quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Nem por um tostão

Qualquer canto e pedaço de chão lhes serviam como terreno de brincadeira. 

Meninas para um lado e meninos para o outro que elas não jogam à bola e eles não querem saltar à corda. De qualquer maneira, fica sempre melhor se cada qual estiver no lado que lhe compete. 

- Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço. 

Os rapazes dão chutos numa bola de trapos, tão fraca que a cada pontapé parece desfazer-se. 

- É golo! Não estejas a roubar. 

Roubando ou não, a contagem dos pontos vai-se perdendo como os trapos vão caindo e deixando a bola mais magra. Eles estão suados, cabelo em desalinho, camisa por fora das calças e pés descalços e sujos de pó. Mesmo assim não perdem o fôlego e há sempre tempo para mais um remate. 

- Que linda falua que lá vem, lá vem. 

Elas, as meninas que se querem bem comportadas, juntam-se em roda, nas brincadeiras com lengalengas que lhes animam os dias. Não têm bonecas nem brinquedos, só a imaginação e um bocado de corda para saltar. Uma em cada ponta a rodar e outra a saltar até não conseguir mais. 

- Olha que não há travões. 

E aí vão eles rua abaixo sem ligar aos buracos. Os carrinhos de rolamentos, feitos em casa com a ajuda de um e de outro, são postos à prova naquele terreno acidentado. Ouvem-se os gritos de euforia e os de vitória, de vez em quando também se ouve um grito de alguém que ficou com os joelhos esfolados ou aterrou de cabeça. 

São tão novos e têm tão pouco. São tão felizes com esse pouco que têm. Conseguem rir como de o mundo fosse deles. Como se todas as possibilidades estivessem ali naquele pião que conseguiram pôr a rodar na palma da mão. 

- Eu peço ao senhor barqueiro que me deixe passar. Tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. 

O sol começa a pôr-se. Amanhã há mais.

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