quarta-feira, 29 de maio de 2019

Menos um ano em trinta

Chegaram e cheirava a terra nova. Terra que se perdia de vista, mas que não conhecia enxada. E era deles. Pelo menos era isso que lhes diziam. Que assim seria quando os trinta anos tivessem passado e as contas ficassem certas.

Tinham casa. Uma casa de banho que levava o nome do buraco que tinha do chão. O vazio. Nada nas paredes e apenas o eco a encher o espaço que nunca sonharam ter. A mobília era a que traziam e a maioria trazia-se a si mesmo, aos filhos e à trouxa que levavam, sem esforço, numa mão. Mas tudo aquilo seria seu. Trinta anos e bom comportamento.

Começaram com o que tinham. Corpo e trabalho. Amanharam a terra a que não viam fim enquanto enchiam o estômago a batatas temperadas com toucinho salgado quando o sol andava pelo meio dia. Sopas pela manhã, toucinho a temperar as batatas à noite e estava arrumado o dia. As mãos calejavam, mas o corpo não quebrava. Quando se nasce habituado a isto, não há nada que leve a força. Deus só nos dá o que aguentamos. Nada mais do que isso. E assim fazia mais um ano e contava-se um sexto do que vinha da terra para ser dado a quem a tinha oferecido.

A fome dos primeiros tempos, calada pelo trabalho nos terrenos dos outros, naquilo que era propriedade que não dava retorno para a casa. Era assim para pagar o que se devia e o que se tinha pedido emprestado. Mais uma rega e a dívida a aumentar. Mais fosse o que fosse o registo feito onde era devido. Mais um ano e a casa limpa tal como se queria.

Um casal dado assim. A quem sempre teve pouco e se vê com tanta terra que obriga o trabalho a fazer-se em horas e fora delas. Entregue a quem mostrava ser de família e exemplar que a quem não o fosse era mostrado o caminho de saída. Mais um ano, se tivesse sorte.

O trabalho, saído do corpo que já era fraco, a dar-se. A fazer terreno daquilo que à chegada não era mais do que pedras no meio da terra onde nada brotava. Os primeiros anos sem colheita, a paciência para vir um dia a colher aquilo que davam ordem para semear. Manda quem pode que sempre assim foi. Mais um ano.

Um terreno que era baldio feito morada de família. Os pés descalços pela estrada, as agulhas a costurar como se quer, o dinheiro a ser pago como é devido. Todos os anos. Trinta até estar terminado.

Ele ao sol e de enxada na mão. Ela de lenço à cabeça e a seguir-lhe os movimentos e com a casa à sua espera. As mãos gordas dos miúdos a tirar as pedras. Quem come, trabalha. Quando falta, falta para todos. Galinheiro povoado, riqueza amealhada. Que já se sabe bem como se faz a vida. 

Mais um ano de trabalho. Mais um sexto entregue. Outros tantos em falta.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

É dia como todos os outros

Sábado de manhã. Ainda o sol vai baixo e já se contam horas de trabalho que o fim-de-semana só o é quando o dia é santo. Nos outros, vai tudo dar ao mesmo. Com o corpo a ganhar cor ao sol e os músculos a enrijecer de enxada na mão.

Ele endireita as costas. Apoiado no cabo, tira o boné e limpa o suor da testa com as costas da mão. Trabalha a pouca terra que é sua quando não está na de quem lhe paga. Naquelas manhãs, o cheiro a pó da terra seca mistura-se com o do fermento que está a ganhar corpo desde do dia anterior. Um quanto de farinha, mais um tanto de água, tudo com o que sobrou da massa da semana que passou. Deixar chegar o dia seguinte. Paciência é uma virtude, é o que é.

Manhã cedo, com ares de dia fresco, e ela faz-se ao caminho numa altivez que não sabe que tem. Costas direitas e queixo levantado para equilibrar a cesta que leva à cabeça. Pés a chinelar naquela estrada que não é nada e o som da enxada a escavar a terra a acompanhar-lhe o caminho até que desaparece lá no fundo.

O avio é feito de cabeça. Uma posta de bacalhau, das mais pequenas que estão para lá escondidas que o grão já está de molho, à espera. Vai um chouriço e uma chouriça para dar sabor à sopa e servir de conduto numa fatia de pão. No pão que ela vai amassar quando chegar a casa. Volta a fazer-se à estrada com o cesto que pouco pesa no pescoço e os bolsos vazios.

O velho alguidar de barro, já lascado, o lenço a prender o cabelo e os braços nus a remexer a farinha. Lá fora, a enxada continua a tratar do que é seu e o sol já vai alto. Ali dentro, é mais uma aguinha para mais um pãozinho. A panela com grão a cozer e os chouriços a secar na chaminé. A lenha a crepitar no forno, as mãos nuas a remexer a lume. O cheiro da comida que ainda não está pronta, a encher o estômago. A rapidez das mãos a moldar o pão, a deixá-lo tomar forma antes de se entregar ao calor. Raspar os restos da massa que ficaram na mesa, que aqui não se estraga nada, e amassar com canela. O cheiro à antecipação do bolo feito do que sobrou.

Sábado à tarde. Dia de trabalho. Mais um.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O respeito de ser casada

Já tinha tirado dois dedos à bainha das saias para que lhe tapassem o joelho e ainda nem tinha chegado o dia. Estava quase. O calendário marcava mais cinco dias até lá chegar. Finalmente. Já não se podia ouvir a mãe com a conversa do costume. “Dezasseis anos e sem namoro?”. Havia lá desgosto maior do que uma filha metida em casa, sem homem que olhasse por ela. Não era para isso que a metera no mundo.

Mas Deus ouvira as suas preces e lá apareceu quem marcasse a data e assim, sem quase se dar por isso, só faltavam quatro dias para que se cumprisse o que era esperado. Estava a casa pronta. Com o cheiro a paredes caiadas de fresco e madeira em segunda mão. Feita do que tinha sido um barracão a dois passos da porta dos sogros e com o essencial. Para se viver era preciso pouco, mais que não fosse porque não havia muito e era pecado desejar mais do que se tem.

Três dias. A adega estava limpa e as mesas postas no sítio com cadeiras de cada nação e toalhas brancas do enxoval de todos e mais alguns. Os pratos com flores misturavam-se com os brancos e lá pelo meio aparecia um já lascado, mas ali nada se deita fora porque não há como comprar novo. Copos do que havia, depois de dois ou três já ninguém sabia o que tinha na mão.

E eis que faltam dois dias. Um instante que nem se deu por ele. De pescoço cortado, as galinhas escaldavam no alguidar à espera do que lhes estava reservado. Prontas a depenar antes de se fazerem em canja e terminarem coradas no forno. Os coelhos estavam gordos. Os garrafões cheios alinhavam-se na parede do fundo.

O corpo tratava de amassar quando só faltava um dia. Farinha trabalhada com água, massa deixada a levedar debaixo dos cobertores e o crepitar da lenha a aquecer o forno. Mulheres de bata e lenço à cabeça, a falar da vida dos outros e a calar os segredos do casamento. Noiva que é de respeito entrega-se ao seu homem e o resto logo se vê.

De repente, acabava-se a espera e o dia chega igual a qualquer outro. Ela prende o cabelo que sempre usou caído, numa banana bem apertada. Tal e qual como se quer. Veste o vestido que depois de a ver casada, irá substituir a roupa de Domingo de quando era miúda e, pelo braço do pai, entrega-se à vida de mulher. Outro homem à sua espera. Escolhido quando já ninguém achava que isso lhe acontecesse. A sair das leis do pai para acatar as ordens de quem a recebe agora. A cabeça em sinal de submissão, o vestido que cresceu em comprimento, as pernas que deixaram de traçar. A mulher que se quer de respeito e quem é digna disso não se ri na rua. Todos os avisos que lhe deram durante uma vida a tornarem-se seus naquele altar.

É mulher, mas casada e mulher casada é outro respeito.