quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pecado

Falava-se, à boca pequena, do que tinha acontecido a uns e a outros. Histórias murmuradas, passadas e acrescentadas de boca em boca. Sempre a defender a verdade que não sabiam se aquilo que diziam tinha. Sempre a surgir quando havia rumor que mais um tinha ido assim. 

A família, que andava em línguas alheias contra a sua vontade, recolhia-se num luto carregado, encarava o chão à frente dos pés e fechava o semblante sem coragem de mostrar os olhos aos outros. Eram as perguntas que não chegavam a fazer, a pena que escondia um certo gozo de saber que na sua família não havia pecado assim. Pelo menos que tivesse sido descoberto. 

Não confirmavam nada e sabiam ainda menos, mas as conversas são como as cerejas e ao povo, entre o trabalho no campo e o copo na tasca, falta-lhe o que fazer. Da pasmaceira vêm as ideias que soltam a língua naquilo que defendem saber. 

- Esse pendurou-se - diziam quando passava o cortejo e sem ter posto os olhos em nada que o confirme. 

E havia sempre alguém que ia buscar um pai ou o avô que fizera o mesmo. Uma prima que era fraca de cabeça e se tinha ido antes de Deus a chamar. Como se a tristeza estivesse no sangue. Como se o pecado que tanto apregoavam saltasse de uma geração para a outra. Como se o julgamento sem direito a juíz fosse merecido. Um sem fim de julgamentos que isso é que eles gostam. Disso e de chamar os outros de pecadores, que já se sabe que só Deus é que põe e dispõe nestas coisas da vida. Quem não cumpre o que está escrito não merece o descanso. 

E as famílias calavam a tristeza. Não diziam nada para que o santo padre concedesse a última benção com a esperança que isso lhes desse descanso. A vergonha de algo que nem sabiam o que era. 

- Então o que é que aconteceu? - perguntavam os que queriam mais motivo de conversa 

- Morreu - respondiam a seco. 

A tristeza ficava com eles. Dentro de casa. Na cama vazia, no lugar a mais na mesa, na falta de entendimento no porquê de se ir assim. As perguntas eram engolidas para que ninguém soubesse das suas desgraças. Para que ninguém os julgasse menos do que os outros. 

A vergonha a enterrar a tristeza que levou os seus pela própria mão. O pecado a entrar em casa.

7 comentários:

  1. Um texto bonito, intenso, mas triste..
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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    1. Infelizmente era a realidade de muita gente.

      Beijinhos

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  2. Ficou um texto brutal...

    R.Muito obrigada linda! A viagem até correu bem... apanhamos foi um choque climatérico que até andamos de lado lol mas vamos aproveitar ao máximo! :D


    Beijinhos,
    O meu reino da noite ~ facebook ~ bloglovin

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