quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A loja do tio e do Senhor

A loja era sempre de alguém. Sem letreiro que a identificasse nem nome definido. Era do Ti Manel ou do Senhor João, da Dona Maria ou da Gertrudes. Na maior parte das vezes, a tia que lhe dava nome nem tinha ligação de sangue com quem entrava pela porta. 

- Vou à loja do ti Horácio – gritavam quando já estavam a sair porta fora de cesta na cabeça e mão na cintura. 

Dentro daquelas paredes estava a vida da aldeia: as novidade se as necessidades. Fosse o que fosse que precisavam, era certo que encontravam tudo ali.

A loja estava cheia que nem um ovo. Sacos e frascos, sacas de adubos e bacalhau seco. O cheiro a fertilizante misturado com o doce das bolachas. O azeite guardado na talha e o vinho em garrafões.

Os que precisavam entravam de cesta pronta e garrafa na mão. Estendiam o recipiente vazio à espera do seu retorno. Enquanto se esperava ou se atrasava a hora de voltar para casa, trocava-se dois dedos de conversa sobre o que se sabia ou sonhava saber. 

- Dê-me bacalhau. Sabia que a… 

Mesmo que soubesse dizia que não que a informação era sempre pouca e dava jeito saber mais qualquer coisa. Ouvido atento enquanto a faca cortava a espinha do bacalhau e espalhava o sal por todo o lado sem que houvesse preocupação em limpar. As postas, cortadas e escolhidas, eram enroladas na folha de papel pardo que por ali andava. 

Os pedidos dos clientes iam à balança, aumentava-se no peso e mantinha-se o preço sempre que se podia. As medidas eram mais para freguês ver do que para cumprir, ficava sempre o mesmo a ganhar. 

- Assente aí. 

O dinheiro era pouco e o capataz ainda não tinha pago aquela semana, as compras não podiam esperar que as barrigas lá de casa queixavam-se com fome. Comprava-se com a esperança de pagar quando o dinheiro entrasse em casa. Nos entretantos, o rol ia aumentando até já não se saber se a conta estava certa ou se andavam a pedir mais do que era devido. 

- Até amanhã, ti Maria. 

- Que Deus vá contigo - e que o faça voltar no dia seguinte para mais um copo de vinho que fica assente como dois.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Nem por um tostão

Qualquer canto e pedaço de chão lhes serviam como terreno de brincadeira. 

Meninas para um lado e meninos para o outro que elas não jogam à bola e eles não querem saltar à corda. De qualquer maneira, fica sempre melhor se cada qual estiver no lado que lhe compete. 

- Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço. 

Os rapazes dão chutos numa bola de trapos, tão fraca que a cada pontapé parece desfazer-se. 

- É golo! Não estejas a roubar. 

Roubando ou não, a contagem dos pontos vai-se perdendo como os trapos vão caindo e deixando a bola mais magra. Eles estão suados, cabelo em desalinho, camisa por fora das calças e pés descalços e sujos de pó. Mesmo assim não perdem o fôlego e há sempre tempo para mais um remate. 

- Que linda falua que lá vem, lá vem. 

Elas, as meninas que se querem bem comportadas, juntam-se em roda, nas brincadeiras com lengalengas que lhes animam os dias. Não têm bonecas nem brinquedos, só a imaginação e um bocado de corda para saltar. Uma em cada ponta a rodar e outra a saltar até não conseguir mais. 

- Olha que não há travões. 

E aí vão eles rua abaixo sem ligar aos buracos. Os carrinhos de rolamentos, feitos em casa com a ajuda de um e de outro, são postos à prova naquele terreno acidentado. Ouvem-se os gritos de euforia e os de vitória, de vez em quando também se ouve um grito de alguém que ficou com os joelhos esfolados ou aterrou de cabeça. 

São tão novos e têm tão pouco. São tão felizes com esse pouco que têm. Conseguem rir como de o mundo fosse deles. Como se todas as possibilidades estivessem ali naquele pião que conseguiram pôr a rodar na palma da mão. 

- Eu peço ao senhor barqueiro que me deixe passar. Tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. 

O sol começa a pôr-se. Amanhã há mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O pão do burro

Os miúdos juntam-se em grupo e lá vão eles ao caminho. Os mais novos têm uns dez anos, os mais velhos não têm muito mais. A partir de uma certa idade, o trabalho é mais certo do que o estudo e só vão à escola quando tem mesmo de ser. 

- Só era preciso saber escrever o nome e fazer contas – explicam. 

Vão a caminho da aldeia do lado porque a deles já não tem escola que os acolha e naqueles tempos não há pais que os levem ou que se certifiquem que eles chegaram bem e o conceito de autocarro escolar é algo desconhecido. Vão a pé, mas lá vão eles. Rapazes e raparigas que estão separados na escola, mas fazem o caminho lado a lado. Vão sozinhos, sem adulto que olhe por eles. 

- Os tempos eram outros – é o que se vai ouvir daí a uns anos. 

Se eram.

- E toda gente andava a pé, nunca estávamos sozinhos – continuam. 

Os rapazes feitos homens assumem o papel de guarda-costas das raparigas. As malas levam os livros de quem tem a sorte de os ter e um pão guardado para o lanche ou para quando a fome der sinal. 

Mais tarde, quando a escola fechar portas, fazem o caminho de volta sem que ninguém lhes controle a hora de chegada. Os rapazes, mais impacientes, aceleram o passo e não esperam pelas raparigas. 

- Elas paravam em todo o lado – é o que vão defender quando contarem esta história. 

E as raparigas fazem o caminho sozinhas que naquele tempo não existiam perigos como os de hoje. Os rapazes já vão tão longe que nem se ouvem. 

 O burro espera por elas no sítio do costume. As raparigas tiram o pão da mala, muito bem guardado dentro do saco de pano que a avó costurou, e servem o jantar ao burro antes de seguir viagem. 

Deus as livre de chegar a casa com um pão esquecido na mala. A comida é sagrada e é pecado não a aproveitar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O escaldar da apanha

É a época dela. O tempo a arrefecer e as oliveiras carregadinhas de azeitona a pedir para que se comece com a apanha. 

Lona estendida no chão, a toda a volta da árvore, e família inteira de mangas arregaçadas que o trabalho não deixa ninguém de fora. Há que chegue para todos. Bucha pronta para a hora do descanso, café a assentar e garrafão de vinho para dar fôlego ao corpo. 

Os ramos mais baixos são ripados, nos mais altos bate-se com um pau de todo o tamanho. Esforço e paciência. Cansaço que se paga quando se vê o resultado espalhado na lona. Acumulam-se os ramos partidos, as folhas da árvore e as azeitonas que vão caindo. Passam horas neste trabalho que faz o corpo suar e cansa os músculos.

Quando a árvore já não tem mais para dar, escolhem a azeitona que caiu. De joelhos e costas curvadas lá vão separando. A mais grada e sem defeito é guardada à parte que tem destino próprio, o resto é entregue no lagar para que dê o azeite com que a família se vai remediar. 

A azeitona boa é levada para casa. Retalhada pelas mãos habituadas a ficarem negras com tal trabalho e que passam o conhecimento aos mais novos. Três cortes em cada uma e são atiradas para o alguidar. Depois de retalhadas, são escaldadas em água a ferver e um sem fim de sal. São duas semanas até que fiquem doces. 

Depois, para quem consegue esperar as duas semanas que se impõem, é guardar para os tempos que se avizinham. Para quando o trabalho escassear e não houver outro conduto para além daquele que caiu da árvore. Nessa altura, é tirar uma mão cheia delas e juntar às misturadas que aquecem a tigela do jantar. É acompanhar a manja com as azeitonas, que não há dinheiro para peixe nem para carne. 

Os tempos não estão fáceis.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Aos que já não estão

Depois do trato em vida vem o acompanhamento na morte. 

O descanso eterno de uns leva ao cumprimento terreno das tradições que não interessam a quem já não está e que lava a alma de quem fica. 

No dia de finados, a romaria é ao cemitério. Novos e velhos, com mais ou menos dores nos ossos, lá vão eles até à última morada, que um dia também será sua, visitar os seus que já se foram. Cumpre-se todos os anos, a missa, a ida ao cemitério, o pesar por aqueles que ainda nos fazem tanta falta. 

Levam as flores nos braços e um saco com a tesoura, a faca, a vassoura pequena e uns quantos trapos. É o lavar da casa, é a visita a quem já não responde às perguntas. 


Quando chegam à campa dão um beijo na fotografia dos seus, cravada no mármore frio, e conversam com eles. Contam-lhes que os netos estão bem, que a filha anda com umas dores estranhas, que o trabalho tem dias para esquecer. 

Tiram as flores velhas da jarra, já estão amarelas e secas, e arranjam as que trouxeram. Cortam os pés, põem verdura e fazem o melhor que sabem. 

Vão buscar o caneco de plástico azul e enchem-no de água que deitam sobre o mármore frio. Varrem a sujidade, arrancam as ervas que insistiam em ir aparecendo, passam com o pano para que fique a brilhar. 

Ajeitam o ramo de flores e voltam a colocar no sítio devido e ficam ali, a olhar para a pedra e para a fotografia de quem já tiveram ao seu lado. Doí-lhes a alma com uma saudade que o tempo não cura nem atenua, só ensina a suportar. 

Despedem-se como nos despedimos de um amigo que encontramos no café. 

- Até para a semana, se Deus quiser. 

O coração vai apertado e a alma lavada com o dever cumprido.