com os foguetes a rebentar em seco, sem dó nem piedade pelos que ainda tentam acertar as horas de sono, a anunciar que o sol já vai alto e que é tempo do corpo se fazer ao caminho. As noites de festa são longas para os que a aproveitam e ainda mais para os que a fazem, mas a alvorada não se importa com as horas a que os corpos caíram na cama. 

Em casa, naquelas casas em que o último domingo de Agosto cumpre a rotina de todos anos, dá-se um jeito à farda e escova-se o chapéu. Pega-se na pasta e no instrumento que espera à porta e segue-se o caminho até ao sítio do costume. Aquele que já se conhece só por ouvir os próprios passos e onde se encontram os de sempre. Olhos ensonados, corpos conservados no álcool da última noite e os mesmos atrasos, os mesmos esquecimentos. 

- Não tenho essa música. 

- Há por aí um chapéu a mais? 

Arranja-se sempre qualquer coisa. O desenrasque de última hora que vem com esta coisa de se nascer português. Quando se ouve o bombo a anunciar a chegada da bandeira da padroeira para abençoar os que lhe abrem a pota, já vai longe a lembrança da alvorada. O sol começa a aquecer o dia, a queimar a pele e a obrigar a humedecer os lábios numa água que muitos garantem que devia ser de cevada. A piada batida de todos os anos. A paragem na casa de uns e de outros para descansar as pernas e confortar os estômagos sempre animados pelas lembranças de outros anos. De outros peditórios. Daqueles que já não estão ali. A sensação de casa quando se percorrem os mesmos caminhos e se abrem as mesmas portas de mesas prontas a recebê-los a todos, sem distinção entre eles. 

No caminho, confunde-se o cheiro do refogado que espera as famílias com as marchas tocadas rua abaixo e rua acima. As bolsas a irem de porta em porta. As pessoas que param para os ver passar e que se deixam ficar de mãos acima dos olhos que o sol tolda a visão e eles gostam de os ver passar. 

- Por este andar o peditório termina e já a procissão está a sair. 

Todo os anos as mesmas queixas. Tão iguais que já nem se sabe se são verdadeiras ou se é só a força do hábito a falar mais alto. As horas que passam demasiado rápido, os passos que não se apressam. 

A festa de Agosto, de fé para uns e de folia para outros, a cumprir a tradição de todos os anos. A banda a dar música à aldeia que sai à rua.