quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Não dos meus

A feijoca estava ao lume e no estendal não havia espaço para mais nenhuma peça de roupa. Do fundo do terreno chegava o barulho da enxada a roçar as ervas e o cair das pedras que eram atiradas para longe. 

Naquele bocado de chão cimentado que era pouco mais de um metro por outro tanto, ela aproveitava o sol que lhe aquecia o corpo e facilitava a vista. Sentada no banco de madeira que ninguém sabia há quanto tempo por ali andava, de costas dobradas e pano em cima da cabeça para proteger do sol. 

Fazia as bainhas das calças do mais velho que, mesmo já gastas, iam passar para o mais novo que tinha um palmo a menos de altura. De caminho ainda passajava o tecido dos joelhos que ameaçava romper de tanto uso, mas que ainda aguentava mais uns tempos. Virava o colarinho das camisas já gastas de um lado, mas impecáveis do outro. 

- É preciso poupar - dizia para si mesma numa tentativa de se desculpar por não poder comprar outra. Uma em condições como usavam os senhores que passavam na rua com os colarinhos limpos e sem pingo do suor naquele corpo. 

Poupava ali para comprar mais tarde. Para ter uma camisa nova para os miúdos estrearem quando fossem ao passar da procissão, para substituir os sapatos que já tinham tanta meia sola que nem se sabia se alguma vez a sola tinha sido por inteiro. Mas mesmo que a roupa nova demorasse a chegar, os seus nunca andavam mal arranjados que ela fazia questão que assim fosse. 

- Dos meus não falam. 

Ela bem sabia quais eram as conversas que andavam de boca em boca e viravam qualquer um do avesso. Fosse o mais santo ou o maior pecador. Ia tudo. Mas dos seus não faziam pouco. Não tinham muito, mas eram asseados. E respeitadores. Isso ela sabia que eram. E fazia questão de os apresentar em condições. 

Vestia-os com as melhores roupas que o dinheiro contado podia arranjar. Costuradas em casa, à mão, que as máquinas não tinham lugar por ali, mas com paciência. Naquele bocadinho de terreno. Os botões escolhidos com pormenor, a renda aproveitada, mas que ali tinha ares de nova. Quando o tempo escasseava, forçava os olhos à luz do candeeiro a petróleo e trabalhava noite dentro. Acabava vestidos, acertava calças, levantava punhos. Sempre para eles. Só depois, com o que sobrava é que desenrascava qualquer coisa para si. Mas nunca faziam má figura. 

Uns e outras, até podiam inventar de noite para dizer de dia, mas sobre si nunca podiam apontar o dedo. Pelo menos, na roupa. Desmazelada é que ela não era.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pão, por Deus

Era certo e sabido que o início do mês era anunciado pelas vozes nas ruas acompanhadas dos risos que só pertenciam a quem ainda tinha idade para os dar sem ser repreendido por não se saber comportar. Da rua chegava o cheiro a chuva e a humidade entrava pelo nariz colando-se aos pulmões e obrigando as velhas a aconchegar o xaile de lã e os velhos a deitar abaixo um copo de três. 

Encostadas ao canto da janela, meio escondidas à vista de toda gente, elas espreitavam só com um olho por detrás da cortina branca. E lá viam os mais novos chegar com as bochechas vermelhas e pele a brilhar. Corriam rua acima, a tropeçar nuns e a empurrar outros, todos na ânsia de ser o primeiro a chegar. 

- Bolinho para o santinho - vinham com a lenga lenga debaixo da língua, ensinada pelos que antes deles fizeram o mesmo, e ficavam com o saco de remendos aberto à frente de quem abria a porta. À espera. 

- Esta casa cheira a broa. Aqui mora gente boa - a pobreza que os recebia dava-lhes o que tinha. 

As broas cozidas no dia anterior que se desfaziam em migalhas no fundo do saco. As romãs gordas apanhadas da árvore que era de todos. Dois tostões quando os havia. Uma mão cheia de castanhas. Se tivessem sorte, lá aparecia um rebuçado daqueles que se colavam ao dentes e demoravam descolar. 

Sem mostrar cansaço nem intenção de abrandar, os miúdos continuavam o caminho das casas com pouco mais de metro e meio de altura, com o saco a ganhar peso. Só acalmavam quando batiam à porta da casa grande. Aí, cumpriam o que já sabiam. 

Abriam-lhes a porta e eles entravam na sala onde a devoção era parte presente e esperavam. Sacos fechados, cabeça para baixo e o cheiro a eucalipto a acompanhar a reza que murmuravam. Os senhores no seu porte direito, cruz ao peito e roupa sem remendos, esperavam pelo Amen final para retribuir com o pão que lhes pediam antes de os mandar embora com uma benção mal amanhada. 

Todos os anos. A mesma ronda. De ano para ano os miúdos a transformarem-se nas velhas atrás das janelas, os mais novos a trautear a mesma cantiga. O início de Novembro, quando o frio entrava nos ossos sem que a braseira fosse capaz de os aquecer, a ser recebido com os sacos abertos. Algumas portas que só tinham mãos fechadas. 

- Esta casa cheira unto. Aqui vive algum defunto - e a palavra a passar de boca em boca a marcar os que não davam a quem pedia pão. 

- Pão, por Deus.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Vai lá gaibéu

Deixavam os mais velhos que já se aguentavam por si mesmos antes de precisarem de duas mãos para contar os aniversários, entregues aos cuidados dos avós e eles seguiam caminho com o mais novo. Era como era. 

- Escarrancha - dizia ela enquanto encaixava as pernas do miúdo nos ossos que lhe marcavam as ancas. O cheiro a leite já bebido e a suor acompanhava-os. 

Caminhavam com o som dos pés a raspar da estranha que um casal nunca tem muito a dizer ao outro. Ela de cesta à cabeça. Ele de saco ao ombro. Só quando se faziam acompanhar por outros como eles é que se ouviam as vozes. Iam como sempre, homens a abrir caminho e as mulheres no seu encalço. Todos em direcção ao trabalho que os esperava longe da casa que era sua. Saíam caros ao patrão que lhes devia os tostões da jorna, tecto e lenha, mas eles trabalhavam como se isso fosse a única coisa que tinham na vida. Era assim que pagavam o que recebiam. Não havia domingo nem dia santo que lhes pedisse descanso e nem sabiam de hora para se fazerem ao campo. Era quando capataz assim o dizia, mesmo que ainda não tivessem mais do que a lua para lhes alumiar os passos. 

Faziam-se ao campo descalças. Trabalhavam com água pelo meio da perna e saia enrolada à cintura. As pernas a engelhar, o frio a colar-se ao ossos. Guardadas por eles que passavam o dia com o cu a descansar no cabo da enxada e levavam o dobro em moedas. 

Os mais novos, que também os havia por ali, ficavam a atiçar o fogo que o almoço não tardava. Tinham idade para os bancos da escola, mas estavam destinados ao trabalho e cumpriam. Quando o sol determinava que era hora de descanso e o capataz aceitava tal determinação, lá esperavam os que voltavam. Todos à volta da panela, tão habituados à falta de conduto que nem sabiam que estavam com fome. Grão com couve num dia e couve com grão no outro. O cheiro do almoço a misturar-se com o pó da terra e o sal do suor. Colher mergulhada na panela que fazia as vezes de prato, pão partido à mão. Todos do mesmo. 

E dali voltavam para o trabalho. Nada mais que a vida que levavam, pele calejada a troco dos tostões que guardavam. Apareciam quando vinha o trabalho, levantavam-se quando os de lá se faziam ao descanso que quem não tem a casa sua a que voltar ao fim do dia prefere trabalhar para esquecer. Trabalho de gaibéu.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ao que chamava casa

Fechou os olhos com o primeiro trovão e antes que terminasse o sinal da cruz já o relâmpago iluminava a casa. Rezou para dentro, lábios a moverem-se sem se ouvir um som e o coração apertado com o prenúncio de temporal. 

Por cima da sua cabeça não havia tecto, os barrotes e as telhas estavam ali para quem os quisesse ver. A única protecção entre os seus e a intempérie que se anunciava lá fora eram as filas de telhas, algumas delas soltas, que deixavam entrar o que fosse que andasse lá por fora. 

Aquilo a que chamava de casa não era mais do que um barracão mal arranjado. Um divisão ampla que os acomodava e em que se fazia uma parede a cada ano e só quando o dinheiro assim deixava. Quando não havia nenhum imprevisto que lhe levasse os trocos que eram poupados com devoção. 

Mas o dinheiro ainda não tinha chegado para pôr o tecto. Uma parede para o quarto que era seu e a perspectiva de uma para os filhos, mas nada de tecto. Era isso que lhe apertava o coração agora que ouvia o vento levantar e assobiar entre as frestas das telhas. Ao desconforto dos ossos que arrefecem acrescentava o medo pelo que estava para vir.

Quando o cheiro a terra húmida entrou em casa chamou os filhos para cima da cama de ferro que mal acomodava um corpo e ali ficaram. Junto uns aos outros com o corpo a denunciar o frio e sem saberem o que era um lençol, mas de pés secos. Quando o céu ameaçou desfazer-se em cima deles, começou a ouvir-se correr pelo corredor. A água entrava pela porta da frente e, aproveitando a inclinação da casa feita sem rigor de medidas, seguia caminho até sair pelas traseiras. O vermelho que marcava o chão ganhava profundidade num tom mais escuro, mais interior, empapado na lama que entrava. A enchente lavava a casa por dentro e a humidade atacava o corpo dos que se abrigavam no calor dos outros. 

Lá fora, o vento levantava numa fúria que tentava arrastar o que se metia no caminho. Lá dentro, só havia paredes e essas mantinham-se de pé. Com dificuldade, mas de pé. 

Levantaram-se quando o assobio amainou, mas a humidade ainda se colava à pele. Com a água a bater no artelho deram a volta ao pouco que chamavam seu só para ter certeza que ainda o tinham. 

- Para o ano temos tecto - prometeu-lhes enquanto guardava para si as refeições que isso lhe ia roubar. “Que não me falte água e hortelã”, pediu para os seus botões.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

3 anos a andar Lá pela Terra

Há dias em que se apaga tudo o que se escreveu antes. Há dias em que se escreve e fica tal e qual como está. Ainda há outros em que se escreve e rescreve, no computador, no telemóvel, no papel. Em que se escreve a azul e se emenda a vermelho até ficar. Há dias em que nem se sabe o que escrever. No meio disto tudo, são raros os dias em que não se escreve ou não se pensa nisto do Lá pela Terra. Em que uma expressão ou um comentário a que ninguém dá importância ficam gravados porque fazem parte de uma memória que se perde, de uma vida que os de hoje (eu incluída) não sabem o que foi. 

É assim que o Lá pela Terra se faz. Aos poucos. Com atenção, a aprender a saber ouvir e a ter certeza que esta coisa de pôr em palavras os ensinamentos que se ouvem pode ter dias complicados, mas vale a pena. Porque faz alguém lembrar-se das coisas que a avó dizia, porque faz uma avó contar aos netos como era no seu tempo. Porque, de vez em quando, há quem se sente ao pé de mim e me conte qualquer coisa que vem lá do passado e que são memórias já meio perdidas pelo passar do tempo, mas que lhes sabe bem recordar. Ou então, alivia-lhes a alma. 

E o que começou sem grande certeza daquilo que era, tornou-se num projecto que já me ensinou mais do que alguma vez pensei ser possível. São três anos de Lá pela Terra. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Deve ter andado a enxofrar

Estava ali sentada desde cedo a embalar-se a si própria num sem fim de mágoas e tristezas que a cortavam por dentro. Foi assim que ele a encontrou. Encolhida, muda e ele, sem o dom da palavra, atirou-lhe com um 

- Estiveste a enxofrar ou quê, mulher? 

Dizia aquilo por dizer, porque era o que vinha à boca de todos quando a visão, fosse do próprio ou daqueles com quem se cruzava, ficava turva e as palavras fugiam da boca de quem achava que tinha de dizer alguma coisa. Vício de anos passado de geração em geração. A mesma conversa quando não se falava do resto. Foi por isso que ela não respondeu nem tão pouco o encarou. 

"Antes assim fosse", pensou com os seus botões, mas nem estava na altura do míldio ou de mal que lhe valha, aparecer nos campos. Antes fosse que a sabedoria de todas as bocas fosse certa e ela estivesse no meio das videiras, de enxofradeira na mão a correr a vinha de ponta a ponta enquanto tingia as folhas de um amarelo vigoroso para combater a brancura do bicho. Antes fosse um desses dias em que voltava a casa de olhos vermelhos e inchados sem distinguir se punha o pé no caminho certo ou se baldeava ribanceira abaixo. Todos aqueles que andavam metidos naquela vida voltavam assim para casa. Olhos inchados e a carne a cheirar a enxofre sem que eles o percebessem. Vendo. Bem as coisas, também devia ter subido ao altar num desses dias em que nem sabia se quem estava à sua frente era um padre ou um taberneiro.

Antes fosse que aquela água que lhe empapava os olhos e deixava a vista nublada tivesse causas que ela soubesse explicar. Que viesse de andar a enxofrar, de passar os dias mergulhada num nevoeiro sulfúrico. Pelo menos aí vinha com dinheiro no bolso, por muito pouco que fosse.

Pensou tudo para si e deixou-o sem resposta que não havia outra coisa a fazer. Ele, pouco habituado a preocupações e sem grande vontade de se entregar a elas, deixou-a consigo mesma naquele embalo marinado em lágrimas. 

- Devia ter andado a enxofrar - era o que qualquer um diria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O cheiro que enche a rua

O alcatrão estava em mau estado, defeito que deu em feitio com o passar dos tempos, e só duas ou três casas é que tinham primeiro andar. Em compensação, todas tinham quintal com direito a um barracão com a cozinha onde a família se servia. A cozinha de casa era para quando apareciam as visitas. 

Aqueles eram outros tempos. Eram dos dias em que o sol do meio-dia iluminava a rua com uma luz tão clara que obrigava a fechar os olhos e a protegê-los com uma mão na testa e outra na cintura para equilibrar. A hora a que a rua, mesmo vazia, começava a ganhar vida. 

Vindo dos quintais, ouvia-se o som do garfo a raspar na velha frigideira já gasta de tanto ser areada. A telefonia tocava um fadinho e mais outro, daqueles que faziam chorar as pedras da calçada, e as mulheres de lenço à cabeça e bata vestida, faziam o almoço para os netos que vinham da escola, para os filhos que almoçavam ali ou para os homens que vinham do trabalho. 

Cheirava a refogado regado a azeite feito no lagar lá da terra, com as azeitonas que a família inteira tinha apanhado. A cebola a ficar translúcida e o toque do alho e do louro. O crepitar da fritura. 

- Não comas o louro que te rasga a garganta! 

O borbulhar do óleo. As batatas cortadas em palitos e metidas dentro de água, à espera. A carne cozinhada com tempo e com um saber que nasce com a pessoa. É preciso ter mão para a cozinha. Ainda não há chefs, só cozinheiras. Das antigas. 

A feijoca a cozer para a sopa, com o toque dos enchidos e da carne. Um cheiro rico e gordo, guloso. Uma rotina cumprida em todas as casas. Um cheiro que enche a rua e anuncia a chegada do resto da família para se sentarem à mesa, com o pão ao lado para raspar o fundo da frigideira quando já todos se serviram. 

- Nem é preciso lavar - a piada de sempre. 

As memórias fogem com o tempo. As caras ficam confusas e esquecem-se nomes, mas o cheiro a refogado vai sempre levar ao sol do meio-dia numa rua com mais buracos do que alcatrão onde se espera que a família chegue para almoçar.

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Texto publicado na edição de Outubro da Revista DADA