quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Da desgraça que a acompanha

Toda gente sabia que eles se falavam. Viam-nos juntos, sentados nos bancos ao pé da igreja, mais juntos do que era suposto. Em sussurros comentavam que ela não se dava ao respeito, em voz alta diziam que a mocidade não se sabia comportar. As mulheres pelo menos.

Mas a verdade é que toda gente sabia que eles tinham um namoro não declarado. Estava à vista de quem passava por ali. Ele desinquietava a moça e ela ia na conversa dele. 

Não se sabe o que lhe prometeu ou se chegou a prometer. Não se sabe de que falavam nem que planos tinham, mas muito se falava sobre o que ali se passava. 

Quando ela lhe bateu à porta, ele abriu por simpatia e fechou-a minutos mais tarde com a ordem para que não o voltasse a procurar. Não tinham contrato nenhum um com o outro, ele não lhe devia nada. 

Ela ficou na rua. Sozinha e desamparada, sem porto seguro nem braços que a abrigassem da tempestade. Tinha traçado a sua sina e escolhido a sua cruz. Confiara nas palavras doces que não significavam nada. 

Toda gente sabia que eles se falavam. Toda gente comentava, mas ninguém ficou por ela. Quando a barriga começou a crescer, viraram-lhe as costas. A mocidade não se dá ao respeito e as mulheres são umas doidas, era o que comentavam. 

Quem não se sabe dar ao respeito não merece ser respeitada. Era nisso que acreditavam. Os filhos só chegam depois do casamento, nunca antes. 

Ela ficou sozinha, com uma criança nos braços que era órfã do pai que passava por ela todos os dias.

A mãe, miúda abandonada pelo primeiro amor, fez-se pai também. Abandonada e olhada de lado, tratada como infeliz pelos que viviam na porta ao lado da sua. 

 Toda gente sabia que eles se falavam, mas ninguém ficara por ela. O homem é que tem sempre razão, a mulher é só desgraçada. Pior, a mulher deixou-se desgraçar.

1 comentário:

  1. Infelizmente isto sucede-se ainda, nas sociedades modernas.
    O homem é um bicho que nao evolui.

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