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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Cantemos todos com alegria

Minha terra é Vale da Pinta
Minha rica freguesia 
Aonde eu fui baptizada 
Naquela sagrada pia 

Conheciam aquela terra onde tinham nascido e pouco mais, mas todos os anos faziam-se ao caminho deixando-a para trás. Era o trabalho que os esperava longe dos parcos pertences a que chamavam seus. E lá iam. 

Desde do dia em que eu vejo 
As campinas do Ribatejo 
Cantemos todos com alegria 
Q’esta paródia só dura um dia 

As lezírias estavam douradas pelo dia que amanhecia quente. Homens e mulheres, alguns com crianças de colo, seguiam pelo caminho de pó e pedras. De pés descalços, cesta à cabeça, mãos na cintura e enxada ao ombro. Conversas que davam em cantorias e transformavam em alegria a desgraça de todos os dias.

Rapazes de Vale da Pinta 
Quando para fora vão 
Toda gente lhes pergunta 
Rapazes de onde são 

Por onde passavam, os homens, com corpo de trabalho e hábitos rudes, apelavam à curiosidade até da moça mais tímida. Era a pose e a roupa que por muito colarinho voltado e tecido passajado, não declarava a pobreza a que os seus bolsos estavam condenados. E elas, fossem puras ou casadas, seguiam-nos com o olhar. 

Olha a nossa mocidade 
Qu’ o tempo nos vai levando 
Recordemos com saudade 
P’ra todos assim cantando 

E aquelas modas, aprendidas no tempo das mãos calejadas, das costas doridas e da pele escurecida pelo sol, ficam-lhes na memória até quando o vigor da juventude desaparecia. A memória do tempo em que o trabalho os levava para longe e que entretinham os serões na lezíria com uns passos de dança para acompanhar as cantigas que inventavam, o longo caminho para o trabalho que se fazia curto quando aclaravam as gargantas. As recordações de uma mocidade que não os deixou ser moços. Do tempo em que as mulheres, de cabelos recolhidos debaixo dos lenços, rodopiavam no braço dos homens. Todos com roupa de trabalho que não havia outra.

Cantemos com alegria 
Q’ esta paródia só dura um dia. 


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Os trechos em itálico são retirados de uma das Marchas do Rancho Folclórico de Vale da Pinta. O retrato de uma vida antiga que se prolonga para os nossos dias pela arte de quem sobe a palco para a dançar e cantar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Minha linda freguesia

Ajeita-se o lenço na cabeça e aperta-se o avental. A saia abaixo do joelho e os saiotes brancos passados com rigor.

Está calor, mas veste-se o traje a sério. Com direito a camisa, meias rendadas e sapatos fechados. Calças grossas para os homens e colete apertado até ao último botão. Não esquecer o chapéu e o barrete. Que se faça a festa.


Juntam-se os pares, os músicos preparados e os cestos cheios de flores. De todas as cores. Estão todos em posição. Braços esticados, passos marcados. Está tudo preparado, que comece a música.

O público junta-se, bate palmas e balança o corpo ao ritmo dos passos na madeira do palco.  Que venha a paródia que trabalho já há muito. Em cima de palco continuam a dançar, a saia vermelha roda e deixa a meia branca à vista. 

Separa-se o grupo. As mulheres ficam para trás. Os dois homens avançam. Barrete na cabeça e mão no colete. Frente a frente num duelo de música e ritmo. Ouve-se o fandango. Cronometrado, ensaiado ao milimetro. 

Juntam-se todos outros vez. Elas de cesto nos braços e mão na cintura. Está preparada a última dança. Ouvem-se as primeiras notas da música que já se conhece de cor e as flores são lançadas ao público. Os pares vão saindo. O acordeão e o clarinete ainda a tocar.

O público junta-se às vozes em cima de palco. Cantam todos enquanto os mais novos correm a apanhar as flores que vão caindo. Os dançarinos vão saindo enquanto acenam com os barretes e os cestos já vazios.

Mas continuam a cantar. Que seja assim. Cantemos todos, com alegria.