quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Azeitonas para a feira

Eram miúdos. Andavam todos pelas mesmas idades e nas suas cabeças só tinham a ideia de que a feira estava a chegar. Era o poço da morte e a banca dos tirinhos, mais o circo Mariani e um sem fim de coisas que os esperava sempre que Outubro começava a chegar ao fim e as mães preparavam-se para honrar os mortos.

Eles queriam feira, mas para isso era preciso dinheiro. A festa é bonita, mas os divertimentos têm bilhete e eles têm os bolsos vazios. E em tempos de vacas magras não podem esperar que alguém lhes dê uma moedinha para os carrosséis. As moedinhas são contadas até aos tostões.

Para pôr moedas nos bolsos, lá iam eles rua a cima de saca carregada de azeitonas. Acabadinhas de apanhar de árvores que não eram suas. Verdade seja dita, nem as ditas cujas eram deles nem os donos lhes tinham encomendado tal trabalho. Coisas de cachopos, é o que é.

Mas lá iam eles, esquecendo o pormenor que o conteúdo da saca não era seu, a caminho do lagar onde quem os recebia não perguntava quês ou porquês. Saca entregue e dinheiro recebido. Negócio feito e moedas no bolso. Era isso que interessava.

- 5 escudos para este dia...

Lá ficavam eles a contar os escudos e os tostões e a dividi-lo pelos dias da feira que é preciso fazer render o peixe. Se não for assim ainda gastam tudo de uma vez e depois como ficam? Não se foge ao resto da feira. 

Já se sente o sabor do pão com chouriço e o nervoso de ver as motas a rodar no poço. Venha de lá a feira que eles estão prontos. A contar os dias para a Feira dos Santos. 

Miúdos. Fazem-se ao caminho a pé que a distância não é assim tanta e não têm outra maneira de lá chegar. Lá vão eles, bem disposto e vestidos com a melhor roupa que têm, mesmo que alguma já tenha uns quantos remendos disfarçados. O caminho parece-lhes longo de mais porque o tempo que demoram a chegar é menos tempo que estão lá.

Já se avista ao longe. As lonas penduradas e o barulho. O cheiro a pão com chouriço a chamar para os comes e bebes que eles não trazem a cesta com a comida como os mais velhos. Os miúdos querem outras coisas e para este ano têm garantidos os trocos para feira. É tempo de festa.

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