quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A nossa aldeia

Cheira a carne. Feita no forno depois de marinar em vinho e temperada a pimentão doce e louro. Sabemos quem a faz, conhecemos quem mora atrás de cada porta e sabemos onde vão dar as ruas e que outras cortam para o mesmo sítio. Que para ir do ponto A para o ponto B passamos pela casa daquela que é irmã do outro, primo daquele tal que encontrámos no outro dia. E, já que falamos nisso: “que bem que a mãe dela fazia arroz-doce, até parecia o dos casamentos”.


Conversamos com quem encontramos, pagamos um café gelado ao que acabou de entrar e ficamos só mais um bocado. A ver o jogo, a conversar, a fazer companhia. E dizem lá de fora “as ruas desta aldeia não são para viver”, mas os de cá sabem que são as mesmas ruas que recebem quem faz delas a sua morada. As casas que ficam à sua sorte porque há quem diga que são pouco utilizadas, estendem os braços aos que viram crescer e a quem decide continuar a sua vida ali. Mais tarde ou mais cedo todos se conhecem pelo nome, apelido, alcunha e grau familiar. Ali, todos têm rosto, história, são alguém. Ninguém é só mais um.

A nossa aldeia fica longe das estradas cheias de carros e as que tem como suas estão cheias de buracos. Segundo nos dizem, virá o tapete novo quando houver oportunidade. Um dia. E nos entretantos, nós, que passamos ali todos os dias, já os conhecemos de cor. Tal como conhecemos as casas que foram erguidas pelos daqui, para que fossem de todos, e que agora ganham ervas e postes partidos. Ouvimos dizer que “vai ficar assim” porque “ninguém por ali anda”. Mas nós, que ali vivemos, que dali somos, ouvimos o riso dos miúdos enquanto andam aos pontapés na bola e aos encontrões uns nos outros. Ouvimos os pais a gritar "Tu vai, mas tem cuidado", não vá a bola cair lá para aquele lado de onde vem o cheiro que nos faz torcer o nariz porque é certo que não é de coscurão como a vizinha fazia.

Dizem que ali nada é utilizado, como se os nossos dias fossem passados à espera que a morte nos encontre. Como eles sabem pouco. Quem ali vive, sabe que o corpo puxa-nos para aquela terra, que nos chama a fazer mais. Um sentimento de pertença, de reconhecimento pelo que foi feito por quem veio antes, a vontade de fazer pelos que vão chegar. O coração bate e sempre se vai bater pelas ruas que dizem estar vazias. Se eles soubessem. É preciso passar por elas, vivê-las, todos os dias, todos os meses, para saber que ali se vive. Que ali, é a nossa aldeia. A nossa casa.


Versão completa do texto publicado na Revista Dada de Agosto de 2019

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Em vinha d'alhos

É um sem fim de tachos, alguidares, colheres de pau e um cheiro doce e fermentado que enche a casa. A cozinha num alvoroço que está na altura disso e de ter a casa cheia. É a filha que chega de Lisboa, o primo de França, a mãe que vem da casa ao lado e mais os parentes e conhecidos que fazem da terrinha, que tão longe está durante o resto do ano, local de devoção. E para alimentar tanta boca é preciso trabalho. Isso e tempo, que é coisa que nunca há.

É deixar os coelhos mergulhados em vinho tinto e acompanhar de cabeças de alho para ver se lhe toma o gosto. O lombo está pronto a ir ao forno e ainda falta arranjar mais qualquer coisa para o neto que não come nada disto. Um pudim de ovos das galinhas, mais um pão-de-ló.

- Ai o arroz-doce - e mais esse, que sem arroz-doce nem a festa se faz.

No estendal, as colchas brancas apanham ar. Foi uma tarde só para as lavar que isto é muito bonito, mas aquilo é tecido que nunca mais acaba. Enquanto se lava e se estende o que nunca se usa, o marido anda de joelhos na calçada para pintar a casa com o rigor que a ocasião exige. Branquinha, é o que se quer para que Nossa Senhora os abençoe.

E entretanto o leite borbulha mais do que devia e agora é o fogão que tem de ser esfregado. Como se já não houvesse trabalho para dar e vender. Valha a música que chega da rua a anunciar o bailarico.

- Que o S. Pedro tenha juízo que os moços merecem - se boda molhada é sinal de benção, festa regada a água e sinal de despesa.

A roupa de domingo está preparada. O vestido dela com os sapatos de meio salto mais a mala dos casamentos, as calças e a camisa para ele mais os sapatos fechados. A comida está arrumada em alguidares tapados com rodilhas à espera de vez no forno. Pois que esperem. Agora que a noite começa a aparecer, é meter o casaco de malha no braço e a carteira debaixo do ombro e ir rua abaixo. São arcos até perder de vista e uma azáfama a que não se vê fim.

- Olha, gente de Valada em Porto Muge - dito assim como quem dá as boas-vindas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Todos os dias o mesmo

Os dias estavam quentes e a luz era tão crua que obrigava a fechar os olhos e franzir a testa para se conseguir ver alguma coisa. Tão quentes que as sardaniscas subiam pelas paredes à espera de uma oportunidade de entrar em casa e os cães deitavam-se  sombra com metade da língua de fora e a arfar. Fazia calor, era o que era.

O silêncio próprio da calma depois de almoço era quebrado pelo som da bola a bater na parede. Uma vez e outra logo a seguir. Sem ligar ao calor nem aos avisos constantes sobre a importância de usar um chapéu, ela continuava a jogar raquetes com a cal que começava a soltar-se. As faces vermelhas, o cabelo colado à pele, a t-shirt a fazer vezes de vestido, os pés descalços. A mangueira para refrescar do calor, o tanque para mergulhar as pernas. As gargalhadas que nasciam bem lá no fundo. 

O mesmo na casa dos vizinhos. As corridas de quintal para quintal porque muros é coisa que não se conhece. O que é de uns e passa a ser de todos. A sombra da árvore grande a guardar os corpos que nunca se davam por cansados. As caras lambuzadas com o sumo da fruta que as árvores davam, os avós a gritar pelos seus e pelos dos outros, os pais a chamar para a hora do banho e a preguiça a contrariar a resposta.

O calor a entrar pela noite que chegava com o cheiro a sopa e peixe frito. Os corpos cansados que não perdiam a força para falar sem parar, a água do banho que ficava lamacenta e eles que falavam e falavam e assim continuavam. Como se o cansaço do dia não se fizesse sentir.

Dormiam com a janela entreaberta para entrar o fresco da noite. Os grilos do lado de fora e as melgas a tentar atacar lá dentro. O sono profundo de quem sabe que o dia que se segue é um sem fim de possibilidades. Que se vive muito melhor quando se corre sem destino, de pés descalços na terra, a roubar fruta dos quintais e a rir como se não soubesse fazer outra coisa. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Açúcar ao desgoverno

Casou-se no outro sábado. De branco e vestido fechado até ao pescoço. Com festa para a família de parte a parte e de mesa cheia. Bem dito, teve tudo a que tinha direito.

Fazia tempo que o casório andava a ser preparado, ainda nem se sabia qual o noivo que calhava em sorte. O enxoval arrumado na arca lá de casa, costurado pelas mulheres da família. A noiva, dotada de mãos de fada, “bordou cada metro de tecido”, dizia a mãe, “ até aqueles que vi serem entregues na porta da vizinha?”, comentavam. Toda gente sabia que a vizinha era costureira e bordadeira de uma vida e que as mãos da moça ainda eram frágeis.

E foi no outro sábado que a moça se tornou senhora. De respeito. O cabelo, que sempre conhecera caído até à cintura e a fazer-se à vontade do vento, arrumava-se numa banana apertada com ganchos por todo o lado. Nem um fio fora do sítio. Antes de subir ao altar, tinha descido a bainha a todas as saias. Dois dedos abaixo do joelho que só quem não se dá ao respeito é que mostra mais do que deve. E o que se quer de uma mulher casada é que se saiba dar ao respeito. Isso, e que seja governada.

No outro domingo já estava na casa que agora era sua, com a sogra a mostrar de quem era a última palavra. Afinal, ela só ali estava porque tinha casado com o seu filho. Aquela era a sua casa. Seguia-lhe os gestos sem se dar ao trabalho de disfarçar. Contava as favas que punha na sopa, “a carne é só para dar sabor” e bem que chegava um dedo de chouriço e outro meio de chouriça. 

A noiva, agora senhora de respeito de pele puxada pela banana enrolada na cabeça e pernas tapadas quase até ao tornozelo, baixava os olhos, esfregava os dedos de uma mão nas costas da outra e assentia sem o fazer. E que ela nem sonhasse que a panela estava a cozer arroz para que fosse doce, senão tinha de levar com o sermão e a missa cantada. “Uma mulher tem de ser governada e doces não é senão desgoverno de quem não sabe o que a vida custa”. Que fosse feita a sua vontade. A da sogra.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Mais um prato de sopa

Do outro lado do vidro, ela espreitava-me. Não o sabia na altura, só mais tarde é que ela me contou o que fazia naqueles Domingos em que me ia visitar. Em que eu achava que ela chegava quando me abraçava, mas na verdade já andava por ali há mais tempo do que dizia.

Para ali estar, também ela se metia numa camioneta quase igual à que me tinha levado e lá ia. Um ror de horas num caminho que a deixava aos tremeliques por dentro, para me ver. E eu passava essas mesmas horas na areia, com a maresia a acalmar o calor, de cara queimada, pele a saber a sal e cabelo que era mais areia que outra coisa. 

Ela espreitava-me enquanto eu almoçava, pouco antes da hora em que tinha autorização para me ver e deixar o pão que tinha cozido para mim mais as roscas de canela que tinham aproveitado os restos do lume e da massa. Eu esperava-a sem saber que já ali estava, a olhar-me fascinada quando eu me levantava para pedir mais um prato de sopa. Sopa de grão, lembro-me disso. “Nunca querias sopa em casa” - lembra-se ela com um certo ciúme mal disfarçado - “e ali, até repetias”. “Dois pratos que me sabiam a pouco”, guardava para mim.

O que ela não sabia, nem sei se chegou a saber, é que a pouca comida que tínhamos em casa, dava para mais horas de estômago cheio do que aquela fartura que por ali serviam. Comíamos a horas certas e do cardápio que apresentavam só mudava os dias. O mesmo lanche da manhã repetido a meio da tarde. Na hora indicada, nunca depois e muito menos antes. O almoço, de sopa e segundo, já vinha quando o estômago se tinha esquecido do pão da manhã. E só havia autorização para repetir a sopa. Nada mais.


No seguimento do texto Cabeça na Água.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Cabeça na água

Os dias eram de um calor estranho. Abafado lá no alto e tolerável quando se apanhava a brisa do mar. Não os conhecia assim. Só secos, com a transpiração a colar-se à pele. Nem estava habituada ao que os olhos me mostravam. Em vez de lezíria a que não conhecia o fim, mostravam-me um azul a que não sabia dizer se era o céu que entrava pela terra ou a água que visitava os pássaros.

O barulho de crianças sem pais por perto, enchia os corredores e os quartos de camas perfiladas enquanto havia espaço. Ali, ninguém dormia sozinho e isto se alguém chegasse a dormir o sono que se pretendia. Era a discussão entre o respeito por quem nos mandava calar, a excitação de estar fora de casa e a ansiedade. Essa maldita que nos fazia verter uma lágrima pela mãe que não nos vinha buscar e que nos deixava sem vontade de voltar.

A primeira vez que ali fui, nunca tinha visto o mar nem sabia o que era dormir numa cama que não era minha. Subi para a camioneta sem vontade de o fazer e deixei a minha mãe do lado de lá da janela a dizer-me adeus. Para mim o mundo acabava ali, no adeus da minha mãe, nos tremeliques da camioneta que me levava, na mala que me acompanhava com mais ar do que roupa. Recomeçou quando senti aquela maresia a refrescar-me a cara.

Andávamos todos de igual. Íamos à praia todos os dias. Não importava se fazia sol ou se o tempo tardava a aliviar. Uma corda a marcar o nosso espaço. Os outros do lado de lá, nós ali. O barulho das ondas a bater na areia, a espuma a recolher a alto mar para voltar a bater logo a seguir. Eu à espera da minha vez sem me importar com a tristeza de quem ficava na areia, vestido, sem autorização para sentir o mar a gelar os ossos e os dedos dos pés a torcer com o frio. 

Tinha sorte, agora sei disso. Sem mal que viesse do médico, tinha direito a três mergulhos no mar. Só três. De costas, a tapar o nariz e de boca fechada, e lá me mergulhavam. Um. Dois. Três. E lá voltava eu para ao pé dos outros. A lamber o sal da cara, de cabelo encharcado e com as pernas cheias de areia miudinha.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Betadine e Água Oxigenada

Perdia-se  a conta aos arranhões e nódoas negras. Se os tempos fossem outros era possível que a competência dos nossos pais fosse questionada, mas ninguém tinha a culpa dos miúdos que nasciam arraçados de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Lembrava-me deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que acabava comigo a saltar por cima da bicicleta, o que fazia com que os meus joelhos fossem amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Éramos todos iguais: demasiado aventureiros e sem noção do perigo.

Tínhamos o hábito de subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Só nos escondíamos em terrenos cheios de silvas e ervas à espera que fossem à noite nossa procura. Anos mais tarde percebemos que conseguiam ouvir os nossos risos à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. De cabeça levantada, peito cheio, joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura e chamavam por nós, mas nessa altura já íamos rua abaixo a ver quem ganhava daquela vez.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido, um nó na garganta o beijo da mãe que tudo cura. 

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos que continuam a contar a sua história. A vez em que só existia o travão da frente, a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava. Vivíamos com a cabeça cheia de sonhos e de sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.


Texto publicado na edição de Junho de 2019 da Revista DADA