quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Chegavam os que tinham ido

Passavam-se meses sem que visse a cor daquela terra. Tanto que a memória ficava enevoada quando se tentava recordar das casas ou trocava as feições dos vizinhos. Pelo menos era isso que dizia a si própria quando falava de onde vinha. Da terra. De onde todos vinham e ninguém se conhecia.

Quando a camioneta a deixava na curva de toda uma vida, saía de sapatos engraxados, roupa engomada e cabelo sem um fio fora de sítio. Impecável. Como se nunca tivesse sido dali. Como se não tivesse nascido duas casas abaixo.

Voltava à terra. Ela que agora vivia na cidade. Ou lá perto, mas que ali contava como cidade. O que importava era o que andava de boca em boca, o que se dizia de peito cheio. O resto era o que só sabia quem o vivia. Quem acordava quando ainda era de noite para fazer o que os outros, os que sempre tinham vivido no meio das avenidas largas, recusavam.

Tinha saído dali porque a vida era melhor lá para aonde ia. Onde não trabalhava ao sol como outros, mas de sol a sol tal como eles. Voltava para ver a terra, para ver a mãe a quem já ouvia a voz sem que a visse no horizonte. O coração sentia a presença de quem tinha dado vida muito antes de ver, era isso que ela lhe dizia. Vinha para matar saudades que dizia não ter. 

Descia da camioneta com uma mala sem peso na mão e o queixo erguido, a olhar de cima para quem era da sua altura. Os outros de pés descalços e ela de sapatos com sola por inteiro. Os mesmos que ficavam guardados para usar apenas aos Domingos e dias santos. Os outros com os cabelos em desalinho e a cara vermelha de tanto sol. E ela aparecia com vestidos sem remendos e cabelos arrumados em bananas puxadas com tempo. Era Domingo a meio da semana. Fazia questão que assim fosse.

Quando voltasse a subir aqueles degraus seria de corpo curvado com o peso das batatas e das couves que levava na cesta. Com a voz da mãe a despedir-se. Depois do tempo na terra. Ia como tinha chegado, de queixo erguido.

- Tem o rei na barriga é o que é.

- Até parece que  não passou fome como os outros.

Nas suas costas ficavam as conversas entre uns e outros. A verdade levava-a consigo. Para a cidade. Ou para lá perto. No sítio onde ficava o quarto com serventia de coisa nenhuma a que chamava casa.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A desgraça

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntosdo  que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos. Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem se cruzava com eles. 

Não se sabe o que ele prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se disse sobre o que ali se passava. Sobre as mãos que desciam nos bailaricos, sobre as gargalhadas dela. 

Muito se falou, mas quando chegou a hora não se ouviu nada para lá do silêncio. Quando ela bateu à porta com as mãos a tremer e ele abriu só para a fechar em seguida com ordens claras para que não o voltasse a procurar. Ele não lhe devia nada. 

Com o lamento a morrer na garganta, ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que, depois de cumprirem o seu objectivo, não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. “A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas”, era o que comentavam completado com um “quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada”. Era nisso que acreditavam. Uma mulher digna sabe dar-se ao respeito, sabe guardar-se. 

Ela ficou com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias. Fez-se mãe e pai. Baixou os olhos quando foi olhada com desdém, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua, vivia com peso de não merecer estar ali. 

Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. É certo e sabido que os homens são homens e que essa frase que não é nada, os defende de tudo. A mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.


Texto publicado na Revista DADA de Fevereiro de 2019. Adaptado de um texto publicado anteriormente neste blogue.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vinte escudos

Lá iam mais vinte escudos sem que fossem perdoados. Já nem tentava. Diziam que às vezes dava, que ele lá olhava para o lado e aceitava a cesta, mas as bocas dizem muita coisa que os olhos não chegam a ver. E, daquilo que os dela viam, não havia galinha, ovos ou molho de couves que fizesse a vez daquele dinheiro tão bem poupado e gasto sem que se desse pelo tempo. Tudo para ouvir o que sabia desde que era gente. 

- És fraquinha. 

Já o ouvira. Desde miúda que era aquela a sua sentença acompanhada de um rol de avisos na voz mastigada do doutor. 

- Carne mal passada, fígado. É isso que tens de comer a ver se o sangue ganha força. 

As mesma palavras com o mesmo cheiro a álcool etílico que nunca deixava o consultório por muito que se abrissem as janelas nos dias de sol. Saía com o que já sabia, os bolsos mais leves e a ordem para comer carne. Dinheiro para isso é que nem vê-lo. Passava os dias a enfardar palha e os setecentos escudos que fazia tinham de se aguentar. Era mais tempo a poupar do que a trabalhar. Mas descansava-a que ali olhava nos olhos do médico, ouvia-lhe a voz. Nem sempre era assim. Ouvia por aí, aos miúdos da escola, que alguns fechavam a porta do consultório a prometer chamar doentes e quando davam por ele já se tinha escapado pela janela. As pessoas à espera e o consultório cheio de ar. Pelo menos ali alguém a via. E ele já lhe conhecia os males sem se meter em assuntos que não eram seus. 

- Não te esqueças da próxima consulta. 

Mais vinte escudos para pôr de lado. A não ser que o inchaço da barriga desse em criança antes disso. Se assim fosse, o médico que tivesse paciência, mas a consulta ficava para quando pudesse ser. Esses assuntos também não eram para ele, eram assuntos dela. Dela e das mulheres que os sabiam. Havia coisas que nem um médico, por muito estudo que tivesse, sabia. E parir era coisa de mulheres. Ele que ficasse com os livros, os males do sangue e as coisas que ninguém compreendia. O resto não lhe competia. Daquilo que ela sabia, o médico aparecia mais na altura de alguém deixar o mundo do que na hora de chegar.