quarta-feira, 28 de novembro de 2018

São as histórias que contam

As paredes são tijolo e cimento e nada mais. Decoradas com fotografias já gastas pelo tempo e tantas taças que se perde a conta. Sem as pessoas que ali andam, a colectividade não é mais do que isto. Memórias que não contam histórias. Só. E são essas histórias que fazem diferença. Que passam de boca em boca e que falam de quem não se conhece, mas que fez por nós sem saber por quem o fazia. Era para os que ali estavam e para os que ainda estavam para vir. 

São as pessoas que as contam, as mesmas que todos os dias dão de si a algo que não é seu fisicamente, mas que faz parte de si, da sua vida. São os pais que deram do seu tempo para erguer aquelas paredes. Das mães que se fizeram ao trabalho para que as portas não fechassem. Dos bisavós que, com nada, abriram aquelas portas pela primeira vez. Dos que cresceram ali e que não querem ver as suas histórias a ganhar teias de aranha. São aqueles que contra todas as notícias menos boas continuam ali. De pedra e cal. Mesmo que as contas estejam negativas ou quando toda a gente reclama. Porque toda gente o faz, até aqueles que nunca deram uma mão para ajudar. Principalmente esses. Os outros, os que passam mais tempo ali do que com a sua família, sabem que aquele edifício é mais para aquela terra do que um monte de tijolos. 

Sabem que um copo de vinho facilmente passa a três. Que vai um que paga uma rodada e outros que se juntam ali para o ensaio. Que ainda aparecem sempre uns quantos quando é preciso dizer mal do árbitro enquanto se joga a uma cartada que pode ou não ser de batota. Que há sempre miúdos a correr à hora dos treinos e que a música dos ensaios escapa pelos corredores. 

É isso uma colectividade. Mais do que um edifício em boas ou más condições, é um grupo de pessoas que faz por continuar a receber mais gente, por animar as terras que assistem à partida dos seus. E o que ali fazem é único, sem pedir nada em troca, sem procurar os holofotes, só para dar a quem os procura, a quem tem ali parte da sua vida. É por isso que continuam a roubar tempo aos seus para dar aos outros. 

A estas pessoas só podemos agradecer e todos os agradecimentos serão sempre poucos. 

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Adaptado do texto que escrevi para a folha de sala da peça "Metidos num 31!" escrita por mim e pelo Frederico Corado e que está em cena no Centro Cultural do Cartaxo.

Eu tive a sorte de crescer numa colectividade e de ainda andar por lá. Quem tiver oportunidade que acompanhe as actividades das colectividades, que se faça sócio. É mais do que ajudar uma casa, é manter histórias.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Roupa branca

Davam ordem de início de semana quando desciam a rua de alguidar à cabeça. Os passos atrapalhavam-se com os dos mais novos que lhes seguiam a sombra agarrados à bainha das suas saias num equilíbrio precário que ameaçava ruir a cada tropeção dos mais novos e a que elas respondiam com a destreza que quem está habituada a andanças daquelas. 

Era o rio que as esperava. Pouco para tantas que o procuravam e que dava sempre em gritos antes da roupa ver a água. 

- Então? Aí sou eu! 

- Viesses mais cedo. 

Não havia briga que não desse em conversa ao largo da fonte tal não era o espanto com o descaramento de algumas, mas sem que isso as impedisse de trabalhar. Os quarenta escudos ainda não tinham sido ganhos e já tinham destino e manter a freguesa era ter dinheiro no bolso. 

- Antes pouco que nenhum - dizia uma enquanto separada a roupa de cada casa. Lá de cima vinha a roupa de ‘A’ bordado, duas portas abaixo entregavam a que tinha flor por dentro de colarinho. 

De joelhos calejados no chão, as que não tinham tábua contentavam-se com uma das pedras lisas, e todas se davam ao trabalho. Mãos metidas na água gelada do rio e que lhes cortava pele, músculo e tudo o que encontrasse até chegar ao osso. Esfregavam a roupa com o sabão contado ao milímetro que nem no trabalho se esbanja. 

- A mulher quer-se certa.

Batiam as camisas de encontro à pedra com uma força que nunca se diria que estava naqueles corpos. Os salpicos a chegar a quem estava mais perto e as mãos já a torcer a roupa até ao último pingo. As mais velhas a tratar da roupa das freguesas, as gaiatas a braços com a roupa miúda e os miúdos a correr por ali. Uma cantoria ao longe, um diz que disse ali ao lado. 

E enquanto vinha a conversa e se iam os lamúrios, os campos ficavam brancos de roupa a corar e elas preparavam a dormida que o trabalho mal tinha começado e ainda tinham barrela. Mães e filhos a dormir em tendas que de protecção nada tinham e a roupa de molho no cortiço para ver se a gordura despegava. Lá ficavam as camisas e as calças dos senhores no fundo tapadas com lençol branco coroado a cinza e a água a escorrer por ali até à roupa. 

Na manhã seguinte, acordadas daquele sono quase ao relento, a água gelada que corria na direcção do mar que nunca viram, lavava-lhes o corpo para logo a seguir receber a roupa que lá mergulhavam para a última volta. 

No caminho de regresso levavam a roupa a cheirar a limpeza e campo, e traziam os mais novos na sua sombra. Corpo moído num hábito que nem chegava a cansaço e mãos geladas de dar asseio à roupa dos outros.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Não dos meus

A feijoca estava ao lume e no estendal não havia espaço para mais nenhuma peça de roupa. Do fundo do terreno chegava o barulho da enxada a roçar as ervas e o cair das pedras que eram atiradas para longe. 

Naquele bocado de chão cimentado que era pouco mais de um metro por outro tanto, ela aproveitava o sol que lhe aquecia o corpo e facilitava a vista. Sentada no banco de madeira que ninguém sabia há quanto tempo por ali andava, de costas dobradas e pano em cima da cabeça para proteger do sol. 

Fazia as bainhas das calças do mais velho que, mesmo já gastas, iam passar para o mais novo que tinha um palmo a menos de altura. De caminho ainda passajava o tecido dos joelhos que ameaçava romper de tanto uso, mas que ainda aguentava mais uns tempos. Virava o colarinho das camisas já gastas de um lado, mas impecáveis do outro. 

- É preciso poupar - dizia para si mesma numa tentativa de se desculpar por não poder comprar outra. Uma em condições como usavam os senhores que passavam na rua com os colarinhos limpos e sem pingo do suor naquele corpo. 

Poupava ali para comprar mais tarde. Para ter uma camisa nova para os miúdos estrearem quando fossem ao passar da procissão, para substituir os sapatos que já tinham tanta meia sola que nem se sabia se alguma vez a sola tinha sido por inteiro. Mas mesmo que a roupa nova demorasse a chegar, os seus nunca andavam mal arranjados que ela fazia questão que assim fosse. 

- Dos meus não falam. 

Ela bem sabia quais eram as conversas que andavam de boca em boca e viravam qualquer um do avesso. Fosse o mais santo ou o maior pecador. Ia tudo. Mas dos seus não faziam pouco. Não tinham muito, mas eram asseados. E respeitadores. Isso ela sabia que eram. E fazia questão de os apresentar em condições. 

Vestia-os com as melhores roupas que o dinheiro contado podia arranjar. Costuradas em casa, à mão, que as máquinas não tinham lugar por ali, mas com paciência. Naquele bocadinho de terreno. Os botões escolhidos com pormenor, a renda aproveitada, mas que ali tinha ares de nova. Quando o tempo escasseava, forçava os olhos à luz do candeeiro a petróleo e trabalhava noite dentro. Acabava vestidos, acertava calças, levantava punhos. Sempre para eles. Só depois, com o que sobrava é que desenrascava qualquer coisa para si. Mas nunca faziam má figura. 

Uns e outras, até podiam inventar de noite para dizer de dia, mas sobre si nunca podiam apontar o dedo. Pelo menos, na roupa. Desmazelada é que ela não era.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pão, por Deus

Era certo e sabido que o início do mês era anunciado pelas vozes nas ruas acompanhadas dos risos que só pertenciam a quem ainda tinha idade para os dar sem ser repreendido por não se saber comportar. Da rua chegava o cheiro a chuva e a humidade entrava pelo nariz colando-se aos pulmões e obrigando as velhas a aconchegar o xaile de lã e os velhos a deitar abaixo um copo de três. 

Encostadas ao canto da janela, meio escondidas à vista de toda gente, elas espreitavam só com um olho por detrás da cortina branca. E lá viam os mais novos chegar com as bochechas vermelhas e pele a brilhar. Corriam rua acima, a tropeçar nuns e a empurrar outros, todos na ânsia de ser o primeiro a chegar. 

- Bolinho para o santinho - vinham com a lenga lenga debaixo da língua, ensinada pelos que antes deles fizeram o mesmo, e ficavam com o saco de remendos aberto à frente de quem abria a porta. À espera. 

- Esta casa cheira a broa. Aqui mora gente boa - a pobreza que os recebia dava-lhes o que tinha. 

As broas cozidas no dia anterior que se desfaziam em migalhas no fundo do saco. As romãs gordas apanhadas da árvore que era de todos. Dois tostões quando os havia. Uma mão cheia de castanhas. Se tivessem sorte, lá aparecia um rebuçado daqueles que se colavam ao dentes e demoravam descolar. 

Sem mostrar cansaço nem intenção de abrandar, os miúdos continuavam o caminho das casas com pouco mais de metro e meio de altura, com o saco a ganhar peso. Só acalmavam quando batiam à porta da casa grande. Aí, cumpriam o que já sabiam. 

Abriam-lhes a porta e eles entravam na sala onde a devoção era parte presente e esperavam. Sacos fechados, cabeça para baixo e o cheiro a eucalipto a acompanhar a reza que murmuravam. Os senhores no seu porte direito, cruz ao peito e roupa sem remendos, esperavam pelo Amen final para retribuir com o pão que lhes pediam antes de os mandar embora com uma benção mal amanhada. 

Todos os anos. A mesma ronda. De ano para ano os miúdos a transformarem-se nas velhas atrás das janelas, os mais novos a trautear a mesma cantiga. O início de Novembro, quando o frio entrava nos ossos sem que a braseira fosse capaz de os aquecer, a ser recebido com os sacos abertos. Algumas portas que só tinham mãos fechadas. 

- Esta casa cheira unto. Aqui vive algum defunto - e a palavra a passar de boca em boca a marcar os que não davam a quem pedia pão. 

- Pão, por Deus.