sábado, 25 de abril de 2020

O tempo da outra senhora

Era a vida que conheciam. Pés descalços. Trabalho de sol a sol. Pouca comida na mesa. Os filhos que vinham quando queriam sem que nada se pudesse fazer para o impedir. Às vezes, até tentavam, mas em segredo, com mezinhas passadas por meias palavras entre umas e outras e que muitas vezes não davam em nada. Em nada de bom, pelo menos.

Ao Domingo, vestiam os trapos com  menos remendos. Elas cobriam os cabelos, eles guardavam os bonés que na missa do senhor Padre era preciso respeito. Ali ouviam o que Deus lhes tinha deixado escrito, mas que os seus olhos não conseguiam ler. Cabeça baixa. Mão ao peito. A minha culpa, a culpa que tinham por sua e o corpo de Deus oferecido aos estômagos vazios. Ide em paz.

E o Senhor a acompanhá-los. A fé nele e em Nossa Senhora. As promessas feitas pela saúde dos seus, para que voltassem da guerra que os tinha roubado. Tão novos. Ficaram todos lá. Até quem voltou para os seus.

Comiam o que havia. O pão de quinze dias sabia a fresco e quando faltava lambiam-se as migalhas da gaveta. Comia-se o cheiro a pão quando mais nada sobrava. Fazia-se sopa de água e hortelã e abençoado aquele que tinha meio metro de terreno para plantar e mais meio para criar. Que o dinheiro não dava para tudo e o rol já ia longo. Era a posta de bacalhau mais magra que se tinha encontrado, as 100 gramas de atum enrolado em papel pardo. Os chouriços que se penduravam na chaminé da lareira e que serviam de conduto na sopa que era do que havia.

Falavam a meias palavras quando se encontravam na rua. Sempre a espreitar por cima do ombro para ver quem lá vinha. Era preciso cuidado. Ninguém queria a viuvinha como visita a meio da noite para levar mais um lá para onde fosse que os levavam.

- Cala-te, homem que ainda te levam preso - rogava ela ao marido que ia dizendo aquilo que pensava sem ter autorização para o fazer.

E viviam assim. Um dia atrás do outro numa miséria que lhes roubava tudo. 

- É a nossa cruz - diziam em tom desabafo. Carregavam-na como Jesus o tinha feito antes deles. 

A cruz que era determinada por nascença. Nasciam pobres para assim continuarem. Serviam os que tinham berço. Não conheciam escola. Não almejavam mais porque sabiam que tal não lhes era permitido.

Era o tempo da outra senhora. Uma senhora que não olhava por eles, que os deixara sem nunca os ter conhecido. Que nunca lhes dera a mão. 

- Era uma vida de miséria, era o que era.



segunda-feira, 6 de abril de 2020

Lá pela quarentena

Já são cinco dias de quarentena lá no outro blog. Espreitem como é o isolamento por estes lados no Quarentena lá pela terra

Estou à vossa espera.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Em quarentena

Nestes tempos estranhos, as histórias de outros tempos ficam paradas, esperam que as pessoas se voltem a juntar à esquina a falar sobre como era quando eram novos. Até lá, estamos em quarentena lá pela terra. Num novo blogue. Aqui: Quarentena lá pela terra.

Fico à vossa espera.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O Frio

A lareira, na continuação do chão da casa e onde cabia um homem de pé sem precisar de se dobrar, não se chegava a apagar. Adormecia, perdia a força, mas as brasas estavam sempre ali, prontas a voltar a acender. Eram dias frios, Dezembro chegava em força e Janeiro ainda ia ser pior, mas aqueles corpos já estavam habituados. Só conheciam a vida com meia dúzia de trapos em cima e sem direito a casaco pesado ou meias quentes. Estavam prontos para mais um dia, todos os dias, viesse o calor ou o frio. 

O sol amanhecia intenso, com uma luz laranja que alumiava até se perder de vista, mas que não tinha força para derreter a geada da noite. Os campos ficavam brancos toda a manhã, às vezes dava o meio dia e ainda se via o gelo. 
Mas ninguém se queixava. Saíam à rua como estavam, com os dedos a gelar e um fumo branco a sair da boca, mas ninguém se negava ao trabalho. Lamentos não resolvem nada e o trabalho sempre aquece. 

Quando o sol se punha era ver o nevoeiro da noite a misturar-se com o fumo das lareiras onde o comer borbulhava numa panela que já não tinha cor. Cheirava a fumo. Tão forte que se colava às roupas e aos cabelos durante todo o Inverno. E dentro das casas, mal acabadas e com a telha à vista de quem lá estava, nem a lareira aquecia. Disfarçava, era o que era. Era olhar para o lume e ver ali meio sustento que ajudava a dar conforto às almas. 

Quando chegava a hora de ir dormir, e sem mais nada além de um lençol a tapar o corpo, dividia-se o sustento pela família e a lareira passava a braseiras espalhadas pela casa. Baldes de brasas ainda incandescentes a dar conforto e a encher os pulmões com aquele fumo espesso de fogo a perder o vigor. A morte sempre a espreitar. 

-Deus olha por nós. 

Valha-nos isso. 



Texto publicado na Revista DADA de Dezembro de 2019

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Sai o velho, entra o novo

Roda o ano num dia igual ao último tal como se espera para o que se segue. Uma meia-noite sem festejo num dia que se quer de trabalho como todos os outros. Nada de diferente, tudo por igual.

Para-se dois minutos, entre o acender o fogo da lareira e o levar as brasas para dar conforto ao quarto, e ficamos a lembrar. Dos que já cá não estão, que nos deixaram de braços vazios quando o Senhor os chamou para o seu lado. Dos que vieram, que o seu choro não nos deixa esquecer que cá ficar ainda é uma benção. Que Deus nos dê aquilo que aguentamos e que se mantenha connosco. É o que se pede nesta noite e em todas as outras.

Quando se dá a volta ao terço, com as contas a rodar nos dedos nervosos a cada Avé-Maria e Pai Nosso, de joelhos à beira da cama. A pedir que olhe por nós, pelos nossos. Redobramos o pedido naquela noite, porque entra um novo ano, seja lá isso o que for. 

É Janeiro outra vez, essa é que é a verdade. São os campos a morrer debaixo da geada que cai mais forte e as colheitas a irem com o vento quando ele sopra lá de Norte e leva o que temos. Vai o comer, o trabalho, o dinheiro. Que Deus olhe por nós se este ano for como aquele em que o vento se juntou lá em cima e veio por aí a baixo, em remoinho, a levar tudo o que encontrou. Até a vida. Foram dois  a enterrar depois do vendaval, nenhum lá de casa, mas a porta ao lado é como se fosse nossa.

Que nós, homens, podemos muito, mas o que Deus dá, Deus tira se assim o entender e os seus desígnios são para aceitar, mesmo quando não os percebemos. Principalmente, quando não os entendemos. Quem olha por nós, omnipotente e omnipresente, sabe de todos e de tudo e nós, pobres almas pecadoras, não temos saber que se compare. Temos os pés descalços e as mão calejadas. A pele a gretar do frio e o estômago a roncar a maior parte do tempo.

Entra novo ano daqui a pouco, dizem eles. Os entendidos. Para nós, é só o calendário a voltar ao início e os dias a repetirem-se. Que venha lá o novo, que nos traga o que tiver reservado para nós. E que o velho se vá, que as suas misérias fiquem com ele e nós cá nos vamos arranjado.

Ide em paz, é o que é.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A força da idade

Eram miúdos. Quer dizer, tinham cara disso, mas o corpo já contava com muitos anos de trabalho. Andava tudo pelas mesmas idades e todos conheciam a mesma vida. Trabalhavam de dia e jogavam quando calhava. Quando havia tempo, se é que o chegavam a ter. Treino marcado nas noites em que o pavilhão estava livre, ali uma hora contada até ao último minuto. Um bocadinho mais quando tinham sorte porque depois do campeonato começar não havia treino para ninguém. Eles também não precisavam. 

Jogavam por sua conta e risco a defender a nome do café onde a juventude da terra se juntava para mais um cerveja a acompanhar a conversa. E lá iam onde os chamavam. Dois torneios no mesmo dia e nem um queixume por parte dos jogadores. Quem divide o campo com os amigos que cresceram na porta ao lado não se lembra de queixas. 

Faziam o primeiro jogo e, ainda com os músculos a latejar, lá se metiam nas motas e no carro, para quem tinha a sorte de o ter, e iam ao próximo. Mais um campo, a mesma equipa ao pontapés noutra bola e a terminar o jogo em festa. 

E ali, sem honras de notícia de jornal, assinavam contrato com as equipas das terras ali à volta, que lhes viam os dotes. O trabalho de segunda a sábado e o jogo ao domingo mais os treinos durante a semana. Sem descanso. Mais um pontapé na bola, mais dois jogos ou três no mesmo dia, mais um joelho a ir ao chão sem ver médico que a malta é forte e aguenta bem. As dores ficam para mais tarde, quando a idade também pesar. Por agora, é a juventude a dar força a corpos que nunca se queixam. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

De estômago cheio

O quarto de meia dúzia de metros engolia-a naquele cheiro quente a feijoca fervida logo pela manhã. Ainda o dia não tinha amanhecido e aquele cheiro já entrava pelas narinas e a deixava de estômago às voltas. Adivinhava a panela a borbulhar ao lume com a quarta leva da semana para o mesmo comer de todos os dias. Pelo menos era assim que lhe parecia. Era assim porque o que havia era pouco e esse pouco tinha de dar para muito. E para muitos. 

Ela, ainda deitada numa cama que não conhecia lençóis dignos de tal nome, já pensava na melhor maneira de se escapar a mais um almoço de sopa de couves e um bocado de carne que nem dava para contar história. A mesma de todas as outras vezes que se escapava como quem não quer a coisa.

Não é preciso ter meios, por muito importantes que sejam nada supera o engenho de quem tem de se fazer à vida de bolsos vazios. E ela, esperta que nem um alho (como o pai repetia sempre que a apanhava com o pé em ramo verde), sabia bem a que engenho recorrer. 

Agrião que nasce à beira da estrada é de todos, mesmo que alguém esteja de olho nele para o vender por uns quantos escudos. É de quem lhe deitar a mão. 

No alguidar lá de casa, as azeitonas já vão na terceira escaldadela e são tantas que ninguém sabe se já tiraram umas quantas. Tirando a mãe, que sabe até o que ainda não aconteceu. 

E depois, nada como bater à porta da tia. Aquela que tem sempre lugar para um à mesa e umas galinhas lá ao fundo do terreno, galinhas daquelas que dão ovos todos os dias. Tiram-se dois. Mexidos numa frigideira torta e preta do fogo. 

Não há sopa de feijoca nem couve e muito menos uma rodela magra de chouriço gordo. Há pão e ovo frito em azeite com agrião e azeitonas. De estômago cheio.