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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O nascer do novo ano

A banda dava sinal de alvorada assim que o dia amanhecia. Ano novo recebido com o bombo a marcar tempo e os músicos, mal protegidos do frio, a marchar rua abaixo e rua acima. Não era tempo de grandes alegrias e muito menos de festejos. Era só mais um mês que começava com o nascer de um novo dia. Mas este tinha direito a música e quando a banda toca há outro alento para o corpo. 

As pessoas apareciam às portas. Roupa de trazer todos os dias que a boa está guardada para os dias do senhor. Palmas a acompanhar as marchas e umas cantigas improvisadas. Os vizinhos que se encontravam à porta e falavam do mesmo de sempre.

- Então e o seu home

- Tá lá praquele lado - diziam elas indicando a direcção com um gesto largo e com o ar de que a pergunta nem se punha.

Juntavam-se una quantos ali no sítio do costume. Só os homens e os miúdos. Todos à roda do tronco que ainda ardia a bom ver. Fazia mais de uma semana que aquele fogo aquecia os corpos e puxava à conversa e à pinga. Alimentado a lenha que se apanhava por aqui e por ali e que aquecia as noites que gelavam os campos. Deixavam o chouriço a assar, o pão cortado com o velho canivete para acompanhar, o toucinho a pingar a gordura para o lume. Os bonés já a inclinar. O corpo a aquecer que o ano amanhece frio e o vinho só dá calor até certo ponto. Falam da vida de língua afiada, mas se lhes perguntarem dizem que só as mulheres é que falam assim. Pudera, os homens são sempre homens.

As mulheres estão recolhidas em casa com os miúdos de mama agarrados às saias e as miúdas agarradas ao trabalho que é de novas que aprendem. Há lá tempo para brincadeiras. Nem se sabe bem o que isso. Nem bonecas se encontram, quanto mais. É saber onde está o sabão e andar de olho vivo nos irmãos. 

O novo dia é só mais um dia. Em casa que o tempo não deixa ir para o campo. Que se ouça uma modinha que pelo menos isso anima e o corpo balança a tentar acompanhar o ritmo. Discreto que não se quer falatório.

Lá veio mais um ano. Se não for melhor, que pelo menos seja igual ao que passou que a esse, e às suas manhas, já há quem conheça. 

Venha o novo ano. Dias iguais a todos os outros, trabalho a moer o corpo e as preocupações a moer a cabeça. Que se bata umas palmas quando passa a banda, sempre alivia as cruzes que se carregam.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O almoço da muca

A banda saía à rua de manhã cedo. Já o tempo estava frio e o casaco lá ajudava a compôr a farda. Iam dar os bons dias à população que abria a porta de casa só para os ver passar. Todos os anos a mesma coisa. Tão certo como o Natal ou a festa à Nossa Senhora. Vinha o Outono, as folhas deixavam as árvores e a banda desfilava no último fim-de-semana de Outubro.

-Lá iam eles em cumprimentos à aldeia. Tocavam o hino com o orgulho que só se tem naquilo que se vê crescer do nada. Naquilo em que se trabalha sempre que se pode para que se mantenha. Sem olhar ao tempo que se rouba à família. Sem pedir nada em troca. O bem de todos acima do pessoal. É para os outros, para os que ali estão e para os que ainda virão. Para que aquela casa abra as suas portas a muitos que ainda nem por aqui andam.

E a sala tornava-se pequena de mais para dar lugar a todos os que apareciam para o almoço. Mesas arrumadas ao lado umas das outras, cadeiras apertadas e que causavam um desconforto de que ninguém se queixava. Uma aldeia inteira e mais uns amigos a celebrar.

Da cozinha vinha o cheiro do almoço feito por quem nada recebia em ali estar. As mulheres dos directores, as mães, as tias e aqueles que só vinham ajudar. Panelões onde se cozinhava desde manhã cedo. As batas sujas e os pés doridos. O estômago em vazio que quem trabalha para alimentar os outros só come quando já pouco sobra. Os directores a servir à mesa. As tigelas da sopa, as travessas cheias de comida. O barulho dos talheres e as conversas gritadas a encher o espaço. A mesa dos músicos.

A festa que se prolongava pela tarde. A música que subia a palco. as marchas e os paso doble a animar o dia que já cheirava a frio. Os melhores do mundo aos ouvidos de quem os acompanhava. O beberete a receber a noite. A generosidade da população a encher uma mesa que dava de comer a quem se quisesse juntar. O frango assado que há coisas sem as quais os músicos não passam.

Chegava o final da festa e a sala que parecia tão apertada transformava-se num salão. Ficava quem ainda tinha de arrumar o que sobrava da festa. Limpar as mesas, arear os tachos, arrumar a loiça. Trinta por uma linha que, já diziam os antigos, quem quer festa sua-lhe a testa. 

E chegavam tarde a casa, mais uma vez. Prontos a cair na cama e com o cansaço a moer-lhes o corpo. O trabalho sem vencimento que lhes roubava horas à família e lhes acrescentava preocupações. O orgulho de ver a banda marchar rua acima. Mais um ano.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Levas uma maquia

Juntavam-se num qualquer degrau ou esquina, enroladas numas mantas quentes ou nuns lenços escuros e tinham conversa para dias inteiros. Não fosse a sopa ao lume, o feijão de molho ou o homem que estava quase a chegar e lá ficavam elas a saltitar de conversa em conversa sem nunca abandonar os seus lugares.

Viam o sol subir e a aldeia a ganhar fôlego. O grupo de miúdas que passava com risos meio escondidos e uma voz um bocadinho mais alta do que era suposto.

 - Não há nada que alumie estas almas – diziam elas, as que ficavam à esquina. Mais velhas e criadas sobre outras regras e bons costumes que não incluíam licença para falar mais do que o estritamente necessário.

 Não entravam na taberna que isso era território dos homens e mulher decente não entrava lá. O ambiente pouco próprio, o cheiro a vinho, a desgraça alheia e a própria.

 - Oh Manel, vai lá ver se o teu pai anda pela taberna – e lá ia o miúdo, lingrinhas e esperto, a correr rua abaixo em direcção à casa escura e a cheirar a destilaria, à procura do homem da casa que já devia ter despegado do campo, mas que não dera sinal de vida.

Elas ficavam, sentadas no degrau da casa a fingir que arranjavam favas ou ervilhas, e falavam do que sabiam e do que não sabiam. Da vida da vizinha e da filha do outro que veio da cidade e não sabia estar com as regras mandavam. As regras que só elas e as pessoas que viviam naquele pedaço de terra conheciam. As meninas não andam sozinhas, não falam com os homens, não andam em gargalhadas. As meninas a sério, das que se querem para casar, sabem ser o mais invisíveis possível e viver caladas na desgraça que pode ser a vida.

 - Vou mas é terminar o jantar – e lá voltava ela para o lume e a sopa, para o feijão a demolhar e a roupa que era preciso arranjar.

A conversa podia esperar, o marido é que não podia chegar a casa sem que ela já estivesse por lá. De repente, lá entrava o miúdo pela casa dentro, sem pedir licença ou fazer-se avisar.

- O pai não está na taberna.

E crescia a preocupação nela, num sofrimento que era ponto assente na sua vida. O sol que já mal se via, a sopa que já estava pronta e o homem que não tinha meio de entrar em casa.

O barulho do copo a partir-se no chão devolve-a à realidade em que o filho, a sofrer de bichos-carpinteiros, foi parar ao chão com um copo partido ao lado e um joelho feito num belo oito.

 - Tu mete-te com juízo ou levas uma maquia tão grande que voltas a baldear.

O miúdo calou-se, não fosse a coisa sobrar para seu lado e baldear a sério com uma maquia daquelas que ele bem conhecia. Só se ouvia a sopa a borbulhar no lume enquanto se esperava que a porta desse entrada ao homem da casa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Já se ouvem

Ainda estão longe. Não se conseguem ver, mas já se ouvem. Mais cinco minutos, se tanto, e já cá estão.

A rua começa a ganhar vida. As portas abrem-se e as pessoas juntam-se cá fora. Ficam encostadas às paredes ou sentadas nos degraus de casa. Trocam-se dois dedos de conversa com o vizinho do lado. Um "Olá, como está?" para o outro que vai a descer a rua.

Já se conseguem ver. Lá em cima. O som grave e autoritário marca o ritmo da descida.

Não há quem fique em casa e agora não há quem trabalhe. É hora tão sagrada como a missa. As paredes estremecem quando eles se aproximam e as pessoas esperam. Nem que seja só para os ver passar. Ficam tão bonitos quanto estão a desfilar.


Filas alinhadas ao milímetro e o passo certo. Lá pelo meio alguém se perde e tenta, com esforço, voltar a acertar. Esquerdo, direito. Esquerdo, direito. Os instrumentos brilham com o sol. As fardas estão impecavelmente arranjadas e os sapatos foram engraxados até à exaustão. Há lá maior orgulho que este.

Aí vão eles rua abaixo.

Ouvem-se as palmas a acompanhar o ritmo do bombo. As portas fecham-se e deixa-se a chave na fechadura. Aqui ninguém rouba ninguém e, bem vistas as coisas, também não há nada para roubar.

As pessoas, que tanto esperaram para os ver passar, acompanham-os. Lá vão eles de braço dado atrás da banda. Uma gargalhada perdida por aqui e por ali e um chamar lá ao fundo.

- Oh, Maria! Anda aqui com a gente!

Descem a rua. Sem que a música pare ou alguém se canse. Junta-se mais um e outro ainda. Há sempre espaço para mais alguém. 

Lá pelo meio, alguém ganha coragem e grita em tom de provocação:

- Toca a muca ou não toca a muca?

E ri-se toda uma terra enquanto responde em coro.

- Toca a muca! Sim, senhor!