quarta-feira, 30 de maio de 2018

Mais um dia

Deixou-se ficar como quem olhava para nada. À sua frente, todas as hipóteses que nunca foram suas. Para trás, a cruz que lhe fraquejava as pernas. 

As rugas escondiam-lhe os quarenta anos. As costas dobradas redobravam-lhe o cansaço. Os pés insensíveis às pedras do chão denunciavam as provações. Fazia anos que não sorria. Era certo que das mulheres não se queria tal coisa, mas ela nem se lembrava de ter vontade de o fazer. 

Dois filhos tinham-se ido antes que ela os tivesse nos braços. Outro, partira para a guerra sem que ela o pudesse impedir. Do marido ainda lhe pesava a mão no corpo e o zumbido no ouvido. Era a vida que dava e tirava como bem entendia, sempre lhe tinham dito que era assim, mas a clareza para o entender só veio com a idade. 

Metida nos seus pensamentos e a falar com uma casa vazia, apertou o lenço preto à volta da cabeça e arrumou os cabelos debaixo do tecido. Agachou-se para pegar no alguidar da roupa e, num esgar do esforço de todas as horas, meteu-o à cabeça e fez-se ao caminho. Pernas desfeitas pelo trabalho, corpo tapado pela roupa pesada e olhos no chão. Passo apressado e certo sem se perder em conversas de nada que uma senhora não tem ouvidos. E ela, mesmo sendo remediada, não deixava de ser senhora. 

Ouviu o barulho das mãos a bater na água e do sacudir da roupa ainda antes de as avistar. As vozes das outras misturavam-se com o cheiro a sabão e água fria. Juntou-se sem grandes alaridos que quem se vê todos os dias não precisa de cumprimentos. Roupa atirada ao tanque e corpo dobrado para a desencardir. O olhar perdido no trabalho, a voz a fugir-lhe para umas quantas conversas e um pé a descansar sobre o outro. 

Uma delas, mais nova e arisca que ainda se achava dona do seu nariz, trauteava uma modinha com um tom demasiado alegre, mas que ninguém calava. Pelo menos tinham algo que lhes embalava os gestos. As outras, velhas de vida mais do que de anos, arriscavam uma conversa sobre a guerra que lhes agarrava os homens que faltavam em casa e acompanhavam com lágrimas deitadas por quem tardava em dar notícias. Todas serviam de ombro na antecipação de uma dor que esperavam não lhes bater à porta. 

Vidas diferentes e a mesma história, conhecida, mas nunca falada. Os mesmos dias, vividos como sempre tinha sido feito por ali. O mesmo olhar perdido no nada que se apresentava à sua frente.

4 comentários:

  1. Gosto do olhar e li um belo texto que gostei Vânia!!! bj

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  2. Uma realidade para muitas pessoas, uma vida dura...
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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