terça-feira, 15 de março de 2016

O esquecimento

Há uma calma na vida fora da cidade. O silêncio é mais real. As fronteiras mais ténues. Não é por mal, é por hábito. Vem do tempo em que a chave ficava do lado de fora da porta. Quando, por muito pouco que houvesse na mesa, chegava sempre para mais um. 

Ouvem-se conversas, fala-se da vizinha. Esconde-se a vida num sítio onde todos sabem de todos, mas ninguém sabe de ninguém. É por isso que alguns fogem. Dizem que não interessa, que é pequeno demais para eles. Que falta horizonte.

Com o tempo as ruas ficam vazias, as portas fecham-se com duas voltas da chave e o silêncio lá dentro, as paredes começam a ruir. Fica a solidão. Os filhos partiram para a cidade, os netos não sabem o nome daquela terra. 

Voltam no Verão ou no Natal. Com sorte, conseguem aparecer num domingo perdido durante o ano para almoçar e voltar a fugir para longe daquele fim do mundo como lhe chamam. É só o tempo de almoçar contado ao segundo.

Ficam os mais velhos que se recusam a deixar para trás o pouco que ainda é seu.  Nada os demove da sua decisão. Aquele é o seu canto.

É escolher a nacional em detrimento da auto-estrada. Cortar pelas estradas mais estreitas e esburacadas. Descobrir o mundo que se esqueceu. As casas que caem. Os mais velhos a cumprirem as suas rotinas e a caminhar à beira da estrada sem tremer com a passagem dos carros que nem os vêem. 

Há um desapego para com o interior. Um desapego de quem vai e demora a voltar. Que com o tempo se esquece dos caminhos que chegaram a ser seus. 

Lá dentro, naquelas ruas esburacadas, há uma entrega à vida que não se consegue explicar. Uma força que acompanha até aqueles que parecem mais fracos. Uma vida cheia que a maior parte acha impossível de existir.

É na mesa do café mais antigo, aquele que nunca teria direito a aparecer em roteiros turísticos, que se contam as melhores histórias. Ali, entre cadeiras que se desfazem e balcões antigos, o passado torna-se presente. As histórias correm umas a seguir às outras sobre um tempo que não é nosso. 

O interior, aquele pedaço de terra com casas a cair, pode surpreender. Se nos apaixonarmos por ele descobrimos que a vida de quem tem rotinas de trabalho desde da infância é tão importante e tão cheia como a de quem acha que o sentido da vida está na indiferença dos prédios iguais. 

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