quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Vamos baldear

A aldeia faz-se das suas gentes. Não das suas riquezas, que essas não as teve na sua história, mas dos seus costumes. Daquilo que a torna ela. Única. Que só os seus percebem.

Há uma beleza nas casas que se deixam cair. Não pela decadência do que outrora deu abrigo a uma família, mas pelas histórias que as pedras que se vão mantendo ainda contam. Pelos moveis que ficaram esquecidos e apodrecem lá dentro.

A aldeia não se faz dos buracos que se contam na estrada nem das casas onde já não se abrem as janelas. Faz-se do que ainda se recorda, das curvas onde a bicicleta foi mais longe do que nós, das portas que se abriam para um passo de dança aos fins de semana. Das famílias que se metiam no autocarro e lá iam elas para onde fosse a bola ou ver o mar. Faz-se daquilo que é nosso e só nosso. O que não se explica.

Quando Agosto termina é em festa. Assim como Outubro traz a muca à rua para comemorar os seus. Ou os sapatos do rancho que se fazem ao palco em Janeiro. Dos vizinhos que sabem os aniversários uns dos outros e batem à porta com um saco de uvas ou laranjas ou o que houver.

É feita de estradas que parecem não fazer sentido e casas que misturam as décadas do século passado. Isto para quem a vê pela primeira vez. Para todos os outros, os que aqui vivem há mais tempo que conseguem contar e têm a aldeia na pele, são portas que se abrem para receber os amigos, para ver a bola e beber umas cervejas que agora foi o outro que pagou e a seguir sou eu.

A aldeia, por muito que a queiram ver como pequena, é mais do que a vista alcança. Somos todos nós que continuamos com o coração aqui, que crescemos a saber que uma maquia bem que nos pode fazer baldear.




terça-feira, 15 de junho de 2021

Caramelo Caseiro



 
Quando como pudim sou sempre a esquisitinha que diz "uma fatia sem molho". Não gosto de caramelo ou era o que eu pensava. Afinal, eu não gosto é do caramelo de compra. Lá está, esquisitinha. Agora, o caramelo caseiro, que fica com aquele tom dourado em vez de ser castanho, que é aromatizado à vontade do freguês e que tem um sabor a caramelo suave, desse eu gosto. Foi por isso que deixei de comprar caramelo e comecei a fazer. É fácil (se quiserem perceber os erros que fiz até conseguir um caramelo decente, vejam o vídeo no canal). Três ingredientes e está feita a festa.

Caramelo
Açúcar
Água
Limão

Colocar o açúcar numa panela (de preferência anti-aderente). A água a usar deve ser metade do peso do açúcar. Dessa água juntar metade à panela com o açúcar e aquecer a outra metade à parte.
Juntar umas gotas de limão à panela e levar ao lume sem mexer. Deixar borbulhar em lume brando até ficar com um tom de caramelo. Nessa altura, desligar o calor e adicionar a água a ferver com muito cuidado (aconselho o uso de mangas compridas e luvas de cozinha para evitar queimaduras). Misturar bem (com cuidado) e deixar arrefecer antes de colocar num frasco e guardar.
Podem aromarizar a gosto (menta, baunilha,...)




domingo, 6 de junho de 2021

O que se está cá a fazer

 Já fazia tempo que ele ali estava. Umas duas horas, talvez. Sozinho, no mesmo banco de sempre e de olhos no horizonte que não via. Estava preso nos seus pensamentos e o olhar acabava por ficar perdido no ponto mais longínquo. A boca mexia-se ligeiramente enquanto falava para si mesmo sem emitir qualquer som.

Era assim todos os dias. Boné mal assente na cabeça e camisola de malha grossa fosse qual fosse a previsão para o dia.

Já fora da hora do costume, chegou quem costumava fazer-lhe companhia. Os dois da mesma geração, os poucos que ainda tinham histórias para partilhar de uma mocidade que se tornava cada fez mais clara enquanto o dia anterior se esbatia. Eram muitos quando eram novos. Agora, a maior parte já contava com sete palmos de terra em cima e eles ainda ali estavam. 

Enganavam o tempo assim. O mesmo sítio todos os dias, as conversas sem nexo, o adeus prolongado dito a quem passava. Aos poucos que ainda passavam por ali.

- Mas tu só chegas agora? Pensei que tinhas ido para os teus.

Quem se vê há uma vida não precisa de grandes cumprimentos.

- Não, fui lá com a Maria e ela já não me deixou vir antes de almoço. 

Fosse onde fosse este lá de que ele falava como se estivesse a indicar um ponto certo num mapa.

- Eu queria vir, mas ela não me deixou.

- Mas tu vinhas na mesma.

E o outro, ainda a recuperar o fôlego da caminhada que o levara até ali, tira o boné para coçar a cabeça, e, sem coragem de olhar para o horizonte que o amigo continua a fitar, diz:

- E achas que eu conseguia? Depois de ir lá as minhas pernas já não aguentam a subida até aqui. Tenho de sossegar antes de vir. 

É um aceitar do que a idade nos traz e do tanto que nos leva. Os dois ali quando eram tantos ao início. Os olhos que já não conseguem alcançar como antigamente e as ruas, aquelas que corriam de uma ponta à outra, a moer-lhes as pernas.

- Um homem já não presta para nada, é o que é. Metam-lhe a comida pela boca abaixo e pronto.



domingo, 30 de maio de 2021

É preciso desenrascar

Os pais deixavam-nas em casa, sozinhas. Miúdas de pouca idade e ali ficavam à sua sorte, com uma tia mais velha a deitar-lhes um olho e uma casa para tratar. Só chegavam ao tanque empoleiradas num tijolo, mas lá se faziam à vida. Só os mais novos, aqueles que ainda pediam colo e a companhia da mãe, é que iam para o campo com os pais. Os outros, mais velhos e numa meninice que pouco tinha de infância, ficavam em casa.

Elas, vizinhas desde que se lembravam de ser gente, aproveitavam a ausência dos pais para fazer das suas numa liberdade que durava tanto quanto o sol. 

As mulheres sabiam que quem era de respeito não se dava ao desgoverno que havia sempre quem estivesse à espera de uma oportunidade para apontar o dedo aos outros, mas as miúdas sabiam lá o que era isso. O que elas queriam era espetar o dedo na massa do bolo ainda antes de ele ir ao forno. 

Então lá se faziam ao caminho. Ao galinheiro da tia, senhora das suas idades e com tendência para dormitar profundamente durante o dia, surripiavam uns quantos ovos acabados de pôr. Assim começava, mas ninguém fazia bolos só com ovos e à mãe não se roubava nem açúcar nem farinha ou ela ainda descobria a brincadeira. Para isso era preciso recorrer à bondade das vizinhas, se é que se pode chamar de bondade quando o açúcar e a farinha eram recebidos com a promessa de que as suas mães iriam devolver em igual quantidade. Quantidade essa que as mães não sabiam, nem vinham a saber, que estava em dívida. 

E lá iam elas de volta a casa. Bolsos cheios de ovos, uma tacinha de açúcar e outra de farinha e agora era só pôr as mãos na massa. Mas a olho que elas nem sabiam o que era isso de medidas e quantidades. Era o que era, aproveitar o que havia e esperar pelo melhor. Como se com um estalar de dedos se fizesse magia.

Era verdade que o bolo lá dava um ar da sua graça e crescia. Parecia encher o peito e mostrar-se em todo o seu esplendor para depois, passados poucos minutos de apanhar a aragem da cozinha, desinchar até ficar uma amostra do bolo que podia ter sido.

De certeza que lhes tinha falhado alguma coisa, mas era certo que iam acertar. Era só esperar pelo dia seguinte.



domingo, 23 de maio de 2021

De geração em geração

Quando se faziam ao caminho já a noite ia longa e os seus corpos bem regados. Como é que aqueles fígados se safavam com tanto álcool é um mistério que ninguém sabe bem explicar. Talvez estivessem em conservação, como um qualquer objecto de estudo. Mas era certo que de noite, ao fecho da taberna, lá iam eles para casa. Tortos, passos trocados e língua enrolada num idioma que nunca foi registado. As bicicletas esperavam-nos à porta para os levar de volta.

Tal como as bicicletas dos netos os esperavam sempre que o tempo o permitia, quando a escola e o São Pedro davam folga e o São Pedro. Esses, miúdos que não sabiam o que era o perigo, faziam-se à estrada a direito, sem álcool que lhes trocasse os pés, mas com a adrenalina a convencê-los que eram os reis ali do sítio.

Os homens, de pé direito assente no pedal, elevavam o corpo por cima da bicicleta já em andamento num movimento tão ágil que, por momentos, fazia acreditar que estavam sãos. Não estavam, nunca estavam. Aquilo era bebedeira que já traziam consigo há uns bons anos e que renovavam todas as manhãs. Todos assim. Uns mais, outros menos. Ou outros que sabiam disfarçar em melhores condições.

Os miúdos, a achar que o mundo lhes pertencia, faziam cavalinhos no meio da estrada sem se preocuparem que mal sabiam andar a direito. Vermelhos e suados, sem chapéu que os protegesse do sol ou capacete que amortecesse as quedas. Sabiam lá eles o que era isso do capacete. Depois lá havia um que travava só com o travão da frente e, depois de um salto por cima do guiador, lá ia de arrojo pelo alcatrão. 

De dia, as estradas eram dos mais novos. De noite, dos que já iam tocados. Em casa, alguém os esperava. De coração apertado, fosse pelo que fosse, até que os ouviam chegar. As rodas na terra batida, o chiar dos travões e a bicicleta esquecida até ao dia seguinte.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

O pudim

É a sobremesa preferida do meu tio e aquela a que eu torcia o nariz sempre que aparecia na mesa. Quando me servia do pudim, ou quando alguém me passava um prato com o dito cujo, evitava o caramelo a todo custo. "Sem caramelo", lá dizia eu apressadamente. Aquele sabor amargo não era do meu agrado, vá-se lá saber. Ainda hoje não é. Gostos, é o que vos digo. Mas agora descobri as delícias do caramelo caseiro com um toque de limão e baunilha e tenho de confessar: este pudim é incrível. 

Receita da minha mãe, escrita num caderno sem qualquer informação de tempos ou temperaturas e feito tantas vezes que as folhas estão marcadas com nódoas. Tal como se quer, é a prova da qualidade do pudim sem que seja preciso provar. Mas eu provei e, modéstia à parte, estava bem bom. 

O pudim mandarim pode ser substituido por ovos, talvez usar 12 ovos em vez dos 8, mas sou sincera, não experimentei. Cá em casa, o pudim é mesmo com o mandarim. 

Pudim de Ovos

1l de leite
8 ovos
1 pudim Mandarim
1 colher de sopa de Maizena
300gr de açúcar
Caramelo

Junte o pudim com a maizena e o açúcar. Junte os ovos um a um e misture bem. Junte o leite e bata bem até ficar uma mistura homogénea.
Unte uma forma com caramelo (se for caseiro ainda melhor) e deite a mistura do pudim na forma.
Leve ao forno em banho marua durante 30 a 40 minutos. Quando o palito sair limpo, desligue o forno e deixe o pudim arrefecer lá dentro. Quando estiver morno leve ao frigorífico (normalmente deixo de um dia para o outro)




terça-feira, 30 de março de 2021

O que nos falta

 Há um desânimo que nos toca a todos nestes dias, mas que se torna mais forte para quem vive a aldeia como sua. Num país em que além das grandes cidades tudo o resto é paisagem, as aldeias vivem dos seus. De quem se junta numa esquina a trocar dois dedos de conversa e lança um adeus em braço esticado a quem passa. Das alcunhas gritadas no meio da rua e que, aos ouvidos de quem não é dali, mais parecem palavras sem nexo.


A aldeia vive dos seus. Dos que saem à rua e entram nos seus cafés. Do bater dos sapatos no estrado de madeira quando o rancho dança com as saias das mulheres a fazer balão e o acordeão a dar a melodia. Dos domingos de futebol perfumados a bifanas em molho e couratos na chapa em que se grita pelos nossos como se a nossa vida dependesse daquela bola em campo. Dos ensaios, sejam eles afinados ou não, em que se junta quem tem uma vida disto e aqueles que ainda agora começaram.

Uma aldeia vive disto. Parece pouco, mas é muito para quem se sente tão em casa naquelas ruas como dentro das suas paredes. Os vizinhos são aqueles com quem conversamos de um quintal para o outro. Gritamos "Ó vizinha" com a intenção de quem chama alguém da casa. Seja em cumprimento ou em pedido de ajuda.

As ruas enchem-se quando os nossos desfilam. O rancho a cantar o orgulho de ser daqui. A banda a tocar a marchinha e a terra a acompanhar com palmas e cantorias inventadas naquele momento. Ser da aldeia é diferente de vivê-la. mas quem a vive fica com um nó no peito ao vê-la com as ruas despidas e cafés fechados. E o que há um ano parecia passageiro, agora quase que se sente como uma sentença sem direito a condicional.

Faltam-nos as festas populares, abraçar quem nos quer bem e dar um pé de dança num qualquer bailarico. Faz-nos falta a nossa aldeia.



Há um ano, o David Fonseca lançou uma música em que o videoclip era uma homenagem às filarmónicas (a música é "Só depois, amanhã"). Na altura pensei: "Que bom que se lembram de nós". Hoje, sinto um aperto no peito por não saber quando voltamos às ruas.