segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O homem do saco

Só reparei nele quando me baixei para apanhar o conteúdo da minha mala, que estava espalhado pelo chão da plataforma. As minhas coisas têm vontade própria e uma relação clandestina com as calçadas e estradas por onde vou passando.

Foi o saco verde fluorescente que chamou a minha atenção. Um daqueles sacos de compras com rodinhas e espaço ara levar meio supermercado lá dentro.

Ele, de cabeça baixa e metido na sua vida, estava sentado num dos bancos de metal da estação. Tinha umas calças vermelhas e um casaco abotoado até cima. O dia estava a amanhecer radioso, mas prometia frio. A barba, mais branca do que preta, escondia a cara magra. Os olhos, grandes e fundos, estavam fixos nas mãos calejadas que não paravam quietas.


O tilintar metálico ouvia-se ao longo da plataforma que estava completamente em silêncio, mas cheia de gente à espera. A uma hora daquelas não se fala porque o dia está a começar. Na viagem de volta a silêncio é justificado porque na manhã seguinte também é dia. Ele lá continuava e ninguém olhava para ele, fixo nas mãos e nas agulhas que tilintavam.

Parou para se debruçar sobre o saco. A idade não lhe tirava a agilidade ao corpo magro. Procurou durante tanto tempo que lhe perdi a conta. Quando encontrou o que precisava, voltou à sua vida. O tilintar soou pela estação e as pessoas à sua volta continuaram a tentar ganhar forças par ao dia que estava a chegar. Ele, de vez em quando, lá olhava de soslaio para eles. Eles, como sempre, apertavam mais o casaco e continuavam alheios a tudo à sua volta.

Uma voz rouca e distorcida avisou que o comboio daquela hora estava quase a chegar. Ele não esperou pelo segundo aviso. Arrumou as agulhas e tudo o que tinha no colo e fechou o saco. Puxou-o com uma mão e meteu a outra dentro do bolso do casaco. Bateu com os pés no chão, não sei se para afastar a dormência causada pelo tempo que passou sentado ou se queria meter medo ao frio.

Estava a nascer um daqueles dias de sol de Inverno que não aquece de maneira nenhuma. Pelo menos, o cachecol que ele tanto tricotava estava quase pronto.

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