segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Dura uma semana

O sol ainda não tinha nascido é já se ouvia as mulheres a amassar a massa. O alguidar de barro batia contra o balcão e ouvia-se o arfar cansado de quem amassava há mais de duas horas. 

O ar cheirava a massa a repousar debaixo dos cobertores pesados, não faltava muito para passar a óleo quente, açúcar e canela. O Natal estava aí e os velhozes e coscorões estavam quase prontos.

Lá andavam os miúdos. Rua acima e rua abaixo. Em grupos de quatro ou cinco. Desde dos mais novos aos que já deviam ter ganho algum juízo com a idade. Algumas tradições não deixavam espaço para a lucidez. 

O dia começava cedo para todos. Eles batiam os pés e esfregavam as mãos para aquecer. Mais um copo de três antes de começar a ronda e o frio de Dezembro já estava esquecido. Faziam-se à estrada a pé ou empoleirados em carroças. O destino estava decidido, como chegavam lá era pouco importante.

Corriam as estradas e entravam pelos portões sem pedir autorização. Do outro lado das janelas havia quem os seguisse sem se fazer notar. E lá iam eles portão fora outra vez. O resultado do roubo na carroça e mais uns quantos a correr rua abaixo até à próxima paragem.

Juntavam-se troncos e raízes. Árvores que estavam caídas e outras que já tinham visto melhores dias. Não se pedia autorização para entrar nem para encher a carroça. A tradição era que fosse feito pela calada, mesmo que toda gente soubesse o que se passava.

Quando a noite começava a cair, encontravam-se todos no sítio do costume. A velha praça. Troncos ao centro e lenha miúda para atear. Era ver pegar fogo e ficar até se querer. 

Era a noites antes do Natal, a fogueira estava a arder com a lenha roubada neste e naquele terreno. A noite ia ser longa e toda gente ia parar por ali antes de se darem as festividades por fechadas. Assavam o chouriço e o toucinho, alguém trazia pão acabado de cozer e um prato de velhozes. Fazia-se o Natal ali, fora de portas e sem prendas. Com conversa e o calor da fogueira de Natal que resistia às dificuldades e ao tempo.

A fogueira ia arder até que entrasse o novo ano. Que viesse melhor do que este, era o que se esperava. Nem sempre se cumpria. Mas a tradição voltava. Pelo menos naquele tempo.



domingo, 20 de dezembro de 2015

Está zero a zero

Ouvem-se as vozes exaltadas e uma enxurrada de impropérios que visam única e exclusivamente a mão do senhor que está vestido de preto no meio das duas equipas. Pobre coitada, soubesse ela onde é que o filho se ia meter, mas uma pessoas não pode adivinhar.

- Olhe lá, quantos estão?

- Zero a zero e não ganha ninguém. Pelo menos por agora, mas isto ainda nem chegou a meio.

O campo está longe das relvas que se vê na televisão. Pó de pedra, daquele fino que salta assim que dão um pontapé na bola. Vinte e dois em campo, mais os três que ouvem comentários pouco próprios sobre quem os trouxe ao mundo.

Cá fora o jogo é outro. É a mãe que vem ver o filho jogar. Junta-se a nora e os netos, a amiga e a vizinha. e o resto da terra, ninguém fica em casa em dias destes. Ficam todos ali de pé durante uma tarde inteira. Parece um ritual cumprido à risca, vai toda gente ver a bola.

Os assadores estão a fazer brasa e no bar vão saindo minis para os mais velhos e garrafas de Sumol para os mais novos.

- Não vás correr para aí que ainda te magoas.

Ouvem-se os gritos das mães. Estão de pé, encostadas ao muro do campo e com os casacos dos miúdos dobrados no braço. Fala-se de tudo, deita-se um olho ao jogo, outro ao Zé que nem se sabe bem como, escorregou e esfolou a mão e o joelho.

- GOLO!

E pára o mundo. Não há quedas nem feridas ou árbitro que roube a alegria. É golo e é dos nossos. Faz-se a festa e os jogadores gritam. Não ganham nada com isto. Nada além de nódoas negras, cansaço e, nos dias mais complicados, uma visita às urgências do hospital. Mas vibram como se isto fosse o seu sustento.

É golo. É para festejar.

Bola ao centro e os couratos a assar. Cheira a gordura a fritar no assador de chapa e começam a sair os primeiros pães.

- Para a semana, o jogo é cá ou fora?

Vamos a pé ou de carro? Ou vai tudo de autocarro para fazer a festa no caminho? Seja qual for o resultado. Vamos todos.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Assim que chega ao frio

Era mesmo ali no fim de Novembro. Dezembro a espreitar e já um frio considerável na rua. Casacos quentes e manhãs de nevoeiro. Daquele nevoeiro tão cerrado que se podia esperar a chegada de D. Sebastião a qualquer momento.

Já cheirava a Natal. Cheirava a frio, a lareiras acesas em quase todas as casas e mantas quentinhas à nossa espera no sofá. Tínhamos por certo que as férias estavam a bater à porta.

Mas o Natal só chegava quando, ao acordar de manhã, a árvore já estava à nossa espera. Verde, gorda e a sujar a casa toda com resina. Árvores a sério. Daquelas que picam e que cheiram a verde e a natureza. Que cheiram a Natal.



O Natal começava quando ele saía cedo de casa. Casaco abotoado até cima e lá ia ele. Voltava já perto da hora de almoço. Às costas trazia dois pinheiros.

- Um para a tua casa e outra para aqui - dizia assim que chegava numa lengalenga repetida ano após ano.

Era ali que começava o Natal. Nos dois pinheiros deitados no chão. Mais redondos do que os desenhos que se fazia na escola e com um cheiro que enchia tudo à sua volta. Dois vasos cheios de areia e revestidos a papel de embrulho estavam preparados para os receber. Os sacos cheios de fitas e bolas de todas as cores e feitios saíam dos armários.

Estava nevoeiro e ameaçava chuva. Os casacos estavam abotoados e os cachecóis ficavam tão enrolados que só deixavam os olhos à vista. Os pinheiros, com direito a resina pelo chão, estavam preparados para a festividade e o ar cheirava a Natal. Uma mistura que ainda levava canela e fumo da lareira.

Era assim que começava o Natal quando eu tinha pouco mais de um metro de altura e o cabelo à Beatriz Costa. Com dois pinheiros apanhados de propósito para mim.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As pancadas

A sala estava cheia e o portão ainda não tinha fechado. Havia quem ficasse lá para trás, de pé. Encostados ao balcão onde se serviam bebidas antes de começar o espectáculo. E durante, se fosse caso disso.

Era uma plateia improvisada, Com cadeiras de metal que primavam pelo desconforto. A sala era fria. Nas noites de Inverno fazia tanto frio como na rua. Quem aparecia já sabia ao que vinha. Apertavam mais o casaco, aconchegavam o cachecol e ficavam. Não havia desculpa para ficar em casa. Iam para se divertir e isso justificava tudo. Iam para ver aquele miúdo que tinha tanta graça que bastava entrar em palco para na sala rebentar numa gargalhada geral. Se ele quisesse podia ir longe, ouvia-se dizer.

A cortina, vermelha como manda a tradição, estava fechada. De vez em quando ouvia-se um riso do outro lado ou alguém espreitava.

- A casa está cheia - diziam lá para dentro.

No meio do corre-corre entre a maquilhagem e a roupa. Eram cotoveladas e "Chega para lá" que o espaço era pouco para todos os que iam entrar. Alguém olhava para o relógio só para confirmar as horas. Estava quase a começar. E a sala já estava cheia. Reviam falas e marcações. Olhavam ao espelho mais uma vez. As mãos tremiam. Era noite de estreia.



Do outro lado da cortina aproveitavam para pôr a conversa em dia e para escolher os últimos lugares. 

- Oh menina, sente-se aqui à frente que aí não vê nada. Eu troco consigo.

E lá se ajeitavam. Puxavam de um lado, encolhiam do outro. Cumprimentavam o vizinho e fazia-se silêncio assim que se apagava a luz. Esperavam pelo sinal.

Ouviam-se as pancadas secas na madeira. Estava na hora. O abrir apressado da cortina revelava o cenário e os actores, vizinhos de todos os dias, entravam em palco. Com outras histórias. Maquilhados e vestidos como outros que não eles.

Começava o espectáculo. A sala em silêncio. Todos atentos. Entrava o tal miúdo em palco e a gargalhada geral enche a sala.

- Se quisesse, podia ir longe - ouvia-se alguém dizer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O homem do saco

Só reparei nele quando me baixei para apanhar o conteúdo da minha mala, que estava espalhado pelo chão da plataforma. As minhas coisas têm vontade própria e uma relação clandestina com as calçadas e estradas por onde vou passando.

Foi o saco verde fluorescente que chamou a minha atenção. Um daqueles sacos de compras com rodinhas e espaço ara levar meio supermercado lá dentro.

Ele, de cabeça baixa e metido na sua vida, estava sentado num dos bancos de metal da estação. Tinha umas calças vermelhas e um casaco abotoado até cima. O dia estava a amanhecer radioso, mas prometia frio. A barba, mais branca do que preta, escondia a cara magra. Os olhos, grandes e fundos, estavam fixos nas mãos calejadas que não paravam quietas.


O tilintar metálico ouvia-se ao longo da plataforma que estava completamente em silêncio, mas cheia de gente à espera. A uma hora daquelas não se fala porque o dia está a começar. Na viagem de volta a silêncio é justificado porque na manhã seguinte também é dia. Ele lá continuava e ninguém olhava para ele, fixo nas mãos e nas agulhas que tilintavam.

Parou para se debruçar sobre o saco. A idade não lhe tirava a agilidade ao corpo magro. Procurou durante tanto tempo que lhe perdi a conta. Quando encontrou o que precisava, voltou à sua vida. O tilintar soou pela estação e as pessoas à sua volta continuaram a tentar ganhar forças par ao dia que estava a chegar. Ele, de vez em quando, lá olhava de soslaio para eles. Eles, como sempre, apertavam mais o casaco e continuavam alheios a tudo à sua volta.

Uma voz rouca e distorcida avisou que o comboio daquela hora estava quase a chegar. Ele não esperou pelo segundo aviso. Arrumou as agulhas e tudo o que tinha no colo e fechou o saco. Puxou-o com uma mão e meteu a outra dentro do bolso do casaco. Bateu com os pés no chão, não sei se para afastar a dormência causada pelo tempo que passou sentado ou se queria meter medo ao frio.

Estava a nascer um daqueles dias de sol de Inverno que não aquece de maneira nenhuma. Pelo menos, o cachecol que ele tanto tricotava estava quase pronto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Minha linda freguesia

Ajeita-se o lenço na cabeça e aperta-se o avental. A saia abaixo do joelho e os saiotes brancos passados com rigor.

Está calor, mas veste-se o traje a sério. Com direito a camisa, meias rendadas e sapatos fechados. Calças grossas para os homens e colete apertado até ao último botão. Não esquecer o chapéu e o barrete. Que se faça a festa.


Juntam-se os pares, os músicos preparados e os cestos cheios de flores. De todas as cores. Estão todos em posição. Braços esticados, passos marcados. Está tudo preparado, que comece a música.

O público junta-se, bate palmas e balança o corpo ao ritmo dos passos na madeira do palco.  Que venha a paródia que trabalho já há muito. Em cima de palco continuam a dançar, a saia vermelha roda e deixa a meia branca à vista. 

Separa-se o grupo. As mulheres ficam para trás. Os dois homens avançam. Barrete na cabeça e mão no colete. Frente a frente num duelo de música e ritmo. Ouve-se o fandango. Cronometrado, ensaiado ao milimetro. 

Juntam-se todos outros vez. Elas de cesto nos braços e mão na cintura. Está preparada a última dança. Ouvem-se as primeiras notas da música que já se conhece de cor e as flores são lançadas ao público. Os pares vão saindo. O acordeão e o clarinete ainda a tocar.

O público junta-se às vozes em cima de palco. Cantam todos enquanto os mais novos correm a apanhar as flores que vão caindo. Os dançarinos vão saindo enquanto acenam com os barretes e os cestos já vazios.

Mas continuam a cantar. Que seja assim. Cantemos todos, com alegria.




domingo, 15 de novembro de 2015

Ó de casa

- É para encher?

Grita o miúdo enquanto desce a rua. Calções de tecido, boné na cabeça e garrafa de vidro na mão. Entra na taberna sem hesitar e o taberneiro limita-se a perguntar:

- É para assentar no livro?

Nas mesas que andam por ali espalhadas ficam uns quantos com um copo de vinho à frente e cabeça caída com o peso do sono, outros jogam à bisca enquanto não é tempo de voltar a casa.


O miúdo corre rua acima sem fazer mais perguntas.

Uma janela de madeira abre-se. Uma miúda de lenço atado à cabeça espreita à janela, anda à procura do irmão que teima em não chegar. Do outro lado da rua, juntam-se as vizinhas em horas perdidas de conversa.

- O miúdo já aí vem - dizem-lhe sem perguntar o que procura.

E lá ficam elas encostadas à parede, de saia pelo tornozelo e cesta aos pés. Vestem luto carregado. Andam a ver quem passa e contam as novidades que sonharam no dia anterior. Apertam mais o xaile para as proteger e falam baixo para que ninguém dê por elas. Juram que sabem da vida de todos, mas pouco percebem do que passa do outro lado das portas.

Está na hora de despegar. Os homens aparecem ao cimo da rua com roupa de trabalho e enxada ao ombro com o saco do conduto pendurado. As botas vêm cheias de lama e as mangas da camisa arregaçadas. 

As mulheres e as crianças vêm mais atrás. Cestas equilibradas na cabeça e ar cansado de quem dá por terminado o dia. Ou parte dele. Espera-lhes o jantar, o inventar comida para as bocas que têm lá por casa. O rezar para que o marido não beba mais do que a conta.

- O teu homem anda pela taberna.

A mulher, cansada e com a pele marcada pelo trabalho no campo, olha de soslaio para a outra e segue caminho. Que a ignorância lhe sirva de lição, pensa. Devia ter vergonha da vida que leva, acredita a outra.


Vive-se paredes meias com uma aldeia inteira. Sabe-se de toda gente ou faz-se por saber. Reza-se pela alma do abençoado para sair a dizer mal de quem passou à sua frente. 

- A benção.

Se é que há benção que chegue neste mundo para tudo o que se vai passando por ali. Olha-se para a porta alheia porque é mais fácil apontar os dedos aos outros. 

Volta-se para a casa. Amanhã começa tudo outra vez. Mais um dia. Está tudo igual.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quentes e boas

No S. Martinho, vai à adega e prova o vinho. É o que se ouve dizer por aí.

A uma adega qualquer, nestes dias não é preciso convite. O que é preciso é sorte para encontrar uma que esteja aberta.

Tempos houve em que as adegas abriam os portões e ficavam à espera de quem quisesse entrar. Sem convites ou publicidade, era a tradição da porta aberta a quem viesse por bem.

Os homens juntavam-se, as mulheres ficavam recolhidas em casa. Boné aos quadrados na cabeça e copo de vidro na mão. Dos pequenos, é assim que pede o vinho.

Provava-se o vinho novo que ainda estava guardado em pipas. Das de madeira que enchiam aquele espaço em que o cheiro a álcool parecia estar colado às paredes a quem por lá passava. Juntavam-se amigos e conhecidos para cumprir o ritual de devoção a um santo.

Fazia-se a fogueira numa lata que andava por ali perdida. Era Novembro, o tempo estava frio e o vinho ainda demorava a fazer efeito. A fogueira ficava mesmo ali, no meio da adega. Aquecia os convivas do vento que entrava pelo telhado e pelas frestas da parede. Mais um copo de vinho que a fogueira começava a pegar.

Cortavam-se castanhas com os canivetes que andavam no bolso e o assador ia ao fogo. Era ver os homens a aquecerem-se na fogueira improvisada enquanto esperavam que o petisco ficasse pronto. Novos e velhos, sem distinção, Em dias de festa, o vinho era para todos.

Ouvia-se o abrir da torneira de madeira. Com esforço. Era só mais um copo de água-pé que era da boa. Tão boa que arde na garganta e aquece o corpo. É nova. Alguns começavam a ter dificuldade em manter-se em pé e o equilíbrio ia-lhes fugindo a cada copo que deitavam abaixo.

Queimavam-se as mãos enquanto se provavam as castanhas acabadas de sair do lume. Quentes e boas, como se quer. As vozes, arrastadas pelo peso do vinho, falavam de outros tempos tão antigos que se perdem na memória.

A noite terminava quando já nem se sabia que horas eram. A adega cheia de fumo e os corpos quentes da prova do vinho. Abriam-se os portões enquanto se bebia o último copo.

Só mais um. Para dar força para o caminho.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Cesta Aviada

É sábado de manhã e o fim-de-semana ainda está a começar. A praça enche-se de pessoas e cheiros. O doce da fruta mistura-se com o cheiro a terra dos legumes. As cestas entram vazias e encaminham-se para os sítios do costume. Ainda existem rotinas que vale a pena cumprir.

Ouvem-se risos e conversas perdidas. A cada passo que se dá um cumprimentos solto acompanhado de um sorriso:

- Olá, como vai?

Pergunta-se pelo marido e pelos filhos. Estranha-se a ausência da semana anterior. É o calor da preocupação misturado com as frutas, os legumes e as conversas perdidas. Existem rotinas que marcam toda uma semana.

- Como é que são as uvas? As da semana passada não eram muito boas.

É preciso haver franqueza no que diz. O que não se gostou e o que era de chorar por mais. Na banca misturam-se os verdes e os vermelhos, os cestos com a fruta mais delicada, a balança por onde vão passando sacos e o pequeno bloco onde se vai anotando as contas. Algumas coisas ainda se fazem à antiga.


- Prove este bocadinho.

Dado sem esperar nada em troca. Só porque sim. Porque se confia no que se tem e se conhece quem ali está. Cheira-se a fruta e pede-se só mais um raminho de salsa que está mesmo a faltar para o almoço.

A cesta vai enchendo. São avios e conversas, bocadinhos de calma numa vida que se leva tão agitada.

- Então bom fim-de-semana.

- Veja lá se aguenta esse peso todo!

Um adeus apressado e a certeza que estamos de volta daí a oito dias.


sábado, 7 de novembro de 2015

Nem devem ter cinema

- Eles nem devem ter cinema.

É das observações mais ouvidas quando se fala nestas coisas de viver para longe da grande cidade.

- Não temos. Lá na terra há alguma dificuldade em perceber esse conceito do que é o cinema. Em tempos que já lá vão, um primo em terceiro grau e muito cosmopolita emprestou-nos o "Cinema Paraíso" e conseguimos perceber mais ou menos a coisa. É isso o cinema, não é? Um senhor com fitas pretas num cubículo?

Podíamos responder assim, mas não era politicamente correcto.

A verdade é que não deixa de ser curioso que uma das grandes dúvidas das mentes cosmopolitas seja se há um cinema lá no interior ou se temos de andar duas horas de carro por entre montes e vales até avistar algum. Podíamos esperar outras inquietações. Há hospitais? Como são as escolas? Os transportes são um tormento, não?

Afinal, o que realmente inquieta as almas é a existência, ou não, de um cinema. Como se não houvesse outro interesse além de tratar da horta, remendar as meias e levar as ovelhas a pastar.

Mas eu tenho de vos contar um segredo. Acham que estão preparados?

Aqui, atrás da serra e longe da agitação da cidade, as pessoas também vão ao cinema. Sem ter de andar duas horas de carro nem apanhar avião. Até vão a festivais de cinema. E de terror. Imaginem que nem se benzem com medo das aparições e actos satânicos. Espantoso, não é?

E até pagam bilhete.





(imagem do átrio na segunda edição da Área de Contenção - Encontros Internacionais de Cinema Fantástico e de Horror do Cartaxo  que decorre este fim-de-semana no Centro Cultural do Cartaxo. Parece que há vida lá pela terra.)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diz-me como te chamas

O Ti Manel do Moinho não é tio de ninguém. É filho único. Que se saiba também não tem moinho. O avô dele é que teve um. Pelo menos é o que ouve contar por aí. Foi há tantos anos que nem se sabe bem onde era o dito. Seja como for, com moinho ou sem ele, não há quem o conheça por outro nome.

O Zé da Taberna é que costuma contar estas historietas. Um copo de três, o pastel de bacalhau que a Maria dele tinha acabado de fazer e mais umas quantas histórias perdidas. Tem a taberna desde que a terra tem gente. Foi nessa altura que a Taberna substitui o Santos como apelido. Nunca lhe falta vinho ou tema de conversa e as poucas mesas de madeira já gasta estão sempre cheias com os homens lá da terra.

- Oh, Maria das Dores, dá aí mais um pastel!

Ela chama-se mesmo Maria das Dores. Confirmado no registo civil. Que se saiba não anda por aí aos gritinhos e queixumes. Mas também se sabe que a irmã dela não é Isabel da Maria das Dores. Tirando o primeiro nome, é tudo herdado da irmã. E tudo culpa da pequena Isabel que tinha a mania de andar agarrada às saias da Maria das Dores para todo o lado.

As duas têm pavor do General. Ou da General, como quiserem. É assim que a menina Ermelinda é conhecida. Senhora professora, metro e meio de altura, régua de madeira como melhor amiga. É conhecida como General, mas nem sonha que é assim que a chamam. Por aqui também há segredos.

Por aqui, quando se ouve chamar alguém, é provável que não seja o nome que aparece no bilhete de identidade.

- Bom dia, Júlio Carteiro. Novidades?

Júlio é carteiro de profissão e Silva de registo, mas são pormenores que quase ninguém conhece. E que pouco ou nada interessam.

Existem tios sem sobrinhos, avós emprestadas, irmãs que dão sobrenomes aos mais novos, profissões que se transformam em apelidos, brincadeiras de miúdos que crescem até à idade adulta. Há um sem fim de histórias em cada um desses nomes. Algumas bem antigas. Outras bem tristes.

Lá pela terra, o nome que se ouve diz mais do que o que consta nos registos oficiais. Diz-me como te chamas e eu posso muito bem dizer-te quem és.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Meio sustento

Já diziam os antigos que uma fogueira era meio sustento. Duas era sustento por inteiro. Ninguém sabe mais destas coisas do que os antigos que sustentavam-se com o pouco que havia e que chegava para todos.

Não vamos contestar quem leva anos de experiência nisto. 



É o conforto da casa quente nas noites que começam a arrefecer. O que noutra vida era quase meio de sobrevivência. Na altura em que as telhas estavam à vista de todos e o frio entrava sem pedir autorização. As paredes largas não chegavam como aconchego e a sala onde todos dormiam não era pequena o suficiente. Não aquecia.

Era a fogueira que dava vida. Feita no meio da sala com os restos do que ardia na rua. Uma família inteira sentada à volta das brasas, a aquecer as mãos enquanto se remendavam as meias e se contavam meia dúzia de histórias. O garrafão do vinho pousado ao lado do banco. Era só mais uma noite, mais um dia. 

Mesmo nas alturas mais quentes acendia-se o fogo. Para cozinhar. A panela em cima das brasas e a sopa a borbulhar até ficar no ponto. A lareira era tão grande que um homem cabia lá dentro sem se curvar.

Era sustento. Mesmo que fosse só meio. Era melhor que nada.



domingo, 1 de novembro de 2015

Onde foste?

Estamos na altura dos Santos. Fui à feira.


As tendas estão montadas e os pregões ensaiados. 

- Mais uma voltinha!

Só mais uma. Mais uma moeda e uma viagem na chávena ou nos carrinhos de choque. Os pais esperam e alguns desesperam enquanto os miúdos sobem e descem das diversões sem mostrar cansaço. A feira está quase a acabar, não há tempo a perder.

As cestas vão enchendo. Um saco de castanhas que são das boas e o São Martinho não tarda está aí. Maçãs, clementinas e mais umas romãs. Agora já parece Outono.

- Escolha-me aí um quilo de nozes. Veja lá se são boas.

Juram que se não forem vão reclamar. Amanhã, quando da feira só sobrarem as caixas vazias e os papeis pelo chão. Até lá há tempo para regatear e escolher o que parece melhor.



É o casaco da moda e a camisola quentinha. As ruas começam a encher e as pessoas vão deitando olho. Nunca se sabe do que é que se precisa e o que é que se quer. É melhor aproveitar enquanto as tendas ainda estão montadas e as nuvens só ameaçam chuva.

Há fumo no ar. Cheira a castanha assada e as farturas estão a sair do óleo. 

- São cinco para levar.

- Oh freguesa, leve sete que paga o mesmo!



 

Voltamos para o ano, se Deus quiser e os santos ajudarem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Betadine e Água Oxigenada

Tinha muitos arranhões e nódoas negras. Demasiados. Se fosse hoje era possível que a competência dos meus pais fosse alvo de dúvida, mas eles não tinham a culpa de ter uma filha arraçada de Tarzan e com constantes ataques de bichos-carpinteiro.

Naquela altura, que eu me lembre, as bicicletas não tinham travões. Pelo menos, eu fingia que não tinham. Só me lembrava deles quando queria fazer uma manobra qualquer. Uma manobra tão espectacular que era provável que acabasse comigo a saltar por cima da bicicleta. Os meus joelhos eram amigos próximos da estrada mal alcatroada. Depois lá ia eu para casa. Bicicleta na mão, lágrima no olho e joelho feito num oito. Estava de volta no dia seguinte. Eu e todos os outros miúdos. Ali ninguém era melhor que ninguém. Fazíamos todos o mesmo. Uns com mais sucesso do que outros.


Tínhamos por hábito subir a árvores e fugir de casa. A última parte é mentira. Tínhamos o hábito de achar que enganávamos alguém quando nos escondíamos num terreno qualquer. Anos mais tarde percebemos que os nossos risos ouviam-se à distância. Nós é que tínhamos tendência para ficar surdos quando nos chamavam para jantar, tomar banho ou dar um beijinho à avó que estava à nossa espera. Muito esperavam as avós naquela altura.

Éramos os donos do nosso mundo. Sempre de cabeça levantada e peito cheio. De joelhos em sangue e cara vermelha de tanto correr. Havia sempre tempo para mais uma corrida. Mesmo quando já era noite escura. Lá íamos nós: rua abaixo e de volta para cima a seguir.

Caíamos todos os dias. Ou quase. Betadine, água oxigenada, penso rápido. Estávamos prontos outra vez.

Ficaram as marcas das quedas e dos curativos. Disfarçadas pelo tempo e cada qual com a sua história. A vez em que só existia o travão da frente ou a outra em que se jurou que o ramo da árvore aguentava.

Acreditávamos que íamos conquistar o mundo. Cabeça cheia de sonhos e sorriso colado na cara. Mesmo quando a água oxigenada ardia nas feridas.




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Onde é que vais?

Está quase aí. Mais um dia e estão todos a caminho. Já está tudo pronto à porta de casa. E lá vão rezando para que o tempo dê tréguas. Se não der é preciso ter força para enfrentar o pior dos temporais.

A cesta vai à cabeça. Uma daquelas grandes para trazer o avio todo que se quer. O peso não é problema que o equilíbrio está treinado e a sogra* aguenta.

Em dias de festa é escolher o lenço bonito. Aquele florido que está guardado com o maior dos cuidados.

Quando chegar o dia, é vê-los a sair de manhã cedo. Ainda o sol mal nasceu e já se ouvem os passos na estrada. Vão em grupos, cantarolando a última modinha. Fazem o caminho a pé. Sem medo ou desistências que a festa não chega todos os dias e é preciso aproveitar.

No saco ainda vai um chouriço e um bocado de pão para aconchegar o estômago a meio caminho. O canivete está sempre pronto.


Vamos à feira. Que os santos estejam todos por nós.



* a sogra ou rodilha era feita de tecido e era usada em cima da cabeça para apoiar a cesta que as mulheres levavam à cabeça. Assim era mais fácil suportar o peso.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Já se ouvem

Ainda estão longe. Não se conseguem ver, mas já se ouvem. Mais cinco minutos, se tanto, e já cá estão.

A rua começa a ganhar vida. As portas abrem-se e as pessoas juntam-se cá fora. Ficam encostadas às paredes ou sentadas nos degraus de casa. Trocam-se dois dedos de conversa com o vizinho do lado. Um "Olá, como está?" para o outro que vai a descer a rua.

Já se conseguem ver. Lá em cima. O som grave e autoritário marca o ritmo da descida.

Não há quem fique em casa e agora não há quem trabalhe. É hora tão sagrada como a missa. As paredes estremecem quando eles se aproximam e as pessoas esperam. Nem que seja só para os ver passar. Ficam tão bonitos quanto estão a desfilar.


Filas alinhadas ao milímetro e o passo certo. Lá pelo meio alguém se perde e tenta, com esforço, voltar a acertar. Esquerdo, direito. Esquerdo, direito. Os instrumentos brilham com o sol. As fardas estão impecavelmente arranjadas e os sapatos foram engraxados até à exaustão. Há lá maior orgulho que este.

Aí vão eles rua abaixo.

Ouvem-se as palmas a acompanhar o ritmo do bombo. As portas fecham-se e deixa-se a chave na fechadura. Aqui ninguém rouba ninguém e, bem vistas as coisas, também não há nada para roubar.

As pessoas, que tanto esperaram para os ver passar, acompanham-os. Lá vão eles de braço dado atrás da banda. Uma gargalhada perdida por aqui e por ali e um chamar lá ao fundo.

- Oh, Maria! Anda aqui com a gente!

Descem a rua. Sem que a música pare ou alguém se canse. Junta-se mais um e outro ainda. Há sempre espaço para mais alguém. 

Lá pelo meio, alguém ganha coragem e grita em tom de provocação:

- Toca a muca ou não toca a muca?

E ri-se toda uma terra enquanto responde em coro.

- Toca a muca! Sim, senhor!



sábado, 24 de outubro de 2015

Se eles soubessem

A minha avó morava lá em cima. Ao fundo de uma estrada serpenteada, numa zona com pouco mais de meia dúzia de casas e onde toda gente se conhecia. Entre primos e vizinhos a diferença não era muita.

De vez em quando a minha avó descia a estrada e ia-me buscar à escola. O caminho de volta, entre conversas e brincadeiras, tinha paragem prometida na loja lá do sítio. Paragem obrigatória de toda uma aldeia. Todas as terras tinham um sítio assim. Com um senhor Manel ou uma D. Maria do outro lado do balcão e um sem fim de histórias que vão passando de geração em geração. Lá pela terra, as histórias guardam-se como relíquias.

Esta loja, tal como todas as outras que por aí se encontravam, não era mais do que um espaço amplo com um balcão de pedra dos antigos. Também pode ser só a minha imaginação e alma saudosista que compõe tudo assim. 

À volta do balcão iam aparecendo sacas, sacos e prateleiras com tudo aquilo que podíamos precisar e mais umas quantas coisas que nos iam piscando o olho. O cheiro do bacalhau seco misturava-se com o da ração dos animais, os fertilizantes para as hortas estavam a dois passos dos doces que eu tanto cobiçava. Tudo junto, sem regras ou supervisão e, que se saiba, sem que ninguém se sentisse mal com tal organização.


Em cima do balcão acumulavam-se folhas de papel pardo onde as contas dos avios eram rabiscadas. Somas feitas a lápis de carvão e com direito a noves fora. Eram as mesmas folhas que usavam para fazer os cartuchos onde guardavam os meus beijinhos.

Quando deixávamos a loja, lá ia eu com o meu cartucho de papel pardo na mão. Os beijinhos iam desaparecendo, um por um, ao longo da estrada serpenteada até à casa da minha avó. Primeiro a parte colorida, cheia de açúcar, e a seguir a desinteressante bolacha.

Os beijinhos sabiam-me a mimos e conforto.

Soubessem eles que um dia já não íamos encontrar cartuchos assim. Que um dia as lojas dos senhores Manéis e das D. Marias não iam ser mais do que recordações ou, na melhor das hipóteses, reinvenções vintage do encanto que um dia tiveram.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O despertador toca cedo

Demasiado cedo. Quando ainda está escuro lá fora e a vontade de acordar é nula.
Quando saio à porta, está o dia a nascer. As ruas ainda escuras e só temos direito a uma luz muito ténue a iluminar.

Lá pela terra, o despertador toca demasiado cedo, cedo o suficiente para ter o prazer de ver o dia nascer.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Lá pela Terra

Viver na cidade é outro luxo. É ter o privilégio de descer avenidas históricas no meio do engarrafamento das seis da tarde e ter as buzinas dos que estão parados no semáforo da esquina como despertador pessoal. É ter o cinema mesmo ao lado de casa, mesmo que não se saiba quais os filmes que estão em exibição e que se acredite que o bilhete ainda custa uns quatro euros. Os teatros e concertos estão ao virar da esquina: dois passos, quatro paragens de metro, mais dez passos e estamos lá. Só é difícil lembrar a última vez que se passou lá perto.

Viver "lá na terra" é ideia  que não se compreende. Mesmo que a terra seja a meia hora da cidade é o equivalente a viver atrás do sol-posto num dia de Verão e, no caminho, entrar numa qualquer máquina do tempo e recuar até séculos medievais. Há quem diga que "lá na terra" ainda andam de carroças e que, de vez em quando, se grita "água vai" como se fosse um jogo infantil. Coisas da vida.

"Lá na terra" faz lembrar ruas desertas envoltas numa neblina, casas fechadas e, muito de vez em quanto, um chilrear de um pássaro qualquer. Um autêntico faroeste à espera do duelo do meio-dia, mas sem os fardos de palha espalhados pelas ruas.

A terra é lá longe. Lá onde os pais vivem e de onde, na maioria dos casos, as pessoas cosmopolitas saíram há meia dúzia de anos, mas que agora só visitam umas duas vezes por ano. Nas férias grandes para deixar os miúdos, no Natal para celebrar a festa da família. Abençoados sejam. Toda gente sabe que basta um ano na imensidão da cidade para nos tornar a todos pessoas apreciadoras de sushi e de um bom gin. Tão bom quanto maior for o copo e a conta no final da noite.

Sair da cidade e voltar "lá para a terra" é coisa de doidos, de gente que está à beira de um esgotamento nervoso e precisa do descanso das termas e do ar puro e gelado das serras. Sair da cidade, voltar "lá para a terra"e continuar a trabalhar na cidade é mesmo de quem está em estado terminal de loucura e já vive com um colete-de-forças vestido.

Sejamos sinceros, ninguém deixa a cidade de livre vontade para ir "lá para a terra". Pelo que ouvi dizer "lá na terra" nem há um cinema.

Aliás, há vida "lá na terra"?



O que anda por aqui?

O blogue apareceu porque escrevi um texto chamado "Lá pela terra" e perguntaram-me "Porque é que não começas um blogue?". E aqui estou eu. 

Vivo na aldeia desde sempre e escrevo sobre isso. Gosto das ruas que já conheço de cor, das caras que são familiares e das histórias que são passadas de boca em boca. Principalmente das histórias. Falam de uma vida diferente daquela que conheço. Mais difícil, mas não sei dizer se era pior ou melhor. 

Escrevo textos sobre vidas antigas, histórias que são tão diferentes daquilo que nós conhecemos que às vezes até achamos estranhas. Parece-nos impossível que a vida já tenha sido assim. Mas foi. E eu acho que não deve ser esquecida. 

Depois há o lado de quem continua a viver na aldeia. Longe das avenidas movimentas e dos prédios altos da grande cidade. No "Lá pelo Instagram" vão aparecendo textos que falam do que vejo lá pela terra nos dias de hoje.

O que anda por aqui é um certo gosto por esta vida lá pela terra. Mesmo quando as estradas têm buracos ou quando a viagem até à capital custa um bocadinho. Esta vida tem o seu encanto. Os seus pontos altos e outros mais chatos e é isso que vai aparecendo por aqui.