quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sinal de Chuva

Vem de longe a melodia que se reconhece sem grande esforço. Não se percebe se vai passar por ali ou se avisa só que anda por perto. 

- Logo hoje que limpei a casa – ouve-se alguém dizer. 

São as superstições e crenças que passam de geração em geração sem fundamento científico, mas com convicção. A melodia metálica, tocada numa gaita-de-beiços já marcada pelo tempo, anuncia a chegada de chuva. Mesmo que o termómetro marque quarenta graus à sombra. 

Lá aparece ele ao fundo da rua. Parece não ter idade certa: a agilidade de um jovem, misturada com a pele marcada pela vida. Traz a bicicleta numa mão. Pneus finos, posto de trabalho montado. A outra mão segura na gaita-de-beiços onde vai tocando a melodia que avisa que o tempo vai mudar. É o que dizem.

Não fala nem se faz anunciar por outro meio. Os passos são calmos, mas seguros. Calça de trabalho e camisa de manga comprida arregaçada até ao cotovelo. Boné na cabeça. Pele suada. 

Elas, conformadas com a chuva que se aproxima mesmo que assim não pareça, saem de casa com as facas, tesouras e o que mais aparecer e esperam que ele as arranje. 

 A lâmina a raspar no amolador que roda sem parar. A perfeição com que ele cumpre o seu trabalho, a delicadeza num ofício tão rude. 

Devolve as facas prontas a usar, tão afiadas que se conta que podem cortar metal com elas. É só querer. 

Recolhe o dinheiro e despede-se com um puxar leve do boné. Segue o seu caminho de bicicleta na mão e a entoar a melodia tremida que avisa a sua chegada. 

O tempo vai mudar.

2 comentários:

  1. Mais um "Lá pela terra" que gostei de ler. Pareceu-me 'ouvir' o amolador, e 'vê-lo' Mas não me apetece que venha já a chuva. Será que para afugentar a superstição posso copiar umas linhas que escrevi para um possível "Da minha janela e outras crónicas" ?
    Cá vai com a sua licença:
    "O amolador
    Continua a ser uma das figuras típicas de Portugal. Trata-se de um ofício, tanto quanto sei, vindo do século XIX.
    Anda de rua em rua a oferecer-se para amolar facas e tesouras e a sua presença é anunciada com um repenicado som de gaita-de-beiços.
    “Amolo facas e tesoooouras. Óoolha o amolador”
    Andava a pé com um carro de mão que era a roda de amolador, a sua ‘oficina’. Só mais tarde é que a bicicleta em que se transporta foi adaptada a oficina. Também arranja sombrinhas, guarda chuvas e até alicates, corta unhas, com uma invulgar habilidade.
    Diz-se que quando se ouve o amolador vem chuva, mesmo que seja Verão!"

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