quarta-feira, 22 de março de 2017

A anunciar a Primavera

Já se sente a mudança. Os dias estão maiores e as manhãs frias seguem para tardes que pedem que o casaco fique para trás. Sente-se o cheiro a calor e anda no ar o pólen que ameaça os narizes mais sensíveis. 

O verde cobre os terrenos até se perderem de vista e é salpicado pelos pequenos pontos amarelos e frágeis que se dobram ao mínimo sopro do vento. Os miúdos correm por esses terrenos que não seus como se estes lhes pertencessem e, numa tradição nunca falada, arrancam molhos dessas tais flores amarelas. 

São flores simples e selvagens a crescer sem ordem estabelecida. Chamam-se azedas, mas há quem as conheça por chupemelos. Os nomes perdem-se e transformam-se nas bocas que os dizem sem nunca os escreverem. É a sabedoria popular. 

Os miúdos trincam-lhes o caule e bebem a seiva amarga saciando a sede com o manjar que a natureza lhes oferece. Caras lambuzadas e respiração ofegante de tanto correr. Face vermelha do calor que se faz sentir. 

É o anunciar da primavera. Dias quentes e chupemelos a crescer sem autorização e a serem trincados por miúdos que não ligam se o que vem da terra deve ser lavado com todos os cuidados. 

É assim que se faz há tantos anos que se perde a conta, é só começar a sentir o chegar dos dias mais quentes. O anúncio da primavera chama a vida à rua. As mulheres sentadas à porta com panos pela cabeça para se protegerem do sol quente enquanto deitam o olho aos mais novos. 

A conversa faz ali, na calçada, e a vida passa pelas ruas e as conversas são marcadas por observações que dizem que o tempo anda louco. 

Anda tudo louco, na verdade, já nada é bem como costumava ser, mas a chegada da primavera convida a que a vida se faça na rua, à ombreira da porta, enquanto se deita o olho aos miúdos que trincam azedas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Soprar as velas

São mais de vinte a correr por todo o lado numa casa onde não abunda espaço. Vieram todos: os colegas da sala de aula e os outros meninos da escola. São todos amigos, daqueles que jogam à bola no recreio e que saltam à corda ou brincam à linda falua que vem lá de Belém.

Agora estão ali, a falar excessivamente alto e a correr de um lado para o outro enquanto desarrumam tudo o que encontram pelo caminho. Afinal um deles faz anos e isso é só mais uma desculpa para se juntarem todos em corridas sem fim e jogos das escondidas. 

A mesa cheia de comida não lhes desperta interesse. São os rissóis e os pães com fiambre e queijo, as tortas dancake de chocolate e as que têm recheio de morango, os bolos de aniversário com bonecos e campos de futebol. Eles passam e petiscam, roubam uns sugos ou uns caramelos de fruta que estão espalhados pela mesa e seguem caminho. Há muita brincadeira à espera.

Depois o tempo passa, os meninos pequenos crescem e as correrias da festa dão lugar à música que toca na rádio e onde se aproveita a balada da moda para trocar uns passos de dança com aquela menina a quem já se piscou o olho e com algum incentivo por parte dos pais que acham sempre piada aos miúdos de meio metro a fingir que são adultos.

Vai chegar uma altura em que as festas já nem se fazem em casa com os pais e as avós a deitarem um olho aos miúdos, mas por enquanto ainda estão ali a gritar, vermelhos e transpirados de tanto correr. A casa fica vazia quando a noite já apareceu. Os pais passam para ir buscar os filhos e ficam copos e guardanapos espalhados pelos cantos e um aniversariante muito cansado de tanto brincar.

Foi um dia em grande, cheio de tudo o que é bom e que deixou recordações que daí a uns anos vão servir para entrar em conversas que começam com um "No meu tempo". Nesse tempo onde tudo era sempre melhor mesmo que não fosse bem assim.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Pão numa mão

As crianças são só crianças. É a vida a seguir o caminho que deve seguir, todos nós nascemos para trazer mais vida. É isso que se ouve na homilia de Domingo. Mas é só isso que as crianças são. 

Os mais novos não comem à mesa com os mais velhos e não se metem nos assuntos dos adultos. As crianças são só isso, crianças e devem comportar-se como tal. A vida dos adultos não lhes serve nem é da sua conta. 

Se precisarem de levar umas palmadas, levam-nas. As crianças têm de aprender que nem tudo é como elas querem. Existem regras e saber estar e o ser criança não lhes perdoa a má educação. 

Pão numa mão e cachaporra na outra. Ditado tão antigo como a vida e cumprido à risca. As crianças alimentam-se e educam-se da maneira que for preciso. São outros tempos, em que as crianças não têm voz. Têm regras e deveres e nem o direito de brincar em paz e sossego lhes é atribuído. 

Algumas, as que nascem menos abonadas, tornam-se adultos ainda as feições são de bebé. É o cuidar da casa e dos irmãos mais novos que lhes é atribuído, mesmo que para isso tenham de faltar à escola. Afinal há prioridades na vida. Quando não há irmãos mais velhos são os avós e os tios que olham por eles enquanto os pais trabalham. 

O amor aos filhos é assim, diferente na forma de mostrar. Está na educação rígida e nos castigos cumpridos à risca. É afastar as crianças quando os assuntos são de adultos porque elas não percebem nada da vida. É ordenar que lavem a roupa quando nem chegam bem ao tanque. Ser criança tem obrigações sem direitos que as aliviem. 

São outros tempos e outros pensamentos. Outras maneiras de viver. Os filhos são a obrigação de cada um de trazer mais vida à terra. E eles devem sentir-se agradecidos a quem os trouxe ao mundo. 

As crianças são só crianças sem direito a sê-lo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mãos ao ar

- Podemos usar a Adega do Manel.

E estava marcado. Sem mais conversa ou discussão, já havia sítio para o encontro. Falaram com mais uns quantos e a palavra passou a correr de boca em boca. O encontro estava marcado para daí a umas noites na  adega do Manel. As ideias já começavam a nascer na cabeça de uns e outros. Era assim que udo começava.

Cada qual levava o que podia e vestia-se como conseguia. Não havia regras.

Um trazia um pão de ló outro uns pasteis de bacalhau e assim, por uns e outros, tratava-se do estômago dos que por ali se juntavam. A bebida também estava garantida que não podiam ficar a seco.

Já era noite escura quando começavam a chegar. Havia de tudo: criadas de servir, gente do campo e matrajonas. Era o que dava para desenrascar com o que havia lá por casa. O importante era haver animação. 

Depois apareciam os caras tapadas. Uma visão assustadora para quem os encontrava no meio da rua. Cara escondidas atrás das meias enfiadas na cabeça e com três buracos cortados para deixar ver e respirar. Não se conseguia adivinhar quem se escondia do outro lado. Vestiam tudo o que apanhavam à mão: calças, saias, luvas, camisolas, casaco e oleados. Na mão traziam um cajado pesado que impunha um certo respeito. Um pau que marcava o passo com que avançavam. Ninguém sabia quem eram, mas sabiam que eram presença garantida sempre que este dia chegava.

Era noite de festa, rapazes e raparigas juntavam-se e festejavam à sua maneira aquele dia em que tudo era permitido e todos queriam ser outros que não os próprios. 

Todos os  anos era assim. Estava feito o Assalto de Carnaval.