quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lá pelo Instagram...à porta de casa

Ainda se encontram os sacos pendurados à porta enquanto esperam que alguém os vá buscar. De manhã, pela fresca, deixam-nos ali. Pendurados no portão e na porta. Alguns com um recado lá dentro, mas, além disso, estão vazios. Sacos de pano pendurados na porta, protegidos por um saco de plástico se o tempo ameaçar chuva. Sempre as mesmas casas. Ainda hoje. Todos os dias. 

 São rituais que ficam. O conforto da garantia de pão fresco mesmo quando não há ninguém em casa para responder ao apito. A confiança nos clientes de sempre. Os gostos e as manias que se conhecem de cor ao final de uns quantos anos. 

O aviso ouve-se quando ainda não se vê a carrinha branca. A buzina a encher a rua. O mesmo ritmo. Mais ou menos à mesma hora que esta profissão não exige pontualidade suíça. Pára no sítio de sempre. 

Tempos houve, daqueles que eu ainda me lembro, que as mulheres se juntavam à espera. Ficavam de pé, encostadas ao muro, de batas traçadas e sacos de pano na mão. Trocavam dois dedos de conversa, juntava-se mais uma e outra e esperavam que viesse o padeiro. No sítio de sempre. 



Hoje a rua está vazia e ele anda de casa em casa a recolher sacos. Mal cozido para uns, quase pretos para outros. Num dos sacos um pedido para mais uns daqueles queques do costume. “Vai ter a visita da neta”, pensa ele que já os conhece. 

As contas ficam à espera de acerto. Os clientes são de confiança e o pão não se nega a ninguém. Lá para ao fim-de-semana, quando tiver mais do que sacos na porta à sua espera, acertam os trocos. Trocam dois dedos de conversa que também fazem falta. Um “Como está a família?” ou algo do género. Por agora, lá vai ele. Rua acima com a buzina a anunciar a sua chegada. Bata branca, carrinha a cheirar a farinha e a forno de pão. 

Para trás fica a rua vazia e os portões adornados com sacos de plástico. Papossecos e bolas, queques e mais uns bolos.

Lá ficam, à espera, até que alguém volte a casa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Regatear na praça

Dentro da praça era uma mistura de cheiros e sons. O peixe fresco. O sangue da carne. O doce das frutas. Os gritos de quem tenta vender o que tem na banca. Demasiada gente na pressa das compras. O tilintar dos trocos que andam na bolsa, contados até ao último tostão. É preciso poupar e estar de olho nas balanças de quem vende.

E ela lá ia para o meio daquela confusão que já conhecia de cor. Palmo e meio de altura e pouco mais do que meia dúzia de anos de vida. Descalça, de cabelo arrumado num rolo debaixo do lenço e camisa abotoada até ao pescoço.

Na praça já a conheciam. O corpo miúdo escondia a sabedoria de quem tinha crescido antes do tempo. Regateava como ninguém. Era isso e apontar os defeitos do que via. Sem hesitação.

Entrava na praça de cesta vazia, um rol de pedidos e a ordem para despachar que havia muito para fazer em casa. E se era verdade que ela era precisa para tratar do trabalho, também era verdade que a senhora não confiava em mais ninguém para tratar do avio. Ninguém tinha o olho dela para a qualidade nem a língua para dar a volta ao preço. A senhora já tinha tentado arranjar outras, mas bastava uma viagem à praça para irem de volta para casa delas. Traziam o peixe com olhos de carneiro mal morto, era o que era. 


Era por isso que a senhora a mandava a ela. Conhecia o peixe só de lhe ver a cor e não admitia outro corte de carne que não fosse o mais tenro. E ai de quem a tentasse enganar que a gaiata era miúda, mas espevitada. 

- Ó menina, olhe que isto é do mais fresco que há.

- Então coma você e que lhe faça bom proveito.

Era a vida na praça. Um pregão atrás do outro e o olhar atento das criadas de cesta à cabeça. A confusão das pessoas que se perdiam por ali e o cansaço dos que ali andavam de pé ainda antes do sol nascer.

E ela, pequenina e miúda, enchia a cesta com o que lhe tinham encomendado. Moldava a rodilha com as mãos até a deixar como queria e metia-a por baixo da cesta que levava à cabeça.Um corpo de criança a acartar com o avio do dia e os tostões poupados a tilintar na bolsa que levava à cintura. Lá ia ela, rua acima. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os registos de outros tempos

Foi sempre assim. Eram elas que desapareciam sem que se percebesse que era isso que estava a acontecer. O sobrenome que se esconde depois do casamento. Antigamente, perdia-se sem deixar certezas sobre se alguma vez tinha chegado a existir. 

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte. 

O seu nome associado ao nome da mãe. Lá ia a Maria, filha da Adelaide, que com o tempo se tornava a Maria Adelaide. Primeiro e último nome escrito na letra trabalhada do padre que registava o seu casamento. 

Só mulher. Sem história nem legado que se colasse ao nome que vinha do pai. Sem sobrenome que identificasse a família da mãe. Uma mulher sozinha naquele mundo de primas e primos que só se identificavam de cara, nunca por registo. Mas elas não sabiam ler. Sabiam lá o que estava ali escrito. E mesmo se soubessem que estava escrito assim, sem sobrenomes de herança, não era nada que lhes preocupasse. Eram todas Marias da Adelaide que, por sua vez, já tinham sido Adelaides da Glória. Era o que era. A identidade perdida para o futuro. Por muito que tivessem sido reconhecidas por todos os que viviam na sua altura. No tempo em que tinham vivida. Nada para além disso. 

Vidas que quase se tornaram anónimas para a eternidade. Do convívio da vida podre do dia-a-dia ficou a lembrança na memória de quem já morreu. Para os que vieram mais tarde, não se deixou mais do que um registo sem sobrenome, perdido no meio dos assentos de batizados onde só aparece o primeiro nome do rebento e o nome completo dos que o trouxeram ao mundo. 

As mulheres, essas, tinham direito ao nome pelo qual a terra as conhecia. Nada mais ficava escrito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dar água à cura

O nascer do sol dava a ordem para começar o trabalho. O capataz confirmava que assim era. Depois disso era trabalhar até dar. Até o sol desaparecer no horizonte. A benção dos dias curtos no Inverno era compensada com os dias de Verão que pareciam não terminar. Era preciso trabalhar quando era tempo disso. Enquanto o capataz dizia que assim era. 

Todos os dias eram de trabalho. Com chuva ou sol. 

Era assim que tinha de ser. Plantar e cuidar para mais tarde colher. Para ter comida na mesa que alimentasse as bocas que insistiam em aumentar. Era preciso olhar pelas vinhas ou aparecia o míldio que se pegava às folhas. Ou o mal branco que condenava a colheita. E lá ia o sustento. 

A água sufaltada já tinha sido preparada. Os homens e mulheres faziam o trabalho. Mangas arregaçadas, lenços à cabeça e a pele a queimar com o sol e o sulfato. Uma para cada homem. O auxílio. 

Lá iam eles de pulverizador às costas. Uma saca a proteger os ombros e o pescoço. Nada mais. 

Lá estavam elas de caneco pronto. 

Os homens faziam o caminho no meio daquela vinha a granel. Cepas dispersas e terreno incerto. Corpo dorido do peso que acartavam. 


-Água! Água! 


Gritavam a ordem. As mulheres, que esperavam lá atrás, respondiam. Caneco cheio de água sufaltada e lá iam elas. O mais depressa possível. Deitavam a água sem cerimónia no pulverizador e a saca ficava ensopada com o sulfato que se escapava. 

 Lá iam eles outra vez. 

Assim se protegia o que lhes ia dar pão para a mesa. Homens a percorrer o terreno. Mulheres a dar água. 

O tempo da apanha ia chegar. Dos cachos gulosos escondidos no meio das folhas. Os dias quentes de Setembro com as mulheres a percorrem a mesma vinha. Curvadas. O tempo das mãos aleijadas e dos pés doridos. Do calor que queimava. Dos cestos ao ombro. 

O corpo aguenta muito, mas dá sinal de si. Fica moído, calejado. 

Mas primeiro era preciso aguentar o sulfato. Era preciso curar os campos. Tratar primeiro para colher depois. E lá iam elas de caneco. 

Primeiro, era tempo de dar água à cura.



Texto publicado originalmente na Revista DADA de Outubro de 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Azeitonas para a feira

Eram miúdos. Andavam todos pelas mesmas idades e nas suas cabeças só tinham a ideia de que a feira estava a chegar. Era o poço da morte e a banca dos tirinhos, mais o circo Mariani e um sem fim de coisas que os esperava sempre que Outubro começava a chegar ao fim e as mães preparavam-se para honrar os mortos.

Eles queriam feira, mas para isso era preciso dinheiro. A festa é bonita, mas os divertimentos têm bilhete e eles têm os bolsos vazios. E em tempos de vacas magras não podem esperar que alguém lhes dê uma moedinha para os carrosséis. As moedinhas são contadas até aos tostões.

Para pôr moedas nos bolsos, lá iam eles rua a cima de saca carregada de azeitonas. Acabadinhas de apanhar de árvores que não eram suas. Verdade seja dita, nem as ditas cujas eram deles nem os donos lhes tinham encomendado tal trabalho. Coisas de cachopos, é o que é.

Mas lá iam eles, esquecendo o pormenor que o conteúdo da saca não era seu, a caminho do lagar onde quem os recebia não perguntava quês ou porquês. Saca entregue e dinheiro recebido. Negócio feito e moedas no bolso. Era isso que interessava.

- 5 escudos para este dia...

Lá ficavam eles a contar os escudos e os tostões e a dividi-lo pelos dias da feira que é preciso fazer render o peixe. Se não for assim ainda gastam tudo de uma vez e depois como ficam? Não se foge ao resto da feira. 

Já se sente o sabor do pão com chouriço e o nervoso de ver as motas a rodar no poço. Venha de lá a feira que eles estão prontos. A contar os dias para a Feira dos Santos. 

Miúdos. Fazem-se ao caminho a pé que a distância não é assim tanta e não têm outra maneira de lá chegar. Lá vão eles, bem disposto e vestidos com a melhor roupa que têm, mesmo que alguma já tenha uns quantos remendos disfarçados. O caminho parece-lhes longo de mais porque o tempo que demoram a chegar é menos tempo que estão lá.

Já se avista ao longe. As lonas penduradas e o barulho. O cheiro a pão com chouriço a chamar para os comes e bebes que eles não trazem a cesta com a comida como os mais velhos. Os miúdos querem outras coisas e para este ano têm garantidos os trocos para feira. É tempo de festa.