quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lugar à mesa escaldada

Fazia -se a vida a sopas e sem direito a descanso. Sopas de sustento, é claro. Com tudo o que o corpo se habituou a ter para aguentar o trabalho que o espera. Mas a verdade é que o corpo está habituado a pouco alimento e muito trabalho.

Na despensa, que não era mais do que um pano em cima do balcão da cozinha, aguardava o bacalhau. Um posta alta conservada em sal. Duro e seco. Era o conduto para o almoço. aquele que se levava para o campo protegido por panos e rodilhas para manter a ilusão que tinha sido acabado de fazer.

Um panela tosca e batida de tanto uso ia ao lume cheia com água do caneco. A posta de bacalhau era lá mergulhada e deixavam-na estar. O lume alto a envolver o metal da panela. O deixar passar o tempo. Era aguardar até a água começar a borbulhar e o cheiro a bacalhau cozido encher a pequena cozinha.

Nessa altura tiravam a posta para um prato e deixavam-na de lado. À espera. Baixavam o lume da panela e continuavam. Os alhos eram deitados ao caldo. Cortados sem precisão num trabalho de quem já nem sente o cheiro entranhado na pele. Deita-se um fio de azeite que mancha a água com apontamentos esverdeados.

O pão, guardado num pano que já fora uma camisa de Inverno, estava seco. Tão duro que não havia dente que entrasse com ele. As mãos calejadas desfaziam-no em pedaços consideráveis e deitavam-no às água que tinha voltado a borbulhar.

Só mais um passo antes de desligar o fogo e dar o comer por terminado. Os coentros eram migados à mão, sem cerimónia, e juntavam-se à sopa. O aroma a ervas frescas e alho quente inundavam a casa. Um manjar das pequenas coisas. Feito de nada e a saber a tudo.

A posta de bacalhau, já fria, voltava ao caldo. Nada mais que aquilo. Sopa escaldada que aquecia o corpo e confortava o estômago habituado ao vazio.

Tudo pronto no termo de metal, fechado com rigor e envolvido nos panos grossos. 

Lá vai a moça. Almoço dentro da cesta e cesta à cabeça num equilíbrio que nasceu com ela.

O dia mal começou a clarear, mas o almoço já a espera.

Sem comentários:

Enviar um comentário