quarta-feira, 20 de março de 2019

As notícias que não chegavam

- Ó filha, vai lá ver se já se sabe. 

Tinha andado nesta lengalenga o dia todo e a filha de chamamento, mas sobrinha de sangue, lá ia rua acima a cada pedido para voltar rua abaixo com a mesma resposta.  

- Dizem que está demorado, tia. 

Sentada no degrau do barracão, a tia encostou uma mão à testa para quebrar o sol que lhe batia nos olhos, e com a outra ajustou o pano que lhe protegia a cabeça antes de voltar a insistir. 

- Vai lá ver. 

Ela foi, já se sabia que os pedidos dos mais velhos eram ordens para os mais novos. Subiu a rua com o passo apressado de todos os dias e, em menos de nada, entrou pela porta do café que não era mais do que uma tasca que via esfregona mais vezes. Entrou pela esquerda onde se juntavam mais mesas e cadeiras do que o espaço parecia conseguir albergar e deu sinal para o balcão que ficava na sala do lado.  

- Mas estás aqui outra vez, rapariga? 

Encolheu os ombros que também ninguém esperava outra resposta e abriu caminho entre os que se juntavam ali para ver televisão a preto e branco. 

Abriu as portas de madeira, entrou e fechou-as atrás de si com um ligeiro clique. No pequeno balcão à sua frente tinha o telefone e o livro alto com o nome de todos aqueles que tinham telefone e o respectivo número à frente. Não precisou de o abrir, sabia bem ao que ia. Marcou o número e esperou. 

Do lado de fora da cabine, continuava a vida normal. Os que se juntavam naquela sala para ver televisão, os que esperavam ao balcão pelo copo de vinho servido por quem mantinha o mesmo ar carrancudo de todos os dias. Lá dentro, ela ouvia com atenção o que lhe diziam. 

Ainda não estava a pousar o auscultador e já corria rua abaixo sem se preocupar em pagar o telefonema que acabara de fazer. 

- Isso não e próprio de uma mulherzinha. 

Ouviu dizer quando passou pelo grupo de linguarudas de serviço, mas daquela vez nem se preocupou em responder. Entrou em casa da tia sem se preocupar com comportamentos ou respeito e assim que a viu, sentada no mesmo degrau ainda com a mão a tapar o sol que não a deixava abrir os olhos, deu-lhe a notícia que tanto esperava. 

 - Já é avó, tia.

- Avó? Ai, que palavra tão pesada.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Oferendas a quem precisava

A bata tinha sido lavada e passada com tal pormenor que sentia os braços dormentes, mas estava impecável. Sem ruga e com um branco capaz de cegar quem apanhasse pelo caminho. Vestiu o filho enquanto o repreendia pelas diabruras que ainda não tinha feito, e entregou-lhe o saco com o feijão que tinha conseguido recolher. Pegou no mais novo pela mão e, de mala quase vazia no braço e roupa de Domingo, saiu com o mais velho dois passos à sua frente. 

A rua tinha ares de festa de Agosto com a aldeia toda reunida na praça e vestidos do mais apresentável que conseguiam. A carroça estava pronta, enfeitada com o rigor que a ocasião pedia e carregada do que um e outro foi dando. Abóboras, batatas, sacas de arroz e tudo o que os quintais tinham. Davam tudo do pouco que tinham. E o burro puxava com esforço que nos animais a idade também tinha algo a dizer. 

Quando chegavam ao destino, juntavam-se todas as aldeias com as carroças e os burros cansados, os mais velhos nos mesmos preparos e os mais novos com os ouvidos cheios de avisos. 

O cortejo seguia caminho pelas ruas estreitas para acomodar tanta gente e sob o olhar atento de quem os olhava de cima, lá das varandas enfeitadas por colchas bordadas pelas mãos que tinham sido pagas. 

A banda dava o embalo e o tilintar das moedas que caiam na manta que os bombeiros levavam faziam a vez de ferrinhos. Se era para dar para os que mais necessitados, os agradecidos lá encontravam mais uma moeda ou duas. 

Os que mais tinham e davam trabalho aos outros que contavam tostões para oferecer ali, apresentavam-se de carros cheios do que havia. 

- É para se redimirem - dizia quem nunca deixava a má língua por mãos alheias. 

E ali, rua abaixo em direcção ao destino a ofertar, ia um concelho inteiro. A dar o que tinha e a inventar outro tanto para oferecer que uma pessoa tem pouco, mas nunca se nega uma mão a quem tem menos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Chegavam os que tinham ido

Passavam-se meses sem que visse a cor daquela terra. Tanto que a memória ficava enevoada quando se tentava recordar das casas ou trocava as feições dos vizinhos. Pelo menos era isso que dizia a si própria quando falava de onde vinha. Da terra. De onde todos vinham e ninguém se conhecia.

Quando a camioneta a deixava na curva de toda uma vida, saía de sapatos engraxados, roupa engomada e cabelo sem um fio fora de sítio. Impecável. Como se nunca tivesse sido dali. Como se não tivesse nascido duas casas abaixo.

Voltava à terra. Ela que agora vivia na cidade. Ou lá perto, mas que ali contava como cidade. O que importava era o que andava de boca em boca, o que se dizia de peito cheio. O resto era o que só sabia quem o vivia. Quem acordava quando ainda era de noite para fazer o que os outros, os que sempre tinham vivido no meio das avenidas largas, recusavam.

Tinha saído dali porque a vida era melhor lá para aonde ia. Onde não trabalhava ao sol como outros, mas de sol a sol tal como eles. Voltava para ver a terra, para ver a mãe a quem já ouvia a voz sem que a visse no horizonte. O coração sentia a presença de quem tinha dado vida muito antes de ver, era isso que ela lhe dizia. Vinha para matar saudades que dizia não ter. 

Descia da camioneta com uma mala sem peso na mão e o queixo erguido, a olhar de cima para quem era da sua altura. Os outros de pés descalços e ela de sapatos com sola por inteiro. Os mesmos que ficavam guardados para usar apenas aos Domingos e dias santos. Os outros com os cabelos em desalinho e a cara vermelha de tanto sol. E ela aparecia com vestidos sem remendos e cabelos arrumados em bananas puxadas com tempo. Era Domingo a meio da semana. Fazia questão que assim fosse.

Quando voltasse a subir aqueles degraus seria de corpo curvado com o peso das batatas e das couves que levava na cesta. Com a voz da mãe a despedir-se. Depois do tempo na terra. Ia como tinha chegado, de queixo erguido.

- Tem o rei na barriga é o que é.

- Até parece que  não passou fome como os outros.

Nas suas costas ficavam as conversas entre uns e outros. A verdade levava-a consigo. Para a cidade. Ou para lá perto. No sítio onde ficava o quarto com serventia de coisa nenhuma a que chamava casa.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A desgraça

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntosdo  que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos. Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem se cruzava com eles. 

Não se sabe o que ele prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se disse sobre o que ali se passava. Sobre as mãos que desciam nos bailaricos, sobre as gargalhadas dela. 

Muito se falou, mas quando chegou a hora não se ouviu nada para lá do silêncio. Quando ela bateu à porta com as mãos a tremer e ele abriu só para a fechar em seguida com ordens claras para que não o voltasse a procurar. Ele não lhe devia nada. 

Com o lamento a morrer na garganta, ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que, depois de cumprirem o seu objectivo, não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. “A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas”, era o que comentavam completado com um “quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada”. Era nisso que acreditavam. Uma mulher digna sabe dar-se ao respeito, sabe guardar-se. 

Ela ficou com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias. Fez-se mãe e pai. Baixou os olhos quando foi olhada com desdém, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua, vivia com peso de não merecer estar ali. 

Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. É certo e sabido que os homens são homens e que essa frase que não é nada, os defende de tudo. A mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.


Texto publicado na Revista DADA de Fevereiro de 2019. Adaptado de um texto publicado anteriormente neste blogue.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vinte escudos

Lá iam mais vinte escudos sem que fossem perdoados. Já nem tentava. Diziam que às vezes dava, que ele lá olhava para o lado e aceitava a cesta, mas as bocas dizem muita coisa que os olhos não chegam a ver. E, daquilo que os dela viam, não havia galinha, ovos ou molho de couves que fizesse a vez daquele dinheiro tão bem poupado e gasto sem que se desse pelo tempo. Tudo para ouvir o que sabia desde que era gente. 

- És fraquinha. 

Já o ouvira. Desde miúda que era aquela a sua sentença acompanhada de um rol de avisos na voz mastigada do doutor. 

- Carne mal passada, fígado. É isso que tens de comer a ver se o sangue ganha força. 

As mesma palavras com o mesmo cheiro a álcool etílico que nunca deixava o consultório por muito que se abrissem as janelas nos dias de sol. Saía com o que já sabia, os bolsos mais leves e a ordem para comer carne. Dinheiro para isso é que nem vê-lo. Passava os dias a enfardar palha e os setecentos escudos que fazia tinham de se aguentar. Era mais tempo a poupar do que a trabalhar. Mas descansava-a que ali olhava nos olhos do médico, ouvia-lhe a voz. Nem sempre era assim. Ouvia por aí, aos miúdos da escola, que alguns fechavam a porta do consultório a prometer chamar doentes e quando davam por ele já se tinha escapado pela janela. As pessoas à espera e o consultório cheio de ar. Pelo menos ali alguém a via. E ele já lhe conhecia os males sem se meter em assuntos que não eram seus. 

- Não te esqueças da próxima consulta. 

Mais vinte escudos para pôr de lado. A não ser que o inchaço da barriga desse em criança antes disso. Se assim fosse, o médico que tivesse paciência, mas a consulta ficava para quando pudesse ser. Esses assuntos também não eram para ele, eram assuntos dela. Dela e das mulheres que os sabiam. Havia coisas que nem um médico, por muito estudo que tivesse, sabia. E parir era coisa de mulheres. Ele que ficasse com os livros, os males do sangue e as coisas que ninguém compreendia. O resto não lhe competia. Daquilo que ela sabia, o médico aparecia mais na altura de alguém deixar o mundo do que na hora de chegar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.