quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na saúde e na doença

Não havia vestido comprido. Havia um fato em tons claros que depois do casamento serviria de fato de Domingo. Era verde água, saia abaixo do joelho e casaco com botões até ao pescoço. Discreto como se quer para quem sobe ao altar e decente como se exige a todas as mulheres. 

A festa já estava pronta. A tia tinha dispensado a adega para fazer receber os convidados, as mesas estavam postas, os coelhos arranjados e as galinhas já tinham sido depenadas e transformadas em canja. 

O pão estava no forno, os coscorões já estavam fritos e o arroz-doce estava a arrefecer nas grandes travessas. O aroma das carnes misturava-se com a canela e o limão, cheirava a festa. 

Os garrafões de vinho estavam cheios que não há paródia sem vinho para aquecer os corpos e para regar o coelho que ainda tem de ir a guisar para estar pronto na altura do almoço. 

É dia de festa. O casamento é sinal de liberdade, se é que assim se pode chamar. Ninguém sai de casa dos pais a não ser de aliança no dedo e com a bênção do santo padre. São as regras que se sabem de boca. Onde é que já se viu uma menina viver sozinha? Só se for porque o marido está a trabalhar fora ou porque foi chamado para a guerra. Se não tiver marido, trata dos pais que é essa a sua função. 

Mas hoje é dia de festa e mais logo temos bailarico que o homem vem aí tocar concertina para animar os convidados. 

Já se ouvem os sinos a avisar da cerimónia. A noiva sai de casa pelo braço do padrinho e vai a pé até à igreja. Os convidados vão atrás dela em romaria. Quando chega à igreja é o pai que a leva até ao altar. Começa a nova vida com as mesmas responsabilidades. 

Na saúde e na doença, todos os dias da vossa vida. Que assim seja como manda o santo padre e como Deus quer. Na saúde e na doença. Até que a morte os separe.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Contra os boches

A guerra não era sua, mas também não sabiam de quem era. Era de quem os tinha mandado para ali. Alguns mal sabiam pegar numa arma quanto mais dispará-la. Outros choravam para que os mandassem para casa. Havia quem tentasse desertar, quem ficasse inválido para ser dispensado, quem preferisse morrer a continuar naquele inferno, quem achasse que aquela provação só era justificada se voltassem aos seus. 

Não tinham nada. Nem comida nem munições e as fardas mal se aguentavam. As botas estavam desfeitas, as luvas já se tinham perdido e a farda já não os protegia do frio. Já não conseguiam ter ânimo. 

Estavam longe de casa e dos seus. Escreviam as cartas que podiam sem saber se chegavam ao destino, guardavam uma no bolso para o caso da morte se cruzar com eles. Era a despedida para os que em casa esperavam que voltasse. 

Às vezes não voltavam, a maior parte deles ficou lá, perdidos naquela terra que não era sua e onde não compreendiam a língua. Outros voltaram depois de serem dados como mortos e das famílias chorarem por eles. Voltaram doentes e feridos, com histórias de horror que evitavam contar. Não valia a pena, para reviver o sacrifício bastavam as feridas que não cicatrizavam. Tormentos dos dias metidos em água putrefacta e com os pés enterrados na lama. 

Esquecidos por todos, menos pelos seus. Enfiados numa guerra que não era sua. Crianças tornadas homens numa guerra feita em trincheiras. Os que ficaram lá deixaram filhos órfãos cá, mulheres desamparadas e famílias sem notícias. Os que voltaram trouxeram as explosões e o barulho da costureira cravados na memória. 

A guerra terminou, mas só para quem ficou no campo de batalha sepultado em campas sem direito a nome. Quem voltou, trouxe-a consigo.