quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O trato da roupa

- Quando chegar quero tudo feito. 

E saía. Sem beijo ou desejo de bom dia, fazia-se ao caminho com o olhar da filha a acompanhá-la da porta de casa. Via a mãe mingar, de cesta à cabeça, até desaparecer para lá do que os seus olhos alcançavam. Só aí voltava a casa. Esperava-a o trabalho que as paredes acumulavam e que nunca estava feito. Ela, feita mulher quando nem tinha idade de escola, fez-se ao que era sua obrigação, sem se ouvir queixume. 

Subiu para o tijolo que lhe dava o que faltava em altura, e mergulhou as mãos na água do tanque que guardava em si o frio da noite e esfregou a roupa. Os nós dos dedos a doer, a carne a ficar vermelha e ela sem dar tréguas ao sabão. As mãos a esfregar uma na outra a roupa que cheirava a trabalho e que mergulhavam na água dando-lhe umas quantas voltas até que o sabão desaparecia. 

Com a ajuda de um galho escolhido de propósito para o efeito, levantava o arame pesado da roupa encharcada em água antes de voltar para dentro. Sem parar para respirar. Sem dar descanso aos braços ou às pernas. Ou os corpos novos aguentavam muito ou a cabeça esquecia a dor.

Dentro da cozinha, o fogão confortava aquilo que a escassa roupa negava. Em cima da mesa de madeira onde almoçavam e agora transformava em tábua, esticou o lençol de sempre. Encheu o ferro com brasas acesas e fechou-o à espera que ganhasse calor. Esticou a roupa bem esticadinha, com a mão a percorrer o tecido de ponta a ponta sem deixar passar um vinco que fosse e ferro quente lá em cima para dar o calor. O peso era tal que os seus fracos ossos davam sinais de fraqueza, mas não havia nada que vergasse. Para um lado e para o outro, mais força de braços que calor de brasas e quando já estava o trabalho quase terminado, lá se escapava uma cinza. Coisa pouca, mas o suficiente para não haver sacudidela ou sopro que a safasse. A camisa lavava, quase passada, e um borrão logo ali à vista. 

- Antes assim que fagulha. 

Dizia para si que ali ninguém a ouvia, enquanto encolhia os ombros e voltava ao tanque. O ferro ainda quente, o corpo tão habituado a estar dormente que nem sabia que é assim que está e o trabalho a fazer-se. Até que chegue a noite. Foram as ordens que deixaram.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mãos em barro

Quando as mãos se faziam ao barro não havia hesitação. Os movimentos eram certos num balanço intuitivo entre a força e a leveza, a peça na cabeça e os dedos a saberem exactamente qual a espessura que pedia. De boca perdida na conversa, a reviver a vida que não era o que tinha esperado e as mãos a trabalharem como só elas sabiam. Eram anos daquilo. 

Começara novo. Mais novo do que seria bom de dizer, mas naquela altura ninguém se espantava com os bancos da escola vazios e os miúdos a aprender ofícios. 

- Faz-lhes bem.

Tanto bem lhes fazia que ele já tinha perdido conta às horas que passara ali, naquela roda, com as mãos revestidas a restos de barro húmido e o joelho a controlar o trabalho. 

Mas quando era miúdo aquele lugar era privilégio que raramente lhe estava destinado. Só quando ficava parado a contar as telhas da olaria é que tinha direito a dar balanço à roda e a sentir a peça a tomar forma. Ele sentava-se e os mais velhos murmuravam 

 - Vai estragar o barro todo. 

Foi assim que começou, a centrar barro e a fazer testos. Uns atrás dos outros até conseguir que fossem todos iguais. Anos naquilo. A perceber o que era o equilíbrio entre a leveza e a força, a firmeza do polegar, os dedos em tesoura. Um toque fora de sítio e aquilo a abalar tudo por ali abaixo sem nada que o salvasse da falta de saber. Tudo sozinho, sem ninguém que o orientasse. A fazer o que via nas mãos dos outros, a aprender quando as peças não eram nada. 

- Se queres aprender, vê.

Mas a roda era caso raro. No resto do tempo fazia o que havia. Entrava campo dentro e voltava com a lenha que era preciso para dar alento ao forno que recebia as peças. As mãos arranhadas das silvas e o suor a escorrer pela cara, mas o lume a manter o vigor. Ou ia à procura do barro que se escondia na terra gretada. Logo ali, por baixo da cabeçada escondia-se o barro podre de campo. E ele, com a sabedoria que outros lhe tinham passado, lavava-o. A tina cheia de água, o barro coado, a água que evaporava. O saber esperar, o conhecer as alturas. O tempo que aquilo levava até ficar barro húmido de um lado e as pedras e tudo o resto do outro. 

Este saber que lhe levou anos de paciência que não há ofício que se aprenda sem demora. Não. Leva tempo. Leva erros. Leva querer. E hoje, ninguém o olha na ânsia de ocupar o seu lugar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As lágrimas que alimentam

A cama onde ele tinha morrido já tinha sido feita de lavado com o que havia por casa. O morto ali estava. Deitado, imóvel, de olhos fechados e pronto para se fazer à última morada. Foi-se sob o olhar da mulher e das filhas que, tal como quando se chega ao mundo, ninguém o deve abandonar sozinho. Velaram-lhe as últimas horas e trataram dele quando o frio começava a subir pelo corpo. A notícia não tardou a passar de boca em boca. Preparou-se o talhão que lhe estava destinado e avisou-se o padre para que lhe desse a última benção. Até lá, velavam o corpo que já não era quem tinha sido. 

Ela chegou vestida de preto. Saia pesada e xaile a cobrir-lhe a cabeça. Deixou-se ficar ao lado do morto, no sítio que lhe competia por profissão, com os olhos meio fechados a encarar o chão e a cabeça apoiada na mão que guardava o lenço de luto. Murmurava lamentos finos envolvidos num choro miúdo. Remoía as palavras da sua ladainha numa dor que era tão bem fingida que, quem não a conhecesse, tomava por sua. 

"Iremos os dois no seu caixão. Eu já sofri tantas penas no mundo", um dizer repetido tantas vezes que se tornara uma melodia de defuntos. Mordia o lenço que trazia na mão. Limpava com ele as lágrimas, a boca e assoava a tristeza que murmurava. Passava os dedos marcados pela cor do campo, pela cara e fungava entre cada refrão que entoava. Chorava a morte como quem trabalha o campo ou prega um botão numa camisa. 

Quando a paga o permitia, ouvia-se um grito. A cabeça que ia para trás numa súplica que trespassava o corpo dos que assistiam e as pernas que ameaçavam perder a força. A reza a nosso Senhor que se perdia no meio do lamento. 

Assim ficava até que o corpo encontrava o descanso na humidade da terra. Era aí que ela voltava-lhe costas e fazia-se ao seu caminho com o saco de trigo que lhe era devido e a limpar as lágrimas de carpideira. Que viesse o próximo que este fim é a única coisa que se tem por certo nesta vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O frio que o corpo aguenta

O cobertor que a cobria durante a noite, não tinha peso para afastar o frio que chegava no Inverno. Quando era hora de acordar, o corpo levantava-se dormente. Por aquela altura, o dia podia amanhecer de céu limpo, mas a verdade é que o sol nem pelo meio-dia prometia calor. Era assim Janeiro, mês em que o que faltava em dinheiro sobrava em gelo. 

Era esse frio que agora lhe entrava pelo corpo e cercava os ossos prendendo-lhe os movimentos. Uma dor fina a que já se habituara a ter como companhia nos dias frios, alastrava-se pelo interior do seu corpo começando quando os pés tocavam no chão e abrindo caminho pelo corpo de miúda até à nuca voltando a descer num arrepio discreto. A roupa não ajudava a acalmar o frio. Saia e meia até ao joelho que as regras da casa ditavam que calças era para os homens e as contas não deixavam folga para collants. Casaco de malha abotoado até cima como abafo. Nada mais. Tão eficaz como o cobertor, mas o corpo habitua-se. O que seria dele se assim não fosse. 

Fazia o caminho com os sapatos de solas pouco mais que meias, mãos roxas e nariz vermelho. O frio caía sem que fosse visto, mas sentia-se o vento a cortar as faces e a queimar por dentro a cada inspiração. O caminho tornava-se longo, os passos custavam, a nuvem branca que lhe saía pela boca embaciava o caminho. Uma provação que era esquecida quando, ao fundo da estrada, a curva abria para o campo que no dia anterior era verde. 

Uma camada fina de gelo cobria tudo o que conseguia ver. Era o mais próximo que estava de ver neve tal e qual como a imaginava: um campo branco a prolongar-se até onde a vista deixava e que lhe aquecia o corpo que só conhecia gelado.

Deixava-se ficar pelo tempo que podia. O corpo a gelar e ela sem o sentir, o calor da imagem da neve a dar-lhe alento. Diziam que Deus dava o frio conforme o corpo aguentava. Ela acreditava que Ele dava-lhe o vislumbre da neve naquele campo de gelo para a compensar do gelo que vivia no seu corpo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A sentença que é a memória

Abriu a porta e deixou-a encostada atrás de si enquanto se sentava no degrau. Com as maos enrugadas e atacadas pelas artroses, puxou a bata até aos joelhos e deixou-se ficar a olhar a rua. A mesma rua onde tinha vivido a maior parte da sua vida. E no que lhe parecia ter sido muito tempo, mas sabia que não o era, viu o quanto tinha mudado. 

Naquele dia em que descansava sozinha no degrau de sempre, soube que algures no caminho a vida tinha-a encontrado e deixado para trás. A vida dos outros. 

Olhou a rua que conhecia de cor, mais buraco menos buraco, e viu-a tal como estava agora. Vazia. Despida. Ladeada de portas fechadas à chave e janelas tapadas por estores corridos. Não que estivessem abandonadas, mas era a vida de agora que as trancava vazias durante o dia e as deixava fechadas à noite quando os vizinhos chegavam. 

Ali sentada, com o frio a chegar-lhe à espinha e a voz a morrer em desespero na garganta, sabia qie lhe faltava as vizinhas. Não as que tinha agora, mas as que ali estavam antes. Que se encostavam às paredes de mãos nos bolsos nas batas e pé a coçar a perna, que se sentavam nos degraus e nos bancos que traziam de casa e ali ficavam. Todas. A costurar, a conversar, a deitar olho aos miúdos, os seus miúdos, que insistiam em correr e saltar de onde não deviam sem saber onde iam cair, mas com a certeza de que o iam fazer. 

E era dessa altura, em que o corpo não lhe doía nem rangia ao mínimo movimento, que lhe vinham as lembranças. Dessa altura em que todas as casas tinham fossas, mas que as ruas estavam cheias. Dos homens que seguiam caminho na bicicleta. Que se apoiavam no pedal direito para ajudar o corpo a içar-se para cima do celim. Das mulheres que vinham descalças e de cesta à cabeça. Que serviam os outros e os seus, todos os dias. Das portas que se fechavam ao trinco ou nem isso. Que tinham um arame a garantir que a porta entre a intimidadr e o mundo se mantinha fechada. 

Nesses tempos que parecem tão longe, mas que nem foram há uma vida, era o som que vinha da rua que lhe marca as lembranças. As vozes, os pés, o arrastar e o puxar, a água que chocalhava nos canecos, os rolamentos dos carrinhos que terminavam nos gritos que denunciavam a falta de travões, os pregões de quem vendia o que conseguia. 

Mas isso era nos tempos de que ela se lembrava. Hoje, só tem o silêncio. Tão presente que parece gritar-lhe por estar fora do seu tempo. Mas só ela é que o ouve. Só ela, que sabe como já foi, que se recorda daquilo que já esqueceu a muitos, é que sabe que aquilo que aquela rua tem é silêncio. Talvez ela esteja enganada e que aquelas casas não estejam abandonadas, mas está a rua. Despida daquilo que foi seu, da vida que se fazia ali. Ficou o silêncio, a vida fez-se a outros rumos.