quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A nossa aldeia

Cheira a carne. Feita no forno depois de marinar em vinho e temperada a pimentão doce e louro. Sabemos quem a faz, conhecemos quem mora atrás de cada porta e sabemos onde vão dar as ruas e que outras cortam para o mesmo sítio. Que para ir do ponto A para o ponto B passamos pela casa daquela que é irmã do outro, primo daquele tal que encontrámos no outro dia. E, já que falamos nisso: “que bem que a mãe dela fazia arroz-doce, até parecia o dos casamentos”.


Conversamos com quem encontramos, pagamos um café gelado ao que acabou de entrar e ficamos só mais um bocado. A ver o jogo, a conversar, a fazer companhia. E dizem lá de fora “as ruas desta aldeia não são para viver”, mas os de cá sabem que são as mesmas ruas que recebem quem faz delas a sua morada. As casas que ficam à sua sorte porque há quem diga que são pouco utilizadas, estendem os braços aos que viram crescer e a quem decide continuar a sua vida ali. Mais tarde ou mais cedo todos se conhecem pelo nome, apelido, alcunha e grau familiar. Ali, todos têm rosto, história, são alguém. Ninguém é só mais um.

A nossa aldeia fica longe das estradas cheias de carros e as que tem como suas estão cheias de buracos. Segundo nos dizem, virá o tapete novo quando houver oportunidade. Um dia. E nos entretantos, nós, que passamos ali todos os dias, já os conhecemos de cor. Tal como conhecemos as casas que foram erguidas pelos daqui, para que fossem de todos, e que agora ganham ervas e postes partidos. Ouvimos dizer que “vai ficar assim” porque “ninguém por ali anda”. Mas nós, que ali vivemos, que dali somos, ouvimos o riso dos miúdos enquanto andam aos pontapés na bola e aos encontrões uns nos outros. Ouvimos os pais a gritar "Tu vai, mas tem cuidado", não vá a bola cair lá para aquele lado de onde vem o cheiro que nos faz torcer o nariz porque é certo que não é de coscurão como a vizinha fazia.

Dizem que ali nada é utilizado, como se os nossos dias fossem passados à espera que a morte nos encontre. Como eles sabem pouco. Quem ali vive, sabe que o corpo puxa-nos para aquela terra, que nos chama a fazer mais. Um sentimento de pertença, de reconhecimento pelo que foi feito por quem veio antes, a vontade de fazer pelos que vão chegar. O coração bate e sempre se vai bater pelas ruas que dizem estar vazias. Se eles soubessem. É preciso passar por elas, vivê-las, todos os dias, todos os meses, para saber que ali se vive. Que ali, é a nossa aldeia. A nossa casa.


Versão completa do texto publicado na Revista Dada de Agosto de 2019

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Em vinha d'alhos

É um sem fim de tachos, alguidares, colheres de pau e um cheiro doce e fermentado que enche a casa. A cozinha num alvoroço que está na altura disso e de ter a casa cheia. É a filha que chega de Lisboa, o primo de França, a mãe que vem da casa ao lado e mais os parentes e conhecidos que fazem da terrinha, que tão longe está durante o resto do ano, local de devoção. E para alimentar tanta boca é preciso trabalho. Isso e tempo, que é coisa que nunca há.

É deixar os coelhos mergulhados em vinho tinto e acompanhar de cabeças de alho para ver se lhe toma o gosto. O lombo está pronto a ir ao forno e ainda falta arranjar mais qualquer coisa para o neto que não come nada disto. Um pudim de ovos das galinhas, mais um pão-de-ló.

- Ai o arroz-doce - e mais esse, que sem arroz-doce nem a festa se faz.

No estendal, as colchas brancas apanham ar. Foi uma tarde só para as lavar que isto é muito bonito, mas aquilo é tecido que nunca mais acaba. Enquanto se lava e se estende o que nunca se usa, o marido anda de joelhos na calçada para pintar a casa com o rigor que a ocasião exige. Branquinha, é o que se quer para que Nossa Senhora os abençoe.

E entretanto o leite borbulha mais do que devia e agora é o fogão que tem de ser esfregado. Como se já não houvesse trabalho para dar e vender. Valha a música que chega da rua a anunciar o bailarico.

- Que o S. Pedro tenha juízo que os moços merecem - se boda molhada é sinal de benção, festa regada a água e sinal de despesa.

A roupa de domingo está preparada. O vestido dela com os sapatos de meio salto mais a mala dos casamentos, as calças e a camisa para ele mais os sapatos fechados. A comida está arrumada em alguidares tapados com rodilhas à espera de vez no forno. Pois que esperem. Agora que a noite começa a aparecer, é meter o casaco de malha no braço e a carteira debaixo do ombro e ir rua abaixo. São arcos até perder de vista e uma azáfama a que não se vê fim.

- Olha, gente de Valada em Porto Muge - dito assim como quem dá as boas-vindas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Todos os dias o mesmo

Os dias estavam quentes e a luz era tão crua que obrigava a fechar os olhos e franzir a testa para se conseguir ver alguma coisa. Tão quentes que as sardaniscas subiam pelas paredes à espera de uma oportunidade de entrar em casa e os cães deitavam-se  sombra com metade da língua de fora e a arfar. Fazia calor, era o que era.

O silêncio próprio da calma depois de almoço era quebrado pelo som da bola a bater na parede. Uma vez e outra logo a seguir. Sem ligar ao calor nem aos avisos constantes sobre a importância de usar um chapéu, ela continuava a jogar raquetes com a cal que começava a soltar-se. As faces vermelhas, o cabelo colado à pele, a t-shirt a fazer vezes de vestido, os pés descalços. A mangueira para refrescar do calor, o tanque para mergulhar as pernas. As gargalhadas que nasciam bem lá no fundo. 

O mesmo na casa dos vizinhos. As corridas de quintal para quintal porque muros é coisa que não se conhece. O que é de uns e passa a ser de todos. A sombra da árvore grande a guardar os corpos que nunca se davam por cansados. As caras lambuzadas com o sumo da fruta que as árvores davam, os avós a gritar pelos seus e pelos dos outros, os pais a chamar para a hora do banho e a preguiça a contrariar a resposta.

O calor a entrar pela noite que chegava com o cheiro a sopa e peixe frito. Os corpos cansados que não perdiam a força para falar sem parar, a água do banho que ficava lamacenta e eles que falavam e falavam e assim continuavam. Como se o cansaço do dia não se fizesse sentir.

Dormiam com a janela entreaberta para entrar o fresco da noite. Os grilos do lado de fora e as melgas a tentar atacar lá dentro. O sono profundo de quem sabe que o dia que se segue é um sem fim de possibilidades. Que se vive muito melhor quando se corre sem destino, de pés descalços na terra, a roubar fruta dos quintais e a rir como se não soubesse fazer outra coisa. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Açúcar ao desgoverno

Casou-se no outro sábado. De branco e vestido fechado até ao pescoço. Com festa para a família de parte a parte e de mesa cheia. Bem dito, teve tudo a que tinha direito.

Fazia tempo que o casório andava a ser preparado, ainda nem se sabia qual o noivo que calhava em sorte. O enxoval arrumado na arca lá de casa, costurado pelas mulheres da família. A noiva, dotada de mãos de fada, “bordou cada metro de tecido”, dizia a mãe, “ até aqueles que vi serem entregues na porta da vizinha?”, comentavam. Toda gente sabia que a vizinha era costureira e bordadeira de uma vida e que as mãos da moça ainda eram frágeis.

E foi no outro sábado que a moça se tornou senhora. De respeito. O cabelo, que sempre conhecera caído até à cintura e a fazer-se à vontade do vento, arrumava-se numa banana apertada com ganchos por todo o lado. Nem um fio fora do sítio. Antes de subir ao altar, tinha descido a bainha a todas as saias. Dois dedos abaixo do joelho que só quem não se dá ao respeito é que mostra mais do que deve. E o que se quer de uma mulher casada é que se saiba dar ao respeito. Isso, e que seja governada.

No outro domingo já estava na casa que agora era sua, com a sogra a mostrar de quem era a última palavra. Afinal, ela só ali estava porque tinha casado com o seu filho. Aquela era a sua casa. Seguia-lhe os gestos sem se dar ao trabalho de disfarçar. Contava as favas que punha na sopa, “a carne é só para dar sabor” e bem que chegava um dedo de chouriço e outro meio de chouriça. 

A noiva, agora senhora de respeito de pele puxada pela banana enrolada na cabeça e pernas tapadas quase até ao tornozelo, baixava os olhos, esfregava os dedos de uma mão nas costas da outra e assentia sem o fazer. E que ela nem sonhasse que a panela estava a cozer arroz para que fosse doce, senão tinha de levar com o sermão e a missa cantada. “Uma mulher tem de ser governada e doces não é senão desgoverno de quem não sabe o que a vida custa”. Que fosse feita a sua vontade. A da sogra.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Mais um prato de sopa

Do outro lado do vidro, ela espreitava-me. Não o sabia na altura, só mais tarde é que ela me contou o que fazia naqueles Domingos em que me ia visitar. Em que eu achava que ela chegava quando me abraçava, mas na verdade já andava por ali há mais tempo do que dizia.

Para ali estar, também ela se metia numa camioneta quase igual à que me tinha levado e lá ia. Um ror de horas num caminho que a deixava aos tremeliques por dentro, para me ver. E eu passava essas mesmas horas na areia, com a maresia a acalmar o calor, de cara queimada, pele a saber a sal e cabelo que era mais areia que outra coisa. 

Ela espreitava-me enquanto eu almoçava, pouco antes da hora em que tinha autorização para me ver e deixar o pão que tinha cozido para mim mais as roscas de canela que tinham aproveitado os restos do lume e da massa. Eu esperava-a sem saber que já ali estava, a olhar-me fascinada quando eu me levantava para pedir mais um prato de sopa. Sopa de grão, lembro-me disso. “Nunca querias sopa em casa” - lembra-se ela com um certo ciúme mal disfarçado - “e ali, até repetias”. “Dois pratos que me sabiam a pouco”, guardava para mim.

O que ela não sabia, nem sei se chegou a saber, é que a pouca comida que tínhamos em casa, dava para mais horas de estômago cheio do que aquela fartura que por ali serviam. Comíamos a horas certas e do cardápio que apresentavam só mudava os dias. O mesmo lanche da manhã repetido a meio da tarde. Na hora indicada, nunca depois e muito menos antes. O almoço, de sopa e segundo, já vinha quando o estômago se tinha esquecido do pão da manhã. E só havia autorização para repetir a sopa. Nada mais.


No seguimento do texto Cabeça na Água.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Cabeça na água

Os dias eram de um calor estranho. Abafado lá no alto e tolerável quando se apanhava a brisa do mar. Não os conhecia assim. Só secos, com a transpiração a colar-se à pele. Nem estava habituada ao que os olhos me mostravam. Em vez de lezíria a que não conhecia o fim, mostravam-me um azul a que não sabia dizer se era o céu que entrava pela terra ou a água que visitava os pássaros.

O barulho de crianças sem pais por perto, enchia os corredores e os quartos de camas perfiladas enquanto havia espaço. Ali, ninguém dormia sozinho e isto se alguém chegasse a dormir o sono que se pretendia. Era a discussão entre o respeito por quem nos mandava calar, a excitação de estar fora de casa e a ansiedade. Essa maldita que nos fazia verter uma lágrima pela mãe que não nos vinha buscar e que nos deixava sem vontade de voltar.

A primeira vez que ali fui, nunca tinha visto o mar nem sabia o que era dormir numa cama que não era minha. Subi para a camioneta sem vontade de o fazer e deixei a minha mãe do lado de lá da janela a dizer-me adeus. Para mim o mundo acabava ali, no adeus da minha mãe, nos tremeliques da camioneta que me levava, na mala que me acompanhava com mais ar do que roupa. Recomeçou quando senti aquela maresia a refrescar-me a cara.

Andávamos todos de igual. Íamos à praia todos os dias. Não importava se fazia sol ou se o tempo tardava a aliviar. Uma corda a marcar o nosso espaço. Os outros do lado de lá, nós ali. O barulho das ondas a bater na areia, a espuma a recolher a alto mar para voltar a bater logo a seguir. Eu à espera da minha vez sem me importar com a tristeza de quem ficava na areia, vestido, sem autorização para sentir o mar a gelar os ossos e os dedos dos pés a torcer com o frio. 

Tinha sorte, agora sei disso. Sem mal que viesse do médico, tinha direito a três mergulhos no mar. Só três. De costas, a tapar o nariz e de boca fechada, e lá me mergulhavam. Um. Dois. Três. E lá voltava eu para ao pé dos outros. A lamber o sal da cara, de cabelo encharcado e com as pernas cheias de areia miudinha.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Betadine e Água Oxigenada

Perdia-se  a conta aos arranhões e nódoas negras. Se os tempos fossem outros era possível que a competência dos nossos pais fosse questionada, mas ninguém tinha a culpa dos miúdos que nasciam arraçados de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Lembrava-me deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que acabava comigo a saltar por cima da bicicleta, o que fazia com que os meus joelhos fossem amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Éramos todos iguais: demasiado aventureiros e sem noção do perigo.

Tínhamos o hábito de subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Só nos escondíamos em terrenos cheios de silvas e ervas à espera que fossem à noite nossa procura. Anos mais tarde percebemos que conseguiam ouvir os nossos risos à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. De cabeça levantada, peito cheio, joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura e chamavam por nós, mas nessa altura já íamos rua abaixo a ver quem ganhava daquela vez.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido, um nó na garganta o beijo da mãe que tudo cura. 

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos que continuam a contar a sua história. A vez em que só existia o travão da frente, a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava. Vivíamos com a cabeça cheia de sonhos e de sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.


Texto publicado na edição de Junho de 2019 da Revista DADA

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A esperteza

Saíam acompanhados do cheiro enjoativo a leite quente. Todas as manhãs, leite fervido com a nata espessa a vir ao de cima, e o que houvesse no naco de pão. Isso ou o pão embebido no leite para encher o estômago. Depois, faziam-se ao caminho com o aviso de sempre:

- Tomem conta das meninas

Era o tomavas, era o que era. Eles bem que abanavam a cabeça como se concordassem com o que lhes era dito, mas ainda estavam sob o olhar das mães e já se tinham esquecido. Elas que se valessem. 

Saíam todos juntos e mais se iam juntando pelo caminho. Perdia-se a conta aos miúdos que por ali nasciam a cada ano que passava. A cada porta, o aviso reforçado:

- Tomem conta das meninas - e eles a responder com o mesmo aceno calado.

Andavam todos pelas mesmas idades. A maioria ia descalço, tão habituados aos pés nus que nem sentiam as pedras, uns quantos tinham uma mala que levava quase nada e todos iam de bata branca que algumas faltas a professora não admitia. Eles eram todos mais altos do que elas, mas nem isso lhes pesava na consciência quando as deixavam para trás. Ainda se avistava a torre da igreja e já tinham acelerado o passo deixando para trás as meninas que deviam cuidar.
Elas, miuditas de idade e tamanho, não se preocupavam com aquele abandono premeditado. Era assim todos os dias, tão certo como as horas que o sino anunciava, e elas já não contavam com outra coisa. Aliás, até preferiam que assim fosse. Que eles se fizessem ao caminho, no passo apressado para chegar a lado nenhum, que elas ali ficavam, no seu passo miúdo e brincadeiras que não lhes interessavam a eles, tão adultos naquela meninice que não queriam assumir que ainda tinham.

Não demorou a que o barulho do motor se fizesse ouvir. Atrás delas, o roucar cavernoso denunciava a dificuldade em transpor aquela subida acentuada que só pernas novas aguentaram sem reclamar. 

- Mas vocês vão sozinhas?

E mais não era preciso para que elas subissem para o autocarro que trazia quem vinha do trabalho e levava quem ia pegar a seguir. O condutor já as conhecia e elas não se faziam rogadas à oferta de boleia que as levava rua acima, a passar os rapazes que as tinham deixado entregues a si mesmas. Da torre da igreja chegava o sinal. Eram 8.30 da manhã.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Menos um ano em trinta

Chegaram e cheirava a terra nova. Terra que se perdia de vista, mas que não conhecia enxada. E era deles. Pelo menos era isso que lhes diziam. Que assim seria quando os trinta anos tivessem passado e as contas ficassem certas.

Tinham casa. Uma casa de banho que levava o nome do buraco que tinha do chão. O vazio. Nada nas paredes e apenas o eco a encher o espaço que nunca sonharam ter. A mobília era a que traziam e a maioria trazia-se a si mesmo, aos filhos e à trouxa que levavam, sem esforço, numa mão. Mas tudo aquilo seria seu. Trinta anos e bom comportamento.

Começaram com o que tinham. Corpo e trabalho. Amanharam a terra a que não viam fim enquanto enchiam o estômago a batatas temperadas com toucinho salgado quando o sol andava pelo meio dia. Sopas pela manhã, toucinho a temperar as batatas à noite e estava arrumado o dia. As mãos calejavam, mas o corpo não quebrava. Quando se nasce habituado a isto, não há nada que leve a força. Deus só nos dá o que aguentamos. Nada mais do que isso. E assim fazia mais um ano e contava-se um sexto do que vinha da terra para ser dado a quem a tinha oferecido.

A fome dos primeiros tempos, calada pelo trabalho nos terrenos dos outros, naquilo que era propriedade que não dava retorno para a casa. Era assim para pagar o que se devia e o que se tinha pedido emprestado. Mais uma rega e a dívida a aumentar. Mais fosse o que fosse o registo feito onde era devido. Mais um ano e a casa limpa tal como se queria.

Um casal dado assim. A quem sempre teve pouco e se vê com tanta terra que obriga o trabalho a fazer-se em horas e fora delas. Entregue a quem mostrava ser de família e exemplar que a quem não o fosse era mostrado o caminho de saída. Mais um ano, se tivesse sorte.

O trabalho, saído do corpo que já era fraco, a dar-se. A fazer terreno daquilo que à chegada não era mais do que pedras no meio da terra onde nada brotava. Os primeiros anos sem colheita, a paciência para vir um dia a colher aquilo que davam ordem para semear. Manda quem pode que sempre assim foi. Mais um ano.

Um terreno que era baldio feito morada de família. Os pés descalços pela estrada, as agulhas a costurar como se quer, o dinheiro a ser pago como é devido. Todos os anos. Trinta até estar terminado.

Ele ao sol e de enxada na mão. Ela de lenço à cabeça e a seguir-lhe os movimentos e com a casa à sua espera. As mãos gordas dos miúdos a tirar as pedras. Quem come, trabalha. Quando falta, falta para todos. Galinheiro povoado, riqueza amealhada. Que já se sabe bem como se faz a vida. 

Mais um ano de trabalho. Mais um sexto entregue. Outros tantos em falta.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

É dia como todos os outros

Sábado de manhã. Ainda o sol vai baixo e já se contam horas de trabalho que o fim-de-semana só o é quando o dia é santo. Nos outros, vai tudo dar ao mesmo. Com o corpo a ganhar cor ao sol e os músculos a enrijecer de enxada na mão.

Ele endireita as costas. Apoiado no cabo, tira o boné e limpa o suor da testa com as costas da mão. Trabalha a pouca terra que é sua quando não está na de quem lhe paga. Naquelas manhãs, o cheiro a pó da terra seca mistura-se com o do fermento que está a ganhar corpo desde do dia anterior. Um quanto de farinha, mais um tanto de água, tudo com o que sobrou da massa da semana que passou. Deixar chegar o dia seguinte. Paciência é uma virtude, é o que é.

Manhã cedo, com ares de dia fresco, e ela faz-se ao caminho numa altivez que não sabe que tem. Costas direitas e queixo levantado para equilibrar a cesta que leva à cabeça. Pés a chinelar naquela estrada que não é nada e o som da enxada a escavar a terra a acompanhar-lhe o caminho até que desaparece lá no fundo.

O avio é feito de cabeça. Uma posta de bacalhau, das mais pequenas que estão para lá escondidas que o grão já está de molho, à espera. Vai um chouriço e uma chouriça para dar sabor à sopa e servir de conduto numa fatia de pão. No pão que ela vai amassar quando chegar a casa. Volta a fazer-se à estrada com o cesto que pouco pesa no pescoço e os bolsos vazios.

O velho alguidar de barro, já lascado, o lenço a prender o cabelo e os braços nus a remexer a farinha. Lá fora, a enxada continua a tratar do que é seu e o sol já vai alto. Ali dentro, é mais uma aguinha para mais um pãozinho. A panela com grão a cozer e os chouriços a secar na chaminé. A lenha a crepitar no forno, as mãos nuas a remexer a lume. O cheiro da comida que ainda não está pronta, a encher o estômago. A rapidez das mãos a moldar o pão, a deixá-lo tomar forma antes de se entregar ao calor. Raspar os restos da massa que ficaram na mesa, que aqui não se estraga nada, e amassar com canela. O cheiro à antecipação do bolo feito do que sobrou.

Sábado à tarde. Dia de trabalho. Mais um.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O respeito de ser casada

Já tinha tirado dois dedos à bainha das saias para que lhe tapassem o joelho e ainda nem tinha chegado o dia. Estava quase. O calendário marcava mais cinco dias até lá chegar. Finalmente. Já não se podia ouvir a mãe com a conversa do costume. “Dezasseis anos e sem namoro?”. Havia lá desgosto maior do que uma filha metida em casa, sem homem que olhasse por ela. Não era para isso que a metera no mundo.

Mas Deus ouvira as suas preces e lá apareceu quem marcasse a data e assim, sem quase se dar por isso, só faltavam quatro dias para que se cumprisse o que era esperado. Estava a casa pronta. Com o cheiro a paredes caiadas de fresco e madeira em segunda mão. Feita do que tinha sido um barracão a dois passos da porta dos sogros e com o essencial. Para se viver era preciso pouco, mais que não fosse porque não havia muito e era pecado desejar mais do que se tem.

Três dias. A adega estava limpa e as mesas postas no sítio com cadeiras de cada nação e toalhas brancas do enxoval de todos e mais alguns. Os pratos com flores misturavam-se com os brancos e lá pelo meio aparecia um já lascado, mas ali nada se deita fora porque não há como comprar novo. Copos do que havia, depois de dois ou três já ninguém sabia o que tinha na mão.

E eis que faltam dois dias. Um instante que nem se deu por ele. De pescoço cortado, as galinhas escaldavam no alguidar à espera do que lhes estava reservado. Prontas a depenar antes de se fazerem em canja e terminarem coradas no forno. Os coelhos estavam gordos. Os garrafões cheios alinhavam-se na parede do fundo.

O corpo tratava de amassar quando só faltava um dia. Farinha trabalhada com água, massa deixada a levedar debaixo dos cobertores e o crepitar da lenha a aquecer o forno. Mulheres de bata e lenço à cabeça, a falar da vida dos outros e a calar os segredos do casamento. Noiva que é de respeito entrega-se ao seu homem e o resto logo se vê.

De repente, acabava-se a espera e o dia chega igual a qualquer outro. Ela prende o cabelo que sempre usou caído, numa banana bem apertada. Tal e qual como se quer. Veste o vestido que depois de a ver casada, irá substituir a roupa de Domingo de quando era miúda e, pelo braço do pai, entrega-se à vida de mulher. Outro homem à sua espera. Escolhido quando já ninguém achava que isso lhe acontecesse. A sair das leis do pai para acatar as ordens de quem a recebe agora. A cabeça em sinal de submissão, o vestido que cresceu em comprimento, as pernas que deixaram de traçar. A mulher que se quer de respeito e quem é digna disso não se ri na rua. Todos os avisos que lhe deram durante uma vida a tornarem-se seus naquele altar.

É mulher, mas casada e mulher casada é outro respeito.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Já não te sou preciso

Eram meses daquilo. De espera, encostada ao portão, a ver se o via aparecer na curva lá à frente, que o seu coração apertava-se naquela incerteza sobre o que estava para chegar. 

- Despacha-te que tenho de ir para a vinha - gritava quando avistava o carteiro. 

Desde que vira partir o sangue do seu sangue criado no seu colo, que vivia num luto por quem esperava voltar a ver. O coração sofria. Vestida de preto desde que ele saíra à porta, fardado, para África como mandavam. Em força. E ela tinha ficado ali, a chorar um filho que ainda respirava. Meias até ao joelho, lenço a tapar o cabelo, roupa a cobrir o que restava do corpo. Preto sobre preto. A casa mergulhada em escuridão e a rua vedada a não ser para o trabalho. Até que ele voltasse e o luto desse lugar a mesa farta e música. Por enquanto, ela esperava que aparecesse a bicicleta à curva e que quem vinha nela lhe trouxesse notícias.  
- Tenho aqui o aerograma. 

E o seu coração acalmava. As palavras do filho sossegavam a ansiedade de o querer longe daquela guerra. Todos os dias esperava por esse fim que ninguém anunciava. Quando na rádio se ouviu a marcha de Grândola disse para si que já faltava pouco para o ver entrar pela porta e pegar na irmã ao colo. Faltava pouco para deixar de esperar o carteiro. 

Mas quando a porta se abriu, encontrou estranhos que não lhe conheciam a razão do luto antecipado e que lhe diziam o que não queria ouvir e que a rasgava por dentro. Quando se foram, ficou um colo a que faltava metade. A certeza que a casa não se ia fazer festa e que os cravos trouxeram a liberdade, mas que o filho não voltava com ela. Que tinha ido em força para África. Que lhe escrevera de lá. Que ela não o voltaria a ver. Que morrera já com ventos de liberdade. 

- Já não te sou preciso - foi o que lhe disse o carteiro quando, dias mais tarde, passou por aquela mãe que já não esperava por notícias do seu soldado. Uma desculpa de quem não tinha culpa e que já não lhe podia servir de conforto.


Texto publicado originalmente na edição de Abril de 2019 da Revista DADA

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Não vos livro da fome

- Livro-vos da guerra… 

Lá nisso o homem estava certo. Não houve guerra que entrasse pela porta. Os homens continuaram por casa, os rapazes lá iam andando na vida deles e não eram deixadas moças por casar nem mães de colo vazio. Tudo uma grande verdade, mas a realidade era outra coisa. Era eu a levantar-me ainda antes do dia raiar e fazer-me ao caminho. E se eu era nova. Nova e miudinha que também nunca cresci muito. Mas como estava a dizer, lá ia eu, a pé, dez quilómetros para lá e outros tantos para cá, sem sapatos e com a senha bem guardada na mão fechada com toda a força que tinha. 

Não havia açúcar, farinha, azeite ou pão que nos chegasse à mesa de outra forma. Tudo era dado em troca de um bocado de papel como aquele que eu levava. Mas nós éramos oito em casa e a senha dava direito a um pão. Só. O que é isso para uma família tão grande? Ainda por cima quando o meu estômago já reclamava quando eu saía de casa e um pão não chegava nem a meio do caminho? Vocês sabem lá o que é viver com aquela fome que parece que já faz parte de nós e que nos atormenta a cada passo. Foi por isso que me fiz esperta. 

Sempre que chegava a minha vez, mostrava a senha tal como a minha mãe me tinha dito. Em troca recebia um pão. Tudo certo, mas com a confusão do racionamento e da distribuição, havia dias em que ninguém recebia a minha senha e lá casa eram oito bocas à espera de algo que lhes acalmasse o estômago. Foi aí que veio a esperteza. Depois de recebido o pão, dava meia volta, escondia-o numa árvore fora dos olhares mais atentos e voltava para a fila com ar de menina bem-comportada e roxa de fome. Voltava a mostrar a senha, recebia outro pão e lá ficava com o papelinho outra vez. E repetia a história. Pão guardado na árvore e eu na fila com olhar de menina bem-comportada. 

Não fiquem com esse ar de quem nunca faria tal coisa e que eu quebrei todas as leis morais que conhecem. Os tempos eram difíceis e a fome é uma tortura que só sabe quem passa por ela. Sim, às vezes lá era descoberta e levava uma reprimenda de tal tamanho que me fazia companhia no caminho de volta, mas levava os braços cheios de pão e podia comer logo meio sem me sentir culpada. Que isto de dizer estarmos livres da guerra é muito bonito, mas só quem passou por ela é que sabe que aqueles tempos não tinham nada de liberdade. 

- ...mas não vos livro da fome. 

Lá isso não livrou. Pobreza já sabíamos o que era, que numa vida inteira não se conhecia outra coisa, mas aquilo foi ainda pior. A pobreza deu lugar à miséria, a estômagos que roncavam por hábito e a uma sardinha que, quando existia, era dividida por todos os que se sentavam à mesa. Abençoados os caçulas que tinham direito ao rabo da dita, pouca sorte a dos mais velhos que chupavam as espinhas. Por isso fiz-me esperta. E querem que vos diga? Não me arrependo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O não para ser mulher

O tamanho era pouco. Nascera nos dias pequenos, era o que costumavam dizer-lhe por graça quando percebiam que tinha deixado de crescer por volta dos sete anos. Ou então crescia tão devagar que era preciso deixar passar muitos mais para se perceber a diferença.  

- Já és uma mulherzinha. 

Estava a chegar aos doze. Doze anos sem altura que o confirmasse, mas com sentença associada. Mulher. O que era bom de saber era quando tinha sido menina porque disso ninguém a tinha avisado. Nunca se tinham virado para ela com a mesma autoridade de agora, para lhe dizer que era uma menina e agora era isto. Mulher. 

Talvez tivesse sido criança quando embalava os irmãos e ainda mal tinha feito os cinco anos. Ou quando, com oito aniversários contados, os preparava para a escola transformando o vazio da cozinha em pão para lhes dar pela manhã. Talvez o tivesse sido na altura em que não tinha tempo para brincar, mas a roupa estava estendida ao sol, imaculada. 

- As mulheres de respeito não andam a rir assim. Isso são as que não têm juízo.

Dez anos e tinha dado uma gargalhada vinda lá bem de dentro no meio da rua. Não o voltou a fazer que ninguém quer que pensem que lhe falta juízo embora saiba que não é o seu caso, mas mais vale prevenir os comentários.

- Já és uma mulherzinha.

Foi o que lhe disseram quando a puxaram pelo braço e a tiraram da corrida que fazia com os outros rapazes e que estava a dois passos de ganhar. 

- As mulheres não correm. 

E ela parou. Porque era mulher embora ainda se sentisse criança e o ser mulher tinha regras. Muitas. Todos os dias mais uma. Ela cumpri-as todas. Uma por outra, adicionando novas. Não ria, não corria, não chegava a casa depois do sol se pôr, não se esquecia de preparar o jantar, não usava saia acima do joelho, não falava com homens na rua, não ficava sozinha com eles sequer, não dançava, não mostrava as pernas, não respondia, não tirava os olhos do chão, não... 

- Não queres ser uma vadia, pois não? 

Não queria. Só queria ser mulher porque diziam que já o era. Era por isso que juntava mais um não à lista.

quarta-feira, 20 de março de 2019

As notícias que não chegavam

- Ó filha, vai lá ver se já se sabe. 

Tinha andado nesta lengalenga o dia todo e a filha de chamamento, mas sobrinha de sangue, lá ia rua acima a cada pedido para voltar rua abaixo com a mesma resposta.  

- Dizem que está demorado, tia. 

Sentada no degrau do barracão, a tia encostou uma mão à testa para quebrar o sol que lhe batia nos olhos, e com a outra ajustou o pano que lhe protegia a cabeça antes de voltar a insistir. 

- Vai lá ver. 

Ela foi, já se sabia que os pedidos dos mais velhos eram ordens para os mais novos. Subiu a rua com o passo apressado de todos os dias e, em menos de nada, entrou pela porta do café que não era mais do que uma tasca que via esfregona mais vezes. Entrou pela esquerda onde se juntavam mais mesas e cadeiras do que o espaço parecia conseguir albergar e deu sinal para o balcão que ficava na sala do lado.  

- Mas estás aqui outra vez, rapariga? 

Encolheu os ombros que também ninguém esperava outra resposta e abriu caminho entre os que se juntavam ali para ver televisão a preto e branco. 

Abriu as portas de madeira, entrou e fechou-as atrás de si com um ligeiro clique. No pequeno balcão à sua frente tinha o telefone e o livro alto com o nome de todos aqueles que tinham telefone e o respectivo número à frente. Não precisou de o abrir, sabia bem ao que ia. Marcou o número e esperou. 

Do lado de fora da cabine, continuava a vida normal. Os que se juntavam naquela sala para ver televisão, os que esperavam ao balcão pelo copo de vinho servido por quem mantinha o mesmo ar carrancudo de todos os dias. Lá dentro, ela ouvia com atenção o que lhe diziam. 

Ainda não estava a pousar o auscultador e já corria rua abaixo sem se preocupar em pagar o telefonema que acabara de fazer. 

- Isso não e próprio de uma mulherzinha. 

Ouviu dizer quando passou pelo grupo de linguarudas de serviço, mas daquela vez nem se preocupou em responder. Entrou em casa da tia sem se preocupar com comportamentos ou respeito e assim que a viu, sentada no mesmo degrau ainda com a mão a tapar o sol que não a deixava abrir os olhos, deu-lhe a notícia que tanto esperava. 

 - Já é avó, tia.

- Avó? Ai, que palavra tão pesada.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Oferendas a quem precisava

A bata tinha sido lavada e passada com tal pormenor que sentia os braços dormentes, mas estava impecável. Sem ruga e com um branco capaz de cegar quem apanhasse pelo caminho. Vestiu o filho enquanto o repreendia pelas diabruras que ainda não tinha feito, e entregou-lhe o saco com o feijão que tinha conseguido recolher. Pegou no mais novo pela mão e, de mala quase vazia no braço e roupa de Domingo, saiu com o mais velho dois passos à sua frente. 

A rua tinha ares de festa de Agosto com a aldeia toda reunida na praça e vestidos do mais apresentável que conseguiam. A carroça estava pronta, enfeitada com o rigor que a ocasião pedia e carregada do que um e outro foi dando. Abóboras, batatas, sacas de arroz e tudo o que os quintais tinham. Davam tudo do pouco que tinham. E o burro puxava com esforço que nos animais a idade também tinha algo a dizer. 

Quando chegavam ao destino, juntavam-se todas as aldeias com as carroças e os burros cansados, os mais velhos nos mesmos preparos e os mais novos com os ouvidos cheios de avisos. 

O cortejo seguia caminho pelas ruas estreitas para acomodar tanta gente e sob o olhar atento de quem os olhava de cima, lá das varandas enfeitadas por colchas bordadas pelas mãos que tinham sido pagas. 

A banda dava o embalo e o tilintar das moedas que caiam na manta que os bombeiros levavam faziam a vez de ferrinhos. Se era para dar para os que mais necessitados, os agradecidos lá encontravam mais uma moeda ou duas. 

Os que mais tinham e davam trabalho aos outros que contavam tostões para oferecer ali, apresentavam-se de carros cheios do que havia. 

- É para se redimirem - dizia quem nunca deixava a má língua por mãos alheias. 

E ali, rua abaixo em direcção ao destino a ofertar, ia um concelho inteiro. A dar o que tinha e a inventar outro tanto para oferecer que uma pessoa tem pouco, mas nunca se nega uma mão a quem tem menos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando o entrudo saía à rua

Quando chegavam os dias em que se dizia que ninguém levava a mal, eles encontravam-se no sítio de sempre. Os mesmos de todos os anos com o juízo próprio de quem se acha muito adulto sem o ser. Eram novos. A idade era pouca e de adultos só tinham a altura como ouviam a dizer

- Parece que lhes põem adubo nos pés.

Nos dias que antecediam a tarde em que o  senhor Padre abria as portas da igreja para a quarta-feira de cinzas, um deles abria a porta de casa aos outros e faziam-se às roupas e aos trapos que encontravam. Tudo servia. Eram batas com a cor a desaparecer, fatos oleados que deviam estar no campo e não em brincadeiras de crianças, meias pela cabeça e pelas pernas. Roupa por cima de roupa até deformar o corpo. Cajado, ou pau que lhe fizesse vez, na mão.

Saiam em grupo, quando a noite já ia alta e a rua era iluminada por uns candeeiros de luz pálida e tímida. As suas sombras faziam dois de cada um e estendiam-se à sua frente. O cajado anunciava-os ao mesmo tempo que as portas trancavam-se por dentro.

Eles lá iam. Rua acima para fazer rua abaixo a seguir. Um a arrastar uma perna, outro a fazer que era manco e todos a disfarçar quem eram. Pelo menos enquanto se lembravam. De vez em quando lá havia um que, cansado de andar com o corpo dobrado e a bambolear, fazia-se ao passo normal até que alguém o chamava à razão.

Batiam às portas de punho fechado. Várias vezes a várias portas. Até que alguém, distraído das datas em que andavam, abria uma e eles entravam sem pedir autorização. Verdade seja dita que quem não fala não pode pedir e deles não se ouvia uma palavra que fosse. Entravam por ali dentro e faziam como se fosse sua a casa que era dos outros.

- Mas quem é este?

Tentavam uns e outros adivinhar quem eram aqueles. Sentiam-lhes as mãos. Viam-lhes o andar. Tentavam destapar a cara. Lançavam apostas sobre quem eram. Nunca ninguém as confirmava e eles faziam-se às ruas. Agarravam em quem se atravessava no seu caminho sem delicadezas. Ouviam-se os gritinhos e os risos ao longe e já se sabia

- Eles já andam por aí.

- Tu fecha a porta antes que eles entrem por aí dentro.

Mas nem todas estavam fechadas e nem todas as ruas estavam vazias. E eles percorriam uma por uma. Cajado a marcar o passo e cara tapada. Naqueles dias em que ninguém levava a mal, o entrudo saía à rua. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Chegavam os que tinham ido

Passavam-se meses sem que visse a cor daquela terra. Tanto que a memória ficava enevoada quando se tentava recordar das casas ou trocava as feições dos vizinhos. Pelo menos era isso que dizia a si própria quando falava de onde vinha. Da terra. De onde todos vinham e ninguém se conhecia.

Quando a camioneta a deixava na curva de toda uma vida, saía de sapatos engraxados, roupa engomada e cabelo sem um fio fora de sítio. Impecável. Como se nunca tivesse sido dali. Como se não tivesse nascido duas casas abaixo.

Voltava à terra. Ela que agora vivia na cidade. Ou lá perto, mas que ali contava como cidade. O que importava era o que andava de boca em boca, o que se dizia de peito cheio. O resto era o que só sabia quem o vivia. Quem acordava quando ainda era de noite para fazer o que os outros, os que sempre tinham vivido no meio das avenidas largas, recusavam.

Tinha saído dali porque a vida era melhor lá para aonde ia. Onde não trabalhava ao sol como outros, mas de sol a sol tal como eles. Voltava para ver a terra, para ver a mãe a quem já ouvia a voz sem que a visse no horizonte. O coração sentia a presença de quem tinha dado vida muito antes de ver, era isso que ela lhe dizia. Vinha para matar saudades que dizia não ter. 

Descia da camioneta com uma mala sem peso na mão e o queixo erguido, a olhar de cima para quem era da sua altura. Os outros de pés descalços e ela de sapatos com sola por inteiro. Os mesmos que ficavam guardados para usar apenas aos Domingos e dias santos. Os outros com os cabelos em desalinho e a cara vermelha de tanto sol. E ela aparecia com vestidos sem remendos e cabelos arrumados em bananas puxadas com tempo. Era Domingo a meio da semana. Fazia questão que assim fosse.

Quando voltasse a subir aqueles degraus seria de corpo curvado com o peso das batatas e das couves que levava na cesta. Com a voz da mãe a despedir-se. Depois do tempo na terra. Ia como tinha chegado, de queixo erguido.

- Tem o rei na barriga é o que é.

- Até parece que  não passou fome como os outros.

Nas suas costas ficavam as conversas entre uns e outros. A verdade levava-a consigo. Para a cidade. Ou para lá perto. No sítio onde ficava o quarto com serventia de coisa nenhuma a que chamava casa.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A desgraça

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntosdo  que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos. Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem se cruzava com eles. 

Não se sabe o que ele prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se disse sobre o que ali se passava. Sobre as mãos que desciam nos bailaricos, sobre as gargalhadas dela. 

Muito se falou, mas quando chegou a hora não se ouviu nada para lá do silêncio. Quando ela bateu à porta com as mãos a tremer e ele abriu só para a fechar em seguida com ordens claras para que não o voltasse a procurar. Ele não lhe devia nada. 

Com o lamento a morrer na garganta, ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que, depois de cumprirem o seu objectivo, não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. “A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas”, era o que comentavam completado com um “quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada”. Era nisso que acreditavam. Uma mulher digna sabe dar-se ao respeito, sabe guardar-se. 

Ela ficou com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias. Fez-se mãe e pai. Baixou os olhos quando foi olhada com desdém, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua, vivia com peso de não merecer estar ali. 

Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. É certo e sabido que os homens são homens e que essa frase que não é nada, os defende de tudo. A mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.


Texto publicado na Revista DADA de Fevereiro de 2019. Adaptado de um texto publicado anteriormente neste blogue.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vinte escudos

Lá iam mais vinte escudos sem que fossem perdoados. Já nem tentava. Diziam que às vezes dava, que ele lá olhava para o lado e aceitava a cesta, mas as bocas dizem muita coisa que os olhos não chegam a ver. E, daquilo que os dela viam, não havia galinha, ovos ou molho de couves que fizesse a vez daquele dinheiro tão bem poupado e gasto sem que se desse pelo tempo. Tudo para ouvir o que sabia desde que era gente. 

- És fraquinha. 

Já o ouvira. Desde miúda que era aquela a sua sentença acompanhada de um rol de avisos na voz mastigada do doutor. 

- Carne mal passada, fígado. É isso que tens de comer a ver se o sangue ganha força. 

As mesma palavras com o mesmo cheiro a álcool etílico que nunca deixava o consultório por muito que se abrissem as janelas nos dias de sol. Saía com o que já sabia, os bolsos mais leves e a ordem para comer carne. Dinheiro para isso é que nem vê-lo. Passava os dias a enfardar palha e os setecentos escudos que fazia tinham de se aguentar. Era mais tempo a poupar do que a trabalhar. Mas descansava-a que ali olhava nos olhos do médico, ouvia-lhe a voz. Nem sempre era assim. Ouvia por aí, aos miúdos da escola, que alguns fechavam a porta do consultório a prometer chamar doentes e quando davam por ele já se tinha escapado pela janela. As pessoas à espera e o consultório cheio de ar. Pelo menos ali alguém a via. E ele já lhe conhecia os males sem se meter em assuntos que não eram seus. 

- Não te esqueças da próxima consulta. 

Mais vinte escudos para pôr de lado. A não ser que o inchaço da barriga desse em criança antes disso. Se assim fosse, o médico que tivesse paciência, mas a consulta ficava para quando pudesse ser. Esses assuntos também não eram para ele, eram assuntos dela. Dela e das mulheres que os sabiam. Havia coisas que nem um médico, por muito estudo que tivesse, sabia. E parir era coisa de mulheres. Ele que ficasse com os livros, os males do sangue e as coisas que ninguém compreendia. O resto não lhe competia. Daquilo que ela sabia, o médico aparecia mais na altura de alguém deixar o mundo do que na hora de chegar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As lágrimas que alimentam

A cama onde ele tinha morrido já tinha sido feita de lavado com o que havia por casa. O morto ali estava. Deitado, imóvel, de olhos fechados e pronto para se fazer à última morada. Foi-se sob o olhar da mulher e das filhas que, tal como quando se chega ao mundo, ninguém o deve abandonar sozinho. Velaram-lhe as últimas horas e trataram dele quando o frio começava a subir pelo corpo. A notícia não tardou a passar de boca em boca. Preparou-se o talhão que lhe estava destinado e avisou-se o padre para que lhe desse a última benção. Até lá, velavam o corpo que já não era quem tinha sido. 

Ela chegou vestida de preto. Saia pesada e xaile a cobrir-lhe a cabeça. Deixou-se ficar ao lado do morto, no sítio que lhe competia por profissão, com os olhos meio fechados a encarar o chão e a cabeça apoiada na mão que guardava o lenço de luto. Murmurava lamentos finos envolvidos num choro miúdo. Remoía as palavras da sua ladainha numa dor que era tão bem fingida que, quem não a conhecesse, tomava por sua. 

"Iremos os dois no seu caixão. Eu já sofri tantas penas no mundo", um dizer repetido tantas vezes que se tornara uma melodia de defuntos. Mordia o lenço que trazia na mão. Limpava com ele as lágrimas, a boca e assoava a tristeza que murmurava. Passava os dedos marcados pela cor do campo, pela cara e fungava entre cada refrão que entoava. Chorava a morte como quem trabalha o campo ou prega um botão numa camisa. 

Quando a paga o permitia, ouvia-se um grito. A cabeça que ia para trás numa súplica que trespassava o corpo dos que assistiam e as pernas que ameaçavam perder a força. A reza a nosso Senhor que se perdia no meio do lamento. 

Assim ficava até que o corpo encontrava o descanso na humidade da terra. Era aí que ela voltava-lhe costas e fazia-se ao seu caminho com o saco de trigo que lhe era devido e a limpar as lágrimas de carpideira. Que viesse o próximo que este fim é a única coisa que se tem por certo nesta vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A sentença que é a memória

Abriu a porta e deixou-a encostada atrás de si enquanto se sentava no degrau. Com as maos enrugadas e atacadas pelas artroses, puxou a bata até aos joelhos e deixou-se ficar a olhar a rua. A mesma rua onde tinha vivido a maior parte da sua vida. E no que lhe parecia ter sido muito tempo, mas sabia que não o era, viu o quanto tinha mudado. 

Naquele dia em que descansava sozinha no degrau de sempre, soube que algures no caminho a vida tinha-a encontrado e deixado para trás. A vida dos outros. 

Olhou a rua que conhecia de cor, mais buraco menos buraco, e viu-a tal como estava agora. Vazia. Despida. Ladeada de portas fechadas à chave e janelas tapadas por estores corridos. Não que estivessem abandonadas, mas era a vida de agora que as trancava vazias durante o dia e as deixava fechadas à noite quando os vizinhos chegavam. 

Ali sentada, com o frio a chegar-lhe à espinha e a voz a morrer em desespero na garganta, sabia qie lhe faltava as vizinhas. Não as que tinha agora, mas as que ali estavam antes. Que se encostavam às paredes de mãos nos bolsos nas batas e pé a coçar a perna, que se sentavam nos degraus e nos bancos que traziam de casa e ali ficavam. Todas. A costurar, a conversar, a deitar olho aos miúdos, os seus miúdos, que insistiam em correr e saltar de onde não deviam sem saber onde iam cair, mas com a certeza de que o iam fazer. 

E era dessa altura, em que o corpo não lhe doía nem rangia ao mínimo movimento, que lhe vinham as lembranças. Dessa altura em que todas as casas tinham fossas, mas que as ruas estavam cheias. Dos homens que seguiam caminho na bicicleta. Que se apoiavam no pedal direito para ajudar o corpo a içar-se para cima do celim. Das mulheres que vinham descalças e de cesta à cabeça. Que serviam os outros e os seus, todos os dias. Das portas que se fechavam ao trinco ou nem isso. Que tinham um arame a garantir que a porta entre a intimidadr e o mundo se mantinha fechada. 

Nesses tempos que parecem tão longe, mas que nem foram há uma vida, era o som que vinha da rua que lhe marca as lembranças. As vozes, os pés, o arrastar e o puxar, a água que chocalhava nos canecos, os rolamentos dos carrinhos que terminavam nos gritos que denunciavam a falta de travões, os pregões de quem vendia o que conseguia. 

Mas isso era nos tempos de que ela se lembrava. Hoje, só tem o silêncio. Tão presente que parece gritar-lhe por estar fora do seu tempo. Mas só ela é que o ouve. Só ela, que sabe como já foi, que se recorda daquilo que já esqueceu a muitos, é que sabe que aquilo que aquela rua tem é silêncio. Talvez ela esteja enganada e que aquelas casas não estejam abandonadas, mas está a rua. Despida daquilo que foi seu, da vida que se fazia ali. Ficou o silêncio, a vida fez-se a outros rumos.